Apenas Uma História De Amor
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Aviso¹: Esse capítulo conterá uma ponta de Style.
Aviso²: Também conterá histórias triste sobre a realidade daquela época e seus métodos de tortura.
Capítulo 3
8 de outubro de 1939,
Como agora estou fixo em uma casa, a Sharon comprou um calendário para cá, então, finalmente tenho noção de tempo, mais ou menos.
Finalmente em seis anos tenho algo que posso chamar de lar. Claro que é um pouco estranho nunca poder sair, mas com as visões que eu tive do mundo nestes últimos anos, eu prefiro ficar em casa mesmo. Nós temos um rádio, que apesar de velho, funciona bem, estamos acompanhando o que estão chamando de “possível Guerra Mundial”. De vez enquanto ouço som de gigantescos aviões, como aqueles que eu ouvi há um mês, quando meus pais... Bem, sempre que ouço eu encolho e começo a tremer, chorar, mas sempre o Stanley me aconchega em seus braços. Ele tem um dom incrível de me acalmar.
Quero registrar que não podia ter lugar melhor do que essa casa. O filho do casal que me resgatou se chama Stanley, foi ele quem me confortou quando eu estava chorando, sozinho e com medo, quando eu cheguei aqui. Ele tem uma personalidade muito alegre e otimista, sempre que eu tenho minha crise de choro, ele é sempre o primeiro a me abraçar, aninhar e sussurrar no meu ouvido que tudo iria ficar bem, e é como se tudo no mundo se dissipasse. Depois daquela noite ficamos muito próximos, afinal, quando a Inglaterra declarou guerra contra a Alemanha, soubemos que iriamos ficar juntos por um longo tempo, não que isso me incomodasse, nas atuais circunstancias eu desejo que Deus jamais me separe do Stanley.
Há também o Kenneth, o garoto loiro com o rosto tampado que dividiu a carona comigo. Ele não é de falar muito, hora ou outra soltava alguns múrmuros que eu custava a entender, não gostava de mostrar seu rosto de jeito nenhum. Mas ele é extremamente divertido. Ele me disse que seus pais eram comunistas e forneciam armas para a resistência do nazismo, seus pais foram levados -ele não sabe para onde- e que nunca mais ouviu falar deles. O governo o marcou como cigano, justamente pelo prazer de marcá-lo em algum grupo dos “excluídos”. À medida que ele contava sua história eu via que minha vida era um conto de fadas. Sim, eu passei por muita coisa deplorável, mas meus pais estavam ao meu lado até o último segundo.
Nós três ficamos amigos em pouco tempo, embora ainda tivéssemos nossos segredos, eu não contei totalmente minha história a eles, nem eles para mim, mas sempre nos confortávamos. O Kenneth é um garoto extremamente legal, porém, eu ainda sinto melhor ao lado do Stanley, às vezes eu amaldiçoei mentalmente quando estamos sozinhos e alguém nos interrompe.
A Sharon nos chamou para jantar, mas agora eu não quero largar meu diário, pois ainda não terminei de contar a história.
...
Voltei a escrever quase imediatamente após a janta. Faz tanto tempo que eu não escrevo, e como eu já disse, é uma forma que eu tenho que expressar todos meus sentimentos e desejos sem medo ou angústia.
Ao passar pelo corredor, eu parei em frente a um espelho velho que lá tem e me olhei. Realmente eu engordei um pouco desde que cheguei aqui, mesmo sem alterar a minha genética magreza, já não estava tão esquelético. Eu me vi dando um sorriso, que eu não planejei que saísse, eu estava muito satisfeito com tudo o que estava acontecendo agora, não tinha mais aquela súbita necessidade de morrer.
Agora estou sentado na minha cama, minha coxa serve de apoio ao caderno e eu ligo o rádio. Eu sempre faço isso à noite, os meninos estão acostumados. Eles estão na cama do Stanley jogando conversa fora e eu escutando o rádio e escrevendo, acredite, eu sei fazer as duas coisas.
O rádio informa que a Polônia agora é parte do território da Alemanha e eu cerro os punhos. São várias notícias de guerras, bombardeios, mas nada que diga o que aconteceu com os milhares de judeus que eles levaram. Eu sabia que não era coisa boa, mas tinha uma estranha curiosidade de saber, eu queria saber tudo.
Perguntei aos meninos se eles sabiam se alguma coisa. O Stanley levantou os ombros em sinal de que não sabe e o Kenneth ficou repentinamente sério. Eu e Stanley nos olhamos, preocupados e eu me levanto, indo até Kenneth.
...
Estou ao lado do Kenneth e ele está chorando, muita coisa aconteceu nessas últimas horas e eu sinto na responsabilidade de registrar tudo.
Eu e o Stanley perguntamos o que houve para ele estar assim, mas Kenneth se fez de desentendido. Após algum tempo, ele finalmente falou.
-É desumano. Eles levam para vagões de trem, era escuro e frio, eu podia sentir as baratas e os ratos constantemente nas minhas pernas. –Ele parou de falar para fitar o colchão, eu podia ver lágrimas em seus olhos. –Quando chegamos ao local, um guarda nazista veio até mim e me bateu com um pedaço de madeira cheio de farpas, algumas ficaram em meu rosto. Ele me chamou de comunista e pediu para eu entregar a resistência.
Ele parou de falar e o Stanley acariciou suas costas e perguntou curioso como eu. -Que resistência?
-Eu não sei! –Seu humor alterou drasticamente, antes estava sério e triste, agora um ataque de raiva. –Eu nunca soube, eu falei isso pra eles, eu falei! –Ele se encolheu e colocou a mão sobre os cabelos, seu capuz abaixou e eu vi a cena mais triste e horrenda da minha vida.
O rosto todo de Kenneth estava marcado com queimaduras graves, a pele avermelhada e cheia de molhas, a única que se salvava, porém, eram seus olhos, como se ele tivesse uma máscara de queimadura, ele agarrou seus cabelos e começou a puxá-los, gritava desesperadamente. Eu e Stanley o seguramos e tentamos acalmá-lo, mas pareciam impossível, lágrimas escorriam pelos seus olhos e se misturavam com as bolhas e caiam pelo seu queixo amarelas de pus. Eu não pude evitar, quando vi já estava vomitando em cima da cama do Stanley. Eu comecei a tremer, mas ainda abraçava o Kenneth.
Depois de uma hora mais ou menos ele parou, se acalmou, mas antes disso, estava agitado, o Stanley lhe ofereceu um copo d’água e ele tacou o copo pela janela, espalhando caco de vidro por todo lado.
-Desculpe-me... –Sua voz agora saiu rouca e desgastada, devido aos seus gritos. –Quando eu neguei que sou comunista, eles... –Kenneth começou, eu nem me lembrava do que ele estava falando, depois recordei que ele contava a história daqueles que eram pegos pelo governo. –Eles me sedaram, eu acordei em uma cela, algo pesado estava sobre meu rosto e eu tive certeza que era metal. Então, eu ouvi um deles gritar “liguem” e meu rosto começou a queimar, era uma sensação infernal, eu gritava, implorava, a dor era tanta que eu deitei no chão e comecei a rolar, meu rosto estava pegando fogo. Naquela hora eu admitira até que eu sou um macaco, qualquer coisa para eles pararem com aquilo.
Ouve uma pausa e tudo que se pode escutar eram soluços e fungadas. Nós três estamos chorando, abraçados, diante daquela triste história do Kenneth, naquele momento eu tive certeza, tudo que eu passei foi o paraíso.
-Eu admiti que sou comunista e permaneci preso. Até que um dia me levaram para um desses vagões, eu estava desacorrentado e fugi. Devem estar atrás de mim agora, e quando me achar, irão me matar.
Eu parei para refletir e vi que o Stanley fez o mesmo, um silêncio cruel tomou conta do ambiente e até agora ninguém ao menos abriu a boca. O Kenneth colocou seu capuz novamente, tampando suas marcas de tortura. Eu olhei para o teto e senti que logo as lágrimas cairiam pelo meu rosto. Eu não queria que o Kenneth morresse; nem o Stanley. Nem ninguém. Não suportaria perder outras pessoas que eu mais gostava.
...
Stanley está dormindo ao meu lado hoje, como eu escrevi, eu vomitei o jantar inteiro na cama dele, então ele veio dormir na minha cama. Sinto meu coração falhando cada vez que ouço sua respiração, tão perto do meu ouvido. Meu rosto está estranhamente quente, tão quente que mudou de cor. A cama foi feita para caber apenas uma pessoa, com isso seu corpo fica tão colado ao meu que me deixa envergonhado, mas ao mesmo tempo é tão gostoso, eu quero que seja assim todos os dias.
-Ei. –Ele sussurrou em meu ouvido, já que não queria acordar o Kenneth, mesmo assim, seu sussurro me fez arrepiar, eu me virei apenas para contemplar que estávamos mais perto do que eu imaginava, seus lábios estavam perigosamente perto aos meus. –Eu não paro de pensar na história do Kenneth. –Ouvi pesar em suas palavras.
-Eu sei, nem eu. –Admiti também, embora eu tenha gaguejado. –Eu não quero que eles peguem o Kenneth de volta e não quero... não quero passar o mesmo também.
Imediatamente, os braços grandes envolveram meu corpo e me puxou para colar mais ainda os corpos, e eu nem imaginei que seria possível. Eu senti algo quente cair sobre minha bochecha e levantei o olhar para ele. Ele chorava.
-Eu não vou deixar. –Disse ele, gaguejando e tentando segurar as lágrimas, mas era em vão. –Eu vou proteger você, eu prometo.
Essa frase ficou passeando pela minha mente. Como diabos eu podia me sentir tão bem assim? Nunca me senti tão aquecido, tão... seguro. Imediatamente me lembrei da noite que estava sendo espancado e minha mãe me envolveu para me proteger. Mas esse carinho que eu recebia é diferente, não era maternal, é... Não encontro a palavra certa para isso, mas sei que não é a mesma coisa.
Depois de uns minutos, ele adormeceu ainda me abraçava forte. Estou custando a escrever, por isso a letra está mais espremida que o normal. Acho que já vou dormir também.
xxxx
25 de dezembro de 1939,
É natal na religião cristã e todos da casa estavam comemorando. Eu me senti um pouco deslocado, pois eu não comemorava o natal, Randy lembrou isso a todos, mas eu afirmei que não me importava muito com as datas comemorativas, não agora. Queria apenas estar com essa que eu chamo de uma segunda família. O frio estava rigoroso e eu e os meninos apenas combinamos que amanhã, bem cedinho iriamos acordar e fazer um boneco de neve.
Eu fico imaginando onde estará a alma dos meus pais. Será que estão felizes? Juntos, sussurrando doçuras como em vida? Será que ainda olham por mim? Eu ainda olho por eles, demais. Esses dias quando estava ajeitando minha velha roupa, a única que eu tinha em anos, eu deixei cair uma foto onde estavam nós três juntos e vou colar aqui. Assim eu nunca a perderei e sempre que eu sentir saudades eu irei ler desse diário.
O senhor general, que nesse momento estava lendo o diário em sua mesa, puxou um pedaço de papel para baixo, assim desdobrando a tal foto. Era uma foto suja e com muitas manchas, era um retrato típico, de uma família típica e feliz. Ele virou o rosto em desgosto, podia ver seu rosto, de sua mulher e seus filhos nessa foto.
Eu estou sentado perto da janela, quero poder olhar os flocos de neve que caiam graciosamente, quando eu era bem pequeno eu gostava muito de brincar na neve, porém eu sempre ficava resfriado no dia seguinte e minha mãe me dava aquele sermão. Na época eu virava os olhos, emburrado com suas palavras, mas agora, eu daria tudo para ouvir aquele sermão novamente...
Sharon me chamou para ir cear com eles, e eu não posso recusar, pois eu ouvi meu estômago revirar de fome.
xxxx
31 de dezembro de 1939,
É virada do ano, e eu tenho que admitir que esteja assustado, mas feliz ao mesmo tempo. Assustado porque a guerra está tomando um ritmo preocupante, segundo eles, parece que um submarino alemão afundou um encouraçado britânico, eu particularmente não faço a menor ideia do que isso significa. Então o Stanley me ensinou tudo sobre guerras marítimas. Ensinou-me o que seria um porta-aviões, encouraçado, cruzador, submarino entre outros nomes que eu nunca ouvi na minha vida.
Ele riu quando eu fiz uma careta, mostrando que eu não estava entendendo absolutamente nada. Ele fica muito bonito quando ri. Falou-me também que queria muito ser da marinha, mas que não seria mais possível. Eu perguntei por quê.
Então fez uma pausa, ele respirou fundo e olhou para mim, eu confesso que fiquei um pouco nervoso.
-Está vendo esta estrela no meu peito? –Ele apontava para a estrela de Davi, igual a minha, porém cor-de-rosa. Eu assenti. –É uma marca do que eu sou e por que sou procurado. Eu sou gay.
Demorou um tempo para racionalizar, não sabia que os nazistas tinham problemas com homossexuais. Quando ele notou meu olhar de confusão, ele começou a explicar melhor.
-É complexo de explicar. Hitler quer a disseminação da raça ariana e como homossexual não pode procriar, não podia haver homossexuais, eles teriam que mudar a opção sexual, ou iam ser presos. Mas parece que deu muito problema, pois vários oficiais respeitados são homossexuais, então os nazistas chegaram à conclusão unanime que quem fosse pego em um ato homossexual em público iria ser caçado. –Então parou para respirar fundo mais uma vez. –E eu beijei um garoto em praça pública, mas eu tinha quatorze anos, ele tinha dez. Então eu fugi com meus pais e o garoto... Bom, ele foi levado.
-E o que aconteceu a ele? –Finalmente tomei coragem e perguntei, fiquei um pouco receoso, havia tristeza em seus olhos.
-Eu fiquei sabendo que ele morreu.
Desviei o olhar, constrangido de ter que relembrá-lo dessa tragédia. Eu fiquei nervoso, achando que ele estaria bravo comigo, não queria aborrece-lo. Comparado à vida desses meninos, a minha foi perfeita, agora eu sabia disso.
Bem, a parte assustadora foi quando eu senti a tensão da guerra e a parte feliz... Bem, a parte feliz... Eu não sei dizer, talvez... Foi quando o Stanley falou que era gay, não sei, aquilo acendeu uma chama dentro de mim.
Notas finais
Espero que tenham gostado desse capítulo!
Fale com o autor