Apenas um sussuro
22 Uma vida pela outra
Notas iniciais
Novamente eu estava ali... Parada perto de carros policiais sem saber se veria Jane em um saco negro ou em pé vindo em minha direção.
Novamente eu vi todos nossos planos escorrendo por todo o meu corpo e saindo dolorosamente por cada poro.
Será essa minha vida agora? Serei eu sempre sentada chorando, rezando pra tudo dar certo? Viverei com a incerteza do amanhã?
Ela me prometeu não se arriscar mais, como posso confiar em alguém que não cumpre uma promessa?
A vida do irmão dela estava em risco, e então ela se colocou em risco também... Uma vida pela outra, isso não é justo, essa equação não está exata.
Vi Kikyo sair correndo passando por cima da fita policial sem se importar com mais nada. A vi ser agarrada por um policial moreno, vi ela se esquivando dele, caindo no chão, rastejando um pouco e depois se levantando, correndo indo em direção a fábrica, a vi gritar... Nunca tinha visto ela assim. E eu estava ali, me sentindo pequena... impotente. Sentindo-me um nada.
Não vi Jane
Vi Frank saindo em uma maca, ele estava coberto de sangue e não aceitava soltar o bebê, vi Kikyo chorar e brigar com ele e depois o abraçar. Não vi Jane. Vi Kikyo olhando com carinho para Frank e discutindo com o paramédico que ela queria ir na ambulância junto com eles. E não vi Jane.
Dei alguns passos incertos em direção à fábrica. Pisei na fita policial rasgada no chão. E não vi Jane.
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— Doutora Isles. – um policial chamou por Maura
— Não estou aqui a trabalho Robert.
— Sim, eu sei. É a detetive Jane, ela ainda está lá dentro. Ela está bem. Eu só queria te avisar.
— Tudo bem Robert. Obrigada.
— Acho que a senhora consegue entrar.
— Não pretendo fazer isso. Meu filho está com o policial August ali. Não pretendo me afastar dele.
Maura observou Casey sair com uma boja imobilizando seu braço esquerdo, possivelmente levou um tiro no ombro. O observou se aproximar junto com um paramédico.
— Oi Maura.
— Você está bem Casey?
—Sim. Vou sobreviver. Essa é apenas mais uma cicatriz que terei pra exibir.
— Acho que você ganhou mais algumas semanas de licença então. – Maura tentou sorrir – Pode ficar mais um tempo por aqui.
— Não há mais nada que me prenda aqui Maura. Percebi isso essa noite, talvez eu tenha sido um cego esse tempo todo.
— Talvez todos nós tenhamos sido Casey.
O paramédico receoso pelo sangramento de Casey o colocou em uma maca, levando-o logo em seguida para a ambulância. Maura assistiu o carro branco se afastar com seu sonoro aviso de pressa.
'Talvez todos nós tenhamos sido’, "eu fui cega, Jane sempre pertencerá ao seu trabalho. Não posso exigir que ela deixe de fazer isso, salvar vidas, prender criminosos e se arriscar, porque isso faz parte dela... E infelizmente eu não posso fazer parte disso."
Maura escutou um agente informar pelo rádio que a sequestradora estava em óbito. Frank para proteger o bebe levou um tiro, e Jane para protegê-lo de um segundo tiro atirou na mulher que fazia todos de refém. E infelizmente esse tiro não havia sido fatal, dando tempo para a mulher dar mais um tiro, a última bala de seu tambor, bala essa que foi direcionada a Jane, mas que Casey pulou na frente a salvando.
“É sempre assim, sempre há alguém salvando Jane. -Korsak, Frost, Frank, Kikyo e agora Casey- Mas essas pessoas nem sempre estarão presentes. Talvez na próxima rodada de um tambor ou a próxima bala do cartucho não tenha ninguém na frente protegendo Jane e eu vou perdê-la.”
“E eu não quero perdê-la... Prefiro abandonar do que perder...”
— Oi Maur! ... Por que você tá chorando Maura? Eu to bem, olha pra mim.
— E agora Jane? Você me prometeu que não faria mais isso. Como vou confiar em você novamente? Como vou saber se tudo que eu sonho pra gente será real? Se a qualquer momento você pode se enfiar em frente a uma bala, pular de uma ponte ou entrar num prédio em chamas... de novo.
— Maura eu precisava fazer aquilo, você tem que me entender.
— Precisar fazer isso ou aquilo... é sempre assim. Você acha que eu não preciso de você também? Você não se importa com o que eu sinto, não se importa com meus medos Jane.. Você, você é uma egoísta!
— Egoísta?! – Jane sentiu seu sangue ferver
— Você SEMPRE TEM QUE SER A HEROÍNA no fim do dia, seria pedir demais você não se arriscar tanto? Eu não quero chorar no seu túmulo Jane, não quero. Não quero perder você. – Maura colocou ambas as mãos no rosto, as lágrimas molhando seus dedos.
— Você não vai Maur. – Jane tentou colocar a mão nos ombros de Maura, porém foi repelida. Maura se levantou limpando as lágrimas.
— Você não pode garantir isso Jane! Seria uma promessa falsa. E eu avisei que não iria te buscar mais em um hospital se você bancasse a heroína.
— Você está sendo infantil Maura!
—Não. Estou pensando em mim, coisa que você deveria ter feito.
Maura saiu correndo para longe de Jane, parou atrás de uma das váriasambulâncias para se recompor e após alguns minutos foi ao policial que estava com Esquilo. Agradeceu ao bom homem e pegou a criança nos braços indo em direção ao carro que estava estacionado próximo aos tantos carros policiais.
— Que foi Maura? O que tá acontecendo? – Esquilo olhava preocupado sua nova mãe.
— Nada meu amor.
— Você tá cholando. O que aconteceu?
— Só estou com dor de cabeça. Vamos visitar uma pessoa tá bem? Será só alguns dias.
— Jane vai com a gente? – Maura sentiu o nó na garganta e a vontade de chorar retornou, mas ela tentou ser forte reprimindo as lágrimas para não assustar Esquilo.
— Não meu amor. Jane não vai.
Enquanto fechava o cinto da cadeirinha de Esquilo o telefone não parava de tocar e Maura sabia quem era.
— Atende. Pode ser Jane! – Esquilo estava animado – Vamos assistir os vingadores hoje.
— Bruno, está tarde para filmes agora. – E rejeitou a ligação ao ver a foto de Jane na tela.
Sentou em frente ao volante e deu partida no carro prometendo a si mesma ser forte. O telefone não parava de tocar e ela o jogou no banco de passageiros, acelerando o carro ficando a 120km/h ultrapassando todos os carros que apareciam em sua frente.
Esquilo estava calado no banco de trás, o telefone voltou a tocar e isso de alguma forma estava irritando Maura que acelerou mais o carro não percebendo que estava a mais de 130km/h quando entrou na rodovia.
Lembranças das tantas noites em que ficou no hospital rezando para qualquer força superior que Jane ficasse bem vieram a sua mente.
140km/h
Sua interminável noite na ponte, as vezes em que Jane foi sequestrada. Ela não queria passar por tudo novamente, não agora que tinha se entregado tão irracionalmente a esse sentimento.
Sentiu o carro derrapar um pouco em uma curva sinuosa e acelerou mais.
150km/h
“Será que eu amava sozinha esse tempo todo? Será que apenas eu sonhava?” Maura pensava enquanto via as árvores passando como vultos e o telefone tocava insistentemente.
180km/h
“Melhor me afastar de tudo. Viver minha vida junto com Esquilo bem longe de Jane, bem longe da única pessoa que sei que pode me ferir mais profundamente.” As imagens começavam a se confundir enquanto seus olhos ficavam molhados.
190km/h
“Não, eu não vou voltar para ela” sentia uma lágrima rolar em seu rosto quando ultrapassou uma carreta sem pedir passagem. “Mas a verdade Jane, é que ninguém me terá como você me teve”
200km/h
O telefone voltou a tocar e ela se assustou, com uma rápida olhada de canto de olho viu que era a foto de Jane na tela. Em um impulso de raiva pegou o telefone do banco e o atirou pela janela o fazendo derrapar pela estrada, as lágrimas já jorravam de seus olhos dificultando usa visão. Freou o mais forte que pôde fazendo o carro derrapar cantando pneu e entrando na contra mão, sendo desviado por outro carro de passeio.
Maura colocou as mãos no rosto e arrebentou a represa, nada importava mais, ela precisava colocar para fora o que tanto estava machucando. Chorou, bateu com a mão no volante, libertou tudo que estava rasgando por dentro enquanto os carros buzinando desviavam do dela ainda parado na contra mão. Sentiu todos os seus planos e sonhos de um final feliz ir embora com aquelas lágrimas.
Quando a razão voltou para si, se lembrou de Esquilo na cadeira no banco de trás, sentia vergonha de olhar para trás, mas era necessário, ela havia assustado o garoto e ele agora certamente estaria desesperado.
Deu partida novamente no carro saindo da contra mão e parando no encostamento em sua mão correta. Ligou o pisca alerta, suas mãos tremiam e então ela olhou pelo retrovisor. Esquilo chorava em silêncio.
— Me perdoa Bruno, me perdoa por ter te assustado.
— Conversa comigo. – dizia com a voz de choro que fez Maura voltar a chorar. – Conversa comigo.
— Não é nada. Fica calmo.
— É alguma coisa! Conversa comigo mamãe. – e chorou mais, colocando as mãos no rosto enquanto soluçava.
A palavra “Mamãe” pegou Maura desprevenida que soltou o cinto e se virou para trás.
— Se você quer ser minha mamãe, conversa comigo. Eu tô aqui. – dizia balançando a cabeça – Não quero te perder também.
Maura percebeu que não sabia muito sobre a mãe de Esquilo, na verdade não sabia nada. Talvez aquele menino tivesse presenciado sua mãe chorar e se desesperar ...”e eu fiz ele passar por isso de novo. Sou uma pessoa horrível”
— Você é muito novo pra entender coisas de adultos Bruno. Só fica calmo tá. – passou uma mão no rosto do menino que ainda chorava.
— Conversa comigo! – pedia agarrando a mão de Maura. — Confia em mim.
E novamente Maura sentiu o aperto no peito. “Como pude ser tão imprudente? Agora tem uma vida que depende da minha” Maura passou para o banco de trás sentando ao lado de Esquilo e soltando seu cinto da cadeirinha.
— Me deixa ser seu filho, confia em mim. Não quero te ver cholando. Não quero te perder também.
— Não é sua culpa meu amor.
— Me fala de quem é que eu bato! – Esquilo tentou limpar com as mãos as lágrimas que desciam do rosto de Maura. – Eu bato mamãe. Eu te protejo. Sou forte. Sou muito forte olha – disse flexionando o braço, mostrando o pequeno “muque”.
— Sim meu amor, você é muito forte. Bruno eu... Eu só preciso de um abraço. – Maura não queria de forma nenhuma contar a verdade, a imagem que o garoto tinha de Jane não tinha nada a ver com o que as duas tinham. Ela não poderia fazer aquilo com ele, com Jane.
O menino saiu da cadeirinha indo para o colo de Maura que o abraçou. E durante alguns minutos os dois ficaram ali, calados enquanto Maura ainda chorava abraçada ao seu filho... Seu filho
Após alguns minutos Maura se acalmou e observou o casaco de Esquilo agora molhado com suas lágrimas, e sorriu. Sorriu para aquele menino que entrou há poucos meses em sua vida, sorriu para o menino que enfrentou “um cara mal” para protegê-la, e para o menino que foi capaz de acalma-la com um simples abraço.
— Então agora sou “mamãe”? – Maura falou com um sorriso.
Esquilo saiu de seu colo e a analisou, como se ponderando se ela estava realmente bem.
— Acho que sim. Você falou pro policial que sou seu filho, então você é minha mamãe. Não é assim que funciona? O policial falou que é.
— E August estava certo. Você é meu filho agora.
— E pra todo o sempre até a lua?
— Sim, até a lua
— Então eu tenho uma mamãe de novo?
— Bruno, eu nunca poderei ocupar o lugar da sua mãe. Ela mesmo não podendo estar com você será sempre sua mãe. Eu sou apenas... Sua segunda mãe, ok?
— Mas o importa é que tenho mãe. Os meninos não vão mais ficar pegando no meu pé. Eles são chatos de doer e tem chulé.
Maura sorriu e ajeitou Esquilo na cadeirinha, colocando o cinto novamente e beijando a testa do garoto que corou com o gesto.
— Eu te amo meu filho. Muito. Até a lua. – Esquilo sorriu envergonhado e agarrou seu mustang.
Maura sorriu e voltou para seu banco colocando o cinto e girando a chave, ouvindo o ronco do motor ao pisar no acelerador. Durante alguns segundos achou estranho aquele novo brinquedo, ela não recordava de ter comprado aquela miniatura prata de um mustang e nem de quem o deu a Esquilo, pois ela sabia bem que a paixão do menino era Capitão América e exército. Mas teve seus pensamentos interrompidos.
— E Jane é o que minha?
Maura olhou pelo retrovisor – Eu ainda não sei meu amor.
E voltou o carro para a estrada indo para casa de alguém que ela jamais imaginaria bater a porta em um momento frágil como esse.
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