Apenas mas uma de amor

33 Renesmee- Amsterdã


Nessie


Os primeiros meses em Amsterdã foram... complicados. Sair de Seattle não foi uma escolha fácil, mas necessária. Cada esquina, cada rua, cada som daquela cidade me lembrava do que aconteceu, das marcas invisíveis que ainda carregava. Aqui, na casa dos meus avós, a distância física me dava um pouco de alívio, mas o peso emocional era inescapável.

Eu estava sentada encolhida na cama, olhando pela janela. Amsterdã parecia um lugar saído de um conto de fadas. As casas estreitas de tijolos, com janelas enormes e telhados inclinados, se alinhavam perfeitamente ao longo dos canais serenos. As árvores, mesmo no inverno, eram belas, e as bicicletas passavam em um ritmo constante, uma vida tão diferente daquela que eu conhecia. Mas, por mais encantadora que fosse a paisagem, minha mente estava longe dali.

A minha barriga, já enorme, era um lembrete constante da decisão que eu precisava tomar. O contraste entre meu corpo magro e a curvatura da gravidez parecia uma ironia cruel, como se minha própria imagem refletisse a confusão interna que sentia.

Ouvi uma batida suave na porta e, antes que pudesse responder, minha mãe entrou. Bella, sempre tão atenta, olhou para mim com um misto de preocupação e ternura.

— Nessie... — ela disse suavemente, fechando a porta atrás de si. — A assistente social chegou.

Meus olhos se voltaram para ela, e por um momento, tudo dentro de mim congelou.

Bella se aproximou e sentou ao meu lado na cama. Sua mão pousou gentilmente sobre a minha.

— Filha... você tem certeza do que está prestes a fazer?

Eu respirei fundo, sentindo o coração apertar como se estivesse sendo espremido por uma mão invisível. A dor e a dúvida eram quase insuportáveis.

— Eu não sei, mãe... — confessei, minha voz quebrada. — Eu não sei o que fazer.

Bella me puxou para um abraço leve, mas reconfortante.

— Eu sei que é difícil — ela disse, sua voz baixa e firme. — E ninguém pode decidir por você. Mas, Nessie, seja qual for a sua escolha, você não está sozinha.

Eu me afastei levemente, olhando para ela com lágrimas nos olhos.

— Eu não sei se consigo, mãe. Não sei se posso criar uma criança que foi... gerada assim. E nem sei quem é o pai. Como posso amar alguém que me lembra de tudo o que aconteceu?

Bella segurou meu rosto com delicadeza, seus olhos brilhando com empatia.

— Não importa a escolha que você faça, Nessie. O importante é que você esteja em paz com ela.

Eu assenti, mesmo com a dúvida ainda me corroendo por dentro. Levantei-me lentamente, sentindo o peso da barriga e da decisão que me aguardava. Sem dizer mais nada, saí do quarto, deixando minha mãe para trás. Meu coração estava dividido, mas sabia que precisava enfrentar aquilo. Seja lá qual fosse o desfecho, ele seria meu para carregar.

A sala estava silenciosa, com todos os olhares fixos em mim e na assistente social. Carlisle e Esme estavam sentados no sofá à minha direita, Bella e Edward logo atrás, e meus tios Jasper, Alice, Rosalie e Emmett espalhados pela sala. O ar era pesado, e eu me sentia pequena diante da mulher que estava à minha frente, com um semblante calmo e profissional.

— Renesmee — começou ela, com a voz firme, mas gentil. — Eu sei que essa é uma decisão extremamente difícil, e quero que saiba que estou aqui para ajudar, não para julgar.

Eu assenti levemente, sentindo o nó na garganta aumentar.

— Você entende como funciona o processo de adoção? — ela perguntou, olhando diretamente para mim.

— Mais ou menos... — murmurei, minha voz quase inaudível.

A assistente social inclinou-se um pouco para frente, tentando tornar o ambiente menos intimidante.

— Se você optar por doar o bebê para adoção, ele será colocado com uma família que tenha sido cuidadosamente avaliada. Essas famílias passam por processos rigorosos para garantir que estão aptas a cuidar de uma criança. Mas, Renesmee, uma vez que você assine os papéis e o processo seja concluído, a decisão é definitiva. Você não poderá recuperar a guarda da criança.

Minha respiração ficou presa por um momento. A realidade do que ela estava dizendo pesou ainda mais sobre mim.

— E se eu mudar de ideia depois? — perguntei, quase num sussurro.

— Essa possibilidade existe enquanto o processo não estiver finalizado — respondeu ela com calma. — Por isso, é importante que você esteja absolutamente certa da sua decisão antes de prosseguir.

O silêncio tomou conta da sala novamente. Eu olhei para Bella, buscando apoio. Ela me ofereceu um sorriso encorajador, mas os olhos dela estavam cheios de dor.

— Eu só quero que ele tenha uma vida boa... melhor do que eu poderia oferecer — expliquei, minha voz embargada.

A assistente social assentiu, compreensiva.

— E ele terá, independente da decisão que você tomar. Mas, Renesmee, pense bem. Você ainda tem alguns dias antes de precisarmos dar andamento ao processo. Use esse tempo para refletir.

Eu assenti novamente, incapaz de dizer qualquer outra coisa.

Depois de se despedir, Rosalie levantou-se e acompanhou a assistente social até a porta. Eu permaneci sentada, sentindo o peso de todas aquelas palavras.

Quando Rosalie voltou, Alice já havia se sentado ao meu lado. Sem dizer nada, ela me envolveu em seus braços.

— Está tudo bem, Nessie... — disse Alice, sua voz suave. — Você não precisa tomar nenhuma decisão agora. Estamos aqui com você.

Eu desabei, permitindo que as lágrimas escorressem livremente. A força que tentava manter estava se desfazendo. Alice segurou minha mão e murmurou palavras reconfortantes enquanto eu me deixava ser acolhida. Sabia que precisava decidir, mas naquele momento só queria sentir que não estava completamente sozinha.

A escuridão ao meu redor era quebrada apenas pelo riso suave de uma criança. Eu estava em um pequeno parquinho cercado de árvores, o ar era leve e o som do balanço rangendo ao meu lado era tranquilizador.

Eu empurrava o balanço com cuidado, observando a criança à minha frente gargalhar de alegria. Ela tinha cabelos castanhos cacheados e olhos castanhos calorosos. O som da risada dela aquecia meu peito de uma forma que eu não conseguia explicar.

Depois de um tempo, ela pulou do balanço e correu em direção ao escorregador, olhando para trás e gritando:

— Vamos, mamãe!

Eu ri, sentindo uma felicidade estranha, mas genuína. Corri atrás dela, ajudando-a a subir os degraus e depois a escorregar. Seus risos ecoavam pelo parquinho, tão puros e inocentes.

Mas então o riso dela foi cortado por um silêncio súbito e esmagador. Eu me virei e o vi. Tom.

Ele estava parado na entrada do parquinho, com aquele olhar frio e cruel que fazia meu sangue gelar.

— Não — murmurei, sentindo meu coração disparar.

Peguei a criança nos braços, apertando-a contra mim enquanto começava a correr. Mas por mais que eu corresse, Tom estava em todos os lugares. Ele surgia entre as árvores, atrás do escorregador, à minha frente.

— Você não vai fugir de mim, Renesmee — ele sussurrou, sua voz ecoando como um trovão.

Gritei, tentando proteger a criança, mas o mundo ao meu redor parecia se fechar, como se não houvesse escapatória.

— Não! — eu gritei, meu corpo tremendo.

De repente, tudo desapareceu.

Eu acordei ofegante, com o coração batendo tão forte que parecia prestes a explodir. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, e meus gritos ainda ecoavam no quarto.

A porta se abriu com um estrondo, e Bella correu até mim, sentando-se ao meu lado.

— Nessie! Foi apenas um pesadelo, querida. Eu estou aqui. Você está segura.

Eu me agarrei a ela, chorando descontroladamente. A sensação de medo e desespero ainda dominava meu corpo.

Foi então que senti algo estranho. Um calor úmido na cama.

— Mãe... — sussurrei, tentando encontrar minha voz em meio ao choro. — Minha bolsa... ela estourou.

Bella se afastou o suficiente para olhar para mim, e seus olhos se arregalaram.

— Meu Deus, Nessie! Está tudo bem, querida. Vamos levá-la ao hospital agora.

Eu só conseguia assentir enquanto a dor começava a crescer, tanto física quanto emocional. O pesadelo ainda pairava sobre mim, mas agora a realidade estava me puxando para um novo e desconhecido tipo de medo.