Apenas mas uma de amor
63 Jacob- Confiança
Terminei a audiência já pensando no próximo compromisso quando o celular vibrou no bolso do meu paletó. Olhei para a tela e vi o nome de Renata. Atendi imediatamente, um pouco apreensivo.
– Renata? O que houve?
A voz dela do outro lado da linha era nervosa. – Jacob, é o Ryan. Ele está com muita febre. Tentei ligar para a Renesmee, mas não consegui falar com ela.
Minha preocupação aumentou. – Estou indo para o seu apartamento agora. Mantenha a calma. Já estou a caminho.
Desliguei a chamada e caminhei rapidamente pelo corredor em direção à saída. Cruzei o olhar com Molly, que estava organizando papéis na recepção.
– Molly, cancele meus compromissos por hoje. Algo urgente apareceu.
Ela assentiu, sem fazer perguntas, e eu saí do prédio apressado.
Quando cheguei ao apartamento de Renata, ela abriu a porta com a expressão abatida.
– Ele finalmente dormiu – disse ela, tentando sorrir. – Dei a medicação há pouco.
Entrei e fui direto para o quarto de Ryan. Ele estava deitado, com as bochechas levemente rosadas, respirando tranquilamente. Toquei sua testa com cuidado e percebi que estava normal.
– A febre passou – informei, aliviado.
Renata apareceu na porta do quarto, cruzando os braços. – A medicação deve ter feito efeito.
Eu olhei para ela e balancei a cabeça. – Você fez bem em me ligar. Nunca hesite, Renata.
Voltamos para a sala, onde ela se sentou no sofá e me observou por alguns segundos antes de dizer:
– Desculpe por ter te tirado do trabalho.
– Você fez o certo – respondi, firme. – Se fosse algo mais grave, eu precisaria saber.
Ela hesitou, mexendo nas mãos, antes de se levantar. – Posso te oferecer algo para beber?
– Não, obrigado.
Nesse momento, meu celular tocou. Era uma ligação de Nessie. Pedi licença a Renata e me afastei para atender. Enquanto conversava rapidamente com Nessie sobre o jantar com as meninas, aproveitei e falei sobre Ryan, Nessie achou estranho pois não havia recebido ligação de Renata.
– Preciso ir – disse, pegando o casaco. – Se Ryan voltar a ter febre ou qualquer outra coisa, me ligue.
Renata se aproximou com um olhar grato. – Obrigada, Jacob. Por tudo.
Antes de sair, ela me envolveu em um abraço inesperado. Retribuí rapidamente, tentando não parecer desconfortável.
Quando deixei o apartamento, sentia o peso do meu papel como pai e a responsabilidade de manter a paz em minha família.
...
Estava imerso em uma pilha de papéis no escritório, tentando compensar o tempo que havia perdido ao sair mais cedo para ver Ryan. Apesar de estar cansado, sabia que precisava despachar alguns processos antes do dia seguinte.
Enquanto revisava uma petição particularmente complicada, ouvi um leve toque na porta. Levantei o olhar e vi Renesmee entrar. Ela parecia cansada, as mãos cruzadas diante do corpo.
– As meninas já dormiram – disse ela, com a voz baixa. – Vou me deitar também. Estou com uma dor de cabeça.
Fechei a pasta que estava em minhas mãos e a observei atentamente. – Está tudo bem?
– Sim, é só o cansaço – respondeu, mas o tom seco e a falta de emoção em sua voz me deixaram alerta.
– Boa noite, Jacob – ela disse rapidamente antes de sair, sem me dar tempo de insistir.
Fiquei olhando para a porta por alguns segundos após ela sair. Havia algo errado. Eu a conhecia bem demais para não perceber. Sua voz não tinha o calor de sempre, e o jeito como evitou meus olhos só confirmou minhas suspeitas.
Suspirei, deixando os papéis de lado. Aqueles processos podiam esperar. Me levantei e fui atrás dela.
Ao entrar no nosso quarto, a vi deitada de lado, com o cobertor puxado até os ombros. Me aproximei devagar e me sentei na beirada da cama.
– Nessie... – comecei, tocando de leve seu ombro.
Ela virou a cabeça, me encarando com uma expressão indecifrável. – Jacob, está tudo bem. Eu só quero dormir.
– Não está tudo bem – insisti. – Eu sei que tem algo te incomodando. Se não quiser falar agora, tudo bem, mas quero que saiba que estou aqui.
Ela desviou o olhar por um momento antes de suspirar. – Eu vi o batom no seu casaco, Jacob.
Meu coração parou por um instante. Batom? Minha mente correu em direção à tarde no apartamento de Renata. Tentei lembrar de qualquer momento em que isso pudesse ter acontecido.
– Batom? – perguntei, tentando entender.
Ela assentiu, os olhos fixos no travesseiro. – Não vou brigar ou fazer um escândalo, mas precisava te dizer que isso me machucou.
– Nessie, eu... – comecei, mas ela ergueu a mão, me interrompendo.
– Não quero discutir agora, Jacob. Estou cansada.
Senti o peso do mundo cair sobre meus ombros. Ficar em silêncio parecia errado, mas insistir também parecia pior. Segurei sua mão e beijei seus dedos delicadamente.
– Eu vou provar pra você que não há nada pra se preocupar. Mas, por favor, não se feche comigo, Nessie. Eu te amo, mais do que tudo.
Ela não respondeu, apenas fechou os olhos, deixando uma lágrima solitária deslizar pelo rosto. Levantei-me devagar e saí do quarto, fechando a porta atrás de mim.
Minha mente trabalhava rapidamente. Alguma coisa estava acontecendo, e eu precisava descobrir o que antes que isso ameaçasse a paz da minha família.
Narrado por Jacob
A manhã começou tensa, e eu senti isso assim que entrei na cozinha. Nessie estava em pé ao lado do balcão, ajudando Hope a colocar o suco no copo. Aurora já estava sentada à mesa, desenhando distraidamente em um guardanapo. Quando olhou para a mãe, sua testa se franziu, como se percebesse algo errado.
– Bom dia – cumprimentei, beijando o topo da cabeça de Nessie e depois as bochechas das meninas. Nessie respondeu com um "bom dia" seco, e eu sabia que o clima do café da manhã seria complicado.
Nos sentamos à mesa, e o silêncio parecia gritar entre nós. Nessie comia sem apetite, mexendo mais no prato do que realmente se alimentando. Aurora olhou de um para o outro algumas vezes antes de finalmente abrir a boca:
– Mamãe, posso levar o iogurte pro lanche? – perguntou Hope, quebrando a tensão.
– Claro, querida – respondeu Nessie, com um sorriso que não chegava aos olhos. Em seguida, ela se levantou. – Vou ajudar Hope a pegar a mochila.
Quando ela saiu da mesa, Aurora me olhou com a testa franzida.
– Pai... – começou, sua voz um pouco hesitante. – Você e a mamãe brigaram?
Respirei fundo, tentando parecer calmo.
– Não, Aurora, não brigamos. Só estamos... conversando sobre algumas coisas.
Ela não parecia convencida. – Mas a mamãe tá triste. Eu percebi.
Estendi a mão e toquei a dela, apertando-a levemente. – Ei, isso não é algo que você precisa se preocupar, tá bom? Eu e sua mãe vamos ficar bem.
Aurora olhou para a porta, como se esperasse que Nessie voltasse a qualquer momento. – Tá... mas você promete?
Sorri, tentando parecer confiante. – Prometo, meu amor.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Nessie voltou à mesa com Hope já de mochila.
– Vamos, meninas, está na hora de ir – apressou, claramente querendo evitar mais interações entre nós.
As duas pegaram suas coisas, e eu me levantei para dar um beijo nelas antes de saírem. Nessie se abaixou para ajustar a mochila de Hope, e Aurora me lançou um último olhar, como se dissesse que estava de olho em tudo.
Depois que a porta se fechou, ficamos sozinhos na cozinha. Nessie começou a recolher os pratos, mas parei ao me aproximar.
– Podemos conversar agora? – perguntei, tentando manter minha voz tranquila.
Ela soltou um suspiro pesado e se virou para mim, os braços cruzados. – Fale.
– Eu não sei de onde surgiu essa mancha de batom, Nessie. Juro por tudo que é mais sagrado que não sei. Eu deixei meu casaco várias vezes no tribunal ontem, no banco onde estava sentado. Pode ter acontecido qualquer coisa.
– Jacob... – começou ela, mas parecia relutante em continuar.
– Nessie, eu te amo. Não há ninguém além de você. Você é minha esposa, a mulher que escolhi para passar o resto da minha vida. – Me aproximei devagar, segurando suas mãos. – Por favor, acredite em mim.
Ela me olhou nos olhos por um longo momento, sua expressão misturando desconfiança e vulnerabilidade.
– Tudo bem, eu acredito em você – disse finalmente.
Não consegui evitar. Inclinei-me para beijá-la. No início, ela tentou me afastar, pressionando as mãos contra meu peito, mas então cedeu, retribuindo o beijo com intensidade.
Quando finalmente nos afastamos, ela suspirou e apoiou a testa contra o meu ombro.
– Jacob, eu só...
Acariciei seus cabelos. – Eu nunca faria isso com você, Nessie. Nunca.
...
A reunião estava quase no fim, e eu já sentia o cansaço do dia pesar nos ombros. Alguns promotores e advogados que participavam do encontro discutiam os últimos pontos de uma audiência quando a porta se abriu e Molly entrou, parecendo um pouco hesitante.
– Senhor Black, sua esposa está aqui e pediu para falar com você – anunciou, olhando diretamente para mim.
Minha testa se franziu de leve. Nessie raramente aparecia no meu trabalho sem avisar, o que me deixou surpreso.
Um dos promotores, um homem mais velho chamado Harris, soltou uma risada. – Visitas surpresas da esposa, hein? Parece que alguém está devendo flores ou chocolates.
Outro riu e completou: – Ou talvez ela só queira checar se o chefe está se comportando.
Sorri, balançando a cabeça enquanto me levantava. – Vamos encerrar por aqui, pessoal. Obrigado pelo tempo de vocês.
Enquanto os homens se levantavam e pegavam suas pastas, continuaram a lançar piadas leves sobre a situação, mas eu apenas os acompanhei até a porta, apertando mãos e me despedindo com profissionalismo. Assim que o último saiu, fechei a porta e virei para encarar Nessie, que entrou segundos depois.
Ela não parecia estar no clima para brincadeiras. Sua expressão era séria, o que fez meu sorriso inicial se dissipar.
– Oi, amor – comecei, dando um passo em sua direção, mas ela imediatamente recuou.
– Não – disse ela, sua voz firme e carregada de emoção. – Não comece com isso, Jacob.
Eu parei no lugar, surpreso pela intensidade em sua voz. – O que aconteceu?
– Você sabe muito bem o que aconteceu. – Ela cruzou os braços, os olhos faiscando com indignação. – Por que você não me disse que Tom Evans foi solto?
Meu estômago afundou, e meu coração deu um salto desconfortável no peito. Por um momento, fiquei sem palavras, encarando-a como se tentasse ganhar tempo.
– Nessie... – comecei, mas ela me interrompeu.
– Não me venha com desculpas, Jacob. Você sabia disso e escolheu não me contar. Por quê?
Passei a mão pelo rosto, tentando organizar meus pensamentos. – Eu não queria te preocupar. Você tem se esforçado tanto para manter a paz em casa, com as meninas, com Ryan... Achei que não precisasse de mais uma coisa para te deixar tensa.
Ela deu uma risada amarga. – E você acha que esconder algo assim de mim ajuda? Você acha que é melhor eu descobrir por outra pessoa?
Minha mandíbula se contraiu, e dei alguns passos à frente, apesar de ela continuar me encarando com frieza. – Eu não queria que você perdesse a paz, Nessie. Eu estou cuidando disso. Contratei seguranças para você e para as meninas. Estou fazendo tudo o que posso para garantir que nada aconteça.
Ela me encarou, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas. – Você acha que esconder isso de mim é me proteger? Jacob, eu sou sua esposa. Nós somos uma equipe. Você não pode tomar decisões como essa sem me incluir.
– Eu sei – admiti, minha voz baixa. – Eu errei. Mas tudo o que fiz foi pensando no seu bem.
Ela balançou a cabeça, cruzando os braços mais apertadamente. – Eu não quero que você me esconda as coisas, Jacob. Não importa o quanto você ache que é para o meu bem.
Dei mais um passo em sua direção, pegando suas mãos suavemente. – Me perdoa, Nessie. Eu só queria te proteger, mesmo que isso tenha me feito agir da maneira errada.
Ela me olhou por um momento longo, como se estivesse avaliando se podia acreditar em mim. Finalmente, suspirou, e o peso que eu via em seus olhos parecia diminuir um pouco.
– Não faça isso de novo – disse ela, sua voz mais suave agora.
– Não farei – prometi, apertando suas mãos. – Nunca mais.
Ela soltou um suspiro pesado, e quando me aproximei para beijá-la, ela não se afastou. A sensação de alívio e amor ao senti-la ceder foi indescritível.
Nessie era meu porto seguro, e eu faria de tudo para nunca mais perder a confiança dela.
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