Apocalipse
30 O Último Adeus
Notas iniciais
Outro monótono dia de inverno se repetia. Já era o terceiro dia que a ruiva estava em "casa" se recuperando. A inquietação era grande, e a falta do que fazer também. Nick e a collie saíram para caçar, e a garota teve de ficar.
Já havia relido todos os livros que trazia consigo em sua mochila e até usado algumas páginas do diário para fazer bichinhos de origami — e no fim do dia os jogava na brasa da lareira, apenas por diversão. Aproveitou o momento que estava sozinha e trocou as roupas rasgadas e manchadas de sangue por outras mais quentes que trazia em sua mochila, e até estava usando o moletom de Josh, este que ainda tinha o seu perfume. Claro que o moletom era grande demais para ela, chegando a cobrir suas mãos sem a menor dificuldade, e alcançando parte das coxas, mas ela gostava dele mesmo assim.
Calçou suas botas e jogou a mochila sobre os ombros, saindo da casa em seguida. Era estranho sair por aí sem Aika. Pela terceira vez em toda sua vida sentiu a sensação de solidão, mas sem dar importância seguiu caminho para a casa alaranjada, com passos lentos, apenas ouvindo o monótono som de seus pés afundando na neve.
Adentrou e subiu para o quarto de tortura de David. As marcas de sangue ainda eram visíveis no chão, que ela fitou com indiferença e passou os olhos sobre a mesa de canto, talvez procurando as armas que ficavam expostas ali, mas tinha apenas um bilhete. Leu-o rapidamente e anotou a tradução no verso, para que Nick pudesse ler por si mesmo mais tarde.
Depois de um tempo explorando cada canto da casa, voltou para a rua e tomou caminho de volta para a casa de Steven. Talvez estive um pouco frustada por não ter encontrado nada de interessante.
Jogou-se no sofá e suspirou. Ficou um tempo encarando o teto até ouvir a porta bater. Nick voltara com a collie. Ele parou na ponta do sofá em que ela estava deitada e ficou encarando-a. A ruiva tirou o papel do bolso e estendeu-o em sua direção, o rapaz pegou o papel e empalideceu ao terminar de ler, sentou-se no outro sofá e passou a mão na cabeça.
— É perto de onde eu morava... — ele comentou.
— Então vamos ter que ir pra lá. — ela sentou e ficou encarando-o.
Ele assentiu e continuou em silêncio. A garota sentou ao seu lado e empurrou seu ombro de leve.
— Olha pelo lado positivo: pelo menos você já conhece o lugar, não vamos ficar perdidos. — disse a ruiva, fazendo o rapaz dar uma leve risada. — Vamos comer e dormir, aí a gente sai amanhã cedo.
*** *** ***
— Mas já voltou? — disse a ruiva, um pouco frustada.
Esperava ver um dos alegres sorrisos de Lilian, mas ao invés disso obteve um olhar triste. A morena sentou-se ao lado da irmã, na neve, abraçou os joelhos e escondeu a cabeça entre eles. Lizzie a fitou por alguns instantes e depois tirou a neve de seu cabelo cacheado, posteriormente colocando a toca de tigre branco que usava na cabeça da irmã.
— Qual é o problema? — a ruiva voltou a indagar.
— Eles estão brigando de novo... — respondeu a outra, com a voz embargada. Lizzie já tinha uma de suas frases na ponta da língua, a famosa "novidade" em tom de tédio, acompanhada de revirar os olhos, quando Lilian voltou a falar. — Eu ouvi a mamãe dizendo que vai embora e levar uma de nós junto.
A ruiva engoliu em seco e permaneceu em silêncio, talvez escolhendo as palavras seguintes, ou talvez não quisesse dizer nada, pois odiava alimentar falsas esperanças. Lilian levantou a cabeça, suas lágrimas escorriam pelo rosto e pingavam na neve.
— Eu não quero ir embora! — Lilian voltou a falar. — E não quero que você vá, ou o papai vá!
Lizzie a abraçou, era tudo que poderia fazer, engoliu em seco e disse:
— Eles brigam todos os dias, é algo passageiro, você vai ver. Nenhum de nós vai embora.
Vendo que a irmã não parava de chorar, levantou e puxou-a, guiando-a ara dentro de casa. Como dito por Lilian, os dois adultos discutiam em tom alto, muitas vezes soltando palavrões e gesticulando com as mãos. Soltou a irmã e se aproximou do balcão da cozinha, onde tinha alguns copos que seriam guardados futuramente. Os dois a sua frente mal tinham percebido a sua presença, e ela odiava ser ignorada. Pegou um dos copos e arremessou com toda a sua força no chão, chamando a atenção dos pais, que imediatamente se calaram e voltaram o olhar na direção do som.
— Opa, caiu! — disse a ruiva em tom de raiva e com uma expressão séria.
Katellyn, sua mãe, já ia começar um monólogo com a ruiva menor, e depois por a mesma de castigo, quando Lizzie voltou a falar:
— Olha só o que vocês fizeram! A Lilian está chorando por causa de vocês! — ela disse em tom desafiador, fitando a ruiva maior na sua frente.
Os olhares voltaram para a outra menina, e a mãe correu ao encontro da morena. Oliver se aproximou da ruiva menor e acariciou seus cabelos, seus olhos cansados passavam tristeza.
— Obrigado... — ele disse e depois beijou sua testa.
*** *** *** ***
— Ei, acorda. — Lizzie chamava o rapaz, que ainda estava encolido na cama, cobrindo parte da cabeça com o pesado edredom. — Acorda, Nick.
O rapaz abriu os olhos e a fitou, ainda tentando entender o que estava acontecendo, emitiu um "Hum?" quase inaudível e a garota voltou a falar:
— Vamos logo, quanto mais cedo saírmos, mais cedo pegamos o David.
Nick balançou a cabeça positivamente devagar e suspirou demoradamente. Quando finalmente conseguiu levantar, notou que a garota já não estava mais no quarto. Calçou os tênis e pegou a mochila, que estava jogada em um canto, e logo desceu.
A jovem já estava terminando de arrumar suas coisas quando o rapaz jogou a mochila em um dos sofás e começou a recolher as coisas que iria levar. Logo ambos já estavam prontos e prepararam os cavalos pra partir.
Outra vez fizeram o caminho conhecido que levava à Nova Washington, em silêncio. A camada de neve estava relativamente alta, e por sorte não estava nevando. O céu continuava nublado e o vento frio soprava.
— O que você fez com a Ellie? — Nick quebrou o silêncio, voltando o olhar para a ruiva, que até então fitava o horizonte.
— Hum? — a ruiva o olhou enquanto assimilava a pergunta. — Ah, eu tinha até esquecido... Eu pedi pro Vincent cuidar dela enquanto eu estivesse fora.
— Ahh... por isso eu não a encontrei. — Nick ponderou um pouco e depois sorriu.
Continuaram seguindo em silêncio, até ver o muro alto de Nova Washington. Lizzie olhou para Nick e tomou fôlego:
— Quer se despedir do seu tio?
— Seria legal... — ele respondeu.
Antes que pudessem pedir para que abrissem o portão, o mesmo começou a se mover, até abrir o suficiente para que ambos passassem. Thomas estava parado na frente do mesmo, um de seus braços foi cortado até o cotovelo.
— Acho que vocês dois já não morrem mais... — disse ele com um sorriso.
— É... Acho que sim... — Nick desceu do cavalo e se aproximou. — O que aconteceu com você?
— Eu fui mordido... Aí cortaram o meu braço...
— Sinto muito... — continuou Nick. — E o meu tio?
Thomas ficou sério por algum tempo e suspirou.
— Morto. — ele disse de uma vez. — A Casa Branca foi incendiada...
Nick ficou sério e depois engoliu em seco, voltou o olhar para Lizzie.
— O quê? Eu queria matar você, e não o seu tio. — ela desceu do cavalo e se aproximou. — A última pessoa que eu vi sair da mansão foi a vaca da minha tia.
— Então ela deve ter posto fogo... — o rapaz coçou o queixo e se lembrou que David havia comentado sobre um "serviço" que Olívia tinha que fazer. — E a Olívia?
Thomas já ia responder, quando Lizzie abriu um sorriso de canto e se pronunciou:
— Morta.
— Morta? — Nick repetiu.
— Sim, morta, eu explodi ela. — e riu depois disso. — Você acha que eu voltei toda fodida por quê? Eu fiz o carro que ela tava capotar e depois joguei uma granada dentro.
— Olha, vindo de você eu já não espero mais nada... — Nick comentou com um sorriso.
Os dois riram. O portão atrás deles foi fechado outra vez, e Thomas começou a guiá-los cidade adentro. Deixaram os cavalos em um estábulo que tinha ali, e um garoto rapidamente chegou para tratar deles. A cidade estava bem destruída, ainda tinha alguns corpos pelo chão, tanto de infectados, quanto de pessoas não transformadas; várias casas e estabelecimentos estavam queimados e havia cinzas misturadas na neve.
— Você sabe do Vincent? — a ruiva indagou.
— Eu vi ele saindo da cidade quando o caos começou. — Thomas respondeu. — Bastante gente saiu da cidade também... É difícil ter certeza de que todas conseguiram sobreviver lá fora, mas eu acho que sim...
— Pretendem reconstruir a cidade? — Nick indagou dessa vez.
— Assim que o inverno passar. Você vão ficar?
— Não, nós ainda temos uma missão pra fazer... — a ruiva respondeu.
— Mas saibam que sempre serão bem-vindos à cidade. — Thomas rebateu, com um sorriso. — Creio que só vieram pegar suas coisas e já vão partir, certo?
Os dois assentiram. Trocaram mais algumas palavras até cada um ir para um lado. Lizzie tomou rumo para sua casa, enquanto Nick foi checar outra coisa. Adentrou e foi direto para o quarto pegar as coisas que poderiam ser úteis, além da munição reserva que tinha guardado. Voltou para a sala e deixou a mochila perto da porta, indo para o quarto de Josh em seguida. Ainda ficou um tempo parada na porta, até finalmente entrar e pegar uma foto que os dois tinham tirado juntos com a câmera instantânea da ruiva.
Percebendo que Nick estava parado na porta, virou-se para ele e ficou encarando-o.
— Desculpa... — disse ele.
— Pelo quê? — ela rebateu.
— Por eu... — ele coçou a nuca e suspirou. — ...Ter matado o Josh... Ainda não sei se foi por ciúmes ou se foi pra ele não sofrer... Eu vi vocês dois naquele dia...
Lizzie guardou a foto no bolso e se aproximou, parando em sua frente. Ela levou a mão até a cabeça do rapaz e puxou um mecha de seu cabelo, com força.
— Idiota. — ela disse e puxou a mecha outra vez. — Mas de qualquer jeito, se você tivesse mirado na corda, outra pessoa teria matado ele... Então eu acho que foi melhor assim... Foi uma morte rápida.
Ele a fitou com o semblante triste e suspirou. A ruiva sorriu e se afastou.
— Agora eu posso roubar as jaquetas dele... — ela comentou, sorrindo.
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