Apocalipse
18 Aniversário
Notas iniciais
Nick finalmente abriu os olhos, como se despertasse de um sonho longo e perturbado. Por um tempo ficou observando o teto da sala, vendo que uma fraca luz iluminava o cômodo e projetava uma sombra que se estendia por quase toda a parede ao lado. Ele percebeu que uma música calma e baixa preenchia o cômodo, não deixando-o tão solitário.
Ele suspirou e virou a cabeça para o lado da parede, viu os aparelhos eletrônicos da ala médica. Achou tudo aquilo muito estranho, pois a última coisa de que se lembrava era que estava em um pedaço de mata com Lizzie. Lizzie... Onde ela estaria? O que tinha acontecido? Foi quando ele percebeu que algo grave havia acontecido e se impulsionou para a frente, fazendo seus braços doerem, por causa das agulhas presas à ele.
– Calma. — a voz de Lizzie soou calmamente do outro lado da sala. — Tá tudo bem agora...
Nick virou a cabeça para o lado e suspirou de alívio ao vê-la bem. A ruiva estava sentada na cama ao lado, Aika estava junto dela, deitada em um canto da cama. Lizzie tinha uma cesta cheia de novelos de lã e em suas mãos parecia ser um suéter, mas este parecia ser pequeno para se vestir, e no criado-mudo tinha uma pilha de livros e uma garrafa vazia.
– Achei que você não fosse acordar mais... — a garota comentou.
O rapaz voltou a deitar na cama e virou a cabeça na direção da ruiva.
– O que aconteceu? — ele indagou.
Lizzie moveu uma pequena vela de um criado-mudo a outro, de modo que ficasse sobre a pilha de livros, iluminando a outra metade do cômodo.
– Você foi baleado... Tenho certeza que foi um tiro de rifle. — ela fez uma pausa e voltou a confeccionar o suéter. — Eu consegui te trazer de volta a tempo e te emprestei um pouco do meu sangue...
– To te devendo duas então... — ele sorriu.
– Duas? Que eu saiba é uma só.
– Não, são duas.
– Aquela vez no Canadá, que eu quase fui estuprada, conta como uma. Você acha que ele ia me deixar sair com vida? — ela o fitou arqueando uma sobrancelha.
– Vai saber...
Ele fechou os olhos e o silêncio reinou no cômodo por alguns minutos que pareceram uma eternidade. Nick voltou a observá-la, ela estava tão tranquila... Como se o caos do mundo atual na tivesse afetado-a, como se o caso Thompson nunca tivesse sido mencionado, como se o rapaz nunca tivesse ficado em coma. Apenas suas mãos se moviam em ritmo moderado em um movimento constante, construindo o tecido daquele suéter rosa e branco.
– Há quanto tempo eu tô aqui? — Nick perguntou depois de um longo tempo em silêncio.
– Três semanas. — ela respondeu calmamente.
– Três semanas?! Caralho! Por que não me acordou?!
– Acredite, eu tentei... Mas você estava em coma, tudo o que eu podia fazer era esperar...
O rapaz ponderou por algum tempo e voltou a observá-la.
– Terminei. — ela disse, tirando as agulhas de tricô.
– Mas não é muito pequeno para se vestir? — indagou o rapaz.
Lizzie começou a rir, uma risada divertida e descontraída. Nick a fitou confuso, esperando uma explicação.
– Não é para mim, Nick, é para a Aika.
– Ahhh... Entendi...
Lizzie vestiu a collie com o suéter, Aika por sua vez, abanou a cauda e lambeu a mão da garota, mas logo ela tirou o suéter de sua companheira, por causa do calor.
– Agora você já tem o que vestir no inverno. — disse a ruiva para a collie, passando o indicador em seu nariz úmido.
Aika latiu e lambeu a palma da mão de Lizzie, essa era sua forma de agradecimento. A garota dobrou o suéter e colocou na cesta, debaixo dos novelos de lã.
– Parece que você andou bem ocupada... — Nick comentou.
– Pois é... Eu precisava me ocupar enquanto tomava conta de você...
– Como assim? — ele arqueou uma sobrancelha.
– No seu primeiro dia de coma o Thompson veio aqui, ele ia te sufocar com o travesseiro, mas eu o impedi... Desde então ele não voltou mais.
– Mas é um filho da puta mesmo...
– Sim, ele é, além disso ele confessou ter matado o Steven e a família dele... — a garota abaixou o olhar por um instante, mas logo voltou o olhar para o rapaz.
– Você parece tão tranquila com isso.
– A vingança é um prato que se quebra na caras dos filhos da puta, meu caro Nick. — ela sorriu.
– Estou contigo. — ele retribuiu o sorriso. — Então você deve estar no jogo também...
Lizzie balançou a cabeça positivamente.
– Mas eu já estive pensando a respeito, vou desmascarar esse maldito! Vou foder com a vida dele, dentro dos limites da sociedade é claro, não queremos chamar a atenção do seu tio não é? E temos que fazer isso antes que ele foda com a nossas vidas... Mais... — a garota coçou a nuca
Nick assentiu positivamente.
– Então estamos juntos a qualquer circunstância. — disse Nick. — Tudo o que descobrirmos devemos compartilhar entre nós, além de ficarmos de olho nele...
– E temos que achar o seu mercenário também... Desconfio que seja o Thompson, mas aquele sorriso... — ela parou e ficou ponderando sobre.
Nick virou-se e fitou o teto por um tempo.
– Você sabe que dia é hoje? — ele perguntou.
– 17 de Junho, se não estou enganada...
O rapaz começou a rir baixinho, enquanto a ruiva o fitava intrigada, com um leve sorriso no rosto.
– Qual é a graça? — ela perguntou.
– Hoje é meu aniversário... Agora eu tenho 19 anos. — ele sorriu.
– Ahh, feliz aniversário!
Lizzie foi até ele e começou a tirar as agulhas do soro e os fios dos aparelhos de Nick e depois o abraçou demoradamente.
– Obrigado... — ele disse assim que se afastaram.
– Se você tivesse me falado eu tinha feito algo pra você...
– Não precisa, você me salvou, outra vez, já é um presente... — ele sorriu.
O sol de outra manhã surgia no horizonte, iluminando o cômodo. Uma brisa fresca entrou pela janela aberta e apagou a vela, que ainda lutava em ficar acesa. Lizzie sentou na beira da cama do rapaz e sorriu.
*** *** *** *** ***
Horas se passaram, os dois ficaram conversando sobre diversos assuntos até o sol começar a projetar sombras lá fora. E juntamente com isso, Alice adentrou na sala e quase desmaiou ao ver o irmão acordado, durantes as semanas havia se acostumado a ver Nick "dormindo". Lizzie aproveitou essa oportunidade, pegou sua cesta e os livros e saiu de fininho com a collie, com um sorriso leve em seu rosto.
Nick permaneceu naquela sala por mais um tempo, e ao decorrer do dia a sala foi enchendo, primeiro Juliette foi visitá-lo, levando uma caixa embrulhada com papel colorido. Logo Íris, Thomas, Josh e Úrsula foram visitá-lo também.
Todos lhe faziam perguntas e contavam o que tinha acontecido enquanto ele estava dormindo, quando Ellie entrou correndo na sala e se jogou na cama, abraçando Nick. Lizzie adentrou na sala em silêncio e encostou-se na parede mais vazia, a que ficava mais próximo de sua cama.
– Olha Nick! — Ellie estendeu as mãos na direção do garoto, com uma folha de papel colorida entre os dedos.
Nick pegou a folha e observou o desenho que ela havia feito, onde mostrava os três (Nick, Lizzie e ela mesma) em um campo florido e Aika correndo pela grama com o gatinho cinza. O rapaz sorriu e bagunçou os cabelos da menina.
– Ficou muito bonito Ellie.
Os demais voltaram a falar, mas Nick não estava prestando atenção, seu olhar estava focado em Lizzie que, após um longo bocejo, começou a fitar através da janela. Ela estava visivelmente cansada.
Por quanto tempo deve ter ficado acordada naquela madrugada? Quantas noite teria passado em claro? Tudo por sua causa. Outro bocejo demorado, e dessa vez os olhos começaram a lacrimejar, ela esfregou os olhos e os fechou seguida.
– A Li ficou acordada por todas as noites, se é o que você quer saber... — disse Josh, notando os olhares do rapaz.
– Verdade... — começou Íris. — Sempre que eu vinha aqui ela estava acordada, teve só uma vez que ela estava cochilando, mas subitamente abriu os olhos na minha direção. Acho que ela se assustou tanto quanto eu.
Josh e Íris riram do comentário. O rapaz notou os olhares de Juliette para a ruiva, o ciúme era visível em seu rosto.
– O que foi July? — perguntou Nick.
– Ah, nada... — ela começou baixinho — Mas eu percebi que ela se preocupa bastante com você, sempre que eu vinha visitá-lo ela estava aqui, parecia que tinha até medo de que acontecesse algo, como se ela soubesse de algo... Tem algo acontecendo entre vocês dois?
A sala ficou em silêncio e os olhares voltaram para Nick. O rapaz ia responder, mas a ruiva tomou a palavra.
– Falar pelas costas é feio Juliette... Qual é o problema de me perguntar diretamente? — ela indagou, ainda com os olhos fechados.
Juliette estreitou os olhos, fitando a ruiva com uma pontada de raiva, sem saber o que responder.
– Tá na cara que você ta escondendo algo... — Juliette argumentou, sem ter a certeza do que estava dizendo.
– Ah, você quer uma biografia completa agora? — ela abriu os olhos e fitou a garota com seriedade. — Aposto que você não aguentaria nem metade... Tem coisas que você não precisa e não quer saber.
Lizzie enfiou as mãos nos bolsos e tomou rumo à porta, e outra vez deixou escapar um longo bocejo.
– Concordo com ela. — começou Josh. — Eu sei coisas da Lizzie que eu não desejaria para ninguém...
– Uhum, ela me contou um pouco sobre ela também... — disse Íris. — Eu quase não pude acreditar.
– Mas ainda sim ela é uma boa pessoa. — disse Alice, que até então estava quieta.
Juliette bufou e desviou o olhar, fingindo não estar ouvindo os comentários. Nick fechou os olhos e suspirou.
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