Apenas Uma História De Amor
2 Capítulo 2
Notas iniciais
No primeiro capítulo, o Kyle começa a escrever em 1933, ele tinha 10 anos, e eles passam 3 anos no gueto. Esse capítulo, após se passar 3 anos, ou seja, ele está em 1939, começo da Segunda Grande Guerra e Invasão na Polônia. Eu espero que tenham entendido, porque eu expliquei de uma forma bastante confusa ^^'
Outra coisa que eu queria avisar, é sobre o símbolo de identificação, a estrela de Davi, ela tem cores diferentes para pessoas diferentes, por exemplo:
Amarelo é sobre judeus
Roxo eram as testemunhas de jeová
Vermelho eram os comunistas
Rosa eram os homossexuais
Castanho era os ciganos
entre outros, mas estes são os destacam
Capítulo 2
Três anos se passaram e somente agora eu pude voltar a escrever. Durante três anos minha família está vivendo como fugitivo procurado pelo governo, o que mais fizemos é andar, sem saber aonde ir ou a que destino chegar, nós queríamos apenas fugir de todo esse inferno. Eu parei para refletir, se o inferno realmente existir eu penso nele sendo assim, pessoas miseráveis e desesperadas, gritando e chorando. Essa é a realidade que estamos vendo agora.
Pegamos carona na caçamba de caminhoneiros ás vezes, misturando com o produto que eles estavam carregando e rezando para que não nos veja. Eu vejo o papai e a mamãe se abraçando, confortando um ao outro com palavras românticas e doces; então eu comecei a ter aquele desejo, aquele estúpido desejo que talvez seja a causa pelo qual eu estava escrevendo esse diário. Eu queria alguém que me tratasse daquela maneira, me confortasse e dissesse no meu ouvido que estaria tudo bem, que me protegeria de tudo. É só isso que eu quero.
Será que um dia eu terei?
Ou estou condenado a escrever unicamente nesse diário? Eu mal sei qual é o som da minha voz, não me recordo à última vez que eu a usei, porém sei que foi tanto tempo, que ao tentar forçar alguma coisa, minha garganta estala, como um objeto enferrujado. Olhei para as outras páginas e olhei para essa que estou escrevendo. Realmente minha letra está horrível, não uso ela há meses e estou tremendo de tanto frio e fome. Há três anos, eu escrevi que tinha medo de morrer, mas agora eu sei...
Meu único medo é de viver.
Como eu escrevi na minha última página, não sei quando vou escrever de novo, nem sei se vou escrever de novo.
Por hoje encerro minhas atividades.
xxxx
Hoje eu pude dizer que bondade realmente existe. Depois de mais alguns meses andando, nós achamos uma cidade, não, uma vila. Papai desmaiou, há algum tempo ele está doente e ninguém sabe o que é. Está piorando progressivamente. Eu estou com medo de ele morrer.
Uma senhora nos achou e nos acolheu em sua casa. Era confortável e quente, pela primeira vez em seis anos eu me senti em um lar de verdade. Ela nos explicou que estávamos na Polônia. Fiquei surpreso, não sabia que tínhamos ido tão longe, mas ao mesmo tempo certo alívio me bateu, pois estávamos longe do exército alemão.
A senhora me deu comida, a primeira vez que eu como decentemente em anos. Eu até estranhei quando meu estômago recebeu o alimento, eu tinha a impressão que ele estava menor. Nós sentamos ao redor da fogueira e contamos o que tinha acontecido conosco. A senhora –cujo nome é Ellen- ficou horrorizada, não fazia nem ideia que estava acontecendo tal coisa na Alemanha.
Ellen disse que havia apenas dois quartos na casa, o dela e de um filho que faleceu recentemente. Eu vou dormi no sofá e meus pais estão dormindo no quarto do filho, juntos, abraçados. Olho para o teto e tento me aconchegar, nada, nada tira essa sensação que aperta meu peito. Ellen desce as escadas e me olha me contorcendo. Ela pergunta se eu não queria dormir em sua cama, eu neguei e expliquei o que estava sentindo.
-Você está crescendo, filho. –Ela sorri pra mim e eu franzi minhas sobrancelhas. –Está querendo uma namorada. –Um riso escapou dos seus lábios, o primeiro riso que eu ouço em seis anos, daí eu não pude conter um sorriso que escapava.
Perguntou-me se eu queria mais alguma coisa, eu neguei com a cabeça, então ela subiu para o seu quarto. Agora estou aqui a refletir... Namorada, namorada. Eu nunca tive qualquer relação, também com toda essa desgraça ocorrendo, eu nem sequer pensei na ideia. Mas agora que estou em uma casa, confortável, isso me deixou para refletir.
Eu soltei um bocejo, eu estou muito cansado e quero finalmente dormir sem preocupação com o amanhã.
Por isso, hoje encerro minhas atividades.
xxxx
Hoje eu acordei com um barulho enorme, corri para fora de casa e vi meus pais e Ellen olhando para o céu. Eu fiz o mesmo e vi o que eu nunca vi antes. Era uma coisa gigantesca de metal, um avião? Não, era exageradamente grande e sobrevoava em uma altitude muito pequena, algo como se tivesse avaliando o terreno. Naquele momento, eu senti medo, não sei de que, mas sabia que aquilo não era uma boa notícia.
De repente, eu comecei a ouvir sons de tiros. E daquele avião enorme saiu alguma coisa e ao se chocar contra uma casa, ao longe levantou uma poeira tão forte que eu fiquei cego. A última coisa que eu me lembro de era alguém agarrando minha cintura e me levando para dentro da casa da Ellen, em seguida, me jogando no porão.
E aqui estou, tremendo, chorando e ouvindo os mais variados estrondos. A terra abaixo de mim tremia. Ouvia também gritos, eram muitos e abafados, mas eu ouvia. Tudo que eu consigo pensar agora é no papai e na mamãe, e o quanto eu queria os dois ao meu lado.
Eu ouço barulho de passo agora, parecem estar revistando a casa, eu me encolho em um canto, tremendo absurdamente, eu fazia o possível para parar de soluçar para que não me ouvissem, mas era impossível.
Por quê? Por que isso está acontecendo? Será que eu fiz algo de tão errado assim para que me punisse dessa maneira? Eu só quero ter tranquilidade novamente, como um garoto normal ou morrer de uma vez. Qualquer coisa, mas não quero mais isso. Eu estou com medo, estou sozinho.
Os barulhos cessaram dando inicio a um assustador silêncio. Não ouço nada além da minha respiração. Talvez eu deva ir lá fora, encontrar o papai, a mamãe e a Ellen, mas eu estou com tanto medo. Eu sou o covarde. O papai nunca faria isso, ele nos protegeria até o fim. Por que eu não sou como ele?
Talvez mais tarde eu escreva, falando o que aconteceu, mas nem eu mesmo sei como eu iria explicar isso a um caderno?
...
Esse foi com certeza o pior dia da minha vida. Estou chorando descontroladamente e não consigo parar, o garoto loiro ao meu lado me olhou preocupado, mas eu não cessava com os soluços.
Logo depois que eu saio da casa tudo estava empoeirado, a casa da Ellen estava completamente destruída e eu imaginei que ela iria chorar muito ao ver e iria me culpar. Eu caminhava desnorteado, olhando, horrorizado, os milhares de corpos não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Estava tudo quente, eu via fogo nas casas, então eu tropecei em um corpo. Ao me virar, eu vomitei instantaneamente. O corpo estava totalmente carbonizado, os dentes apareciam em um mórbido sorriso de caveira, eu não segurei e vomitei mais ainda. Mas dessa vez não saiu nada além de ácido estomacal. Eu comecei a chorar também, só queria encontrar meus pais, foi então que ao lado desse corpo estavam meus pais. Estavam abraçados, queimados e ensanguentados. Eu me ajoelhei ao lado deles e mexi seus corpos, nada. Então eu gritei, gritei o mais alto que eu podia, pedia para eles acordarem, levantarem, dar algum de vida. Meus pais estavam mortos, não podia estar acontecendo isso. De repente eu peguei um pedaço de madeira e bati contra minha própria cabeça, tantas vezes que o sangue espirrava para todos os cantos. Eu só queria morrer ou acordar, implorava para que aquilo fosse apenas um pesadelo. Mas não era, porque eu não acordava, por que eu não acordava?
-Randy! Tem um sobrevivente ali! –Eu ouvi a voz de uma mulher ao longe, quando virei a cabeça, eu os vi correndo até mim. Institivamente eu levantei comecei a correr.
Mas foi em vão, porque eu senti alguém me agarrando por trás e me derrubando no chão.
-Me deixa ir! Por favor, me largue! –Eu gritava desesperado, tentando me soltar dos braços daquele homem, mas ele era forte, pois, ao contrário de mim, ele era saudável. Foi então que a mulher chegou bem perto de mim e colocou a mão em meu braço.
-Não se preocupe, garoto, viemos resgatar você. –A voz dela era tão confortante que imediatamente parei de lutar.
-Meus pais estão mortos. –Respondi simplesmente sentindo que as lágrimas escorriam cada vez mais fortes e meus olhos já ardiam.
O casal se olhou com piedade e me levaram até um carro, na porta de trás do carro tinha um garoto loiro, ele estava com a cabeça abaixada, e eu não podia ver seu rosto, pois um capuz de pano o cobria, eu sabia que era loiro devido aos fios que escapavam do capuz.
E agora eu estou aqui, escrevendo. Meus pais estão mortos e eu estou completamente sozinho e escrever tudo aqui realmente está me ajudando, porque é como se eu tivesse escrevendo para mim mesmo e eu sei que ninguém me entenderia mais do que eu. Estou sendo levado não sei para onde, não confio muito nessas pessoas, mas para falar a verdade, eu não me importo se elas estiverem indo para me matar. Iria me poupar um esforço enorme.
Então eu senti uma mão sobre a minha que segura o lápis e eu olho para o garoto ao meu lado. Posso observar em seu peito uma estrela igual a minha, porém a cor era diferente, a minha era amarela, a dele era castanho.
-Meu nome é Kenneth. –Ele disse simplesmente, eu podia ver a palma da sua mão tremia e seus ossos estavam expostos, ele estaria sofrendo o mesmo que eu?
-Kyle. –Respondi simplesmente e volto a escrever.
Não disse mais uma palavra durante a viagem, eu escrevo em meu diário e ele olhava pela janela, pensativo.
...
Depois de muito tempo, minhas lágrimas já se secaram, mas meu corpo insiste que quer chorar mais, entretanto não tenho mais lágrimas para tal. Tudo que eu quero é que as pessoas que estejam dirigindo o carro sejam o papai e mamãe, mas não são. Nunca vão ser.
Então o carro parou em uma casa, não havia indícios de cidade por perto, era uma casa no campo. A mulher abriu a porta do carro para nós e pediu que descesse, sua voz era demasiada doce. Eu obedeci sem dizer uma palavra, na verdade, estou andando e escrevendo ao mesmo tempo, por isso ás vezes minha letra faz alguns rabiscos, estou tropeçando bastante, mas sempre aquele garoto loiro -Kenneth- me ajudava, ele estava bastante atencioso comigo e pela primeira vez eu senti meu corpo se aquecer diante do carinho de alguém. Como a Ellen disse.
Entramos dentro da casa e a mulher pediu que sentássemos no sofá, entretanto tanto eu quanto Kenneth ficamos tímidos ou desconfiados, não sei ao certo, só sei que nenhum de nós sentamos. De um cômodo da casa surgiu um garoto, mais ou menos da nossa idade, cabelos escuros e arrumados, em seu peito havia também uma estrela igual a minha, porém na cor rosada.
-Muito bem, garotos. –O homem começou e eu olhei para ele, prestando atenção em suas palavras. –Essa casa será um esconderijo das tropas, portanto nenhum de vocês podem em hipótese alguma sair daqui ou contar a qualquer um sobre a localização desse local. Vamos comprar tudo que vocês precisam. O que aconteceu hoje é apenas o começo.
Todos nós assentimos ao mesmo tempo. Eu suspirei desgastado ao o ouvir dizer “apenas o começo”, eu não queria viver mais daquilo, eu estava com muito medo, eu só quero que tudo acabe, é pedir demais?
Depois a moça –que se apresentou como Sharon- nos pediu para comer, mas eu apenas fiquei comendo, ansiando por vômito. Meu estômago rejeitava a comida, embora estivesse deliciosa, mas eu não queria comer, pois tudo que eu conseguia pensar era nos meus pais e todos os corpos que eu vi. Quando acabou o jantar, eu finalmente pude sentar e escrever, eu e os outros dois meninos estamos dividindo um único quarto, porém era muito grande, então não ficou desconfortável.
Eu não queria chorar na frente dos garotos, mas eu não resisti, quando senti as lágrimas tomaram conta do meu rosto, foi um dia longo, eu estava cansado, triste e meu estômago revirava de náuseas. Foi quando eu senti aquilo pela primeira vez. Eu senti alguma coisa me apertando e me puxando até que eu dei de cara com um peito. Sim, o garoto de cabelos negros me abraçava e me confortava. Eu chorava sem me importar se iria molhar sua camisa, um arrepio tomou conta de mim quando senti suas mãos passearem pelas minhas costelas e meu rosto ficou corado.
-Vai ficar tudo bem. –Outro arrepio tomou conta de mim quando eu ouvi sua voz, doce. –Não precisa mais chorar.
Eu ainda estava triste, mas parei de chorar, e levantei um leve sorriso.
Então era isso que a Ellen estava falando...
Notas finais
Mas obrigada por lerem!
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