Apocalipse
47 Ato de Guerra
Notas iniciais
Os dias se passaram extremamente calmos. Lizzie analisou os acontecimentos do mês com cautela, e parecia que a conspiração tinha cessado por um tempo. Talvez Matthew estivesse se precipitando no começo, e agora planejava os próximos passos com cuidado.
O inverno estava próximo de acabar, aos poucos a neve derretia e era possível sentir o mormaço em algumas vezes, antes do vento frio misturar-se com os ares quentes.
Sob o sol do meio dia, um grupo coordenado por Nick seguia viagem em uma caminhonete policial, tendo lugar na frente e atrás. Enquanto Íris dirigia o carro, Nick tomava o lugar do passageiro, no banco de trás havia três homens enviados para auxiliar na missão, e atrás Lizzie estava sentada com Nathan.
Lizzie parecia bem tranquila, sentada em uma das pontas, balançando a cabeça no ritmo de uma música que cantarolava enquanto batucava na lateral do carro, mas continuava observando o movimento dentro do carro. O rapaz ao seu lado permanecia quieto enquanto acariciava a pelagem branca de Snow, parecia perdido em seus pensamentos.
— Lizzie... — o rapaz a chamou, ainda com o olhar fixo no cão em seu colo. A ruiva apenas voltou o olhar para o pupilo, ajeitando o cabelo remexido pelo vento. — Eu tô com um pressentimento ruim...
— Sobre o quê? — ela rebateu.
— Não sei ao certo... Eu sonhei com o meu pai na noite passada...
A ruiva permaneceu em silêncio, lembrando do acontecido enquanto David ainda estava vivo. Ela nunca contou ao garoto o que realmente tinha acontecido, achou que seria melhor poupá-lo. Se aproximou do rapaz e passou a mão em seus cabelos, lhe lançando um sorriso.
— Fica tranquilo... Eu lhe contei sobre a situação crítica da prisão, e pra isso precisamos agir com calma. — aproximou-se do ouvido de Nathan e sussurrou. — Tenha cuidado com aqueles três, desconfie sempre de seus movimentos. Confie apenas em pessoas que você conhece a mais tempo...
Os dois trocaram um olhar, depois Lizzie voltou para sua ponta, voltou a cantarolar e balançar a cabeça no ritmo que ela mesma criou, como se nada estivesse acontecendo. Nathan a observou por alguns instantes, as vezes tinha a impressão de que a garota apenas fingia, pois ela era muito imprevisível. Não conseguia prever os movimentos de Lizzie, nunca sabia o que ela realmente escondia atrás de seu sorriso quando estava sã.
O carro finalmente parou. Observaram o local e notaram um grande hospital com a tinta desbotada. Nick desceu do carro e fixou o olhar na construção. Os demais desceram em seguida, apenas Lizzie ficou na parte de trás da caminhonete. Íris apoiou as mãos na cintura e franziu o cenho, fitando o hospital.
— Você não acha muito arriscado? — a morena indagou.
— E quando não é arriscado? — Lizzie rebateu com um leve sarcasmo na voz, fitando a amiga como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Mas precisamos de recursos...
— E o que vamos fazer? — Nathan indagou, voltando o olhar para a ruiva.
— Acho que você esqueceu que o capitão não se chama Lizzie. — a garota respondeu, abrindo um largo sorriso para o pupilo.
Lizzie voltou a batucar na lateral do carro enquanto assobiava, observando o modo como Nick lidava com a situação, ao mesmo tempo que media os mínimos movimentos dos outros três homens. O rapaz que estava no comando voltou-se para o resto do grupo e tomou fôlego para dar as instruções:
— Vamos nos dividir em grupos e cada um procura algo em específico. Mas eu ainda não sei o nomes de vocês. — Nick voltou o olhar para os três homens.
— Troy. — disse o primeiro, tinha a pele morena e o cabelo raspado, além de sua jaqueta manchada de sangue. — Esse é o Ben — apontou para um rapaz de cabelo preto, aparentando ser um pouco mais velho que Nick, tinha algumas cicatrizes de cortes pelo rosto. — E aquele é o Tyler. — apontou para o último, tinha o cabelo coberto por um capuz.
Nick assentiu enquanto assimilava a informação, depois tomou fôlego outra vez.
— Nathan, você vai com o Troy e o Ben procurar antibióticos e outros remédios que estiverem em bom estado. A Íris vai com a Lizzie, vocês duas procuram bandagens, gazes e soro. Eu vou com o Tyler e nós procuramos o restante.
O grupo começou a se preparar para entrar no hospital, checando se as armas estavam carregadas. Lizzie saltou da parte de trás do automóvel, com o pé-de-cabra em mãos e a mochila vazia nas costas, indo ao encontro de Nick.
— Você poderia me trocar de dupla... Seria melhor se eu ficasse no lugar do Nathan... — a ruiva sussurrou para o rapaz.
— Você? Sozinha com aqueles dois? Negativo. — ele rebateu num tom que apenas a garota escutou. — O Nathan consegue dar conta. Não confia nele?
— Confio. Mas deste modo você me impede de exercer minha função. Troca de lugar comigo, então. — a ruiva insistiu.
— Você precisa parar de procurar problemas... — o rapaz rebateu, ponto fim à discussão.
Ela revirou os olhos e bufou, mas Nick apenas ignorou-a. Lizzie seguiu até onde Nathan estava, puxando-o para um canto.
— Eu sei que já disse antes, mas não custa nada repetir. Seja cuidadoso e mantenha a calma. — a ruiva lhe instruiu em seu tom mais sério, depois puxou sua pistola da cintura, com mais dois cartuchos carregados. — Fica com a minha arma, você maneja melhor do que um revólver...
Nathan entregou o revólver, junto com a munição, e guardou a pistola que Lizzie lhe deu. A garota agachou na frente do pastor belga, repousando a mão em sua cabeça.
— Cuida do Nathan, tá bom? — ela disse para o cão, recebendo uma lambida como resposta.
Voltaram para perto do resto do grupo. Nick estava conferindo o interior do hospital através da porta de entrada, sendo possível abrir apenas uma brecha para a passagem. O local estava totalmente escuro, por mais que ainda estivesse claro, mas ainda era possível ver marcas de sangue seco nas paredes e no chão, além de silhuetas humanas que se arrastavam pelos corredores. O rapaz forçou um pouco mais a porta até que abrisse mais, para o caso de precisarem sair às pressas. A porta emitiu um rangido alto o suficiente para atrair a atenção dos infectados.
— Atirem apenas quando necessário... — Nick sussurrou para o grupo antes de passar o corpo pela porta.
Um por um passaram pela porta, seguindo agachados, esgueirando próximo da parede, até chegarem às cadeiras da recepção. Observaram os infectados seguindo na direção da porta de entrada. Estava escuro o suficiente para o grupo passar despercebidos pelos infectados. Após uma checagem rápida, Lizzie sinalizou que tomaria rumo às escadas, junto com Íris, e logo as duas seguiram atravessando a recepção com extrema cautela, desaparecendo atrás de uma porta dupla.
O resto do grupo seguiu caminho sem fazer o menor ruído, dividindo-se ao chegar no fim da recepção. Nick seguiu por um lado, enquanto Nathan foi pelo outro. Seguindo os passos de Snow, Nathan manteve o corpo rente à parede, passando com facilidade por um pequeno grupo de infectados. Quase no fim do corredor, o pastor belga parou, farejando o chão perto de uma porta semiaberta. Nathan forçou um pouco a visão no escuro, lendo a placa sobre a porta.
— O armazém é aqui... — o rapaz sussurrou, empurrando um pouco a porta e adentrando rapidamente.
Permaneceu quieto ao entrar, tentando enxergar alguma coisa no meio do breu. Os dois homens atravessaram a porta e fecharam-na em seguida, deixando a escuridão mais intensa. Uma lanterna se acendeu, voltando a luz para o rapaz, que ainda estava agachado.
— Isso vai atrair atenção. — Nathan sussurrou.
— Atenção? Você está vendo alguém aqui por acaso? — disse Ben, jogando a luz da lanterna nos armários nas paredes.
— Fale mais baixo! E se tiver algum infectado aqui? — o rapaz insistiu.
— Relaxa, Nathan, não tem ninguém aqui... — disse Troy, no mesmo tom de Ben. O homem jogou uma bolsa vazia para o rapaz. — Levanta daí e faz alguma coisa útil.
Sem outra opção, Nathan se levantou e abriu a mochila, para que Ben e Troy enchessem-a com medicamentos. Ainda sentia certo receio de estarem fazendo aquele serviço daquela maneira, Lizzie sempre dizia para o rapaz checar o ambiente antes de fazer qualquer coisa. Quando a bolsa estava quase cheia, Snow começou a latir, avisando que algo estava próximo.
— Puta merda!! — Ben exclamou, deixando visível seu desespero.
Antes que o rapaz pudesse virar para ver o que tinha atrás de si, Troy o acertou com um chute no estômago, fazendo-o desequilibrar e cair para trás, em cima de um infectado. Antes que pudesse levantar, Nathan sentiu as mandíbulas do infectado fechando-se em seu ombro, rasgando sua pele e fazendo-o gritar de dor. Ben, percebendo o ocorrido, sacou uma pistola e mirou na direção do rapaz, contudo, o pastor belga jogou-se contra o homem, fechando seus dentes afiados em seu pulso, fazendo-o pesar e voltar-se para o chão.
O disparo cortou o silêncio, mas a bala atingiu o chão. Ben soltou uma interjeição de dor e cobriu o pulso rasgado com a mordida de Snow, mas não teve tempo de reagir, o cão lançou-se no homem outra vez, mordendo com força sua perna. Nathan por sua vez lutava para se soltar do infectado, debatendo-se violentamente, até alcançar um canivete em seu bolso e golpear a cabeça flácida.
Desesperado, Troy tirou a bolsa das mãos do rapaz e correu na direção da porta, atravessando a mesma e batendo-a com força. Ben conseguiu desvencilhar-se de Snow, perdendo um pedaço da perna e da barra da calça no processo, mas o cão estava tomado pela fúria. Não contente, jogou todo o seu peso no homem, fazendo-o cair, e buscando o pescoço exposto em seguida, dilacerando-o com mordidas firmes e alguns trancos.
Nathan, tentando estancar a ferida em seu ombro, notou uma porta aberta do outro lado do cômodo, por onde entravam mais infectados. Alcançou a arma de Ben, que estava caída no chão, mirando na direção dos infectados, com a mão consideravelmente trêmula.
No andar de cima, Íris e Lizzie enchiam uma caixa de papelão com tudo o que conseguiam encontrar, pois as mochilas já estavam cheias.
— Caralho! Hoje deve ser meu dia de sorte! — Lizzie comentou, com o olhar fixo onde um infectado vestido como um policial estava caído, tendo uma escopeta em seu colo.
— Vai ter sorte assim na puta que te pariu, Lizzie! — a morena rebateu em tom risonho. — Primeiro aquele machado, agora a escopeta? Você fez algum pacto por acaso?
A ruiva apenas riu do comentário e seguiu na direção do infectado, acertando o pé-de-cabra em sua cabeça para garantir que não se levantaria mais, depois pegou a arma e tateou os bolsos do uniforme policial, encontrando algumas balas que não tinham sido utilizadas ainda.
— Vai descendo com a caixa, pode deixar que eu levo as mochilas... — disse a ruiva, checando se a escopeta estava carregada.
Íris assentiu e pegou a caixa, saindo da sala com a caixa. Lizzie guardou as balas no bolso de sua calça e seguiu com a escopeta carregada, jogando a segunda mochila sobre os ombros e checando o local para ter certeza de que não tinha esquecido nada. O som de disparos começou a ecoar do andar de baixo, chamando sua atenção.
Atravessou a porta com pressa e seguiu na direção das escadas, desviando dos infectados que também seguiam na direção do som. Saltou alguns degraus para chegar mais rápido ao fim, deparando-se com o caos na recepção: Troy tentava conter uma horda de infectados, atirando com uma pistola, enquanto era coberto por Tyler em uma das pontas.
— Corram pra saída, seus imbecis! — a ruiva exclamou, sacando seu revólver para ajudar.
Sem pensar duas vezes, Troy saiu correndo na direção da saída. Tyler ainda tentou resistir, mas acabou por fazer o mesmo. Antes que Lizzie pensasse em fazer o mesmo, foi puxada de volta para trás da porta que levava as escadas, tendo um infectado agarrado às mochilas que trazia nas costas, sendo esse o motivo de não ter sido mordida. Jogou o peso de ambos os corpos para trás, até colidirem com a parede. Para desvencilhar-se, Lizzie trazia o peso dos dois corpos para frente, depois jogava-os para trás novamente, fazendo o infectado bater a cabeça diversas vezes na parede até parar de se mover.
Voltou à recepção e cruzou-a rapidamente, correndo para a saída. Troy e Tyler recuperavam o fôlego perdido na corrida, apoiados na caminhonete. Lizzie se aproximou e jogou as mochilas e as armas no compartimento do automóvel, notando que a caixa de Íris e a bolsa de remédio estavam lá também. Olhou em volta e notou que só haviam os três ali, entretanto, antes que pudesse perguntar do restante, a porta de entrada se abriu outra vez e Nick e Íris atravessaram-na.
A morena tentava estancar uma ferida no pulso direito, por onde saía bastante sangue, enquanto Nick parecia cobri-la, aproximando-se de costas, ainda com a arma apontada na direção da construção.
— O que aconteceu?! — Lizzie indagou, um tanto eufórica.
— Ela foi mordida... — Nick respondeu.
A ruiva ficou estática no lugar, enquanto observava Íris se aproximando na caminhonete com uma expressão de dor. A morena puxou a abertura com compartimento e jogou-se nela, deixando o braço ferido esticado. "Decepar o lugar da mordida funciona?" "Se for rápido, sim..." as vozes ecoaram em sua cabeça, trazendo a solução para tal situação. Sem pestanejar, Lizzie pegou o machado adquirido no hospital, estava em perfeito estado e a lâmina parecia afiada o suficiente para cortar qualquer coisa.
Subiu no compartimento e levantou o machado, segurando-o firmemente com as duas mãos. Íris notou o movimento da amiga, mas não teve tempo de indagar o que a ruiva iria fazer, Lizzie trouxe o machado para baixo com rapidez, decepando parte do braço de Íris e fazendo seu grito de dor ecoar pelo local. Os outros estavam em choque, com o olhar vidrado na garota. Lizzie jogou o machado ensanguentado no compartimento e voltou-se na direção da caixa de papelão.
— Vocês vão ficar aí olhando ou vão fazer alguma coisa?! — a ruiva esbravejou, pegando algumas bandagens e algo que pudesse parar o sangramento até voltarem para a prisão.
Nick saiu do transe e correu para ajudar as garotas. Lizzie lhe entregou as coisas e depois observou ao redor:
— Cadê o Nathan?! — indagou em um misto de preocupação e ansiedade.
Troy empalideceu ao lembrar do ocorrido, e tentou parecer calmo, mas não escapou dos olhares cortantes da ruiva. A garota saltou do compartimento, sentia o sangue começar a ferver, puxou o revólver outra vez e apontou para a cabeça do homem.
— Você tem dez segundo pra me dar uma explicação plausível! — ela esbravejou, colando a arma junto ao crânio de Troy.
— A gente tava no armazém do térreo e...
Sem paciência para ouvir a explicação por completo, a garota pegou o pé-de-cabra e o machado e voltou para dentro do hospital, golpeando cada infectado que via em sua frente, abrindo passagem. Ao encontrar o armazém, notou que havia um aglomerado de infectados em frente a porta, e não hesitou em atirar até ficar sem balas, sendo forçada a finalizar o serviço com o machado, ficando coberta de sangue. Tentou abrir a porta, mas parecia que estava emperrada.
Com alguns chutes, conseguiu abrir a porta, tendo que fazer força para empurrá-la, pois estava presa com alguns corpos desfalecidos. Auxiliada pela luz de uma lanterna jogada no chão, notou o corpo de Ben sendo devorado por outros dois infectados, além da garganta totalmente aberta. Afim de evitar problemas, abriu a cabeça de ambos com o pé-de-cabra, depois recolheu a lanterna do chão.
Encontrou o rapaz sentado em um canto, com a cabeça baixa, Snow estava deitado em seu colo, coberto de sangue. O pastor belga apenas levantou a cabeça e emitiu um ganido baixo ao notar a ruiva.
— Nathan! — ela exclamou ao reconhecê-lo, se aproximando e ajoelhando ao seu lado.
O rapaz levantou a cabeça, mostrando um semblante cansado e ensanguentado. Ele se inclinou na direção da garota, mas ela foi mais rápida e o envolveu em seus braços, passando a mão em seus cabelos.
— Vamos voltar, estão nos esperando no carro... — disse a garota, tentando fazê-lo levantar, porém ele a afastou.
— Eu não posso... Fui mordido... — Nathan respondeu com voz fraca.
Ela ficou estática, sentindo as lágrimas acumularem nos olhos.
— Você também não... Como isso aconteceu? — indagou com a voz chorosa, ainda não acreditando no que tinha acontecido.
— Estávamos pegando os remédios... Um infectado apareceu e o Troy me jogou contra ele... Eu não consegui me soltar a tempo e fui mordido no ombro... — o rapaz respondeu, puxando a blusa para mostrar o local da mordida. Lizzie cobriu a boca com a mão, sem ter palavras. — Eu não quero me transformar, Lizzie...! Eu não quero...! Por favor... Acaba com isso...!
Trocaram um olhar. Era possível ver o sofrimento de Nathan através de seus olhos molhados, e as lágrimas que escorriam pelo seu rosto traziam um pesar para a consciência de Lizzie. A garota sentou-se no chão e tomou o rapaz nos braços, como se ele fosse uma criança, ele deitou a cabeça no peito da ruiva e fechou os olhos.
— Promete que vai cuidar do Snow pra mim? — ele indagou.
— Prometo... — ela respondeu, acariciando seus cabelos, enquanto a outra mão alcançava a pistola carregada.
Lizzie começou a cantarolar uma canção calma e melancólica, como se fosse uma canção de ninar, enquanto trazia a pistola para trás da cabeça de Nathan, apoiando a ponta do cano na mesma, com a mão trêmula.
O disparo trouxe o silêncio para o local.
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