Apenas mas uma de amor
71 Jacob- Da despedida ao recomeço
Notas iniciais
O céu estava encoberto, carregado de nuvens pesadas como o clima no nosso peito. O som abafado da terra caindo sobre o caixão ainda ecoava nos meus ouvidos. Era como se cada pá de terra selasse uma história, um sacrifício… e uma dor profunda.
Renata merecia mais do que aquilo. Merecia uma despedida diferente, com flores coloridas, risos e lembranças felizes. Mas ali estávamos nós, em meio ao silêncio quebrado apenas por choros e suspiros contidos.
Me aproximei dos pais dela, dois senhores marcados pelo tempo e agora pela dor. Os olhos da mãe de Renata estavam inchados, vermelhos, mas ela me recebeu com um abraço apertado. O pai dela apertou minha mão com firmeza, mesmo que os olhos revelassem todo o sofrimento.
– Jacob – a mãe dela disse, com a voz trêmula. – Prometa que o Ryan vai nos visitar. Ele é tudo que nos resta dela.
Assenti de imediato, sem hesitar.
– Eu prometo. Sempre que quiserem vê-lo, eu mesmo trarei o Ryan. Ele vai saber o quanto vocês o amam.
O pai de Renata assentiu em silêncio, e os dois se afastaram para o último olhar ao túmulo da filha.
Me virei e vi Ryan. Parado, imóvel, com os olhos fixos na lápide recém-colocada. Pequeno demais pra tanta dor, maduro demais para a idade. Ele mordeu o lábio com força, como se aquilo o ajudasse a conter as lágrimas. Me aproximei e me agachei ao lado dele.
– Pode se despedir, filho – disse, colocando a mão em seu ombro. – A mamãe vai sempre estar com você, aqui – levei a mão ao peito dele – e aqui – toquei sua cabeça.
Ele apenas assentiu e, após um longo minuto, sussurrou algo que não consegui ouvir. Depois se virou e me abraçou. Um abraço apertado, desesperado, do tipo que pedia socorro. Eu o acolhi com toda a força que tinha.
– Eu tô com você, Ryan. Sempre.
Foi nesse momento que senti uma presença ao nosso lado. Era Renesmee, com o rosto sereno apesar do cansaço. Ela segurava Hope no colo, que dormia encostada no ombro da mãe, e Aurora vinha de mãos dadas com ela, com os olhos baixos e expressão fechada.
Nessie não disse nada, apenas colocou a outra mão sobre as minhas costas e encostou sua cabeça no meu ombro. O silêncio dela dizia tudo.
– Vamos pra casa – murmurei, por fim, puxando Ryan com carinho. – Todos nós.
Ninguém respondeu, mas todos assentiram em silêncio. Saímos dali como uma família marcada, mas mais unida. Tínhamos muito a superar, e muitas feridas a curar… mas estávamos juntos. E isso já era o começo.
....
Meses se passaram desde aquela noite em que as chamas consumiram não só o galpão, mas uma parte de todos nós. O luto ainda pairava em nossos silêncios, nas lembranças e nas perguntas que nunca seriam respondidas. Mas hoje... hoje era o dia em que a justiça encontraria seu caminho.
Eu me sentei na fileira reservada à observação, e não no banco onde costumeiramente presidia. Mesmo sendo juiz, a lei era clara — eu estava envolvido demais para ter qualquer voz neste julgamento. E, sinceramente, eu estava grato por isso. Não queria imparcialidade hoje. Eu queria justiça.
A sala estava lotada. Familiares, imprensa, advogados, policiais. E lá estava ele... Tom. Algemado, abatido, mas ainda carregando aquele olhar de superioridade que sempre o acompanhou. O mesmo olhar que me fez estremecer ao saber o que ele era capaz de fazer.
As acusações foram lidas uma a uma. Sequestro. Ameaça a menores. Tentativa de homicídio. E a pior de todas, a que mais doía de ouvir: envolvimento direto na morte de Renata.
O promotor foi implacável, apresentou cada prova com precisão, cada testemunho com firmeza. E quando as imagens do galpão em chamas apareceram, vi os ombros de Renesmee enrijecerem à minha frente. Ela estava sentada uma fileira adiante, entre Rachel e Rebecca, com Hope adormecida no colo e Aurora segurando sua mão.
O julgamento durou longas horas. Ao fim, quando o juiz finalmente leu a sentença, um silêncio mortal tomou conta da sala.
– Thomas Dyer Evans, por seus crimes, o senhor é condenado a 38 anos de prisão em regime fechado.
Não houve comemoração. Só um suspiro coletivo.
Tomei fôlego e me levantei. Ryan segurava minha mão com força. Ele estava lá também, vestido com um paletó escuro, tentando parecer forte. Seus olhos buscaram os meus, e eu apenas assenti. “Acabou”, eu queria dizer.
Renesmee se virou e me encontrou com o olhar. Ela se aproximou devagar e, ao chegar perto, me envolveu em um abraço apertado.
– Finalmente – ela sussurrou, com a voz embargada. – O pesadelo acabou.
Fechei os olhos e retribuí o abraço.
– Acabou – repeti, mais para mim mesmo do que para ela. – Agora... agora a gente recomeça.
E pela primeira vez em muito tempo, a palavra recomeço parecia fazer.
O carro seguia em silêncio pela estrada, enquanto a cidade de Seattle ficava para trás, junto com o peso do tribunal e o fim de um pesadelo. O julgamento havia encerrado uma fase escura de nossas vidas, e embora a justiça tivesse sido feita, o vazio deixado por Renata ainda nos acompanhava.
Ao chegarmos em casa, vimos todos reunidos na varanda. Minha mãe, Sarah, foi a primeira a descer os degraus, seguida de Bella, Edward e Billy, que segurava firme sua bengala. Seus olhos estavam marejados, mas seu sorriso era sereno.
— Estávamos esperando por vocês — disse Bella, com a voz suave, ao abraçar Renesmee.
Sarah veio até mim e me envolveu num abraço apertado, como se dissesse sem palavras que finalmente podíamos respirar. Edward cumprimentou-me com um aperto de mão firme.
— Tudo certo? — ele perguntou.
— Tom foi condenado. Anos de prisão. Pelo sequestro das crianças e pela morte da Renata. — suspirei, sentindo o peso sair dos ombros. — O pesadelo acabou.
— Agora é hora do recomeço — disse Edward. — Haarlem os espera. Já providenciei tudo com a casa. Os contratos foram assinados ontem, e os móveis estarão lá quando vocês chegarem.
Renesmee assentiu, com Hope adormecida nos braços.
— Obrigada, Pai! Não sabemos como agradecer por tudo isso — disse ela, com emoção na voz.
— Vocês são família — respondeu ele. — E estarão perto. Amsterdã é nosso lar agora. Estaremos lá pra tudo o que precisarem.
Billy se aproximou e pousou uma mão firme no meu ombro.
— Tenho orgulho de você, filho. Só quero uma coisa...
— Ryan poderá te visitar sempre que quiser — respondi antes mesmo de ele terminar. — E eu mesmo vou levá-lo.
Billy assentiu, emocionado. Seus olhos seguiram o menino, que estava sentado no tapete da sala com Aurora.
Renesmee subiu para colocar Hope na cama, e eu fiquei observando Ryan e Aurora brincando com um quebra-cabeça colorido. As risadas suaves, os olhares cúmplices... Pela primeira vez em muito tempo, Ryan parecia uma criança de verdade. Seus traços estavam mais leves, e Aurora sorria ao ver o irmão se distrair.
Renesmee retornou, sentando-se ao meu lado no sofá. Pousou a mão sobre a minha.
— Ver eles assim... parece que o mundo pode voltar a ser bom, não é? — ela disse baixinho.
— Pode sim — respondi. — E vai ser. Haarlem vai ser um novo começo pra todos nós. Sem fantasmas. Sem medo.
Ela encostou a cabeça no meu ombro, enquanto ao fundo, o som da infância voltava a preencher nossa casa.
E, pela primeira vez, parecia que o futuro realmente nos pertencia.
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