Apocalipse
20 Festa do Solstício
Notas iniciais
21 de Junho de 04 P.A., aproximadamente 1:30 da madrugada. As pessoas estavam agitadas e animadas pela celebração do início do verão, ao nascer do sol. Seria o único dia do ano em que todos poderiam violar o toque de recolher. O céu estava limpo e o vento soava como um fraco sopro.
A cidade estava toda iluminada com tochas e as ruas cobertas por mesas e pequenas barracas que ofereciam de tudo. Em uma das mesas Nick e Josh conversavam. Ambos estavam bem vestidos e tomando alguma bebida. De repente Juliette surgiu na mesa e cumprimentou os rapazes com um beijo no rosto, ela estava com um tomara-que-caia branco e rosa.
— Jogando conversa fora? — ela perguntou enquanto puxava uma cadeira para sentar.
— Mais ou menos... — respondeu Nick enquanto tomava um gole de sua bebida.
— Só falando de assuntos aleatórios... — comentou Josh.
— Por que estão aqui sozinhos? — Juliette voltou a questionar.
— A gente acabou de sentar, estávamos jogando cartaz naquela mesa ali. — disse Josh enquanto apontava para uma mesa onde Alice estava sentada.
— Ah... Ei Nick, não quer dançar?
— Não, obrigado, to cansado. Talvez mais tarde, só quero relaxar um pouco.
Juliette assentiu com a cabeça, um pouco sem graça. Josh riu da situação e os dois o fitaram sem entender nada.
— Essa era a mesma desculpa que a Li usava quando tinha eventos musicais no shopping de Ottawa. — Josh respondeu após tomar fôlego. — Geralmente ela ficava em um canto sozinha aí eu chegava pra puxar assunto.
— Falando na Lizzie, onde ela tá? Não vejo ela desde que o sol se pôs... — disse Nick.
Josh balançou os ombros.
— Talvez ela não goste de festas... — disse Juliette.
— Ela não gosta, mas sempre ficava por perto. — comentou Josh.
— Mas de qualquer forma, não faz diferença se ela vier ou não, não é? — Juliette olhou para Nick e sorriu.
Nick tomou um último gole da sua bebida e sorriu.
— Com certeza ela virá. — disse Nick.
Juliette revirou os olhos e se pôs a encarar os copos. O trio ficou conversando por mais meia hora até Íris aparecer, puxando Lizzie pela mão. Íris estava com uma saia preta e uma blusa branca com alguns desenhos, enquanto Lizzie estava com um vestido preto com detalhes em dourado.
— Olá gente! — disse Íris, animada.
— Olá! — disse Josh.
Lizzie apenas acenou com a mão, sorrindo de leve, depois voltou a ficar séria.
— Achei que estivesse dormindo. — comentou Nick.
— Mas eu estava... — a ruiva respondeu enquanto puxava uma cadeira ao lado de Josh.
— Eu tive que arrastá-la, se não ela não viria mesmo. — disse Íris sorrindo. — A Lizzie não fica uma gracinha de vestido?
Lizzie revirou os olhos e deu uma leve risada.
— Sinceramente, você tá muito bonita... — disse Nick.
— Obrigada. — respondeu a ruiva.
— Então gente, isso é uma festa! Vamos fazer alguma coisa. — disse Íris, tentando animar o grupo.
Josh cutucou Nick e tomou fôlego pra falar:
— Quer dançar Li? Não vale usar aquela desculpa de que "está cansada" — ele fez um sinal de aspas com as mãos.
— Ok então... — ela deu uma risadinha — Eu não sei dançar.
— Eu também não sei! — Josh levantou e puxou Lizzie pela mão.
Os outros ficaram observando Josh e Lizzie dançando.
— Vamos dançar também! — disse Juliette, puxando Nick.
Os dois saíram e começaram a dançar também. Íris sentou no ficou observando-os.
— A dama está sozinha? — disse Vincent.
— Olá, Vincent! Você por aqui? — Íris respondeu surpresa.
— Pois é, eu tirei uma folga. Decidi descer e aproveitar a festa, já que meu filho está dormindo... Ta sozinha por quê?
— O povo foi dançar e eu fiquei aqui...
— Que triste... Por que não vai ver o que tem do outro lado? Tem umas tendas com doces e jogos...
— Parece legal! — Íris levantou — Vamos nós dois então.
Vincent assentiu e os dois logo se misturaram na multidão.
Josh e Lizzie ainda dançavam, ambos distraídos. Conversavam e riam.
— Ei Li, vamos pegar uns doces? — perguntou Josh, olhando para algumas barracas.
— Pode ser, vamos lá. — ela respondeu sorrindo.
Josh pegou em sua mão e começou a guiá-la em meio à multidão. Passaram por algumas barracas com bebidas até chegarem às barracas de doces e comida. A ruiva começou a olhar em volta, escolhendo o que pegar, até Úrsula chamar sua atenção. A mulher estava atendendo uma das barracas.
— Procurando algo, mocinha? — Úrsula perguntou com um sorriso. — Da uma olhada aqui, tem várias coisas gostosas.
Lizzie sorriu e começou a olhar o que tinha nas bandejas que estavam sobre a mesa. Josh começou a pegar um pouco de cada doce e experimentar.
— O que tem nesse pão? — perguntou a ruiva enquanto apontava para uma bandeja com uma pilha de sanduíches.
— Frango e legumes. — respondeu a mulher. — Pode pegar, fique à vontade.
A garota pegou um e levou a boca.
— Nossa, está muito bom! — Lizzie disse com uma expressão de surpresa.
Por um momento Lizzie se sentiu bem, estava realmente feliz por estar viva, como se finalmente tivesse conseguido encontrar o motivo para estar vagando pelo mundo. Mas no fundo, ela ainda se sentia perturbada, sentia que estava sendo observada, mas ela não poderia fazer nada a respeito em meio a multidão.
Úrsula deu um pacote de doces para cada um, e Lizzie pegou mais alguns sanduíches antes de sair. A ruiva voltou para a mesa e Josh seguiu pelo caminho contrário, na direção das barracas de jogos.
Nick estava sentado na mesa, e observava alguma coisa. A ruiva puxou uma cadeira em sua frente e sentou-se.
— Senhorita... — Nick sorriu.
— Senhorito... — disse Lizzie.
Os dois riram. Ficaram em silêncio por mais algum tempo até um homem vir e oferecer-lhes bebidas.
— Servidos? — o homem perguntou, mostrando duas taças em sua bandeja.
— Não, obrigada... — respondeu Lizzie.
— Vamos, eu insisto!
Nick pegou uma taça e Lizzie pegou outra. O homem sorriu estranhamente, um sorriso sombrio. As taças eram de vidro, finas e altas, como taças de champagne. A ruiva observou a bebida e percebeu alumas bolhas vindas do fundo, assim como um pó branco. Ela aproximou a taça de sua boca e o aroma de álcool roçou em seu nariz, fazendo-o arder. Imediatamente as suas lembranças voltaram para perturbar sua mente, mas ela não se deixou levar por isso. Observou em volta e notou que o homem ainda os observava e ela se lembrou de onde conhecia o seu sorriso. "Como eu pude ser tão sega...?" ela disse consigo mesma.
— Nick, não beba. — ela disse baixo.
— Hum? Por quê? — o rapaz parou de levar a taça à boca, para tomar o primeiro gole.
— Aquele homem que nos ofereceu as bebidas é o seu assassino. — ela fez uma pausa e colocou a taça de volta na mesa. — Ele colocou alguma coisa nas bebidas...
O rapaz colocou a taça de volta na mesa e a fitou no fundo dos olhos.
— Você tem certeza? — ele indagou.
Lizzie assentiu positivamente, pegou sua taça e a inclinou levemente para que ele pudesse notar o pó branco no fundo. Depois ela chacoalhou a taça, fazendo o pó sair do fundo e dançar com a bebida dentro do recipiente. O pó se mexia como leves flocos de neve.
— Filho da puta...! — Nick tomou impulso para se levantar, mas a garota segurou sua mão.
— Não faça nenhuma besteira, nós vamos pegá-lo, mas aqui é muito arriscado... — ela disse calmamente e o rapaz sentou-se novamente.
— O que seria de mim sem você? — o rapaz disse sorrindo.
Lizzie arqueou uma sobrancelha e sorriu, não tinha entendido direito o comentário.
— Eu provavelmente estaria morto... — ele continuou. — Mas você está sempre me salvando... Acho que eu não posso mais viver sem você...
A ruiva ficou sem reação por alguns segundos e depois voltou a sorrir.
— O que está querendo insinuar com isso? — ela indagou.
— Eu não sei... Quer dançar?
— Claro, por que não?
*** *** *** *** ***
Horas depois, a maioria das pessoas tinham se recolhido, mas ainda era possível ver algumas pessoas vagando sonolentamente pela rua. Porém, Lizzie e Nick se mantinham acordados, deitados no teto de seu prédio observando as estrelas.
— Ei Lizzie. — Nick começou puxando assunto. — Por que você não namora?
— Talvez porque eu não seja uma garota namorável... — ela respondeu com um leve tom de sarcasmo.
— Como assim "não namorável"?
— Porque eu não sou normal, eu sou psicopata. As garotas que geralmente namoram não são psicopatas...
— Entendi... — ele deu uma risada leve. — Eu não me importaria em namorar uma psicopata... — ele virou para ela.
— Fala isso quando você estiver amarrado na cama e ela estiver cortando você...
Os dois riram e depois ficaram em silêncio.
— E por que você não namora? — Lizzie indagou, quebrando o silêncio.
Nick sentou e ficou olhando-a.
— Talvez porquê eu não tenha encontrado a garota certa... Quer dizer, eu acho que encontrei, mas não tenho certeza...
— Entendo... — ela sentou-se também é ficou encarando o céu. — Mas acho que vai ser meio impossível de se achar a garota perfeita no mundo atual... São poucas pessoas que ainda sobrevivem fora dessas muralhas.
O rapaz assentiu e passou a observar o céu, que começava a clarear.
— Por que não fica com a Juliette? — a ruiva perguntou, sem tirar os olhos do céu.
— A Juliette fica muito em cima, ela não dá liberdade... E ela também não aceita muito bem opiniões contrárias às suas. — ele fez uma pausa e voltou a olhá-la. — Ela é o seu contrário.
A ruiva voltou o olhar para Nick e arqueou uma sobrancelha.
— O meu contrário? — ela repetiu.
— Uhum. Acho que se fosse pra escolher entre vocês duas, eu ficaria com você. — Nick começou a se aproximar. — E eu não me importo se você é psicopata, eu sei que não me machucaria...
Nick estava há poucos centímetros do rosto da garota, olhando intensamente em seus olhos, era possível ver que as palavras do rapaz eram verdadeiras.
— Você me cortaria se eu te beijasse agora? — sua voz soou quase como um sussurro.
— Talvez... — ela sussurrou de volta.
O rapaz terminou de se aproximar, juntando seus lábios com os de Lizzie, em um beijo calmo, enquanto o sol surgia no horizonte.
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