Apenas mais Uma de Amor

27 Um carinho às vezes cai bem.


- Oi. – ela disse quando eu entrei no carro

- Olá. – Não sei por que, mas o ambiente estava meio desconfortável. Ela tava séria, o que tornava difícil entender o que ela iria me dizer.

- É... Podemos ir pra sua casa? – ela perguntou meio receosa

- Claro! – eu respondi tentando disfarçar minha ansiedade

Ela ligou o carro e o silêncio se instalou nesse momento, e durante todo o caminho não tivemos coragem de quebrá-lo. Eu estava pensativa e pelo seu semblante ela também estava. Quando eu entrei no carro e analisei seu rosto, pude ver que olheiras apareciam embaixo dos olhos, ou seja, noite mal dormida, logo me toquei que se eu não tivesse passado maquiagem pra disfarçar, as minhas olheiras anunciariam a minha noite mal dormida também.

Mas diante de tal beleza como a dela, as olheiras se tornavam extremamente insignificantes, os cabelos castanhos claros presos em um coque, a pele branca, entrando em contraste com os lindos olhos verdes e ela ainda usava seu óculos de grau, que raramente usava, mas que lhe dava um ar de seriedade extremamente sexy. Simplesmente linda.

Aproveitei que estava analisando seus traços e desci meus olhos pra sua roupa. Aquela blusa pólo preta com uma calça jeans skinny clara, e um all star branco estavam caindo muito bem, só pra variar um pouco, né?! Eu teria analisado um pouco mais, já que não me canso, se ela não tivesse percebido e estivesse me olhando com uma cara curiosa, logo acordei do devaneio e percebi que tínhamos chegado.

- É... vamos? – ela perguntou aparentemente sem graça. Eu confirmei com um gesto positivo e caminhamos em direção à minha casa.

*******

- Você quer alguma coisa? – eu perguntei fechando a porta

- Não não. Obrigada. – ela deu um sorriso de lado

- Você se importa de esperar eu tomar banho? – eu perguntei indo em direção ao meu quarto e colocando a mochila lá

- Claro que não. Eu espero aqui.

- É rápido. Não demoro. – eu disse já indo pro banheiro enquanto ela sentava e ligava a televisão

Eu tomei meu banho ainda pensativa, a Bruna tava muito calada, aquele silêncio tá querendo me dizer alguma coisa, eu sei que tá.

- Falei que não demorava? – eu perguntei sorrindo e sentando do seu lado, ela retribuiu com um sorriso fraco e me olhou rápido.

- Tá cheirosa! – ela disse parecendo se tocar de alguma coisa e voltando a encarar a televisão

- Obrigada. – eu disse olhando pra televisão rapidamente e olhando-a de novo. – Posso te dar um beijo? – eu perguntei temerosa. Essa pergunta pareceu pegá-la de surpresa, pois ela me olhou e demorou um pouco pra responder.

- Sim. – Pois é, ela disse só isso e ficou parada, quando eu vi que não ia fazer nada, até mesmo porque eu que pedi, eu me aproximei e toquei seus lábios macios. Quando eu ia me afastar uma mão veio até minha nuca e me segurou ali, até parece que eu não gostei, eu senti a língua entrar na minha boca, e quando tocou a minha, eu me entreguei de vez, eu me levantei sem desgrudar nossos lábios, e arranjei um jeito de sentar no seu colo, uma mão sua já estava nas minhas costas e outra continuava na minha nuca acariciando me causando arrepios, a minha mão estava na sua barriga e a outra tirava seus óculos, jogando-o no sofá. Ela desceu a boca pro meu pescoço e beijou pra depois morder, eu rapidamente puxei sua boca de volta pra minha com as duas mãos, quando eu mordi seus lábios e ela gemeu baixinho, foi quando pareceu ter acordado, afastando o rosto e colocando uma mão no cabelo.

- Não! – a voz dela saiu fraca e ofegante. Eu ainda tava respirando rápido, e fiquei encarando-a sem entender, ajeitei meu cabelo e finalmente voltei ao “normal”.

- Que foi? – eu perguntei tocando seu rosto, que logo se afastou

- Eu não vim aqui pra isso. – ela disse sem me olhar nos olhos

- Tudo bem, mas não precisa ser grossa. – eu disse saindo de cima dela

- Desculpe. – ela disse ainda com um tom de voz rude.

- Então... – eu incentivei sentando de frente para ela

- É... – ela parecia buscar palavras. Eu esperei, ela respirou fundo mais uma vez e continuou. – Eu vou viajar depois de amanhã.

- O quê? – eu perguntei gritando e me levantando, ela acompanhou meu gesto em silêncio

- É isso mesmo que você ouviu. A minha mãe já confirmou tudo. Já tá tudo certo.

- Tem certeza que tá tudo certo?! – eu perguntei já sentindo meu desespero

- Quero dizer, quase. Por isso estou aqui. – a sua tranquilidade e frieza já estavam acabando comigo

- E o que você quer dizer com isso? – eu perguntei apertando os olhos

- Senta aqui. – ela disse olhando pro lugar do seu lado

- Estou bem em pé. – eu disse já impaciente

- Daniela... – ela começou e pausou, mas continuou – Eu quero terminar nosso namoro.– ela disse franzindo a testa como se quisesse acreditar no que estava dizendo

- O que você tá me dizendo? – eu disse chegando mais perto e respirando com dificuldade

- Eu vou viajar e... – eu a cortei

- Pensei que íamos continuar mesmo você tendo que ir viajar! – eu disse já deixando as lágrimas brotarem

- Eu também no começo pensei assim, mas depois vi que vai ser melhor assim!

- Melhor? Melhor por quê? Por que vai ser mais fácil? Ou por que assim vamos sofrer mais? – eu perguntei com ironia maldosa e isso quebrou toda sua calma.

- Melhor porque eu não vou ter que pagar de chifruda! – ela disse gritando

- Hãm? Você tá doida? – Eu juro que pensei ter escutado errado, mas logo tive certeza que não quando ela continuou com acusações.

- É isso mesmo! Eu vou deixar o caminho livre pra sua amiguinha! – ela disse apertando os dentes

- Então tudo se resume a isso? Que coisa mais ridícula! Você no fundo tá com medo de não dar conta de um relacionamento à distância e quer colocar a culpa no lance da Amanda.

- Eu tenho medo? Eu nunca tive dúvidas de que queria continuar com você, mas depois de tudo que está acontecendo a única coisa que posso pensar é que você não consegue resistir ao charme de uma garotinha! – isso me enfureceu de tal maneira que eu fiquei com nojo de olhar pra ela

- Você nunca mais repete isso! – eu disse colocando o dedo no seu rosto e cuspindo as palavras

- Tira o dedo da minha cara! – ela disse empurrando minha mão com força

- Então me respeita! – eu disse sentindo todo o meu sangue ferver

- Me respeita que com certeza eu vou te respeitar!

- E quando eu não te respeitei? – ela riu da minha pergunta

- Deixa eu ver... será que foi quando você ficou com a Camila? Não não, deve ter sido quando você deixou aquela piranha da Amanda encostar em você!

- Eu fiquei com a Camila sim, mas a gente tinha terminado...

- Um dia antes! Nossa, que diferença! – ela disse fazendo gestos com a mão

- A questão é que eu não te traí! E a Amanda? O que eu tive com a Amanda?

- Seria uma questão de tempo...

- Você é ridícula, sabia? Você não confia em mim, esse é o fato, o seu ciúme te cega, e faz você enlouquecer!

- Ahhh, agora tá me chamando de maluca?

- Maluca sim! É isso que você é! Desconfiada, acha que o mundo inteiro conspira contra você! Ah, pobre coitada dela! – eu disse ironizando

- Isso tudo tá me mostrando o quanto estou certa em terminar isso por aqui, o quanto minha mãe está certa e o quanto eu me enganei quando me apaixonei por você! – essa hora ela já estava em pé na minha frente e com os olhos pegando fogo de raiva

- Eu sabia que tinha o dedo da sua mãe no meio! – eu disse fazendo um gesto negativo com a cabeça. Eu levei minha mão ao cabelo e a deixei lá, enquanto ela se irritava cada vez mais.

- Minha mãe? O que tem a minha mãe?

- Até parece que você não sabe que a sua mãe tá doida pra te tirar daqui!

- Não fala uma coisa que você não sabe!

- Eu não sei? – eu perguntei apontando pra mim. – Aquele dia na sua casa deixou bem claro o que sua mãe pensava sobre mim e você!

- CHEGA! – ela gritou. – A gente termina aqui e você não faz idéia do quanto me arrependo de ter sido sua namorada! – PRONTO! Ela me cortou ao meio, acabou com todas as minhas defesas com essa frase, eu me senti sem chão, me senti tonta, enjoada e tudo misturou.

- Por favor, sai daqui! – eu disse virando o rosto enquanto as lágrimas caíam e até as minhas palavras saíram fracas.

- Vai me expulsar? – ela perguntou também falando mais baixo

- Você acabou de terminar comigo, me ofendeu de todas as maneiras possíveis e ainda se acha no direito de reclamar? – eu disse sentindo lágrimas e mais lágrimas escorrerem, eu voltei a olhar em seus olhos e eles apenas me analisavam. Ela ficou calada me olhando, eu estava quebrada por dentro, eu queria ficar sozinha, sem ela me ver daquele jeito. Ela começou a se aproximar.

- Daniela, escuta...

- Não, Bruna, é sério, eu não quero escutar mais nada, eu já escutei tudo e mais um pouco, agora eu te peço por favor que saia da minha casa! – ela tocou meu braço

- Eu... Eu... – ela gaguejava e eu tirei meu braço com força

- Eu vou falar pela última vez: sai da minha casa! – eu disse pausadamente, frisando cada palavra.

- Daniela, olha pra mim, por favor! – ela pegou minha mão e sua voz era desesperada. A Bruna tava bipolar, só pode ser, ela termina comigo com toda a frieza do mundo e de repente, muda totalmente.

- Bruna, presta atenção em uma coisa: ACABOU! Você quis assim, você já disse TUDO, agora eu quero ficar sozinha! Eu quero que você viaje e aproveite cada segundo lá, que fique com todas as meninas que aparecerem na sua frente e simplesmente esqueça que um dia eu estive na sua vida. – dizer isso foi me cortando por dentro, eu podia sentir uma faca cravada na minha garganta e no meu coração.

Ela se virou e pegou seu óculos, parou na minha frente de novo, mas eu simplesmente saí dali, eu não tava aguentando, eu fui pro meu quarto e tranquei a porta. Sem nem olhar pra trás, pensando que aquela provavelmente seria a última vez que a veria. Se ela tinha se arrependido do que falou? Eu não sei, mas eu sei que ela me magoou, as suas palavras eram amargas e fortes demais, escutar tais coisas de alguém que você gosta, que você se dedicou é duro, mas o meu orgulho também era grande.

Eu escutei a porta da sala sendo fechada e a ficha caiu de que acabou, de que ela foi embora e me deixou. Eu me joguei na cama, puxando o travesseiro com toda a força. Eu gritei, mas o grito foi cortado por soluços e lágrimas.

Eu acordei sentindo meus olhos inchados, eles também ardiam, eu os esfreguei e forcei minhavista, levantei muito rápido e por um momento vi tudo rodando.

Fui até minha mochila e peguei meu celular, quando o vi, avistei também o bilhete que Amanda escrevera. Eu peguei os dois, antes olhei no celular, eram 17h30min, com certeza dormi muito, mas só de lembrar o motivo de querer dormir, a angústia já voltava.

Abri o bilhete da Amanda e reli a música que eu também conhecia e gostava do Kid Abelha – Eu só penso em você, mas dessa vez ela não teve o mesmo impacto animador.

O telefone de casa tocou e eu fui atendê-lo com passos lentos.

-Oi. – eu disse sem ânimo

- Daniela?

- Amanda? – eu perguntei estranhando

- Sim. Dani, tá tudo bem? Sua voz tá estranha... – ela perguntou preocupada

- Na verdade, não.

- Mas o que aconteceu?

- Ai, Amanda, eu nem sei se eu to com cabeça pra contar agora. – eu disse colocando a mão na cabeça na hora que senti uma pontada forte.

- Você quer que eu vá pra sua casa? Eu te faço companhia!

- Você não tem que se preocupar comigo!

- Daniela, amigas são pra isso. Você não precisa falar o que aconteceu! – eu realmente precisava, tava me sentindo sozinha

- Tá.

- Eu vou me arrumar e vou. Mas olha, não chora mais, tá?! – eu fechei meus olhos quando senti um aperto

- Tá. – eu disse de novo

- Me espera. – ela disse isso e desligou apressada

- Calma, Dani, não chora! – ela disse assim que eu abri a porta, já me abraçando. O seu abraço era confortante, eu a apertei com força e chorei no seu ombro.

- Acabou! – eu disse entre soluços

- O que acabou? – ela perguntou fazendo carinho no meu cabelo

-Eu e a... Bruna! Terminamos, não, ela terminou comigo! – a lembrança das suas palavras ainda me machucava.

- Por quê?

- Ela disse que vai viajar e não quer pagar de chifruda! – ela se separou de mim e me olhou confusa

- Pagar de chifruda?

- Sim. Eu contei pra ela o que aconteceu no banheiro.

- Mas Dani, não aconteceu nada!

- Eu sei!

- E por que você contou?

- Não ia me sentir bem escondendo.

- Mas você nunca ficaria comigo estando com ela!

- Vai falar isso pra ela. Ela me disse coisas ruins, EU disse coisas ruins que eu não queria ter dito, mas ela me machucou, as palavras dela me atingiram de tal forma que eu fico arrepiada só de pensar.

- Shhh... não fala mais nada, só se acalma! – ela disse me abraçando de novo

- Obrigada por vir aqui.

- Não precisa agradecer. Agora vamos lavar esse rostinho lindo, eu não vou dizer a famosa frase que é pra você se animar, porque sei que não adianta, mas que tal tentar se distrair com alguma coisa que você goste?

- Eu aceito a proposta de lavar o rosto!

- Então vai lá, que eu te espero aqui! – ela disse sorrindo

Enquanto eu jogava uma água no rosto, eu me olhei no espelho e vi os meus olhos vermelhos, eu joguei mais um pouco de água e sequei o rosto, respirei fundo e voltei pra sala, encontrei a Amanda sentada no sofá, falando com alguém no celular, quando ela viu que eu voltei, me olhou com um sorriso amigo e fez um gesto pra eu me sentar do seu lado, enquanto continuava a falar.

- Não, acho que amanhã eu não vou ter nada. É... desculpa, é que eu tava com pressa. – ela fazia pausas, esperando a outra pessoa falar e continuava. – Tá bom então! Não, eu vou esperar. Ok, beijos. – ela deu risadinha fraca pra pessoa e desligou dando um suspiro.

- Problemas? – eu perguntei enquanto ela se ajeitava no sofá e ficava de frente pra mim.

- Bom, mais ou menos. Era o Pedro. – ela disse sem graça

- Ah... Ele quer conversar, né?!

- É. Ele falou comigo hoje que queria conversar, mas eu acabei indo embora e esqueci de falar com ele, aí agora ele tá me ligando pra eu não esquecer de novo amanhã.

- E você já sabe o que vai falar?

- Ah, Dani, eu acho que essas coisas saem naturalmente, eu apenas vou ser sincera com ele!

- O ruim é que não adianta o que você fala, sempre acaba machucando.

- Obrigada por me ajudar!- ela disse revirando os olhos e me fazendo soltar risadinha fraca

- Desculpa, não foi essa a intenção.

- Tudo bem, eu sei que é verdade mesmo. Eu só queria que ele não tivesse sentimentos por mim, ele é uma ótima pessoa, sabe, e eu não quero estragar nossa amizade.

- Eu entendo. Quem mandou ser assim?! – eu disse apontando pra ela

- Assim? Assim como? – ela perguntou apontando pra si mesma e se olhando.

- Você entendeu...

- Talvez. Por que você não fala?! Aí vamos ter certeza. – ela disse sorrindo, já ficando convencida

- Assim... desse jeito... ah, Amanda, bonita assim! E você também é uma ótima pessoa.– eu falei de uma vez, o que foi seguido por risadas suas e sorriso de contentamento.

- Obrigada!

- Boba! – eu disse dando língua pra ela que riu do gesto.

O silêncio ficou prevalecendo durante um tempo, eu olhava pra ela, eu olhava pra minha mão, e sempre tendo a certeza de que seus olhos estavam em mim.

Eu estava olhando pra minha mão quando senti que ela se mexia, logo olhei pra frente e a vi ajoelhar e sentar mais perto de mim, quando estava em uma distância consideravelmente favorável para suas mãos, ela esticou uma e tocou meu rosto. Ela fazia carinho no meu rosto e me sorria um sorriso companheiro, amigo.

- Se você soubesse o quanto eu gosto de você... – ela disse ainda sorrindo

- Eu também gosto de você. – eu disse sorrindo de lado

- Eu sei que sim. Mas você entendeu o que eu quis dizer.

- Amanda... – ela me interrompeu colocando um dedo sobre a minha boca, eu me assustei um pouco com o gesto, mas esperei ela falar.

- Eu também sei o que você vai falar. Então por que você não esquece um pouco isso? – ela disse se aproximando mais. Eu olhava seus movimentos silenciosamente, o que para ela devia ser uma “brecha”.

Ela tocou meu rosto com a ponta do nariz e fez um carinho com o mesmo, era leve e gostoso. Ela desceu o rosto e começou a fazer carinho com o nariz no meu pescoço, ela respirava, e conseguia me arrepiar, era tudo tão calmo, sem pressa e carinhoso. Mas o meu lado sensato falou mais alto.

- Amanda? – eu chamei e ela só falou “eu”, mas continuou no meu pescoço mudando de lado agora, então eu tentei de novo. – Vamos ver um filme? – agora pareceu funcionar, pois ela levantou o rosto pra me olhar, não sem antes de me dar um beijo no pescoço e sorrir ao ver o que isso me causou.

- Claro. Você tem filme bom aí? – ela perguntou parecendo até animada

- Acho que sim. Ali – eu disse apontando pra estante onde ficava a televisão- ficam os filmes, pode escolher. – Ela se levantou e fiquei a olhando. Ela olhou pra trás de repente e falou:

- Dani, ainda não é o momento. Eu sei disso. – ela disse piscando e virando, eu acabei dando uma risada baixa pelo seu comentário.

Notas finais
Espero que gostem.