Apocalipse
12 Eu, Você e a Collie
Notas iniciais
Em algum lugar afastado de Nova Washington um pedaço de floresta invadiu parte das cidades vazias, nela, Lizzie cavalgava em um cavalo preto e branco, junto com Aika. O sol estava a pino no céu, algumas nuvens escuras vinham do Leste, carregadas pelo vento fresco que soprava nas folhas das árvores.
O passeio estava agradável, a ruiva gostava de paisagens rústicas, traziam simplicidade, ela olhava os esquilos ligeiros pegando nozes e desaparecendo em algum arbusto, ouvia o canto dos pássaros, que parecia tão perto e ao mesmo tempo distantes, pois não se via nem as penas dos pequenos animais. O vento batia em seu rosto, balançando seu cabelo, que estava mais leve do que nunca. Ela suspirou.
Em meio a algumas arvores, ela viu Nick, montado em um cavalo branco.
— O que estamos procurando mesmo? — ela perguntou.
— Hum...? — ele parou o cavalo e voltou o olhar para ela. — Ah, sim... Não estamos procurando nada. Eu só disse aquilo para saírmos da cidade...
— Ahh... Mas por quê?
— Eu percebi que você tava quase surtando...
— Eu já tava planejando uma fuga! — ela riu.
Nick riu junto e voltou a olhar em volta.
— Eu costumava vir aqui quando ficava entediado na cidade... É meio monótono lá...
Lizzie assentiu com a cabeça e se aproximou. Nick olhou para ela e sorriu.
— Tem um lugar aqui que a gente pode descansar. Venha. — Nick fez o cavalo andar adiante.
A garota fez o mesmo, seguindo o companheiro.
— Então... — a ruiva começou, puxando assunto. — Já que não estamos procurando nada, o que vamos fazer?
— Ficar conversando... Praticar pontaria com infectados... Você que sabe...
— Parece divertido. — ela riu.
— Chegamos. — ele parou e desceu do cavalo.
Adiante, ela viu um enorme lago. A ruiva ficou impressionada com tamanha beleza, o céu e as árvores floridas refletiam na água cristalina, deixando tudo mais belo.
O rapaz tirou a cela e as amarras de seu cavalo, deixando-o à vontade.
— Ele não vai fugir? — a ruiva indagou.
— Não. Pode soltar o seu também, não tem problema... — ele sorriu.
Lizzie fez o mesmo e o cavalo foi para o lago. O garoto se aproximou da beira do lago e se inclinou para beber água.
Aika latiu para a dona e deu duas voltas atrás da cauda. A garota assentiu e tirou uma bola de tênis da mochila, ela balançou-a no ar e atirou-a no lago. A coolie correu atrás e lançou-se na água.
— Eu queria ter um cachorro... Parece ser bem divertido. — Nick comentou.
— É divertido sim... Quer tentar? — ela sorriu.
— Eu posso? — um sorriso se formou em seu rosto.
— É claro!
Lizzie encheu sua garrafa com agua e depois sentou ao lado de Nick, próximo da beira do lago, onde tinha a sombra de um árvore. A coolie voltou e entregou a bola nas mãos da ruiva, ela deu a bola para Nick.
— É só você jogar o mais longe possível. — ela explicou.
Nick fez o que ela disse, a bola quase foi parar do outro lado, onde um veado que bebia água se assustou adentrou na mata. Aika lançou-se na água outra vez.
— Então... — ele começou — Me conta mais sobre você... Por que você fica tão brava quando falam do seu pai?
— Ótima pergunta... — ela piscou para ele e deitou no chão. — É uma longa história... Geralmente é porque as pessoas o julgam só porque ele cometeu crimes e foi preso... Mas eles não sabem os motivos do meu pai. Ele era uma boa pessoa...
— Mas o que aconteceu pra ele ter que roubar?
— Foi culpa da minha mãe. Ela traiu o meu pai e depois se divorciou e levou quase tudo que ele tinha, mas foi ele que ficou com a minha guarda, aí ela foi para outro país e nunca mais eu a vi... Meu pai ficou muito mal, ele a amava demais... Ele começou a ficar com depressão... Logo depois perdeu o emprego, começou a beber e eu ficava largada por aí...
— Você tinha quantos anos?
— Oito... Isso durou um mês e meio, eu acho... Ele já estava quase sem dinheiro pra bebidas e pra cuidar de mim. Então o Steven apareceu, como meu pai trabalhava na área de computação, o Steven fez um acordo com ele, e assim ele começou a roubar, hackeando sistemas bancários e transferindo para a conta dele e de outros comparsas, mas a polícia começou a investigar e nos começamos a nos mudar de Estado para Estado... E mesmo com tudo isso ele sempre se preocupou em cuidar de mim...
— Ele deveria ser um cara legal... — Nick deitou no chão, após arremessar a bola para Aika, ficou olhando para Lizzie. — Como ele era?
— Meu pai era um cara alto, forte, a pele um pouco bronzeada, cabelo preto, olhos verdes... Ele tinha barba também, como eu odiava aquela barba... Sempre que eu abraçava ele a barba ficava pinicando em mim...
Nick riu alto.
— Meu pai tinha barba também... Mas ele não deixava ela por muito tempo, geralmente ele raspava... Ele era advogado...
— Hum... — ela se lembrou da foto que viu na mochila de Nick — Sabe... Meu pai podia ser um péssimo exemplo, mas ele sempre me ensinou o que era certo e o que era errado... Mas eu sempre seguia pelo errado — ela riu. — Ele costumava me dizer "Você não pode roubar, você tem que conquistar o que quer honestamente.". Mas, como o Steven me ensinava a me virar, eu costumava roubar doces de lojas...
Os dois riram.
— Meu pai me falava esse tipo de coisa também. — começou Nick. — " Você tem sempre que dizer a verdade, se você mentir, uma hora ou outra eu vou descobrir " — Nick engrossou a voz, imitando o seu pai.
Lizzie começou a rir alto, até ficar sem ar. Nick ficou observando-a e rindo.
— A ironia era que ele nunca sabia quando eu estava mentindo... — ele completou. — Nossa... Ta muito quente.
— Está sim...
O rapaz se levantou e tirou a camisa, a ruiva ficou observando-o. Nick guardou a blusa na mochila, que estava encostada em uma árvore, com as celas e a mochila de Lizzie, depois tirou o sapato, ficando só com sua bermuda. O garoto correu para o lago e lançou-se na água, fazendo a água se levantar e espirrar na ruiva.
— EEEII!! — ela reclamou rindo. — Eu to aqui.
— Desculpa, senhorita, — ele balançou a cabeça, fazendo seus cabelos molhados ficarem bagunçados e com um certo charme. — Você não vem?
— Não.
— Por quê?
— Não to afim de molhar minhas roupas.
— Sem problemas, só tirar. — ele sorriu.
— O que?! — ela arqueou uma sombrancelha. — Ta louco?
— Tira só a blusa e o tênis.
Ela o encarou por alguns instantes.
— Não confia em mim? — ele disse em tom indignado — Não vou te atacar, eu tenho cara de estuprador? — Nick cruzou os braços e ficou encarando-a.
— Talvez... — abriu-se um sorriso largo em seu rosto.
— Se eu fosse, você não acha que eu teria te estuprado quando você tava amarrada na cama? — ele arqueou as sombrancelhas
Ela ponderou por alguns instantes e depois levantou, foi até sua mochila e guardou o tênis e a blusa que estava usando. Depois correu e se jogou no lago.
— Até que não ta um gelo... — a ruiva comentou.
— Não, ta uma delícia... — Nick foi indo para a parte funda do lago.
Os dois foram para o fundo e começaram a brincar de jogar água um no outro.
O céu começou a escurecer, o som de um trovão ecoou ao longe.
— Não acha melhor voltarmos? — ela indagou preocupada.
— Não. A chuva chegaria quando estivermos na metade do caminho... — ele coçou a nuca.
— E nós vamos ficar aqui, na chuva?
— Claro que não. Tem uma cidade mais pro Leste, podemos passar a noite em uma casa e voltar pela manhã.
— Ok... Então é melhor nós irmos...
A ruiva começou a caminhar de volta para a borda, quando Nick a puxou pela cintura.
— Quer apostar corrida ou ir de cavalinho? — ele perguntou sorrindo.
— Cavalinho! — ela riu.
Nick virou de costas para ela e a ruiva subiu e o abraçou. O rapaz segurou em suas coxas para conseguir carregá-la melhor e foi voltando para a borda.
Lizzie fechou os olhos e encostou a cabeça nas costas de Nick.
— Cansou? — ele perguntou.
— Talvez... — ela deu uma risadinha.
De volta à borda, Nick colocou-a no chão e foi colocar a cela e as amarras no cavalo. Lizzie fez o mesmo com o cavalo preto e branco e perdeu a mochila na cela. A ruiva torceu o cabelo e fez um choque, depois tirou o excesso de água dos pelos de Aika e montou-a no cavalo, e subiu em seguida.
— Vai assim? — Nick perguntou.
— Algum problema? — ela arqueou as sombrancelhas e sorriu.
— Não... — Nick fez o cavalo começar a andar, beirando o lago.
— Sempre quis andar sem camisa por aí... — ela comentou.
— Desejo realizado, então.
Os dois riram.
*** *** *** *** *** *** *** *** *** *** ***
Cerca de vinte minutos depois, a dupla chegou à uma rua com algumas casas de dois andares. Não poderia se dar ao luxo de escolher a melhor casa, Lizzie fez uni-duni-tê e os dois foram para uma casa laranja desbotada.
Alojaram os cavalos na garagem e entraram. A casa estava vazia, ou aparentava estar, a ruiva foi na frente com os dedos presos ao gatilho de sua pistola. Pé ante pé, ela foi caminhando pela casa, a porta da garagem levava ao corredor da casa, que tinha sangue nas paredes e algumas cápsulas de balas vazias. A garota chegou à uma pequena cozinha, tinha sangue nos armários e na geladeira, vidro quebrado por todo o chão, além de estar tudo revirado. Lizzie foi extremamente cautelosa nesse cômodo, pois ainda estava descalça. Ela mexeu em alguns armários, certificando -se de que não teria nada — ou ninguém.
Ainda explorando a casa, ela foi para a sala, está que estava um pouco mais arrumada, não tinha sangue, apenas algumas peças de roupas jogadas no sofá e no chão, o que levantou a suspeita de que talvez um grupo estivesse alojado na casa. Nick surgiu na porta da sala e olhou para ela:
— Algum problema? — ele indagou.
— É como se a casa tivesse sido deixada a pouco tempo... Como se houvesse uma luta e logo após a casa foi abandonada...
— Eu acho que não...
— Tem sangue na cozinha. — ela virou para ele em tom sério. — Não ta coagulado!
O rapaz engoliu em seco e coçou a nuca.
— Vamos procurar outra casa. — ela sugeriu.
Nick assentiu e os dois voltaram para a garagem, pegaram os cavalos e voltaram para a rua. A rua era sem saída, com poucas casas e um pedaço da mata já estava envadindo seu território. Eles foram para uma casa no fim da rua, uma verde água igualmente desbotada. Outra vez alojaram os cavalos na garagem, esta que era maior e cheia de ferramentas. Adentraram na casa por uma porta que havia na garagem e surgiram em uma cozinha. O lugar parecia não ter sido tocado depois que o apocalipse aconteceu, tudo parecia estar no lugar. Na sala, os sofás estavam cobertos por lençóis e os quadros nas paredes tinham uma camada espessa de poeira.
— O que você acha? — ele perguntou. — Por que será que a casa está desse jeito?
— Bom... A minha hipótese é que a família que morava nessa casa pode ter ido viajar...
— Faz sentido...
A ruiva se aproximou de um quadro e tirou a poeira do vidro, revelando o rosto de Steven em uma foto, ela se assustou e caiu para trás.
— Você tá bem? — o rapaz perguntou e se aproximou.
— Eu to legal... Foi só um susto. — ela apontou para o quadro. — É o Steven...
— O amigo do seu pai? — ele indagou.
A ruiva assentiu com a cabeça e levantou. Se aproximou outra vez do quadro e tirou a poeira restante, revelando também uma mulher ao seu lado e uma garota na frente dos dois. Steven apresentava um sorriso nos lábios, seu cabelo loiro estava arrumado e sua barba parecia ter sido feita antes da foto, os olhos castanhos brilhantes e cheios de vida, transmitindo felicidade. Ele vestia uma camisa de botão, muito elegante, e abraçava a mulher de cabelos castanhos cacheados pela cintura, esta que estava com um vestido vermelho e uma maquiagem leve, os olhos cor-de-mel deixavam seu rosto mais meigo. a garota parecia uma boneca delicada, os cabelos dourados com cachos que pareciam que iriam desmanchar só com o olhar, o sorriso branco e brilhante era o que mais chamava a atenção. Pareciam muito felizes.
— Ele deve ter vindo para cá depois que terminou os serviços com o meu pai... — a garota comentou e coçou o queixo.
O som de um trovão ecoou na rua vazia, a chuva começou a cair como um dilúvio.
— Chegamos a tempo... — o rapaz disse com um sorriso. — Agora, não prefere trocar de roupa?
Lizzie parou de olhar para foto e lembrou-se de que ainda estava com suas roupas molhadas e sem blusa. Ela sorriu e coçou a nuca.
— Ótima ideia... Vamos ver o que tem lá em cima. — ela respondeu.
Os dois subiram por uma escada que tinha na sala. No corredor, mais quadros empoeirados e uma enorme janela que iluminava o cômodo e revelava os grossos e rápidos pingos de chuva. Tinha apenas duas portas, uma para o quarto da filha de Steven e outra para o quarto do casal. A dupla adentrou no quarto de Steven, que estava arrumado, assim como o resto da casa.
Lizzie colocou sua mochila em cima da cama e abriu o guarda roupas, este que tinha algumas peças de roupas, como se eles estivessem levado quase tudo antes de deixar a casa.
— Acha que ela se importaria se eu pegasse emprestado algumas peças de roupa? — Lizzie perguntou, mexendo nas gavetas.
— Acho que ela se incomodaria em te ver seminua... — ele respondeu enquanto mexia na gaveta do criado-mudo.
A ruiva deu uma risadinha.
— Se importa? — ela perguntou, segurando uma toalha contra o corpo.
O rapaz sentou na cama, de costas para a ruiva e puxou sua mochila. Lizzie começou a se trocar.
— Tem como você jogar uma toalha pra mim? — ele indagou.
Lizzie pegou uma toalha no guarda-roupas e jogou em Nick.
— Obrigado...
Nick secou o cabelo e começou a se trocar também.
— Espero que amanhã a chuva tenha parado... — ela comentou.
— Eu não acho que ela vai parar... Não tem chovido nesses últimos dias, não sei se ela vai parar logo...
Nick terminou de se trocar e virou-se, Lizzie estava com uma camisa grande e larga e um short curto, continuava de costas para o rapaz, trançando o cabelo. Ele deitou na cama . Lizzie deitou ao lado dele e os dois ficaram encarando o teto.
— Li, por que "Lua"? — ele indagou curioso.
Ela virou-se para ele e deu um sorriso.
— Era um nome de um documento falso que eu tinha. Meu pai disse que significa "Moon", só que em uma língua estrangeira...
— Hum... Legal...
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