Apocalipse
24 Não Entre No Jogo
Notas iniciais
– Diga-me, menina ruiva... — Josh parou de tocar o violão assim que percebeu que Ellie havia dormido. — Why so serious?
Já estava de noite, o frio mais uma vez sussurrava palavras indescritível na janela, a neblina lá fora estava densa e só era possível ver as lamparinas nas ruas, os únicos pontos luminosos daquele breu. O dia se passou tranquilo e, por mais que Lizzie soubesse esconder bem sua aflição, Josh ainda pôde perceber. Por vezes ele a encontrou encarando o nada, sentada no canto da sala abraçando seus joelhos.
Josh estava largado em um dos sofás, tomando todo o espaço, enquanto Ellie dormia no colo de Lizzie, no sofá do outro lado da sala.
– Séria porque não há motivos para sorrir. — ela respondeu, sem levantar o olhar.
– Sempre há motivos para sorrir... — Josh comentou.
– Tipo...? — a ruiva o olhou com indiferença.
– Hummm... Dexa eu ver... — ele jogou a cabeça para cima e fez uma careta, depois olhou-a outra vez e sorriu. — Tipo aquela vez que eu levei um fora em público...
Lizzie esboçou um leve sorriso. Josh não tinha mudado nada nestes 4 anos, a não ser pela aparência. Agora sua voz estava mais grossa, seu cabelo estava maior e tinha uma barba rala, pois tinha preguiça de fazê-la, ainda mantinha um de seus piercings de argola no canto da boca e não usava mais alargadores. Fora isso, ainda era bem-humorado e otimista.
– Viu só? — ele riu e voltou a tocar o violão.
A garota ficou ponderando algum tempo e depois voltou a olhá-lo:
– Josh, qual sua idade? — ela indagou, na tentativa de esquecer seus traumas, mesmo que por algum tempo.
– Hum? — ele parou de tocar e olhou para ela, um pouco confuso. — Por que a pergunta?
– Sei lá, tô tentando puxar assunto, e acho que nunca te perguntei isso...
– Ok, dexa eu lembrar... — ele voltou a olhar para o teto e depois de alguns instantes voltou o olhar para Lizzie. — Eu fiz 23 há algum tempo atrás... Tipo, um ou dois meses...
– Tu tem uma cara de velho ranzinza... — ela ironizou, com seu costumeiro sorriso sarcástico, este que há muito tempo não usava.
Josh riu da piada infame e depois tomou fôlego:
– E você moça?
– Eu ainda não fiz 18...
– Ta explicado a sua cara de novinha... — os dois riram. — Mas eu tô falando sério... Não parece que você tem 17.
– Oush... — ela arqueou uma sobrancelha e sorriu com sarcasmo outra vez. — Então você está dizendo que eu tenho cara de criança?
– Talvez... — ele arqueou as duas sombrancelhas, para enfatizar seu drama. — Ta mais pra bonequinha de porcelana...
– Bonequinha assassina né? Então eu sou o Chuck! (:3)
Os dois riram da piada infame.
*** *** *** *** ***
O sol mal acabava nascer e Nick já estava perambulando pela cidade, mais precisamente na parte Sul dela, onde não tinha muito movimento. O céu estava nublado e soprava um vento forte, levando o resto da neblina embora. A cada dia que se passava o tempo ficava cada vez mais frio, o inverno chegaria mais cedo naquele ano.
Ainda tentando descobrir mais sobre o paradeiro de David, o rapaz foi para o antigo estádio de baseball, tinha boas lembranças de lá, além de conhecer todas as entradas e saídas como a palma de sua mão. Por algum motivo ele sentiu que deveria ir até lá.
Subiu em algumas caixas de madeira que tinham em um canto e saltou até alcançar uma pequena abertura no alto da parede, apoiando-se com seus braços, apenas.
– Nick! — a voz de alguém ecoou atrás do rapaz, fazendo-o perder o foco e cair, batendo as costas violentamente no chão.
– Aiii... — Nick gemeu, ainda apertando os olhos e se virando lentamente, como se a dor se amenizá-se.
O rapaz abriu os olhos e se surpreendeu ao vez o rosto de Josh. O homem estendeu a mão e o ajudou a levantar.
– Caralho, você me assustou... — disse o rapaz.
– Desculpa... — Josh disse seriamente. — O que está fazendo?
– Tô tentando ver o que tem aí dentro.
– Parece um pouco complicado... Quer ajuda?
– Não sei se é uma boa ideia, Josh... Se formos pegos você será punido também...
– Não tem problema...
Nick ponderou por um tempo. Realmente seria mais fácil invadir o antigo estádio com a ajuda de Josh, mas ele sabia dos riscos de David descobrí-lo, ou de Josh descobrir sobre David.
– Tudo bem...- o rapaz respondeu.
– Vamos fazer assim: você sobe nos meus ombros e entra pelo buraco, aí você procura uma entrada pra mim.
Nick assentiu positivamente. Josh subiu nas caixas e ficou agachado até que o rapaz conseguisse se equilibrar em seus ombros, e depois levantou. O jovem passou com facilidade pela entrada.
Ainda sentado no muro quebrado, Nick observou que havia um pouco de sangue seco nas paredes, talvez de muito tempo atrás. Ele saltou para dentro e aterrissou de pé, de modo que seus tênis não fizessem muito barulho. O corredor largo estava bem escuro, iluminado apenas por pequenos feixes de luz que passavam por entre as madeiras que tapavam as janelas do alto. Tudo que se ouvia era os cacos se vidro das lâmpadas se estilhaçando ainda mais sob seus pés, por mais lento que estivesse andando.
Chegou à uma das portas de saída de emergência e notou que uma tábua estava entre as duas, impedindo que fosse aberta pelo lado de fora. Ele voltou e avisou Josh sobre a porta e depois tirou a tábua, com muito esforço. A porta, além de ser pesada, estava emperrada, foi preciso a força dos dois para que conseguissem abrir pelo menos um pouco para Josh passar. Depois de muito esforço, a porta emitiu um rangido estridente e meveu-se um pouco para a frente, mas com espaço suficiente para o homem se espremer por entre as ferragens e entrar.
Os dois seguiram pelo corredor, Nick foi na frente, guiando-o, até chegarem às escadas que levavam aos chuveiros dos jogadores. Sem outra opção, eles desceram pé ante pé.
O subsolo tinha o som de eco e a cada cinco segundos era possível ouvir algo pingar, como se alguém estivesse usando à pouco aquele local. A dupla continuou andando silenciosamente, quando foram surpreendidos por um ganido alto de cachorro, e não estava distante. Os dois se entreolharam e seguiram na direção do som.
– Calma, calma... Fica quietinho, não precisa ter medo, eu não vou te machucar... — a voz de um homem ecoou de dento de uma das salas perto dos chuveiros.
Nick se encostou na parede ao lado da porta e espreitou por uma parte quebrada da porta. Dois homens estavam lá dentro, um deles, o do sorriso macabro, o rapaz já teve a infelicidade de conhecer, o outro, um homem com que parecia ter mais de 40 anos, calvo e gordo segurava um dos cachorros com força. "Os cachorros perdidos da Íris?" Nick pensou consigo mesmo.
Enquanto isso, Josh espreitava através das fechaduras das outras salas, tentando descobrir o que tinha dentro.
– Segura ele direito, porra! Ta com dó? — o homem do sorriso vociferou, enquanto se aproximava com uma seringa com uma substância vermelha nela e, mesmo estando longe, pôde perceber que sua agulha era grossa.
Ele afastou o pelo de um dos flancos do cachorro e enfiou a agulha até o seu limite, fazendo o cachorro ganir o mais alto que pôde e se debater, na tentativa de se livrar dos braços fortes do homem calvo.
– Nick... — Josh sussurrou o mais baixo que pôde, mas que o rapaz ainda conseguisse escutá-lo. — Tem infectados aqui dentro...
O jovem engoliu em seco, mas nada disse, continuou observando os homens dentro da sala. Josh passou a observar as outras salas e descobriu mais cachorros, mas esses estavam sem parte de seu pelo, mostrando seus ossos com uma fina camada de carne podre, tinha sangue por todo o chão e restos humanos. Eram cães grandes e pequenos, todos com a aparência morta, parados em pé. Outro ganido alto de desespero ecoou pelo estádio, fazendo Josh se assustar e chamar a atenção dos cães para a porta, avançando e deixando seus dentes afiados, com restos de carne entre eles, à mostra.
– Mas o que diabos está acontecendo com esses cachorros?! — o homem do sorriso indagou, jogando longe a seringa e indo na direção da porta.
– Depressa Josh! — Nick sussurro em tom audível para o homem, enquanto o ajudava a levantar.
Os dois conseguiram correr para fora, se espremendo na porta, e se esconderam atrás de alguns arbustos que tinha à poucos metros dali, instantes antes dos dois homens saírem do estádio.
– Temos que dizer isso ao seu tio! — Josh sussurrou para Nick assim que os homens saíram de seu campo de visão.
– Não podemos!
– Como não?! Você prefere colocar a vida de centenas de pessoas inocentes em risco?!
– Me escuta, Josh! Não podemos, se contarmos eles vão nos matar, eu, a Alice e a Lizzie! Você quer ver sua melhor amiga morrer?!
– Claro que não!
– Você não me dá opção Josh, vou ter que te contar tudo... David Thompson criou esse jogo maldito, onde ele faz o que quiser e eu e a Lizzie temos que descobrir tudo enquanto ele tenta nos matar... Basicamente isso... Ele já nos causou muitos problemas, no último incidente ele pegou a Lizzie e a forçou a comer carne humana...
– Ele o quê?! — Josh exclamou alto, fazendo com que Nick tivesse que tapar sua boca.
– Me escuta primeiro Josh, pra depois você não fazer merda! Nós não podemos contar pra ninguém até que ele morra ou nos dois sejamos exterminados, mas quem ficar sabendo de um mínimo detalhe sequer, ele faz a sua morte parecer um acidente...
Josh ficou sem reação.
– E o que vai acontecer agora? — o homem indagou em choque
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