Apocalipse
13 A Casa do Steven
Notas iniciais
Horas se passaram. O rapaz poderia estar dormindo, se conseguisse... Nick perdeu o sono há bastante tempo, algo o perturbou enquanto dormia.
Ele encarava o teto e ouvia a chuva cair lá fora, vez ou outra virava para Lizzie e ficava olhando-a dormir, a ruiva estava abraçada com Aika, sua respiração estava tranquila. Estaria sonhando com algo bom? Ou apenas tendo outra lembrança de sua antiga vida?
Nick se levantou da cama lentamente e esticou o corpo. Foi para o corredor e encostou-se na parede, olhando a chuva cair através da janela. Subitamente, a curiosidade de saber o que tinha no diário de Lizzie chegou à sua cabeça, ele voltou ao quarto silenciosamente e começou a puxar o zíper da mochila da ruiva.
Um baixo rosnado ecoou como um sussurro atrás do garoto, Aika levantou a cabeça e o fitava com as orelhas levantadas.
— Você vai contar a ela? – Nick sussurrou.
A collie ganiu e abaixou a cabeça. De volta à mochila, ele tirou um pequeno caderno do bolso maior, sua capa era amarela e tinha algumas figurinhas desbotadas e quase descolando, as pontas do caderno estavam comidas e um pouco rasgado. Nick foi para o corredor com um isqueiro. Ele abriu com cuidado o velho diário
Logo na primeira página tinha uma foto presa a um clipe de papel, nela mostrava Lizzie, jovem, com um sorriso radiante, os olhos verdes como duas esmeraldas cintilantes e os cabelos arrumados. Ao seu lado, um homem, exatamente como Lizzie havia descrito seu pai, ele vestia uma camisa de botão e tinha um sorriso leve, sua mão acariciava os cabelos da ruiva. Atrás da foto tinha uma mensagem.
Caso você encontre esse diário e por algum motivo queira lê-lo, saiba que ele me pertence, posse de Lizzie, e caso você o leia e eu descubra, torça para você estar muito, mas muito longe de mim... Esteja avisado.
O rapaz deu uma risadinha. "Típico dela mesmo..." ele pensou. Ele começou folhear com calma, pois as páginas ameaçavam soltar-se com o mínimo movimento, e parou em outra página pesada, outra foto com clipe de papel, nela tinha um sobrado branco, muito bonito, com flores na frente e um carro preto estacionado em frente à garagem.
Já faz duas semanas que Chegamos à essa cidade, Quebec, ela é bem tranqüila, tem muitas árvores e animais 'selvagens' (as vezes encontro esquilos ou coelhos no quintal dos fundos). É bem agradável, e as pessoas são gentis.
Meu pai trouxe duas identidades falsas, uma delas é minha, parece que meu nome agora é 'Lua'. Ele disse que significa 'Moon', só que em outro idioma. Gostei. Ainda que eu prefira o meu verdadeiro nome.
Nick ouviu Lizzie se mexer na cama e colocou a cabeça na porta para conferir, ela só tinha mudado de posição, e agora estava virada para a porta. Então ele continuou a folhear, parou para olhar uma foto que mostrava Lizzie com a Aika filhote no colo, mas não leu atrás, algumas páginas depois viu uma foto que mostrava a ruiva com um vestido branco, sentada em um sofá com uma caixa de presente na mão, Steven estava ao lado dela, com Aika no colo.
Essa página era diferente, tinha outras duas fotos atrás, uma delas mostrava um dos olhos da garota e um pouco de seu cabelo, atrás era possível ver Steven rindo e aparentemente vindo em sua direção e o pai de Lizzie sentado em uma toalha de piquenique brincando com Aika. A foto seguinte parecia ter sido tirada logo depois, parecia que Steven tinha arrumado a câmera, pois era possível vê-lo de um modo que ele estivesse segurando-a e Lizzie ao lado dele como se dissesse "Entendi..." e o pai dela atrás rindo.
O garoto achou as fotos bem divertidas e deu outra risadinha. Continuou folheando, procurando outras fotos, quando se deparou com uma página diferente, ela não tinha o mesmo capricho das outras páginas, as palavras pareciam ter sido escritas às pressas e estavam borradas, como se gotas de água estivessem caído nas páginas enquanto ela escrevia.
Levaram o meu pai... Tiraram ele de mim... Sim, eu sabia que isso ia acontecer um dia, mas eles foram tão brutos! Estávamos na sala, em volta da fogueira, ele estava contando uma de suas incríveis histórias, quando os policiais entraram, jogaram ele no chão e o algemaram, tudo muito rápido e com muita brutalidade. Eu não pude fazer nada, por mais que eu me debatesse, um dos policiais me segurava firmemente.
Me mandaram fazer uma mala pequena e nos levaram para a delegacia. Eles me deixaram aqui e desapareceram com o meu pai. Não sei o que vai acontecer comigo, eu já não tenho mais ninguém...
Nick engoliu em seco e se apressou para guardar o diário, ficou ponderando à respeito, sentado no corredor, olhando a chuva cair lá fora. Ele nem percebeu que dois homens lutavam na rua, debaixo da chuva e com uma horda de infectados vindo em sua direção. Um dos homens atirou em seu adversário, fazendo-o cair no chão e ser atacado logo em seguida, não demorou muito para eles arrancaram sua pele e sua carne e engolirem.
— Nick? — Lizzie acordou com os gritos e os disparos.
— Hum? Ah, você acordou... — ele saiu de seu transe.
Ela se ajoelhou ao seu lado e olhou para a janela, a horda já estava concentrada em um único lugar.
— Acho que eu perdi o sono... — ela disse.
— Eu perdi o sono já faz um tempo... — ele olhou para ela e sorriu
A ruiva voltou para o quarto e pegou uma lanterna e um isqueiro, voltou para o corredor e tomou rumo às escadas.
— O que vai fazer? — ele indagou.
— Explorar a casa... Deve ter uma pista sobre o que deve ter acontecido...
Ela desceu e Nick foi atrás dela. A casa tinha um aspecto assustador, como as casas dos filmes de terror que Nick costumava assistir. A ruiva foi seguindo por um corredor inexplorável que ficava depois da sala. No fim dele tinha uma porta, que estava trancada.
— Vamos arrombar? — ele falou baixinho para ela.
— Não... Nada sutil... E além disso, atrairia os infectados lá de fora... — ela sussurrou de volta.
Lizzie abriu uma porta que tinha do lado e entrou em um banheiro, ela abriu alguns armários e achou alguns grampos de cabelo.
— Isso serve... — ela pegou dois.
A garota deu a lanterna para Nick e desdobrou os grampos. O rapaz estava curioso para saber o que ela faria, então, a ruiva ajoelhou na frente da porta e colocou os grampos na fechadura, fazendo movimentos leves. Logo a porta faz um som de engrenagem.
— Está aberta! — ela abriu a porta.
Nick ficou impressionado com essa habilidade de Lizzie, até então desconhecida para ele. Ela entrou em um tipo de escritório.
— Como aprendeu isso?
— Steven... Quem mais poderia ser? — ela deu um sorriso.
Nick começou a mexer em uma estante, enquanto Lizzie sentou na cadeira da escrivaninha e começou a mexer na gaveta, auxiliada pela luz do isqueiro.
Ela tirou um pequeno baú de uma gaveta grande e funda, ela se adiantou e começou a abrir a fechadura com os grampos.
— Tem uma foto sua aqui... — disse Nick.
Ele pegou um quadro, que tinha a foto de Steven e Lizzie deitados na grama, fazendo caretas engraçadas. Ele deu uma risadinha e estendeu o quadro para ela. Assim que Lizzie abriu o baú, levantou o olhar para o quadro e um sorriso surgiu em seu rosto:
— Eu lembro desse dia... Foi no meu aniversário de 12 anos... — ela pegou o quadro e colocou na mesa. — Será que ele se importaria se eu levasse essa foto?
— Talvez... — ele riu.
Dentro da caixa tinha muitos papéis, muitos deles eram sobre contas bancárias que ela se lembrava bem, já viu muitas dessas desde que seu pai começou a enriquecer com os roubos. Outros eram e-mails com outros comparsas, e tinha até cartões postais e cartas que Lizzie e seu pai mandavam para ele. Ela sorriu lembrando das vezes que corria feliz até o correio, enquanto seu pai caminhava lentamente.
Porém , debaixo de toda aquela papelada tinha uma câmera de vídeo, ela tentou ligar, mas estava sem pilhar. Ela então remexeu a gaveta e encontrou algumas pilhas. Nick se aproximou para assistir com ela.
— Você não pode estar falando sério! — era uma voz feminina
A câmera ia se aproximando cada vez mais da porta do escritório, possivelmente a filha de Steven estava filmando, pois estava próximo do chão.
— Marla! — era a voz de Steven. — O Oliver foi preso!
— Ah, então quer dizer que você vai abandonar sua família outra vez por causa do seu amigo canadense?!
A câmera parou em frente a porta. Era possível ver o interior do cômodo através de uma fresta, Steven andava de um lado para o outro, e Marla estava parada em frente à escrivaninha de braços cruzados e com uma expressão séria.
— Você sabe que não é assim... — Steven
— Não há nada que você possa fazer! Acabou pra ele.
— Mas e a garota?! — ele disse irritado. — Você tem ideia do que pode acontecer com ela?! A Lizzie ta sozinha no mundo!!
Marla ficou boquiaberta e depois voltou a sua expressão séria, franziu as sombrancelhas e tomou fôlego:
— E você vai fazer o que?! Sequestrar a garota?! Steven, você já ta com muitos problemas, pare de arrumar outros!!
Steven deu um soco na parede.
— As vezes eu acho que eu deveria ter ficado no Canadá, porque assim eu não precisaria ouvir suas reclamações!! Eu vou fazer isso e você não pode me impedir!
A gravação acabou, mas a ruiva sentia que faltava algo. Lizzie ficou sem reação. Ela tomou a lanterna da mão de Nick e começou a revirar a gaveta.
— Isso ta errado!! Ele não foi me buscar! E não justifica a casa abandonada! — ela disse em tom alto.
— Lizzie! Calma! — Nick a segurou e olhou em seus olhos.
Os olhos de Lizzie já estavam cheios de água.
— Alguma coisa aconteceu Nick, ele não voltou pro Canadá!
Nick a abraçou.
— Não precisa entrar em pânico, nós vamos achar a resposta.
Ela o abraçou forte. Os dois ficaram um tempo assim até ouvirem um barulho vindo da sala. Eles se afastaram. Ficaram em silêncio por alguns segundos até ouvirem o mesmo barulho.
— Tem alguém tentando entrar... — Nick sussurrou.
Lizzie olhou em volta e depois olhou para o chão. Um piso falso.
— Steven, seu filho da puta... — ela sussurrou com um sorriso.
Ela escorregou para o chão e empurrou o tapete, levantou uma portinha no chão, onde tinha duas pistolas e um canivete, ela lembrava muito bem dele, foi ela que o presenteou com a faca. A ruiva deu uma pistola para Nick e pegou a outra, junto com o canivete.
Os dois foram para a sala, espreitando na escuridão. A porta subitamente se abre, como se fosse chutada, um homem surge na porta, careca, com as roupas encharcadas e pingando, atrás era possível ver outras duas pessoas.
— Parece um bom lugar... — disse o careca.
Os outros dois entraram.
Lizzie tentava manter a respiração normal, ainda que seu coração pulsava mais rápido a cada passo que o homem dava, ela estava agachada atrás do sofá, os dedos no gatilho e o canivete no bolso do short. Ela não fazia ideia do que fazer.
— Vocês não podem ficar. — disse Nick confiante, surgindo na sala.
"Uma distração?" ela pensou. O careca riu e se aproximou do rapaz.
— E quem vai me impedir? Você? — e riu alto.
A ruiva, ainda espreitando na escuridão, moveu-se levemente para trás do outro sofá, ficando mais perto de Nick. Ela entendeu o porquê de ele ter se mostrado daquela forma, aquele foi um voto de confiança para ela, assim ela poderia atacar sorrateiramente.
— Eu mesmo. — disse Nick, escorregando a mão para a cintura, pronto para sacar a arma e atirar.
Entretanto, o homem percebeu o movimento do garoto e pegou em seu pescoço, mas ele não esperava que Lizzie surgisse do breu, ela colocou o canivete em seu abdômen.
— Você não quer fazer isso... — ela disse em tom sério.
O homem olhou para a faca e depois para a ruiva, e percebeu que seu braço estava estendido na direção de seu companheiro, com a arma entre os dedos.
O careca engoliu em seco e deu uma risada irônica.
— Pare de bancar a durona, você não teria coragem... — ele disse, um pouco inseguro.
— Quer tentar a sorte? — abriu-se o sorriso maligno habitual de Lizzie enquanto ela fazia pressão no abdômen do homem com o canivete, até começar a escorrer sangue. — Eu adoro jogos!
A respiração do homem ficou ofegante.
— Solte o rapaz. — ela disse em tom sério.
O homem o soltou e tapou o corte com a mão, afastando-se.
— Você é surdo? — ela continuou — Vocês não podem ficar, a casa já está ocupada.
Eles começaram a recuar e ao sair fecharam a porta. Nick ia começar a falar, quando ela fez um sinal para ele ficar em silêncio e apontou a arma para a janela, ao lado da televisão. De repente ela atirou.
Gritos de pavor começaram a ecoar ao lado da casa, gritos femininos. Lizzie foi até a janela com seu sorriso psicótico.
— Vamos jogar um jogo... — ela começou ao colocar a cabeça pra fora. — Eu vou dar três segundos à vocês, assim vocês tentam correr o mais rápido possível pra eu não matar vocês... Que a sorte esteja ao seu favor... Um...
A dupla virou-se e saiu correndo.
— Dois...
Eles já estavam afastados, quando a mulher tropeçou e caiu na rua, o homem não deu atenção e continuou correndo.
— Três! — ela mirou no homem que continuava a correr e atirou em suas costas duas vezes, ele caiu no chão. A mulher levantou e mudou a direção em que corria, mas mesmo assim Lizzie conseguiu acertar seu pescoço.
Nick ficou espantado.
— Como você sabia? — ele indagou.
— Minha intuição não falha.
Ele a encarou por uns instantes.
— Como você consegue dormir? Sabendo que matou tantas pessoas? — ele questionou, ainda não crendo no que acabara de presenciar.
— Normal... — ela riu.
*** *** ***
Assim que o sol surgiu no horizonte, os dois jovens começaram a se arrumar, pegaram suas roupas no varal, prepararam os cavalos e saíram assim que a chuva cessou.
Os corpos sem vida dos invasores da noite passada estavam rodeados por infectados, que estavam ocupados demais para atacar os dois. Voltaram para a mata e pararam no lago outra vez. Enquanto os animais tomavam água, Lizzie e Nick procuravam frutas não venenosas para comer.
— Você acha que ele pode estar vivo? — Lizzie indagou.
— Quem? Steven?
— Uhum.
— Acho difícil... Mas pode ser que sim...
Ela sorriu.
Depois de alimentarem os cavalos e comerem algumas frutas, voltaram à estrada, voltando para Nova Washington. O céu ainda ameaçou voltar a chover, mas o vento carregava as nuvens escuras para o Norte.
A viagem estava tranquila, mas Nick parecia estar em outro mundo, talvez ponderando sobre o que leu no diário da garota.
— Ai! — Nick exclamou ao sentir algo bater em sua cabeça, ele olhou para o lado, mas não viu a ruiva, então olhou para trás. — O que faz aí?
— Bem, eu tava falando sozinha até agora...
— Ah, desculpa... — ele coçou a cabeça.
— Olha essa paisagem, que linda... — ela suspirou.
Na ponte que estavam passando era possível ver alguns prédios destruídos e desgastados com o tempo, iluminados pelo sol, que surgia de trás das nuvens escuras. Nick sorriu.
— Eu poderia te mostrar na foto que eu tirei, nas ao vivo é muito melhor... — ela comentou.
— Foto? — ele indagou.
— Uhum, eu peguei uma daquelas câmeras instantâneas no shopping, e tirei essa foto também. — ela se aproximou e mostrou uma foto que tirou do Nick andando com o cavalo, como se não tivesse rumo.
— Olha só! — ele riu — Eu nem percebi!
Ela riu e continuou andando. Os dois seguiram parte do caminho em silêncio, até Nick resolver puxar assunto.
— Você vai voltar para Ottawa mesmo?
— Hum? — ela olhou para ele e arqueou uma sombrancelha. — Não. Não para Ottawa. Eu voltaria para Quebec...
— Hum... Mas já pensou na possibilidade do seu pai não estar vivo?
— Já... — ela olhou para o céu e fechou os olhos. — Mas eu prefiro imaginar que ele está vivo...
— Entendo... — ele coçou a nuca. — Mas você poderia ficar, seria bom ter alguém como você na cidade...
Ela olhou para ele e sorriu.
— Não... Seu tio não iria me querer por perto...
— Eu posso convencê-lo.
— Não precisa... De qualquer modo, eu não vou ficar muito...
— Mas você não precisa ficar 24 horas na cidade, você pode sair, como saímos ontem...
— É impressão minha ou você ta tentando me convencer a ficar? — ela sorriu e arqueou uma sombrancelha.
Nick arregalou os olhos e depois passou a mão no cabelo.
— É que sei lá... Eu gosto da sua companhia... — ele corou.
— Então, se esse é o caso, eu posso tentar ficar... Mas eu não estou prometendo nada...
Nick sorriu.
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