O telefone vibrou no criado mudo ao lado da cama, uma rápida visualizada na tela e um resmungo com a certeza que teria que deixar aquela cama tão confortável.

—Rizzoli — disse enquanto olhava para o relógio, mal conseguindo enxergar, mas teve a certeza que ainda eram duas horas da madrugada. Levantou, tirou seu pijama quente e arrepiou ao contato com a roupa fria que vestia. Calçou as botas e foi para o quarto ao lado. Bateu na porta.

—Maur, temos que ir... Alguém decidiu matar as duas da madrugada, e eu quero atirar nesse alguém por me tirar da cam.. — e a palavra morreu na metade quando a loira abriu a porta.

—Como você consegue estar estilo capa da Bilbord assim, as duas da madrugada?

—No seu carro ou no meu? -respondeu com um sorriso maroto.

—No meu, eu dirijo.

—Mas eu...

—Você vai dirigir com esses saltos?! E pra que bota com salto tão alto as duas da manha?! Realmente preciso de café. -resmungou a morena.


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—E então eu fui lá com a Angela e eles serviam lagostas maravilhosas ainda na casca, acredita nisso? - Jane não entendia como a loira conseguia estar tão tagarela as duas e meia da madrugada, mas deixou a amiga falar enquanto se concentrava na estrada.

Enquanto ouvia detalhes de como tirar a lagosta da casca, ela estava achando os postes iluminados demais. Cada semáforo era uma afronta aos seus olhos cansados.

—E então mergulhamos na manteiga fumegante, legal né? -disse a loira empolgada.

—Chegamos Master Chef!

As luzes dos carros de policia pareciam querer derreter a retina de Jane, enquanto Maura andava elegante e confiante em meio a tantas luzes e tantos olhares. A loira olhou para a detetive e sorriu. "Em meio a tantos olhares e ela prefere o meu, aposto que eu estou acabada com cara de múmia."

Se identificaram e abaixaram para passar por baixo da fita. Avistaram uma asiática conversando com Frankie. Ela era bonita, parecia frágil em seu terninho cinza, cabelos negros caiam em seus ombros indo até o meio das costas, sua calça descansava perfeita em seu quadril, então Jane entendeu porque desenhos japoneses fazem tanto sucesso.

—Bom dia, sou a "detitive" Kikyo Senkey, vim "di" balística e ficarei com vocês alguns meses. —O aperto que recebeu de Jane foi firme e um olhar glacial observava as duas e não estava gostando nada aqueles sorrisinhos trocados pelas detetives.

—Bom dia, sou a Dra. Maura Isles, legista chefe da comunidade de Massachusetts. -a asiática olhou assustada para a loira, receosa com o tom usado e respondeu com um menear de cabeça.

O grupo foi em direção aos prédios, Jane sussurrou para Maura enquanto a puxava pelo braço, ficando um pouco atrás do grupo.

—Tá tudo bem Maura?

—E por que não estaria detetive? -respondeu rispidamente.

—É que você é a pessoa mais gentil que conheço e acabou de tacar terror na novata.

—Está defendendo sua nova amiguinha Jane? Aprendi em um curso que fiz no verão passado que demonstrar autoridade durante a primeira vista...


Frankie interrompeu a conversa

—Linda essa detetive né? Quando abriu a boca, mal consegui pensar com aquele sotaque tão fofo. Ela é muito linda mesmo.

—E simpática né? -completou Jane.

Maura passou pelos dois detetives pisando forte, duro, igual um general indo em direção aos policiais que guardavam o local, ela odiava ser interrompida e ignorada quando compartilhava uma coisa interessante. Quando o grupo chegou, a legista já levantava o plástico revelando seu mistério. Jane decidiu cortar o silêncio que já estava desconfortável.

—E então, Korsak não vem?

—Por enquanto está chefiando um caso, acho que tem a ver com a máfia, deve demorar a voltar pra nós. -disse Frankie olhando para os prédios.

—Bem, ao menos temos a Senkey pra nos ajudar né. -disse Jane sorrindo, mas gelou ao sentir os olhos de Maura pesando em suas costas, ciúmes de amiga nem sempre é agradável.

Maura voltou sua atenção para o corpo a sua frente enquanto os detetives conversavam sobre detalhes de como foi encontrada a vítima. Vítima essa que tinha um corpo bem nutrido, atlético, cabelos negros longos já duros em meio a poça de sangue que se misturava com água no chão. "-Que jaqueta roxa linda"-pensou Maura enquanto pegava seu termostato. Coloquem uma roupa de couro nessa vítima e ela virará Xena a princesa guerreira. Xena deitada de costas em um mar de sangue não daria audiência.

—A causa darei após a autópsia, mas essa morte é suspeita. -disse Maura ao se levantar

—É, "causas naturais" não costumam ter cortes profundos na garganta, ou tanto sangue -Ralhou Jane.

—Podem levar. -disse Maura a equipe. -Marcarei o dia da autópsia e avisarei vocês.

—Espera... você não vai fazer hoje?

—Jane, a nove corpos aguardando minha atenção e...

—Mas esse é meu caso Maura, então eu...

—Detetive Rizzoli! Entre os mortos não há prioridades. Não pericio apenas seus casos.

Jane ainda estava boquiaberta—Vou conversar com Senkey, ver o que ela acha do caso... vou de carona com o Frankie, então você..

—Você reclamou a vinda inteira sobre ser 02:30am, você me trouxe e você vai me levar, agora.

—Ah! Mas agora são 02:50am, meu corpo até acostumou, pode ir, toma a chave, vou ficar bem aqui.

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—Pronto Maur, entregue em casa.

—Vamos entrar Jane, dorme aqui... de novo?

—Hum, toda carente doutora... Mas se meu celular tocar antes de oito horas eu taco ele na parede.

A loira riu enquanto saiam do carro.

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Maura saiu do banho, teve a impressão que a água morna levou pelo ralo toda aquela cena que vira mais cedo, todo sangue e violência escorria por entre seus pés. Mesmo acostumada a maldade do ser humano ela as vezes se surpreendia. —Morrer sozinha, será esse meu destino? Será esse o destino de todos?

Enquanto se enxugava no banheiro, sentia o corpo mais leve, seria a água quente ou a perspectiva de dormir algumas horas mais?
Voltou para o quarto, Jane estava deitada em sua cama, como se tivesse apenas fechado os olhos para descansar e tivesse pegado no sono. 'Ela estava exausta, tenho certeza disso'. Maura se aproximou devagar, não queria acordar a morena, pensou em ir para o quarto de hospedes, mas se lembrou dos travesseiros e mudou de ideia.

Foi até o seu closet e pegou o pijama que Jane a tinha presenteado e lembrou-se do dia "-Por favor, comprei isso pra você usar quando eu for dormir na sua casa, não sei como você ainda consegue dormir nua. Imaginou se acontece alguma coisa e eu tenho que te tirar de casa correndo! Não quero dar explicações embaraçosas pros vizinhos... Nem descarregar minha arma em algum engraçadinho."Maura gargalhou com a lembrança, Jane as vezes parecia tão protetora.

A loira deitou devagar na cama e se assustou com o frio dos lençóis, o oposto do que deixará mais cedo, mas não importava porque ela teria mais algumas horas de descanso. Sorriu ao olhar para Jane ainda com o celular na mão, o braço sobre o rosto, ter a amiga ali era agradável, um conforto interessante.

Agarrou seu travesseiro e se perdeu em pensamentos. "Será certo eu sentir tanta necessidade da Jane ao meu lado?", "Eu não a quero perder pra ninguém, mas também não posso empatar nada se ela decidir ir embora com um novo amor ou querer ter novas amizades". "Aristóteles e muitos outros pensadores acreditavam que amizade era mais importante que amor,
será que eles tinham uma amizade como a minha?"

"Tantas duvidas na minha cabeça, realmente a idade não trás sabedoria. Queria falar sobre isso com alguém, mas não é algo que eu possa compartilhar com Jane."

E maura imitou o gesto da amiga colocando o braço sobre o rosto também e relembrando o momento em que chegaram em casa.

"–Hum, Maur, por que você quis que eu dormisse aqui hoje?

—Sei la, é que as vezes é bom ter alguém pra conversar, alguém que te faça rir antes de dormir.

—Sabe Maur, as vezes quando tô na minha casa sinto saudades de conversar com você, mas eu venho muito aqui, sei lá, parece que estou abusando da sua hospitalidade.

—Não Jane, nunca! Sua presença aqui é sempre bem vinda, até Bass já acostumou e não foge quando você chega.

—É mesmo, mas era lindo ele tentando correr."

*****

Maura acordou de madrugada, se viu presa pelas pernas de Jane, a morena dormindo adorava se esparramar na cama e não ousou mexer para olhar as horas, tempo agora não era importante.

E então se permitiu olhar Jane, sem receio de alguém estar observando, só havia as duas no quarto. Reparou as cicatrizes, eram tantas mini histórias de Jane. História de quantas vezes ela foi corajosa ou apenas uma criança sapeca. Maura se deteve no pensamento de uma menina arteira de cachos negros e bagunçados, uma miniatura de teimosia... como queria conhecer a história por trás de cada cicatriz.

Ela não cansava de admirar os traços da morena, em como seu peito subia e descia ou em como ela parecia tão pacifica com um meio sorriso no rosto, dormindo nem parecia aquele furacão ambulante, talvez estivesse tento um bom sonho.

Maura olhou pela janela, o vidro estava embaçado denunciando a fria noite lá fora.

—Será que algum dia alguém vai escrever meu nome em um vidro embaçado?

Notas finais
Comentários, críticas e sugestões não bem vindos