Apenas um sussuro
7 Cuida bem dela
Notas iniciais
Maura desceu do carro e avistou Susie esperando na porta da sua casa. Começou a atravessar a rua enquanto Kikyou estacionava. Um menino que aparentava 4 a 5 anos a parou na metade do caminho.
–Senhora, cadê Jane?
Maura se abaixou um pouco, e reparando o menino que estava a sua frente com a pele sujam roupa puída e um olhar amedrontado e ansioso.
–Da onde você a conhece?
–Somos amigos. -dizia o rapazinho erguendo o queixo orgulhoso.
–Ela foi fazer uma viagem, mas não vai demorar.- dizia Maura gentilmente, curiosa com aquela criatura.
–Então vou esperar. Obrigada chefe!. -E saiu correndo, antes que a loira pudesse oferecer qualquer tipo de ajuda a mais. Mas ficou encantada com o sorriso travesso do menino, o sorriso que a fez lembrar de Jane.
Atravessou a rua.
–Obrigada por ter vindo tão rápido Susie, não posso eu mesma recolher as evidências. -Dizia Maura com as bochechas coradas de vergonha.
–E eu tô aqui pra certificar a investigaçõn. -Kikyou completava o trio. — É a minha assinatura que os caras vom ver no relatório, como nom conheço Jane ton bem eles nom podem falar nada.
As três mulheres adentraram à casa, Maura já estava indo em direção ao quarto quando Kikyou se pronunciou.
–O doutora, sei que está louca pra me levar pro seu quarto, mas poderia me dar uma bebida antes? Qualquer coisa eu aceito, desde que seja suco de laranja.
Maura ficou com mais vergonha que já estava, como pode esquecer os bons modos de anfitriã? Correu para a cozinha e começou a preparar o suco. Susie também aceitou.
E lá estavam as duas mulheres aguardando uma bebida, ambas olhando para Maura. A loira sabia que estava se expondo, arriscando perder sua posição, mudar sua imagem, já que se envolveu sexualmente com uma colega de trabalho, uma suspeita. Mas nada daquilo importava por ser Jane, por Jane arriscaria qualquer coisa.
Maura encheu dois copos com suco sobre o balcão, a jarra tilintava na mesa revelando o nervosismo.
–Desejam mais alguma coisa gente? Tenho bolinhos e biscoitos maravilhosos.
Susie aceitou, Kikyou não. Maura percebeu que a detetive não estava com sede, pois não apreciava com avidez o suco.
Ela não queria a bebida, queria me dar tempo pra pensar, tempo para acalmar.
***********
Korsak vasculhava comandas do seu bar, especificamente comandas do dia do homicídio, buscava por algo que provasse que Jane esteve ali durante algumas horas. 07:10pm até 10:30pm. horas que estavam sem explicação.
Nina buscava nas câmeras da região qualquer indicio , qualquer cena em que Jane aparecesse, buscava um local e um horário. Durante mais de 5 horas várias cenas passaram pela tela, até que uma chamou a atenção. Jane estava em um posto de gasolina abastecendo o carro enquanto conversava com um menino de rua. O local e a hora a afastavam do local do crime.
08:12pm. um horário plausível, o tempo de trocar um pneu, não de perseguir e matar alguém.
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Susie estava no banheiro pinçando unhas cortadas do armário e colocando cuidadosamente em um saco de evidências. Maura estava de cabeça baixa, ainda sentia vergonha pela situação, afinal eram suas unhas ali, eram as provas físicas e científicas de seu envolvimento com Jane, era o DNA de Jane debaixo daquelas unhas.
Ela imaginava toda a cena que seguiriam após aquilo: certificarão que o DNA da unha me pertence, e que o DNA debaixo da unha pertence a Jane, os risinhos no laboratório, depois o depoimento, toda a exposição de relatar a noite. Ela nunca imaginei que um dia me sentiria tão exposta, correndo tanto riscos. Kikyou a tirou dos pensamentos.
–A senhora prefere que eu coloque no relatório que vocês sairam no tapa?
–Não, obrigada Kikyou. Sei que quer proteger minha privacidade, mas apenas eu a unhei, não tenho marcas.
–Vai que a senhora é brava e Jane nom teve tempo de se defender, muito menos de revidar. Muller brava é pior que lutador de MMA, se for baixinha enton, ai piora mais a situação.
Maura soltou um riso baixo sendo acompanhada por Susie, o clima tenso foi sendo levando por cada riso que ela soltava.
–Foi bom? -Susie parou o que estava fazendo após ouvir a pergunta de kikyou e olhou para Maura, ansiosa pela resposta.
Maura corou com os dois pares de olhos pesando sobre ela. Sua garganta secou e ela olhava com espanto, os olhos intercalando entre Susie e Senkey
–Eu, eu... Eu acho que... é, é que nós... é que nós, sabe
–É, foi ótimo. Vou ali fazer uma ligação. -Kikyou foi para a sala, deixando uma Isles vermelha com olhos arregalados, enquanto Susie retomava a extração.
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Maura saia da de cabeça baixa da sala de interrogatórios, foi um momento difícil, teve que relatar seis anos de amizades. Algumas perguntas não haviam respostas, e ela não poderia inventar nenhuma.
"Como é seu relacionamento com a detetive Rizzoli agora?" "Por que apenas pós seis anos de convivência vocês duas se relacionaram sexualmente?"
Todas as perguntas foram feitas em tom cordial, nenhuma foi desrespeitosa, ela não deveria se sentir como sentia agora, exposta, vulnerável. Qualquer pessoa que tivesse acesso a investigação poderia saber do envolvimento dela com Jane. Os tabloides teriam livre acesso se alguém vazasse informação. Foi para seu laboratório sentindo a cabeça pesar, um ibuprofeno teria que resolver aquilo.
Dentro do elevador lembrou-se da terça à noite, o dia do assassinato. Lembrou de Jane entrando em sua casa com dois sundae nas mãos, o sorriso maroto, as brincadeiras. Lembrou de como discutiu sobre calorias e do alto teor de glicose, e de como tomou o seu sundae e metade do da Jane sentadas no sofá, assistindo algum desenho infantil.
– Jane, por que não me chamou? Eu iria no drive com você.
– Não é uma boa ideia.
– Por que?
– Ah Maur, você fica questionando sobre calorias e nutrientes do cardápio todas as vezes que vamos lá
— E você me critica por pedir o cardápio todas essas vezes.
— É UM FAST-FOOD!
— E daí?
– Não precisa pedir cardápio, é só olhar no cartaz e pedir.
– Desculpa se gosto de saber todas as opções que tenho.
– Mas você sempre fala isso e sempre pede a mesma coisa, e atrasa a fila toda.
É isso! Jane passou no drive tru!– Maura ligou para Korsak, mais uma informação, mais um lugar, mais um horário.
***********
Frankie esperava ansioso em frente a um quadro de vidro, vários papéis e fotos colados no mesmo.
Nina sentou em uma cadeira, tablet na mão. Korsak entrou na sala com um sorriso de satisfação, abrindo um envelope retirando um papel e colando-o no quadro de vidro.
– Frankie, você não pode ficar aqui, não faz parte do caso.
– Deixa, será bom pra mim, pra Jane. Ninguém está vendo.
– Frankie, você sabe como estamos correndo riscos por eu assumir esse caso.
Kikyou entrou na sala junto com Maura.
– Deixa ele sargento, por favor. Sem ele nom conseguiríamos quebrar algumas provas. -Kikyou dizia com um sorriso, voz aveludada.
– Pode ficar se ficar calado. Então vamos começar. -Apontava para o quadro.
07:10pm Jane bateu o cartão,
há fotos dela saindo do prédio as 07:43pm.
08:12pm Jane abasteceu, como mostra essa foto.
Maura reconheceu o garoto da foto.
Então Jane realmente o conhece, são amigos, mas como? Quem é esse garoto?
08:50pm uma comanda foi aberta no meu bar. -apontava uma comanda- Um policial foi hoje lá e pegou o testemunho de duas garçonetes que viram Jane.
09:38pm um recibo de um drive tru, dois cheeseburgers e três sundaes, como eles demoram na entrega de pedidos o tempo bate certo...
–Tempo abatido. -Kikyou disse ao se aproximar do quadro.- As marcas de ataque no corpo de Jane que consta no relatório como sendo por defesa da vítima, non son propriamente de ataque, pois o DNA da Jane foi achado debaixo de outras unhas e o tempo confere. Então marcas de defesas abatidas também. Não há nenhuma prova científica que coloque Jane com a vítima mais,
– Essa informação é nova. -Korsak dizia surpreso
–O depoimento foi há algumas horas e o resultado foi logo antes. O senhor non estava aqui sargento.
Korsak pegou o relatório sobre a mesa, lendo-o
– Mandei o video do carro da vítima sendo sabotado para um amigo meu -começou Nina cortando o silêncio e abrindo uma foto em zoom no tablet. — Não tem como ter sido a Jane que esvaziou aquele pneu, porque não há cicatrizes nas mãos, olha.
– Então vídeo abatido, -Kikyou se vangloriava- assim como a bala que atingiu a vítima. Fiz a analise, aquela bala pode ser do mesmo calibre, mas não veio da arma da Jane.
Korsak olhava assustado para Maura, que já estava começando a ficar em pânico. Kikyou segurou um riso e colou mais fotos no mural de vidro.
–Enton -ainda tentando segurar o riso- todas essas coisas que foram encontradas no apartamento da Jane perderam o valor, porque foram encontradas marcas recentes na madeira da janela, alguém forçou a entrada do lado de fora, exatamente onde fica a escada de incêndio. Enton tudo encontrado no apartamento é duvidoso.
–Senkey -Korsak se levantou, olhos grudados no mural. -Então foi você que mandou a perícia lá de novo? Você nem esteve lá, como poderia saber que encontrariam alguma coisa.
–Fui ver a Jane, ela me falou.
–Nem atrás das grades deixa de trabalhar. Então já temos o suficiente para um abreas corpus ou a suspensão da prisão preventiva, não deixa de ser suspeita, mas a tira de lá e quando ela sair provaremos sua inocência.
**********
Korsak estava sentado em uma cadeira, na mesa a frente haviam marcas de café, o plástico arranhado, cinzas de cigarro, mais uma sala de interrogatório comum. A porta foi aberta ele avistou Jane entrar algemada sendo guiada por um policial jovem. Vestia um macacão laranja, rosto com hematomas.
–PORQUE ELA NÃO ESTÁ EM PROTEÇÃO? -Korsak levantou nervoso, a cadeira fazendo um barulho irritante no chão enquanto apontava um dedo para o guarda -Ela é uma policial DROGA! ELA TEM UM ALVO NAS COSTAS!
–As celas estão lotadas senhor, e mulheres não são violentas.
–Logo se vê que você não tem contato com muitas, ou então, foi um guarda?
Jane sentava com dificuldade na cadeira, enquanto o guarda prendia suas algemas.
–Falarei com o diretor desse presidio daqui a pouco, conversaremos sobre violências e ...
–Korsak, para. -Jane pediu olhando para o amigo. — o guarda saiu rápido, olhos arregalados e pela pálida de medo. Korsak nervoso parecia um touro sem controle.
–Korsak, eu quero que você tome conta da Maura. -Vince reparou os olhos inchados, um corte no lábio superior.
–Pensa em você agora Jane.
–ESTOU PENSANDO DROGA! -bateu as mãos em punho fazendo um barulho alto e metálico com as correntes. -Armaram pra mim Korsak, não sei o que pode acontecer e não faço idéia de quem seja.
Korsak reparou os machucados nos nódulos das mãos de Jane, ela revidou a briga.
–Maura está bem e...
–Só proteja ela, não deixa ela sozinha. Cuida dela até eu voltar
–Eu iria fazer isso mesmo que você não pedisse.
Jane segurou nas mãos de Korsak -Obrigada meu amigo.
–Não por isso.
–e então -Jane se ajeitava na cadeira- soube que fui ao seu bar e tomei algumas cervejas, estranho que não lembro de ter ido não.
– Uma comanda e duas garçonetes que agora tem 100 dólares pra gastar atoa confirmam que sim.
Jane riu -Isso é perjúrio
–Não, é amizade. Confio na sua inocência.
************
Maura estava sentada em sua cadeira, olhava o nada perdida em pensamentos. Lembrava dos toques de Jane, ela mentiu para Kikyou, haviam sim marcas nela. Algumas marcas em seu pescoço, ombros, marcas que Jane deixou.
Após o orgasmo meu corpo exige por ela a cada instante.
Sentiu sua pele arrepiar e por impulso levou seus dedos aos lábios
Por que demorei tanto para me entregar? Por que fugi? O medo sempre nos trava, ele nos protege de muito perigos mas também nos protege da felicidade.
Batidas na porta
–Entre. -Maura se ajeitava na cadeira.
–Gostaria de saber como a senhora está. -Marcos entrou tímido na sala
–Estou melhor, obrigada por me carregar. -Maura se levantou e escorou na mesa de frente a Marcos.
–Se precisar de algo estou aqui -Marcos se aproximou
–Tudo bem, iriei pedir. -Marcos se aproximou mais, olhos fixos nos olhos de Maura
Maura ficou constrangida com a situação e quando tentou se levantar sentiu uma mão forte a puxando pela cintura, concluindo um beijo.
No impulso Maura repeliu Marcos, terminando um beijo sem começa-lo
–Espera, você esta confundindo as coisas, somos cole..
–Você já tem alguém é isso? -Marcos estava um pouco alterado, mãos em punho
–Calma -Maura andava até ficar atrás da mesa. -Nós somos colegas de trabalho, desculpa se eu te dei alguma idéia erronea de estar...
–Quem é essa pessoa. -Marcos se aproximava, toda a gentileza e sorrisos haviam sumido.
Ele é possessivo, mas não sou sua posse.
–Tá tudo bem aqui? -Kikyou entrou na sala, olhos fixos em Marcos
–Sim detetive Senkey. -Maura disse observando a feição do homem mudar, ficando branda novamente. -Marcos já estava de saída.
O homem saiu sendo seguido pelos olhos da detetive, olhos desconfiados.
–Esse cara tá me deixando oriçada, ninguém pode mexer nas coisas da Jane não. -Kikyou parou pensativa- Além dela mesma.
–Ele não estava mexendo nas coisas de Jane, e não há coisas de Jane. Como você conseguiu visitá-la. quero ir também.
–Através do caso, posso visitar os suspeitos o tempo todo se quiser.
–Vou ir também, preciso ver como ela está.
–Acho que a senhora non vai conseguir, Hoje non é dia de visitas.
–Não sou uma visita, sou a detetive chefe do Estado de Massachussats. -Maura pegou a bolsa, saindo pela porta
–Ainda bem que a non é arrogante.
*************
Angela estava sentada no sofá, cenas na TV passavam em mudo. Um copo de Xerex descansava vazio sobre a mesa de centro. Tudo que se ouvia era o som do vento oriundo do ar condicionado que tentava refrescar o calor daquela noite de agosto.
Angela ainda estava tentando absorver os últimos acontecimentos, a flha presa por homício, Maura com os olhos inchados de tanto chorar, fingindo que estava tudo bem. Frankie desesperado correndo por todos os lados, sendo mais detetive do que fora nos últimos anos.
TUdo acontecendo e eu aqui, no olho do furacão sem poder fazer nada. O papal de mãe as vezes machuca.
Jô Friday latiu já correndo para a porta, patas fazendo barulho no chão. Um carro silencioso estacionou, com certeza era Maura. Um barulho de chave metálico na porta.
–É Maura, ela chegou! -Angela levantou, parada ao lado do sofá. Enquanto patas alegres batiam na canela da loira.
–Oi Angela, boa noite. Você estava esperando por mim? -Maura fechou a porta enquanto a cadela suplicava por atenção.
–Boa noite. Sim, estava. -a cadelinha abanava o rabo, latia, mas Maura estava distante, cabeça baixa enquanto colocava sua bolsa no sofá.
Ela não conseguiu ver a Jane, eu queria perguntar, mas...
–Eu pensei que pelo menos pudese vê-la, olhar pra ela. -disse em quase sussurro. Jô Friday desistiu e se abaixou deitando as pes de Maura.
O que devo dizer a ela? Eu não suporto ver minha outra filha nessa agonia.
Eu nao sei.
–Me desculpa Angela, eu... Eu estou bem.
–Está bem? -Maura levantou em direção a cozinha.
Não, ela não esta nada bem
Maura, você está sofrendo tanto.
–Tudo bem se Jô dormir aqui?
–Sem problemas. Ela pode ficar.
Maura pegou um vinho pe preparou um sanduiche natural, sentando à mesa, enquanto Angela continuava perdida em pensamentos.
–Angela, amanhã o advogado dos Isles irá chegar, o vôo dele foi cedo. Ele vai tirar a Jane de lá. -Bebia na sua taça de vinho, anestésico liquido.
–Obrigada Maura.
Ela não tocou o sanduiche apenas a taça. Maura, queria poder arrancar essa dor de você.
*************
Maura estava sentada em uma cadeira estreita, a mesa estava grudenta, possivelmente eram restos de suco de algumas crianças, preferiu manter as mãos no colo. Ao seu redor vários dramas pessoais se desenrolavam, e ela também estava presa ao seu próprio drama familiar.
A porta abriu, seu coração disparou, era Jane, mas ele parou no instante que viu a feição abatida, hematomas no rosto e braço. Jane sentou em frente a Maura que ainda permanecia estática.
–Quem fez isso com você? Me fala que eu mato!
–Não precisa se preocupar Maur, nem doem mais. -Jane disse tocando a ferida acima da sobrancelha. -Nada que um bom corretivo não resolva.
–Não é hora de fazer piadas.
–Você me conhece, -Jane colocou as mãos sobre a mesa, logo sendo coberta pelas de Maura.- Você sabe que faço piadas quando estou nervosa.
–Vamos te tirar daqui, é questão de horas agora, o advogado da minha família está a frente e Susie, Kikyou, Frank e Korsak não para, de correr atrás de provas pra te inocentar.
–Eu soube que você também. Soube que no seu depoimento você afirmou que suas unhas fizeram as marcas nas minhas costas. -Maura corou.
–Era o único jeito. Tenho que assumir minhas responsabilidades.
–Você sabe que assumiu que teve um relacionamento comigo e que não há como retirar essas palavras, ne?
–Sim, assumi que tenho. -Os olhos se encontraram, as palavras foram ditas no presente e ambas sentiram o peso delas.
–Sabe Maur, aqui não é nenhum paraíso, ou nenhum "Orange is the New Black", mas tô levando na boa.
–Brigando como num ringue? Essa é sua definição para "levar numa boa"? Seu rosto está cheio de hematomas e cortes. Olha o estado da sua terceira falange distal! Parece que...
–Maura! Pára! -Jane levantou uma mão, fazendo barulho na corrente.
Maura agora estava em silêncio, olhar fixo na algema. -Por que você está algemada na sala de visitas?
–Por que aparentemente sou violenta, arrogante e instável emocionalmente.
–Deduziram isso com dois dias?
–Injustiça ne?
Maura acaricia as mãos da morena, os olhos se encontravam, o calor trocado por aquele toque trazia conforto as duas.
–Sinto sua falta Jane, você não imagina o quanto. -A frase saiu quase um sussurro, fazendo a garganta de Jane ficar seca ao ver duas lágrimas rolando pelo rosto da loira,
–Maura. -a morena segurava segurava firme as duas mãos da loira, sustentando seu olhar. -Me escuta, eu vou sair daqui, vocês vão me ajudar a sair daqui e eu vou cuidar de você.
A cacofonia ao redor já não era mais ouvida, Maura segurou a nuca da morena lhe dando um beijo macio nos lábios. O beijo ingenuo que durou o segundo seguinte antes do guarda gritar para se afastarem.
Crianças corriam por aquela sala, uma mulher chorava na mesa de trás.
–Falta pouco Jane, logo você voltara pra nós, todos nós.
–Espero, mas se aparecer alguma Alex Vause, pode demrar um pouco, não vou ter pressa não.
–Ai eu te tiro daí na base da porrada. -Ambas riram, um sorriso que fazia falta para ambas.
Os olhares se cruzaram novamente acompanhados de sorrisos no canto da boca e borboletas no estomago.
–Não consigo parar de pensar naquela noite Maur.
–Agora não é o momento. -A máquina de refrigerante fazia um barulho alto.
–E quando será esse momento? Quando estivermos no asilo fazendo guerras com bengalas?
–Não. -Maura soltou um riso contido, levando a mão a boca. Envelhecer ao lado de Jane, não há nada que eu deseje mais. -O momento será quando você voltar para casa.
–Você sabe que não fui eu, sou inocente. -Jane passava as mãos pelos cabelos, queria evitar as lágrimas que ardia em seus olhos.
"Assim como você fará o seu e irá me tirar daqui".
"A liberdade tem um preço, uma cama vazia, noites sem dormir e perguntas sem respostas,"
************
Korsak tentava pela terceira vez falar com Maura em vão, ela não atendia o celular que sempre caia na caixa postal. -Talvez ela so queira ficar sozinha.
Ligou para Kikyou pedindo por ajuda, um pressentimento ruim pairava.
–Dar uma olhada na doutora? Dou sim ué -Senkey quase gritava. -Vou só terminar meu copo e tô indo.
–Você está em uma boate Senkey?
–Eu? Nada! Sou dessas non.
–E esse barulho ai? Parece alto.
–Ah! É meu vizinho. Ele tem um péssimo gosto musical.]
–Mas essa música é seu toque de celular.
–Mal gosto é influenciavel, fazer o que? Vou dar uma passada na casa dela.
************
Maura entrou em sua garagem, ignorou as ligações de Korsak colocando o celular no silencioso. É tarde demais para atender ligações, todos deveriam estar dormindo a essa hora. Procurava sua chave da casa na bolsa, pensamentos incoerentes rondava sua cabeça, colocou o celular no banco de passageiros para procurar melhor. Tirou as chaves da ignição e entrou em casa.
Foi em direção ao quarto sem apertar nenhum interruptor, a escuridão trazia conforto. Alheia a todos os detalhes entrou no quarto. Retirou as botas e um pensamento a assustou.
–Jô Friday não veio ao meu encontro quando cheguei.
Se levantou tentando olhar ao redor, buscando por algo que pudesse protegela no meio daquela escuridão. Ouviu um barulho na casa de Angela.
–Não é a Angela, ela está cuidando do TJ hoje, não está aqui.
Pensou em pular a janela, mas o roseiral iria atrapalhar.
Foi tateando as paredes, queria sua bolsa que estava na sala. Tentou ouvir, mas não havia mais nenhum som. Podia ouvir apenas seu coração latejando em seu ouvido. Alguém poderia estar atrás dela e ela não saberia. Por reflexo olhou para tras, a respiração pesada. Seus olhos acostumaram melhor com a escuridão e ela criou coragem para sair da porta do quarto.
Faltava ganhar o corredor todo, andava a passos calmos e silenciosos, a pulsação vibrando por todos os cantos do seu corpo. Olhou pela janela do corredor e viu uma sombra sair da casa de hospedes. No desespero correu a sala, se agarrando agachada ao sofá. Tateou por sua bolsa, mas prendeu a respiração na hora que a porta da cozinha se abriu.
Suava frio ao ver a sombra alta passar pela sala, chegando aos quartos. Pensou em correr a porta de saida, mas não sabia quantos eram, e gritar por ajuda seria arriscado demais.
Seu pé encostou em algo, era sua bolsa. No impulso agarrou-a.
Roçou chaven caderno de anotações, maquiagem, lixa, carteira...
Meu celular, cade meu celular.
E então lembrou que havia deixado no banco de passageiros.
Calculou a distância até o telefone fixo, mas teria que atravessar a sala, ficando exposta ao invasor. Passou as mãos frustadas pelos cabelos, fazendo força para manter a respiração baixa.
O quer fazer?
Escutou um barulho no quarto, o invasor trocou de quarto.
–Ele não veio aqui para assaltar, deixou meu quarto de mãos vazias. Ele está a minha procura. Sorte não ter ouvido meu carro. Isso! Carro.
Engatinhou até o balcão da cozinha, levantou perto da pia tateando por algo que pudesse usar como proteção, encontrou uma faca pequena de serra e a agarrou.
Ao tentar passar rápido bateu o dedo mindinho na bancada de madeira. Engoliu um grito e sentiu as lágrimas queimarem sua garganta, saindo pelos olhos,
Ele ouviu, agora sabe que estou aqui.
Correu para a porta de saída da cozinha, chegando ao seu carro. Abriu a porta e entrou. Soltou um grito de raiva ao perceber que não pegou a chave, Agarrou o celular e apertou o botão do portão da garagem no quebra sol do carro. O invasor agora estava na soleira da porta olhando para Maura. Mas dessa vez ela não teve medo e não paralisou. A raiva agora tomava seu corpo.
Saiu pulando do carro, a respiração estava pesada, não registava tanto a dor em seu pé.
Uma mão agarrou seu braço, seu celular voou longe com a puxada que recebeu. Sem pensar, atacou o braço do invasor com a pequena faca. Ele gritou de dor e ela soltou-se, passando rastejanto pelo portão.
Não sou uma presa tão fácil.
Ao chegar a rua não sabia em qual direção correr. Haveria alguém acordado tão tarde? Daria tempo de correr e implorar por ajuda? Os postes iluminavam bem a ruam ela seria um alvo fácil. Ouviu passos atrás de si e começou a correr, sentindo os pes nus na rua.
Faróis altos a cegaram, Maura escorregou caindo no chão daquela rua, os passos também pararam. O carro freiou quase em cima dela, que por reflexo levou as mãos aos olhos para se proteger da luz forte que queimava sua retina.
Ouviu a porta do carro abrindo e pressentiu o fim, não havia mais tempo de levantar e correr.
Sentiu um braço a abraçando
–Doutora? Tá tudo bem?
O sotaque denunciava, era Kikyou. Maura se agarrou àquele braço em desespero como um naufrago se agarra a uma boia ao mar, fazendo Kikyou se agachar dando apoio a ela. Pelo canto dos olhos viu que a asiática estava com arma em punho, apontava em várias direções, olhos buscando por algo.
–Não! Não me deixa aqui por favor! Maura pedia em um desespero quase palpável, seus poros ainda transpiravam sem parar, chorava agarrada ao braço da detetive que estava ali com ela.
*************
Maura ainda tremia dentro do carro de Kikyou quando Frankie e Korsak chegaram com uma equipe de perícia e algumas viaturas.
–Quer que eu deixe você em algum hotel
? -Korsak perguntava à Maura enquanto entregava uma bolsa de gelo para os pés.
Maura apenas balançou a cabeça em negativa. Frank olhava preocupado, Kikyou estava sentava na calçada, cabeça quase entre as pernas.
–Você não vai ficar nessa casa sozinha Maura, não depois de tudo que aconteceu hoje. -Kosark dizia olhando preocupado para a loira que parecia tão pequena naquele banco, uma mão segurava a bolsa de gelo no pé, a outra estava encostada no volante.
–Eu fico com ela Korsak.- Frank se aproximou mais.
–Não! -Maura disse no impulso. — Você tem que ficar com a Angela, ela também pode ser um alvo.
–Tudo bem, eu durmo aqui com ela. -Kikyou disse ao se levantar com certa dificuldade.
–Tudo bem pra você ficar aqui Kikyou? — Korsak dizia alternando o olhar entre Maura e Kikyou.- Você já fez muito por hoje, deve estar cansada.
–Tá tudo bem. Tenho mais medo da Jane furiosa com a gente por nom proteger a doutora direito do que qualquer exercito que venham invadir a casa com bombas e metralhadoras.
*************
Maura e Kikyou entravam na casa. Kikyou estava a frente e tropeçou, quase caindo.
–Calma, empurra nom.
–Kikyou, você está bebada?
–Espera, deixa eu sentar que te conto tudo. -Kikyou cambaleou até o sofá, se jogando e afundando no mesmo.
–Você está cambaleando, você está definitivamente bebada.
–Cambalear ainda é caminhar, calma. Korsak me ligou e eu estava numa boate, muito boa por sinal, recomendo. Ai nem pensei e vim pra cá.
–Me salvando
–Jane non está aqui né, temos que revesar pra cuidar da senhora, e que por sinal tá ficando complicado. -Maura corou- E ela me pediu isso todas as vezes que fui visitá-la.
–Obrigada.
–Não por isso. Vou dormir aqui no sofá.
–Eu tenho quarto de hospedes, pode ficar lá.
–Aqui é melhor, da pra ouvir melhor qualquer som. Obrigada. E por curiosidade, aonde é o banheiro, caso eu tenha que sair correndo desesperada a procura de um?
–Fica ali. Então agora você admite que está bebada?
–Talvez só um pouco tonta. Bebada eu estava no dia que fui parar num carrinho de supermercado, o marido da minha amiga me empurrando no meio da rua e a gente gritando igual três malucos.
–Que isso! -Maura soltava gargalhadas.
–Doutora, amanhã vamos instalar
uma alarme nessa casa tá. -Kikyou disse se alinhando no sofá.
–Vou pegar cobertores pra você.
–Sabe, se a senhora e Jane se casarem, continue com esse sofá. Ele é muito confortavél e ela vai precisar.
–Kikyou, você está muito bebada. -Maura ria.
–Mas é uma dica válida. Morei junto, morar junto gera muitas brigas e meu sofá nom era ton confortavél assim.
Maura ria alto novamente.
–Então você foi ver Jane? -Maura perguntava ao se levantar do sofá.
–Sim. Fui várias vezes.
–E ela perguntou de mim alguma dessas vezes?
–Em todas elas. -Kikyou escondeu o rosto na almofada.- Só havia a senhora em nossas conversas.
Maura percebeu a voz tremida, segurando um choro.
Sim, como desconfiei. ela gosta da Jane.
Você está apaixonada pela mesma pessoa que eu menina, desculpa por te fazer sofrer.
E esse amor platônico não impediu que você me salvasse e nem que estive aqui me protegendo.
Você é uma boa pessoa Kikyou, desejo que encontre alguém que você goste e que goste de você.
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