Notas iniciais
ui... o nome é bem sugestivo né... Novamente estou postando dois cap juntos... mas eu realmente tenho um carinho por esse... Boa leitura

Maura retirou o vestido do cabide, um vestido florido de linha com um caimento simples e preciso. Vestiu suavemente e sentiu o tecido se acomodar sobre suas curvas, salientando os seios e cobrindo as partes que ela não gostava tanto, como aquele leve aumento dos quadris, um aviso triste da meia idade que se aproximava.

'Pareço gorda de costas?'–Ela virava para esquerda e direita, media o tamanho de sua barriga de lado — 'Por que toda mulher executa esse balé em frente ao espelho quando experimenta um vestido novo?... sim, acho que Jane vai gostar.'

–O que estou fazendo? Jane é minha melhor amiga, ela ama o Casey, não posso deseja-la, não posso por nossa amizade em risco por tão pouco. -Maura se olhava assustada no espelho — Eu enlouqueci? Desde quando sinto esse sentimento Eros por ela? Tenho que tirar essa roupa antes que Jane chegue.

–Maur? Maur? Onde você está?

'Tarde demais, talvez ela nem repare.'

Maura calçou as sandálias, deu uma última olhada no espelho e foi a cozinha encontrar Jane. E encontrou a morena mexendo em sua geladeira, 'com certeza procurando cerveja'. Maura se deteve por uns instantes, admirava a amiga que estava sapeca com uma calça jeans colada, camiseta branca e tênis All Star, uma adolescente. 'Que perfume é esse? Esse é novo, será que Jane fez compras apenas para vir a festa? Aposto que tem dedo de Angela nisso.'

–Oi Maur?! -exclamou Jane assustada, com uma cerveja na mão.

–Oi Jane. -um sorriso tímido, bochechas vermelhas, coração disparado.

Jane ainda estava sem reação, ver a amiga assim mudou algo dentro dela. Maura estava diferente, parecia uma adolescente, o vestido floral lhe dava um ar de menina, aquele batom rosa a deixava mais delicada. 'E esse sorriso meu Deus? Maur está tímida, lindamente tímida. Ela está tão fofa!'

A loira aproximou de Jane que ainda estava segurando a garrafa na mão, o silêncio já estava começando a ficar incomodo. Após abrir uma gaveta próxima, Maura se aproximou mais da morena.

–Aqui, um abridor para sua garrafa.

–Adoro sua competência doutora -Maura sorriu.

***

Maura estava em sua cozinha, picando tomates para o Pico de Gallo, sua mão estava trêmula enquanto empunhava a faca, a ansiedade por dar tudo certo. Gargalhadas vinham da varanda, mas sua mente estava concentrada na mulher que agora estava encostada na bancada, bebendo sua cerveja.

–O que posso fazer pra te ajudar Maur?

–Nada, tá tudo bem aqui, sua mãe já está me ajudando muito com a decoração na varanda.

–É, tô vendo ela ajudando até demais com aquele decorador, risadas demais pro meu gosto. E pra que isso tudo pra um churrasco? Churrasco é só carvão na brasa, carne incomodando o vizinho com seu cheiro, cerveja gelada, jogo na tv Led maravilhosa que você tem na sala

–Você não vai assistir o jogo -Maura disse sem levantar os olhos do tomate picado.

Jane bufou.- E pra que um decorador? Minha mãe que pediu né.

–Ele é promoter de eventos, não decorador. E deixa sua mãe Jane. Maltez é um bom homem e um conhecido meu e Angela é solteira e precisa experimentar vários parceiros sexuais ativos para...

–Pára Maura! Não chegamos na parte de parceiros ainda. Arg! Não quero imaginar minha mãe com... não Maura! Então vou picar a cebola -Maura olhou olhou Jane assustada.- Que foi? Também sei cozinhar doutora.

A loira a observou por um instante, e os únicos sons que se ouvia era a lâmina da faca contra a tábua de carne e as gargalhadas de Angela na varanda.

'Eu não posso tê-la, por isso é tão seguro deseja-la. Ela está além do que posso conseguir, portanto eu não posso me ferir ao ama-la, e ela não poderá me ferir. Então tudo bem se tiver algum sentimento a mais, vai passar, é só esperar que vai passar, sem feridas, só deixar o tempo tomar conta de tudo'–Angela gargalhava mais alto na varanda

'Mas nunca pensei que Ian e Jack fossem me ferir também... Nunca somos tão impenetráveis quanto pensamos'– Outra gargalhada, dessa vez o decorador gargalhava mais alto que Angela.

'As pessoas que amamos são as que infligem dores mais profundas em nós. Mas vai passar, paixão sempre acaba né? Começa como fogo em nossos corações e depois vira brasa e então se apaga. Mas algumas chamas são melhores quando não atiçadas, porque quando apagavam só resta a fumaça que entra em nossos olhos'–Mais gargalhas na varanda.

–Vou ter que ver o que a Ma tá aprontando! Não tem condição de rir tanto assim. -Jane soltava a faca revoltada sobre a tábua de carne.

–Deixa sua mãe usar as artimanhas do acasalamento. Você não sabe relaxar né Jane?

–Que isso doutora? Sei relaxar muito bem. Sério? Acasalamento?

–Você precisa fazer ioga Jane ou meditação.

–Já tentamos isso Maur, e não deu certo. Mas eu pratico esportes tá, inclusive vou jogar basquete semana que vem.

–Já estou até vendo...

–O que? -Jane colocou as mãos na cintura.

–Você voltando toda quebrada, como na última vez.

–Foi um acidente.

–Ah claro! Seu nariz bateu no cotovelo do rapaz duas vezes sem querer.

–Ele não teve culpa. Foi um calculo errado... que repetiu nas duas vezes que fui tentar pegar a bola -Jane soltou os braços e resmungou- Nunca fui boa em matemática mesmo.

–E aquela outra vez que você estava jogando com os detetives da narcóticos e tomou aquela bolada ridícula?

–De novo, foi outro acidente.

–Não me leve a mal, mas até eu que não entendo de basquete sei que devemos jogar com a mão e não com o nariz.

–O problema foi que eu calculei mal e a bola me acertou.

–Mas ela veio da sexta

–A bola veio rápido demais! -Maura colocou as mãos na cintura e olhou Jane- Eu não conhecia minha força! — Maura ainda a olhava- Eu até sangrei! -o mesmo olhar- Tá, admito que foi burrice.

–Que bom. Você deveria fazer algo relaxante, e não algo de tanto contato assim. -Jane encarava a loira- Como você corta cebola sem chorar? -Maura preferiu mudar de assunto ao ver os olhos cerrados da morena.

–Sou filha de Rizzolis, não saber truques da cozinha é um erro fatal!

–Sua mãe é uma ótima cozinheira, ela deu a ideia de usar um tema latino, ela não gostou dos pratos rústicos da comida Francesa que citei.

–Sério? Entendo sua indignação Maur, impossível não gostar de lesmas no sal e ovos de coisas que nem da pra pronunciar.

–Não é mesmo? São tão elegantes.-Jane revirou os olhos, as vezes Maura não percebia o sarcasmo. -Então chegamos a um consenso e escolhemos comida mexicana. Guacamole, nata e pico de gallo são os pratos principais, sabia que no sul dos EUA é chamado de Cilliento?

–Google, obrigado, mas prefiro cheeseburger.

–Jane, aprender sobre a culinária de um país é aprender sua cultura. -Maura foi até a mesa e trouxe uma colher com algo verde dentro. -Toma, experimenta.

–Que Hulk é esse aí? -disse Jane se esquivando

–É guacamole, um purê de abacate temperado.

–E você quer que eu...-Maura colocou a colher na boca de Jane.
–Hum Master Chef, até que isso é bom.

Maura tentou segurar a tentação ao ver o lábio superior de Jane sujo de abacate. -Jane, limpa a boca.

–Limpa pra mim? Tô cortando cebola. -Maura passou o dedo lentamente sobre o lábio de Jane, tão macio, tão quente.


'Luxúria


Muitas vezes nossas decisões são levadas pela luxúria.

E esse sempre foi o maior erro no amor, e você amiga, pode ser meu próximo grande erro. Se Deus quisesse que nós nos comportássemos Ele não deveria ter criado a tentação.'

Ela observou Jane virar de costas e ir em direção a pia. 'Por que me meto nessas situações?' –Maura se perguntava- 'Por que de todas as pessoas do mundo fui me sentir atraída logo por ela? Pela minha melhor amiga.'

–Maura, você realmente está linda hoje, mais que o habitual — disse Jane baixo, ainda de costas, ombros rígidos. Maura sorriu tímida, estava sem reação. -E isso é legal sabe. Eu estava meio preocupada, você não comprava roupas novas desde que terminou com o Jack.

–Sabe Jane, -Maura preferiu mudar de assunto, falar do ex não era o que ela planejava nesse momento, não porque doía, afinal a ferida já tinha cicatrizado, mas porque ela estava radiante demais para pensar no passado. -Nós estamos parecendo duas adolescentes hoje, sinto que voltei no tempo. E isso me lembra algumas músicas que fizeram parte dessa época, do tempo que eu ouvia música trancada no meu quarto e fingia que meu controle remoto era um microfone.

Jane se virou e olhou surpresa para a loira. -Não consigo imaginar você fazendo isso doctor who.

–O que fazemos quando ninguém esta olhando pode surpreender. — o olhar de Maura pegou a morena de surpresa.

–Eu pegava a vassoura da Ma e fazia altos solos de guitarra. -ambas riram

–Vem, vamos ao piano, vou te mostrar uma música que eu amava tocar e cantar- Maura puxou Jane pela mão em direção ao móvel no canto da sala.

Jane observava a loira tocando e cantando, tão solta, tão leve, e por alguns segundo teve a visão de uma garota tocando piano em uma casa vazia. 'Estou aqui agora Maur, você nunca mais ficará sozinha.'

Maura cantou "what are you doing the rest of your life" com uma emoção que fez os pelos do braço de Jane arrepiarem, ela não sabia explicar se era devido a letra tão forte ou se era a emoção que Maura se entregava a canção.

"Eu quero ver seu rosto em qualquer tipo de luz. Nos domínios da madrugada e das florestas da noite. E quando você estiver diante das velas de um bolo. Oh! Deixe-me ser o único a desejar ouvir o silêncio que você faz... Eu vou despertar o que está adormecido em seus olhos, pode demorar um beijo ou dois..... Tudo que sempre vou lembrar da minha vida, é toda minha vida com você"

Esses versos ficaram gravados na memoria da morena quando a música terminou.

–Quando pequena eu só tocava as teclas brancas do piano, tinha medo das pretas. -a loira sorriu, um sorriso infantil ao lembrar o medo irracional.

–Você era muito fofa quando pequena né Maur, consigo até imaginar. -Jane visualizou uma mini Maura correndo pela casa, com certeza se ela tivesse uma filha seria uma princesa, e se parecesse tanto com a mãe, seria a coisa mais linda desse mundo.

–Eu era estranha Jane. -a loira abaixou os olhos.

–Todos são estranhos quando comparados a realidade. -Jane se aproximou mais de Maura fitando os lábios rosados, e com a mão levantou seu queixo. -Maur, você é do jeito que é, não se compare a ninguém, você é perfeita do seu jeito tá.

Maura fitava os lábios de Jane. Tão perto, a distância de um sussurro.

Apenas um sussurro.

Jane desviou os olhos, a última tentativa de fuga para a realidade.

–Eu sempre quis tocar piano, mas meus pais não podiam pagar aulas pra mim- disse olhando tristemente o móvel silencioso.

–Eu te ensino. Não é difícil, e eu ficaria honrada em te ensinar. -Maura sorria, os dedos de Jane ainda em seu queixo. -O que você acha?

Os olhares se conectaram outra vez, dessa vez sem tentativas de fuga, ninguém ousou fugir.

Maura se aproximou mais, receosa por fazer algo errado, o preço para arriscar era muito alto, mas Jane não se afastou.


A distância de um sussurro

As gargalhadas e conversas na varanda eram apenas um som distante, quase inaudível, pois as respirações descompassadas eram altas demais.

Apenas um sussurro

E então a distância entre os lábios foi rompida, era um caminho sem volta. Elas não saberiam dizer de quem foi o primeiro impulso e agora isso já não importava mais.

O beijo começou calmo, uma nova terra estava sendo explorada, cada pedacinho era uma nova conquista. Porém o que começou calmo, como um leve bater de asas de uma borboleta foi ficando intenso.

Uma mão se perdia em cachos negros, o brilho da madeira do piano era apenas pano de fundo... nenhum pensamento podia ser ouvido.

Outra mão, dessa vez cicatrizada, puxava uma cintura para mais perto, corpos quase colados, o espaço ficando cada vez menor.

Na euforia uma nota foi tocada, e novamente não saberiam dizer qual das duas interrompeu o beijo, mas os lábios sentiram a falta no instante em que foram separados.

–Melhor não Jane.

–Eu sei Maur. -as testas ainda se tocavam, as respirações ainda estavam descompassadas.

–Poderíamos citar uma lista de porque não. Sua família, nosso trabalho, nossa amizade, é muito para se arriscar.

–Eu sei Maur. -Essa lista já rodou milhares de vezes a cabeça de ambas, mas ali, após o contato macio e necessitado dos lábios, nenhum argumento fazia mais sentido.

–Melhor eu ir pra casa. -Jane se levantou do banco- A gente se vê amanhã Maur.

–Fica. -Maura a segurou pelo braço. -fica, aproveita essa noite com nossos amigos e colegas.

–Maur...

–Vamos fingir que nada aconteceu, está bem? Somos boas nisso, né?

Boas em esconder o que sentimos, boas em fingir que está tudo bem.

–Vai ficar tudo bem Jane.

Não, nada está bem, o primeiro passo para o abismo foi dado, nada ficará bem.

Notas finais
https://www.youtube.com/watch?v=LXAshnjcvrA Para quem tem interesse em ouvir essa linda canção do Frank Sinatra, mas aqui é o link para ela na voz de uma cantora italiana Já sabem, criticas, reclamações, sugestões, elogios...