Apocalipse
25 Ódio
Notas iniciais
22 de Novembro de 04 P.A.
Atualização dos Conhecimentos Básicos.
Descobrimos hoje, eu, Nick e Josh, que a infecção pode ser transmitida por diversas formas, entre elas, através da mordida (a mais comum), de água contaminada e do contato das mucosas e feridas abertas com o sangue contaminado.
Ela guardou o diário em sua mochila, colocando-a na base do tronco, deitando nas raízes da enorme árvore sem folhas em seguida. Sobre o farfalhar das folhas secas, Lizzie se aconchegou e fechou os olhos, deixando sua mente vazia, ainda que os relatos de infecção por outros meios além da mordida, discutido há poucos minutos atrás, em uma reunião com Nick e Josh, estivessem frescos em sua memória. Casos como infecção através de água contaminada com sangue dos infectados, citado por Nick, ou casos de contato direto com sangue infectado nas mucosas do corpo, relatado por Josh.
Ainda que os efeitos da insônia fossem gritantes, ela não se rendia ao sono, apenas deixando seu corpo relaxado sobre as raízes duras e frias. O vento começou a soprar mais forte, gelando seu rosto e e deixando-o levemente rosado. Ela ouviu o leve farfalhar ao seu lado e sentiu um corpo se aconchegando ao seu lado, era a border collie dividindo seu calor com a garota.
Talvez ela já estivesse caminhando para abraçar calorosamente o sono, pois mal percebeu que alguém se aproximou e parou ao seu lado, chamando-a. Ainda que sua voz estivesse distante para a garota, ela mexeu a cabeça devagar e subitamente abriu os olhos, fazendo-os doer por causa da claridade. Lizzie sentou e esfregou os olhos, depois olhou para a pessoa que estava ali parada.
— Josh? — sua voz saiu um pouco falha por causa do sono.
O homem sorriu e estendeu a mão para ajudá-la a levantar.
— Você é um pouco descuidada, sabia? Dormindo assim em qualquer lugar...
— Eu não estava dormindo... Eu só estava... Anm... Extasiada em meus pensamentos... — ela respondeu, levantando.
— Aham, claro que eu acredito em você... — Josh sorriu para provocá-la.
Lizzie esticou o corpo, alongando-o em seguida, e tirou as folhas secas presas em suas roupas, depois voltou a olhá-lo. Ela ainda se perguntava como ele tinha encontrado-a, pois estava na parte sul da cidade, onde tinha menos movimento, geralmente ia lá para ordenar as idéias.
— Então...? — ela indagou.
— Então, tava te procurando.
— E agora que encontrou, o que fará?
— Bem... — ele começou. — Vamos aproveitar o dia juntos, sei que não vai demorar muito para o David me encontrar e fazer com que a minha morte seja um acidente... — ele respondeu meio incomodado.
A ruiva o empurrou e o fuzilou com o olhar em seguida:
— Você não vai morrer, eu não vou deixar. — ela respondeu, mesmo não tendo certeza do que estava dizendo.
— Sei que não, Bonequinha. — ele sorriu e bagunçou seus cabelos. — Mas mesmo assim...
— Ok, não tem nada que seja mais importante mesmo... — ela sorriu. — O que quer fazer?
— Não sei ainda... — Josh começou. — Talvez fazer o que fazíamos há quatro anos atrás: andar por aí, comer doces, e no fim do dia tocar violão.
— Parece divertido.
— Então vamos! — Josh começou a correr na direção da parte norte da cidade.
Sem pestanejar, a ruiva começou a correr atrás dele, seguida pela collie.
*** *** *** *** *** ***
Subitamente, Josh parou em frente a um estabelecimento, fazendo com que a ruiva diminuísse o passo e parasse bruscamente, quase esbarrando nele. Ele olhou-a e sorriu:
— Vamos entrar, quero te mostrar uma coisa. — ele disse, já abrindo a porta.
Josh entrou e ela o seguiu. O local parecia uma espécie de loja de antiguidades, mas com itens que eram usados com mais frequência antes do apocalipse. O centro tinha bastante espaço para circulação, enquanto as paredes estavam cobertas por estantes cheias de coisas de todos os tipos.
Atrás do balcão tinha um senhor de idade, com cabelos grisalhos e um bigode chamativo, ele usava uma camisa branca de botões e esboçava um sorriso em seu rosto enrugado.
— Bom dia, sr. Wilson! — disse Josh, sorrindo. — Essa é a Lizzie.
O homem ajeitou os óculos em seu rosto e fixou o olhar na ruiva, e logo depois voltou a sorrir.
— A jovem que você comentou? — Wilson replicou.
— Ela mesma.
— É um prazer conhecê-lo! — a ruiva disse em tom cordial e estendeu a mão para um breve aperto.
O homem a cumprimentou e sorriu.
— O prazer é todo meu. — ele disse assim que soltou a mão da ruiva.
— Me espera aqui rapidinho? — Josh disse para Lizzie. — Vou só pegar um negócio é já volto...
A garota assentiu e depois ficou observando-o ir para uma porta que tinha atrás do balcão. Seus olhos esmeraldas e curiosos passearam pelas prateleiras cheias de quinquilharias e ficaram analisando à distância uma em especial que tinha alguns bonecos de jogos, controles e CDs, querendo ou não, ela ainda era uma gamer. "Como nunca vim aqui antes?" ela se perguntou antes que sua atenção fosse chamada.
— O Josh me falou bastante de você... — disse o senhor de cabelos grisalhos e bem arrumados. — Ele parece gostar muito de você.
A ruiva voltou o olhar para o homem, ainda que estivesse um pouco pelos ares. Tomou um tempo e reformulou o comentário em sua mente, depois sorriu e o respondeu:
— Ah... Bem, somos amigos de longa data...
Josh voltou e parou na porta, talvez na expectativa de que o velho homem tagarelasse algo a mais, enquanto ajeitava algo no bolso de seu moletom, mas depois sorriu e tomou fôlego para falar:
— Já peguei o que eu queria, obrigado por guardar aqui pra mim, sr. Wilson. — ele saiu de trás do balcão e alcançou a mão da ruiva, entrelaçando seus dedos nos dela. — Vamos indo, temos mais coisas para fazer...
A ruiva arqueou uma sobrancelha e olhou para as mãos e depois para o rosto de Josh, mas permitiu o toque.
— Ok... — ela começou. — Até logo sr. Wilson.
Os dois saíram da loja e, ainda de mãos dadas começaram a andar. Durante algum tempo os dois ficaram em silêncio. Talvez Lizzie estivesse ponderando sobre algo, pois logo depois olhou para Josh com um leve esboço de seu habitual sorriso sarcástico:
— Parece que as pessoas gostam de falar de mim, não é Josh? O que foi que você falou? — ela arqueou uma sobrancelha e permitiu o sorriso.
O jovem a olhou com uma pontada de desespero e desviou o olhar, ele com certeza ficaria corado se continuasse fitando seus olhos, então passou a fitar o céu e, tentando agir com naturalidade, respondeu:
— Ah, n-nada demais... Imagina...
Ela tentou reprimir o riso, mas acabou deixando uma leve risada escapar. Josh fingiu uma cara de bravo e depois sorriu.
— Qual é a graça? — ele indagou.
— Você é um péssimo mentiroso.
— Mentir nunca foi meu forte... Está com fome? Eu tô querendo comer alguma coisa...
Os dois foram seguindo na direção da lanchonete de Úrsula. Mais uma vez o silêncio reinou e Lizzie saiu do ar outra vez, até que outra vez sua atenção foi chamada.
— Lizzie! — Nathan parou na frente dos dois e se apoiou nos joelhos, sua respiração estava ofegante. — Me empresta a Aika?
— Quê? — ela indagou.
— Posso roubar a Aika de você um pouco? — Nathan replicou.
— Bom, eu to indo comer mesmo... — ela balançou os ombros e sorriu. — Só me devolve depois. Vai com ele garota.
A collie resmungou e remexeu as orelhas, em um rápido movimento de relaxar e retesar. Nathan agradeceu e prometeu que traria-a de volta depois. Josh e Lizzie continuaram seguindo caminho, outra vez em silêncio, até adentrarem na lanchonete.
Pegaram um lugar no fundo onde não tinha tantas pessoas. Depois de alguns segundos a ruiva saiu do ar outra vez -ok, isso já ta virando um ciclo vicioso... — e mal percebeu quando Josh fez o pedido. O jovem notou que Lizzie já estava com os pensamentos longe e tocou sua mão para trazê-la de volta. Ela o olhou um pouco confusa, mas nada disse. Josh tirou uma pequena caixa comprida do bolso e a empurrou suavemente sobre a mesa.
— O que tem aí? — ela indagou.
— Seu presente de aniversário... — ele sorriu.
— Mas é só em dezembro...
— Eu sei, mas até lá eu não sei se estarei aqui...
Ela o olhou tristemente. A verdade era inevitável, por mais que ela tentasse convencê-lo do contrário. Josh insistiu, empurrando um pouco mais a caixa. Hesitante, a ruiva puxou a caixa e a abriu, tirando de dentro um colar com o símbolo de Ying Yang.
— Nooooossa... — ela disse impressionada.
— Gostou? — ele sorriu.
— Gostei! — a ruiva rapidamente o colocou no pescoço. — Obrigada.
— Não foi nada. — Josh piscou para ela e deu uma risadinha. — Combina com você, sua personalidade...
*** *** *** *** ***
O dia passou rápido, o sol estava quase se pondo e os dois continuavam juntos, dessa vez sentados nas raízes de uma árvore, Josh tocava seu violão enquanto a ruiva ora observava o remexer das cordas ora observava o céu.
De repente ele repousou a mão sobre as cordas e o som cessou. Josh voltou o olhar para a garota ao seu lado.
— Então, vamos falar sobre algo... Tipo... Hum... Uma coisa que você sempre quis fazer...?
— Hummm... — ela coçou o queixo e depois sorriu. — Eu sempre quis roubar esse seu moletom...
Josh franziu a testa, juntamente com uma cara de surpreso, seu olhar dizia "O quê...?"
— Como assim, garota...? — ele indagou.
Lizzie desatou a rir até que ficasse sem ar.
— É sério... — ela disse limpando as lágrimas que se formavam no canto dos olhos, depois suspirou e continuou. — Eu gosto dele... É bonito. Mas e você?
— Bem... — ele engoliu em seco — Sempre quis ficar com você...
Ele fechou os olhos e suspirou, sentindo seu rosto esquentar. A ruiva o olhou pelo canto dos olhos com um leve sorriso, é claro que ela adoraria sacanear o melhor amigo, mas percebeu que não era pertinente.
— Meio que seria muito errado um cara de 23 ficar com uma garota de 17? — ele indagou, ainda de olhos fechados.
Ela ficou um tempo em silêncio, ponderando, mas não permitiu que saísse do ar outra vez.
— Eu acho que já disse pra você que idade é só um número... — ela disse, repousando a cabeça em seu ombro. — E não acho que seria errado se a garota concordasse...
Josh olhou-a pensativo.
— Aonde você quer chegar? — ele questionou.
— Bem, eu não quero ficar com a consciência pesada depois do que você acabou de dizer, se algo acontecer com você eu seria a primeira a me sentir mal, talvez até entrando na depressão... E eu já tenho a consciência bem pesada... Daqui a pouco nem vou conseguir andar... — ela riu da piada infame e olhou-o com um sorriso de canto.
O rapaz sentiu seu rosto esquentar outra vez. Ele ficou fitando seus olhos por um bom tempo, até tomar a iniciativa, acariciando suavemente o rosto da garota e depois aproximando seus rostos, até que seus lábios se encontrassem. Mantiveram aquele beijo por longos instantes, como se o tempo tivesse congelado. Após se afastarem, o rapaz ficou fitando seus olhos por mais um tempo e sorriu.
— Acho que já posso morrer em paz agora... — ele disse.
— Não diga isso! Idiota! — ela deu um leve soco em seu braço, ainda com seu sorriso de canto.
Josh a abraçou e suspirou. A ruiva retribuiu o abraço e os dois ficaram assim por um tempo. Outra vez se afastaram. Lizzie levantou e tirou a sujeita de suas roupas, notando que estava ficando escuro.
— Bem, vou indo... Ainda tenho que achar a Aika e ver se a Alice já se cansou da Ellie... Te vejo mais tarde então?
— Certamente... — ele sorriu.
A ruiva fez um breve aceno com a mão e virou as costas, andando devagar.
— Espera! — Josh se impulsionou para a frente e segurou seu pulso. — Quero que fique com isso.
Ele se levantou e tirou o blusão de frio, estendendo-o para a garota.
— Mas é o seu moletom... — ela disse.
— Agora é seu. — ele sorriu e insistiu para que ela ficasse.
Lizzie pegou o blusão e sorriu, depois continuou seguindo caminho.
*** *** *** *** ***
Em pouco tempo já estava em seu apartamento. Colocou Ellie na cama e voltou para a sala, se jogando no sofá em seguida. Já estava totalmente relaxada, quase dormindo no sofá, quando uma gritaria do lado de fora a perturba. A garota é forçada a levantar e vai até a janela na expectativa de conseguir ver o que causava o alvoroço, mas sem sucesso. Correu para fora e acabou esbarrando em Alice.
— O que está acontecendo? — a loira indagou.
— Eu não sei, mas acho melhor conferir... — disse a ruiva, já indo na direção das escadas.
As duas desceram rapidamente e logo adentraram no meio da multidão que rodeavam algo. No centro da roda estava Alex e David e pareciam estar explicando o motivo de todos estarem reunidos alí. A garota ignorou todas as vozes e passou a observar uma estranha construção de madeira que tinha no meio, semelhante à um palco, mas tinha uma espécie de mastro com uma corda na ponta, e só então ela percebeu o que estava acontecendo.
Notou que Olívia estava ali também com outras duas mulheres, todas aos prantos, e atrás estava Josh sendo detido por outros dois homens.
— Você ouviu o que ele disse Li? — Alice chamou sua atenção.
— Amn? Não, não escutei... O que ele disse? — Lizzie indagou, saindo de seu transe.
— O David disse que o Josh estuprou aquelas três mulheres e vai ser enforcado por causa disso.
— O QUÊ?! ISSO NÃO É VERDADE!! — a ruiva disse em voz alta, já tomando passo para impedir a morte do amigo.
Alice a segurou e puxou-a de volta.
— O que você está fazendo?! Me solta!! — a ruiva reclamou, tentando se soltar.
— Pare! Você só vai piorar a situação!!
Diante dos falsos testemunhos, Josh começou a ser carregado para a forca, ele tentava se soltar e desmentir as mulheres, mas em vão.
— Não, não, não, não, não, não, não... — Lizzie repetia, enquanto se debatia cada vez mais, já sentindo as lágrimas escorrerem pelo seu rosto.
O inevitável aconteceu: eles colocaram a corda em volta do pescoço de Josh e o empurraram do pequeno altar. Ele se debatia e tentava tirar a corda de seu pescoço.
De repente uma flecha cortou os ares e atingiu Josh no peito, acabando de vez com sua agonia. O homem ainda conseguiu levantar o olhar e notou Nick em cima do telhado de uma loja com o arco em mãos, ele o agradeceu com o olhar antes de perder a consciência de vez.
Lizzie ficou em choque, apenas deixando seu corpo escorregar para o chão, sem forças, enquanto suas lágrimas encharcavam o chão.
Fale com o autor