Apenas um sussuro
11 Hiato
Notas iniciais
Jane estava andando pelo parque, passando por carros estacionados, vidros embaçados. Procurava por uma pessoa especifica, uma lanterna e uma foto era tudo que tinha na mão.
'Lovers Lane, local onde casais e amantes vêm admirar a lua... Pelo amor de Deus, motel não é tão caro assim.'
Senkey se aproximou cegando Jane temporariamente com a luz forte da lanterna.
–E então Kikyo, viu alguma coisa?
–Vi! E você non vai acreditar. -falava empolgada. -Brittany Pordelle da narcóticos estava transando com o Oween Standeal do RH, só que ele namora a Bara Willians da Costumes. Mas se a Bara ao menos sonhar... -Jane olhava sério para Kikyo- Non, non vi nada, e você?
–Nada, Tem certeza que ele está aqui?
–Rapaz de 16 anos sem supervison dos pais e com o carro do pai, onde mais estaria em Boston?
–Ual! Sério, estou surpresa, Boston é grande, como você deduziu?
–A Nina olhou o GPS dele e rastreou até aqui.
–...hum
–Você já veio aqui antes? É igual passar em frente a motel no dia de San Valentines´, uma fileira enorme de carros com vidros embaçados e buzinas apertadas sem querer. Dá até pra competir quem geme mais.
–Oh meu Deus -Jane balançava a cabeça em negativo, Kikyo as vezes era inacreditável. –Qual a ligação dele com as vítimas? -Jane perguntava passando entre os carros, lanterna iluminando árvores.
–Ele é 'intiado' da Xena, foi ele que colocou a nossa Xena e o pai na lista de desaparecidos ontem e também o irmõn pequeno.
–E a mãe dele?
–Acidente de carro há 12 anos atras.
–Garoto azarado, sozinho tão cedo... Que tal batermos em uma dessas janelas e perguntar se viram esse garoto da foto? Aqui tá frio demais pra ficar procurando.
–Jane, eles non viram nada.
–Como você sabe? Custa nada perguntar.
–Acredite, eles non viram nada.
–Ah tá, entendi, faz sentido. Eu também não veria. Deveria ter pegado minha jaqueta de couro...
–Hum, adoro cheiro de coro. Vai pro meu carro, o aquecedor dele é ótimo.
Jane entrou no Saveiro Cross vermelho, um carro tão aventureiro como a dona. Ligou o rádio, aquecedor e sentou no banco de carona, os pensamentos a pegaram de surpresa novamente. Sem Kikyo ou qualquer outra distração a dor batia à porta com força o bastante para derruba-la
'O que aconteceu? Será que eu não soube interpletar os sinais? Ela disse que me amava, tenho certeza que ouvi isso... e agora... um amor do passado volta e sou esquecida?
Será que fui o que? O hiato de uma dor? Não sou boa o suficiente? Não posso ter errado tanto assim...'
Jane encostou a cabeça no vidro da Janela, a garganta estava seca, o coração acelerado, a vontade de chorar estava matando-a aos poucos.
'Como pode um dia sem falar machucar e no outro a ansiedade nem fazer cócegas? Pelo que devo lutar agora? Pela chance de me machucar? Não quero mais lutar, Maura Isles, não por você.'
A morena encolheu-se mais no banco, mãos pressionando forte o encosto, a vontade de gritar apertava sua garganta. Ela sentia uma necessidade de chutar algo, quebrar alguma coisa, bater em alguém...
'Você nunca vai me ver chorar Maura, não por você, nunca!' -A morena podia sentir seu rosto arder, o coração acelerado, por impulso socou o painel e a própria coxa, ambos começaram a doer... mão e coxa
'Quando me apaixonei por você? Talvez aconteceu quando nos beijamos pela primeira vez? Ou foi antes disso? Aconteceu tão naturalmente que não consigo saber e esquecer isso tudo está me machucando demais. Talvez porque passamos tempo demais juntas, e mesmo agora é você que eu quero pra me consolar...
Por que sempre a pessoa que mais nos machucou é a única capaz de nos consolar de verdade?
Eu nunca deveria ter deixado você me beija, ou fui eu que te beijei?
Talvez seja por isso que estou tão triste agora, porque eu te amo... -Jane levou a mão na boca na tentativa de conter um choro-... ao menos eu tenho certeza disso.
Eu não me dei a você de propósito, simplesmente aconteceu, foi isso, talvez eu...
Eu estou falando "talvez" demais, preciso de certezas.'
Senkey bateu no vidro. -Ei! Posso entrar ou é festa particular?
Jane destrancou o carro e abaixou o rádio enquanto Kikyo sentava ao seu lado no banco de motorista, esfregando as mãos próximo ao aquecedor na tentativa de afastar o frio.
O silêncio tomou conta de ambas, queriam dizer algo, acabar com aquele gosto amargo da falta de palavras, mas nenhuma idéia era plausível, nem falar sobre o clima fazia sentido.
–Você está bem Jane?
Nem um som, nem um menear de cabeça, apenas um olhar perdido no retrovisor como resposta.
'Não responder diz mais que a resposta' Kikyo pensou.
Jane repassava a imagem em sua mente, perguntas eram como um carro de corrida... dando voltas rápidas, rodopiando no mesmo lugar, sem lógica em sua cabeça deixando apenas borrões para trás.
'E se eu tivesse arrebentado a porta e pedido explicações? E se for apenas uma conversa entre amigos... sim amigos que dividem xerex, amigos que já dividiram a cama....
E se eu tiver fazendo papel de boba dramática agora?
Os "talvez" cederam lugar para os "e se" agora, desse jeito não vou a lugar nenhum.
Jane reparou na música calma que tocava no mp3 player do carro. O som do piano e bateria a acalmou um pouco trazendo uma tristeza junto a calmaria.
You Say I´m crazy ´cause you don´t think I know what you´ve done. But when you call me "baby" I know I´m not the only one
(Você diz que sou louco porque acha que não sei o que você fez. Mas quando você me chama de "amor" eu sei que não sou o único)
–I´m not the only one? Sério Kikyo? Se você tá querendo me fazer chorar fala de uma vez.
–Non zoa, Sam Smith é legal. E quando estamos tristes ouvimos músicas mais tristes ainda pra f*** tudo de uma vez, essa é a regra, uma regra muito séria por sinal, é obrigatório seguir! Se quiser também tenho Radiohead, The velvet Undergroud, The Cure, Coldplay...
–Meu Deus! -Jane olhou assustada para a asiática -Você tá querendo me dizer alguma coisa? Não acredito que uma pessoa como você escuta bandas tão depressivas assim.
–Todo mundo leva um pé na bunda de vez em quando né, eu levo sempre, por isso tenho meu estoque aqui.
Jane riu e em seguida voltou a estudar a paisagem e Senkey respeitou seu silêncio enquanto procurava uma rádio agradável entre as estações.
–Kikyo, você quer me beijar? -A frase foi dita assim, num impulso. Senkey a olhou surpresa. E Jane queria retirar aquelas palavras, a mulher ao seu lado não merecia ser machucada por um simples orgulho ferido -Não esquece! Deve ser os ares de Lover Land me pirando um pouco, esquece, bobeira minha.
Kikyo permanecia com os olhos no volante, hesitante com as próximas palavras -As... as vezes estou lendo algum relatório ou assistindo TV e penso em beijar você... e parece que tudo pára como uma imagem congelada...
Beijando Jane...
Já imaginei essa cena tantas vezes que quando não imagino tenho a impressão de estar sentindo falta de alguma coisa... Mas...
Mas non vou te beijar.
–O que? Mas... imagem congelada.
–Para um observador casual parece que você quer deixar a Maura com ciúmes, ou ficar quite ou algo parecido. E isso é meio fútil. Na minha fantasia quando estou...-Kikyo olhou nos olhos de Jane. -Quando estou te beijando você está me beijando também.
Jane abriu um sorriso tímido, um sorriso sincero... talvez até de orgulho. Ali estava a chance que a mais baixa tanto queria, mas o respeito era maior, naquele momento um laço de amizade foi fortificado. Jane voltou a admirar a paisagem e desejou amar aquela garota ao seu lado, uma garota que mesmo louca poderia a fazer feliz, mas sentimentos são confusos, quem mais amamos é quem mais pode nos machucar, em outras palavras, quanto maior o amor... maior a dor.
–Há um ditado no meu país -Kikyou cortou o silêncio- que é assim: " Real olhos realizam reais mentiras", quer dizer que seus olhos enxergam aquilo que você quer ver, ou que você tenha medo de ver... criamos mentiras para nos convencer de algo, preencher nossas lacunas, alimentar nossos medos... e acreditamos que é verdade porque nossos olhos viram aquilo, mas são só imagens, mentiras que tornamos reais.
Jane refletiu as palavras de Kikyo e começou a questionar o que ela realmente havia visto naquela casa. Maura não trocava olhares com ele, não dava para ele os olhares que eram só dela. Não havia mãos bobas, sorrisos de lado, eram apenas duas pessoas conversando.
Pessoas corriam em uma direção. Kikyo e Jane saíram batendo a porta do carro indo na mesma direção, armas prontas pra encontrarem a mão.
–Kikyo, já percebeu que pessoas quando correm nunca é bom?
–Mas num é menina, nunca é uma liquidaçõn igual nos filmes.
–Quer apostar vinte pilão que é assassinato?
As duas detetives chegaram próximo a um Toyota prata mal estacionado.
–Pois é, achamos o garoto. -Jane afirmou ao bater a luz da lanterna no rosto do corpo apoiado no volante.
–Calibre 44.
–Quer apostar U$20,00 que é aquela bala estranha lá que vocês acharam?
–Mas você tá afim de me deixar pobre né.
–Não há massa encefálica no banco, ele não foi morto aqui.
–Ou a bala ainda está ai dentro, nesse calibre só a Red Tauler ricocheteia.
–Quem?
–A bala estranha, vou fazer uma apresentaçõn delas pra vocês amanhã. Ele non tava sozinho, olha o baton no painel.
–Kikyo, não peguem esse caso, deixe pra outro detetive assim as evidências serão preservadas.
–Assim o infiltrado non saberá que estavámos aqui... non é atoa que você faz falta no DP. Enton vai pra casa, amanhã vamos sair mais tarde porque vou acompanhar essa perícia aqui.
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Jane dirigia para seu apartamento, os pensamentos sobre o vazamento na central não paravam de perturbar sua mente.
'A informação pode ter vazado de algum oficial, ou perito. Várias fontes podem ter revelado acidentalmente. Ou o criminoso pode ter seguido a Maura, qualquer um que a viu na cena do crime saberia que ela trabalha no caso.'
Jane lembrou da invasão recente a casa da médica, não era um assalto, o invasor procurava por algo ou alguém. Ela tentou se lembrar se havia percebido qualquer coisa incomum rua da loira, se algum par de faróis haviam se destacado no retrovisor ou alguém estranho rondando a vizinhança... Mas faróis eram anônimos e o trafego de pessoas por aquelas ruas eram constantes.
'Então se o infiltrado a seguiu, ele pode ser o assassino, ele pode ter seguido a Maura, pensou ela, então ele também conhece meu carro e sabe quando não estou lá.'
Jane modificou a rota indo para Brookline, mesmo chateada a segurança de Maura era essencial, assim como da sua mãe. estacionou o carro errado, subindo um pouco no passeio, amassando o gramado do vizinho.
'Ele tem orgulho do seu gramado, se já xinga pelo roseiral que divide com a Maura, imagina quando ver o estrago que fiz no gramado.' -Foi um pensamento imediato e completamente fora de propósito.
Estacionou o carro novamente, torcendo para o barulho não ter alarmado os vizinhos, desligou-o e observou a rua. Tudo calmo, tudo comum e debaixo da luz do poste, adormeceu.
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Jane acordou de manhã, uma dor no pescoço a incomodava, o relógio marcava 07:13am. Ligou o carro e saiu da rua, olhos constantes no retrovisor em busca de algo incomum. Lembrou-se do Esquilo e em como ele apareceu na TV ao lado dela e de Maura.
'Ele também pode ser um alvo agora. Maura e eu já estivemos com ele em vários momentos.'–Seu pensamento foi rápido e a decisão saiu como flash, deu meia volta no carro e decidiu ir ao apartamento de Thommy, depois passaria em seu apartamento e iria em mais um lugar antes de voltar a casa de Maura.
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Maura acordou e buscou alguma mensagem ou ligação perdida no celular, algum sinal de Jane. Havia ligado várias vezes durante a noite, mas seu celular estava fora de área. Passou por mensagens de Marcos dando bom dia... do laboratório com resultados de exames... de Korsak avisando que haveriam um atraso e eles saíram após o almoço... de Frank, Hope... mas nenhuma de Jane.
Lembrou da noite anterior quando Frankie foi embora apenas dizendo que Jane passou e avisou que sairiam cedo. 'Por que ela não estrou? Por que ela mesma não falou comigo?' -Pensava ao entrar no banho.
As horas seguintes foram as mesmas enquanto fazia o café e conversava com Angela. Depois a preparação do almoço de sábado. O dia seguia sem respostas.
Às duas horas juntou as várias sacolas para a viagem, sacolas grandes que continham guloseimas, bebidas enlatas entre outros aperitivos para a viagem, e Maura não pode deixar de imaginar como eram as viagens dos Rizzolis e suas grandes malas para viagem. "É sempre bom levar de casa que evita comprar bobeiras na rua"- Angela dizia à loira que carregava as sacolas obediente em direção à porta.
A campainha tocou, Frankie e Korsak pegaram as sacolas e colocaram no carro de Maura. Enquanto os dois homens estacionavam seus carros na garagem um Saveiro Vermelho subiu parcialmente na calçada.
'Meu vizinho vai brigar, ele tem muito orgulho desse gramado.'
Maura sentiu o coração acelerar ao ver Jane sentada emburrada no banco de passageiros, borboletas começaram a fazer festa em seu estomago. A porta traseira abriu e Esquilo saiu correndo, Maura agachou para segurar o abraço que iria receber. Mãos pequenas agarraram seu pescoço e ela sentiu um calor dentro do peito, uma felicidade que ela não entendia, mas aquela sensação era boa, a sensação de receber um abraço forte de uma criança é sempre maravilhosa.
–Cortou o cabelo Esquilo? Ficou lindo!
–Jane me levou num homem que tinha um carrinho muito legal, e eu dirigia enquanto ele cortava, tinha até buzina.
–Espero que não tenha atropelado ninguém.
–Jane disse que sou um bom motorista, meu pai também. Ah! E eu vim na cadeirinha!
–Cadeirinha?
–Do TJ. Peguei emprestado com Thommy -Uma voz forte se aproximou trazendo novamente as borboletas ao estomago de Maura 'saiam dai ou eu vomito vocês'.
Maura levantou, mas Jane não se moveu, mantendo distância da loira, evitando qualquer gesto carinhoso.
–Ele vai conosco? -Maura uniu as mãos em frente ao corpo sem graça com a reação da morena.
–Sim, por isso peguei a cadeirinha e coloquei no carro da Kikyo.
–Você não vem comigo?
–Frankie e Korsak vão. Eu vou com o Esquilo no carro da Kikyo.
Maura olhou para Senkey encostada no carro vermelho, o olhar dela era de cumplicidade, não à Jane, mas a loira, era um olhos condolente.
–Está tudo bem Jane? Aconteceu alguma coisa?
–O que pode ter acontecido? -Jane estava ríspida, mal olhava nos olhos da loira que sentiu suas borboletas morrerem uma a uma, a garganta começando a fechar, os olhos arderem.
–Você não atendeu minhas ligações ontem. Achei que... -A voz falseou e ela ficou incerta em continuar com a frase.
–Estava com sono e fui dormir mais cedo, só isso.
Maura olhou para Jane, olhos marejados e piedosos. Jane sentiu a raiva sumir, seu peito apertou e ela queria abraçar a loira, esquecer tudo, guardá-la em uma caixinha e coloca-la no bolso, mas seu orgulho estava ferido e ela não iria desistir tão fácil, mesmo que tivesse morrido um pouco ali
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Os carros seguiam ao norte em meios a outros carros com crianças e cachorros no banco de trás. Jane lembrou da revista que folheava recentemente enquanto espera Maura no dentista, uma revista com famílias sorridentes seguiam rumo ao Maine no verão, faziam esse mesmo caminho que eles estavam trilhando agora.
Olhou para trás e observou Esquilo maravilhado com as paisagens que via através da janela. E desejou que fosse Maura ali com eles. Até conseguiu ver Esquilo brincando no banco de trás com um cachorro que Korsak acharia, ela dirigindo e Maura admirada ao seu lado, uma família sorridente e canina. Conseguiu imaginar até todas as paradas que Maura faria questão para "esticar os músculos"
Mas o Maine era apenas um mito com seus belos litorais e florestas enevoadas, belo demais para existir. 'Assim como a família feliz que eu almejava'
Jane olhou o sol que brilhava sobre a interminável fila de automóveis, a estrada tremulando de calor, a placa da Rota 95 e se perguntou se era certo trazer Esquilo, afinal estavam seguindo as pegas de uma morta.
Enquanto contornava a costa do Maine sentiu o frio vento litoral e se perguntou se aquele era o caminho certo.
–Tem certeza que esse é o caminho certo Kikyo?
–Betty nunca erra.
–Quem é Betty?
–Meu GPS. Eu non podia trazer o da Xena porque era evidência, enton só botei o endereço no meu.
–Mas quem é Betty?
–É o nome de uma ex. Ela sempre mandava eu virar as esquinas erradas e eu sempre me perdia.
–E você colocou o nome do seu GPS em homenagem à ela?!
–Trás sorte colocar nome de ex, sabia non? E é melhor que John, um ex que só conhecia os caminhos pros motéis da cidade, motéis no plural tá. Era incrível como ele nunca errava.
Jane ria- Então você corta pros dois lados?
–Quem come de tudo tá sempre mastigando -Kikyo piscou.
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Os dois carros pararam em um posto em New Hang para abastecer. Jane não quis sair do carro, mesmo após aos vários pedidos de Kikyo, não queria encontrar Maura e ter que "conversar", receava o rumo da conversa. Kikyo levou Esquilo no banheiro obrigando Jane a sair para abastecer.
Jane viu Maura perto da bomba abastecendo, pensou em ir até ela, exigir satisfações, gritar, explodir, tirar do peito e da mente o que tanto a incomodava, porém quando os olhos se encontraram a morena viu apenas tristeza naqueles olhos amendoados que estavam um pouco verdes.
Jane sabia o que a mudança de cor significava, Maura estava triste
–Por que será que eles trancam os banheiros dos postos de gasolina, será que é medo de alguém limpar. -Senkey aproximou de Jane, alheia a tensão. Seguiram viagem em silêncio, a imagem do par de olhos tristes não saia da mente.
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A idéia inicial era que dormissem em algum hotel de beira de estrada, mas todos estavam com a placa de "não há vagas". Jane ainda ressentia o olhar da loira e elaborava perguntas que iria fazer. Ensaiava um roteiro completo enquanto o carro parava perto de um hotel estilo anos sessenta, quase coberto pelas milhares de árvores sufocantes ao redor. A porta do carro abriu e Kikyo desceu por ela, Jane estava alheia a isso, mas ficou alerta com o grito histérico da asiática.
Todos saíram rápido do carro, armas em mão indo em direção a mulher que respirava rápido, ofegante, olhos marejados.
–O que aconteceu Kikyo? -Frank olhava ao redor.
–UMA LAGARTIXA!! Que horror!! -Kikyo sapateava freneticamente. — Passou na minha perna! VAI DAR COBREIRO!
–Uma o que? -Korsak guardava a arma contendo um riso enquanto assistia a morena desesperar por um animal tão pequeno.
–Uma lagartixa entrou na MINHA CALÇA!! EU NON QUERO FICAR NESSE HOTEL NON!! EU QUERO OUTRO!! -Gritava como uma criança apavorada, mãos batendo na própria calça na tentativa de tirar algo.
–Olha isso aqui gente. -Jane apontava a asiática ofegante que tentava subir no capô do carro- olha se eu posso isso, a menina tá doida de Kisuki.
–MAAATAAA! MAAATAA ELE!!! AIII! VAI DAR COBREIRO.
Esquilo apareceu com uma lagartixa pequena na mão.
–Pronto! Salvei você.
–Você é meu herói! Por favor casa comigo! -A asiática estava receosa no capo do carro enquanto Maura retornava com três chaves na mão.
–Só tem três quartos disponíveis. -Maura dizia olhando assustada para a situação de Kikyo que descia do capo do Saveiro.
–Non olha assim pra mim, eu fiquei desse naipe porque uma lagartixa enorme entrou DENTRO da MINHA calça. Passou na minha PERNA, VAI DAR COBREIRO! Eu non vou dormir sozinha non, o Esquilo vai ficar comigo. -Kikyo lançou um olhar furtivo para Korsak.
–Tudo bem, eu durmo com Frankie. -Korsak pegou a chave na mão da loira. -Nos vemos amanhã então.
Kikyo pegou a bolsa no porta-malas e levou Esquilo rumo ao hotel, deixando Maura e Jane para trás.
–Esquilo meu herói, vamos lavar essa mon e tacar álcool pra non dar cobreiro.
–Posso ficar com ela?
–Larga isso menino!! Me mata de infarto non
–Você é muito exagerada
Jane e Maura assistiam a cena com um sorriso no rosto, pareciam duas crianças entrando no hotel. 'Acho que o Esquilo que vai cuidar da Kikyo'
–Han, então, somos só nos duas agora né. -Jane dizia tímida enquanto esfregava as mãos.
Maura abriu a boca em "o" -Sim, mas você vai me contar detalhes do que eu perdi aqui, uma lagartixa?
–De acordo com a Kikyo era um dragão né.
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Jane demorou um pouco na recepção do Hotel conversando com uma atendente que insistia que a conhecia de algum lugar. Quando chegou em seu quarto notou que Maura havia chegado primeiro pois as luzes estavam acesas e conseguia ouvir o barulho da água caindo do chuveiro.
Sentou na cadeira de frente a cama, uma cama de casal -muito sugestivo- e avistou uma muda de roupa sobre a cama, roupa de Maura.
Ela sorriu ao ver a porta entreaberta do banheiro. Começou a tirar seu próprio calçado e soltou um gemido de alívio quando o par de botas estava longe de seu corpo. Olhou mais uma vez para o banheiro e soltou o ar jogando as costas no encosto da cadeira, aquela seria uma longa noite.
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