Apocalipse
48 Desejo Concebido
Notas iniciais
— Continua fazendo pressão aqui! Ela tá perdendo muito sangue! — disse Nick, eufórico pela situação em que o grupo tinha se metido.
Sangue jorrava do braço decepado de Íris, encharcando o compartimento da caminhonete. A morena tinha perdido a consciência em função da dor, e Nick temia que ela não aguentasse até voltarem para a prisão. Para adicionar mais caos à situação, Lizzie ainda não tinha retornado, tendo que contar com a ajuda de Tyler para tratar da morena.
Seguindo as ordens de Nick, Tyler começou a fazer pressão no braço da garota, na tentativa falha de parar a circulação do sangue naquele local.
— Isso não tá funcionando! — Tyler o alertou, também estava eufórico.
Nick passou os olhos rapidamente pelo compartimento e depois largou o braço de Íris, indo até a caixa com suprimentos e remexendo-a, encontrando algumas luvas plásticas descartáveis. Com algumas batida de coração, voltou para perto da garota desacordada, enrolando a luva em torno de seu braço, próximo de onde o machado tinha cortado, e amarrou com força, parando a circulação sanguínea. Tyler suspirou aliviado, contudo, o outro ainda estava inquieto, pegou as bandagens que Lizzie tinha lhe dado e enrolou-as no pulso da garota.
Enquanto o rapaz tomava as providências cabíveis, a porta de entrada do hospital abriu-se outra vez. Snow passou pela porta primeiro, seguindo com passos lentos, arrastando as patas no chão, e Lizzie veio em seguida, banhada com o sangue escuro dos infectados. Em uma das mãos a ruiva segurava as armas descarregadas, e na outra o machado e o pé-de-cabra, também cobertos de sangue, que deixavam uma trilha de pingos vermelhos por onde passava. O olhar esmeralda estava vazio.
Ela deu alguns passos, se arrastando para longe da porta, ainda cabisbaixa, depois parou e apontou para Troy com o machado e o pé-de-cabra.
— Você... — ela começou, a voz soou fraca e inexpressiva. — Eu te dou sete segundos para sumir do meu campo de visão.
Troy estremeceu com o comentário, confuso com o mesmo. Os olhares dos outros de voltaram para a ruiva, que continuava cabisbaixa, mas ainda era possível ver as lágrimas escorrendo por seu rosto, levando consigo alguns respingos de sangue.
— O-o quê? — Troy gaguejou, sentindo o coração acelerar.
— UM! — a ruiva esbravejou, jogando o corpo para frente e seguindo com passos rápidos para a caminhonete. — DOIS! — jogou as armas ensanguentadas no compartimento e tomou a escopeta nas mãos, mesmo que a visão estivesse embaçada por causa das lágrimas. Por extinto, Troy virou-se e começou a correr.
Lizzie puxou a manga da blusa que usava por baixo da jaqueta policial e limpou o rosto, livrando-se das lágrimas que dificultavam mirar no alvo. Era possível ver seu semblante mortalmente sério, os olhos opacos estavam inexpressivos, ansiando por vingança. Sentia o sangue latejando em suas veias, tudo o que sentia era ódio. Com agilidade, destravou a escopeta e mirou no meio das costas do homem.
— Três! — disse Lizzie, puxando o gatilho automaticamente.
Troy caiu para frente com o impacto da bala, sentindo as forças se esvaindo. A dor que sentia era imensurável. Lizzie puxou outra bala de seu bolso, recarregando a escopeta. "QUATRO" ela esbravejou, pressionando Troy a levantar e tentar sair do campo de visão da ruiva, contudo, assim que se pôs de pé, a garota deu sequência a contagem, disparando outra bala.
— Levanta, filho da puta! — Lizzie o pressionou outra vez, abrindo um sorriso fútil enquanto observava-o forçar os músculos para levantar outra vez. — Seis! — puxou outra bala e recarregou a arma, notando que Troy permitiu que o corpo caísse no chão com pesar.
Com um sorriso diabólico de satisfação, a ruiva se aproximou com passos curtos, voltando a cantarolar. Parou ao lado do homem, notando que ele tentava levantar-se outra vez. "Sete" disse Lizzie com uma voz meiga, pisando com força na cabeça de Troy, ouvindo o nariz quebrar. Chutou-o para o lado, fitando com satisfação os olhos marejados do homem e o rosto molhado com o próprio sangue.
Lizzie sorriu de um jeito assustador e se agachou ao lado do homem, fitando o fundo de seus olhos turvos em lágrimas de dor.
— Você sabe porque eu fiz isso, certo? Você está ciente de que deixou o meu pupilo ser mordido. E agora ele está morto. — manteve o semblante inexpressivo por alguns instantes, junto com o olhar vazio, depois abriu um largo sorriso psicótico outra vez. — Gostaria que soubesse que eu não gosto de pessoas que ameaçam minha família... Diga-me, Troy, você faz parte da conspiração?
Troy franziu o cenho e estreitou os olhos, fitando a garota com ódio. Aquilo foi o suficiente para Lizzie ter certeza de que ele tinha envolvimento com os planos de Matthew, lançou um olhar debochado para o homem e depois puxou ar para a fala:
— Então o assunto é mais pessoal do que eu imaginava... — soltou um risinho sem humor e apontou a escopeta para o rosto de Troy. — Últimas palavras?
— Vai se foder, sua vadia! — ele rosnou com ódio.
— Hum... Talvez mais tarde... Ah, quando eu mandar o Matthew para o inferno junto com você, cumprimente ele por mim. Oh, espere... Você não vai poder. — sem dizer mais nada, colocou a ponta do cano na boca do homem e puxou o gatilho, destruindo a nuca de Troy por completo.
Suspirou de cansaço e levantou-se, dando meia volta. Apoiou a escopeta em seu ombro e voltou a caminhar lentamente na direção da caminhonete. Os olhos verdes percorreram o semblante de Tyler por alguns instantes, e enfim lembrou-se que era apenas outro estranho.
— E você? Tem envolvimento com o Matthew? — ela esbravejou, franzindo o cenho e encarando-o com um olhar medonho.
— Não! — respondeu com firmeza. — Você é louca! Não precisava ter matado ele!
Lizzie balançou os ombros e jogou a arma no compartimento, tomando rumo para o banco do motorista em seguida. Tyler voltou o olhar para Nick, buscando apoio para a discussão, mas o rapaz estava ocupado demais com Íris.
— Você vem ou não? — Lizzie indagou, enquanto ligava o carro.
— Com você? — Tyler rebateu com deboche, rindo sem humor em seguida. — Prefiro tentar a sorte aqui fora.
— Como queira... — ela respondeu com indiferença, batendo a porta do carro e dando partida.
* * *
A madrugada lá fora parecia mais sombria do que antes. Horas haviam se passado desde o incidente, e explicar o ocorrido para a tenente não foi algo fácil.
Íris despertou de seu desmaio, encarando o teto da enfermaria. Sentia a mente embaralhada, como se todo o ocorrido daquela tarde fosse apenas um pesadelo. Trouxe o braço direito para a cabeça, mas não sentiu a mão. Assustada, voltou o olhar para o pulso, vendo o mesmo enrolado com bandagens. Sentiu a respiração acelerar e tentou sair de onde estava, sentindo o outro braço doer.
— Calma Íris, está tudo bem agora... — disse Lizzie, que estava sentada no chão, ao lado da cama, enrolando algo com papel preto, auxiliada pela luz de uma vela.
— Como assim "calma"?! O que aconteceu? — Íris indagou eufórica.
— Você foi mordida, mas eu consegui decepar sua mão antes que a infecção se espalhasse... — rebateu com calma.
A morena suspirou pesadamente e voltou a repousar as costas no colchão, voltando a encarar o teto.
— Obrigada, Lizzie... Mas eu preferia que você tivesse me matado... Eu era destra.
A ruiva suspirou e levantou-se, apoiando as mãos na beira da cama, enquanto fitava a amiga nos olhos. Era possível ver o cansaço estampado no semblante de Lizzie, não tinha dormido nada a noite toda.
— Isso não importa. — Lizzie comentou. — Assim que o soro terminar, você pode sair. Eu vou avisar a tenente que você acordou, e procurar mais durex pra terminar aquilo...
A morena assentiu e depois seguia a outra com o olhar até que atravessasse a porta. Passou a mão esquerda no rosto, sentindo uma imensa tristeza percorrer seu corpo, além da vontade de chorar. O que faria dali para a frente?
Como orientado por Lizzie, esperou o soro acabar e depois retirou a agulha de seu braço, com certa dificuldade. A todo momento esquecia da mão decepada. Deixou a maca e esticou o corpo. O sol começava a nascer no horizonte, iluminando o local pela janela.
Deixou a sala e seguiu andando pelos corredores. A prisão estava mais banal do que nunca. Retornou ao bloco de celas, subindo as escadas lentamente. Adentrou em sua cela, passando o olhar triste pelo local.
— Íris? — Ellie murmurou, ainda enrolada mas cobertas.
— Olá Ellie... — suspirou tristemente.
A menina levantou da cama, cumprimentando a mais velha com um abraço apertado.
— Eu fiquei preocupada... A Lizzie disse que não sabia quando você iria acordar... — disse a menina, ainda envolvendo a cintura de Íris.
— Não precisava se preocupar... Eu estou bem... — tentou sorrir, mas não conseguiu. Ellie levantou o olhar, fitando os olhos da mais velha.
— O Snow está estranho... Ele está debaixo da cama desde que chegou. Por mais que eu o chame, ele apenas rosna pra mim...
— Vou ver como ele está.
Ellie a soltou e se afastou com alguns passos, parando ao lado das grades. Íris se agachou em frente à cama, observando o cão branco deitado sob o colchão. Esticou a mão na direção de seus pelos, chamando-o suavemente. Sentiu os dentes do cão se fechando com força em seu braço, a morena urruou de dor e recolheu o braço, sentindo os dentes afiados rasgarem dua pele. Íris caiu sentada, mirando o espaço entre a cama e o chão totalmente incrédula.
Snow finalmente se retirou do escuro, com o olhar vazio fixo em Íris, a boca estava suja com o sangue da garota e havia sangue escuro coagulado em seu pelo branco. O cão não demonstrava sinais de que estava vivo.
— Ellie sai daqui! — Íris exclamou, notando que Snow já estava infectado. A menina correu para fora da cela, sem pestanejar.
O pastor belga notou o movimento e lançou-se na direção da menina, ignorando a morena. Íris conseguiu agarrar sua pata traseira no último instante, conseguindo impedi-lo. Snow voltou-se furiosamente na direção da mão da garota, abocanhando-a com força e fazendo-a gritar novamente. A dor era imensurável, mas Íris tinha que suportá-la.
A mão finalmente cedeu, sentindo a pata peluda do cão escorregar por entre seus dedos, contudo o pastor belga foi golpeado na cabeça pelo pé-de-cabra de Lizzie, mas não era a ruiva que o manuseava, e sim sua irmã. A cabeça de Snow fora esmagada contra o chão, sendo possível ver seus miolos, e o sangue que escorria em abundância pelo chão de ferro, escorrendo por seus buracos. Lilian soltou a arma e cobriu a boca com as mãos.
Jon chegou em seguida, fitando a cena totalmente inexpressivo.
— E-eu o matei... — Lilian comentou quase sem voz, com os olhos marejados.
— Não, Lilian... Ele já estava morto. — Íris a corrigiu, se arrastando para fora da cela, deixando a mostra as mordidas fundas do cão.
— Meu Deus... — a outra garota acrescentou, apertando os olhos com força para não ver a cena, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos.
— Vou te levar para a enfermaria. — disse Jon, se aproximando para tomar a morena nos braços, mas ela o afastou.
— Não! — exclamou Íris, levantando o olhar, já não podia mais segurar as lágrimas. — Eu já perdi um braço e serei totalmente inútil se perder o outro! Eu não quero isso... A Lizzie não vai aceitar se eu pedir a ela... Por favor, Jon, acabe com isso logo...
O homem ficou estático, não esperava tal ato vindo de Íris.
— Me mata logo, Jon! Se ela voltar vai ser pior...! — Íris suplicou.
Jon, sem ver outra alternativa, puxou a arma da cintura, apontando na direção da morena. Ficou alguns instantes juntando forças para executar o ato. Virou o rosto e puxou o gatilho, ouvindo o corpo de Íris cair com pesar no chão. Estava feito. Ele suspirou tristemente e depois voltou o olhar para trás, onde Lilian estava, mas sentiu o sangue gelar ao ver Lizzie parada nas escadas, com o olhar vazio fixo no homem.
— O que você fez? — a ruiva indagou em um tom assustadoramente calmo.
* * *
Nathan alcançou a arma de Ben, que estava caída no chão, mirando na direção dos infectados, com a mão consideravelmente trêmula. Snow ainda estava com os dentes engajados no pescoço dilacerado de Ben, e o homem já estava morto. O cão parou, levantando as orelhas e ouvindo os grunhidos dos infectados, rosnou e deixou o pescoço sangrento. Três disparos e a munição finalmente tinha acabado.
Desesperado, Nathan buscava uma saída com os olhos, mas a dor em seu ombro não permitia por as ideias em ordem. O pastor belga notou o quão próximo os infectados estavam, e não hesitou em atacá-los, abocanhando com força a perna do primeiro.
— Não, Snow! — o rapaz exclamou, mas já era tarde, o cão tinha tido contato direto com o sangue contaminado.
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