Apenas Uma História De Amor
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Eu me aproximei lentamente do garoto tremendo, ao tocar em seu rosto, ele estava terrivelmente gelado. Ao chegar mais perto eu percebi várias feridas enormes e abertas por todo o seu peito, algo que é antigo, pois estava infeccionando.
–Eles vão matar todo mundo... –Quando ele sussurrou, eu dei um passo atrás. –Vamos todos morrer! O mundo vai acabar! –O sussurro se tornou grito e ele começou a tremer mais ainda. –ARGH! Eles querem dominar o mundo. E matar a todos! ARGH! –Ele gritou ainda mais alto e caiu no chão, em uma crise convulsiva.
Eu gritei desesperadamente por socorro ao perceber o que estava acontecendo. Seus olhos rolaram para cima, deixando apenas os nervos ficando mais vermelhos. Eu gritei mais alto de horror, aquela hora o Craig chegou correndo e ajoelhou ao lado do menino, segurando seu rosto com força para que não batesse mais no assoalho. Ele virou o rosto do menor levemente para a baba escorrer, enquanto tentava acalmá-lo.
Entretanto, o menino só se acalmou quando desmaiou, Craig colocou a cabeça dele no seu colo e eu ficava olhando, em choque.
–Você é novo por aqui, não é? –Craig perguntou, olhando para mim que olhava fixamente para o corpo do loiro que parecia um cadáver, no momento lembrei-me da pilha de cadáveres lá fora. –Ele não está morto, só entrou em colapso, de novo.
–O que aconteceu com ele? –Eu perguntei em voz chorosa, fazendo o possível para conter os soluços.
–Foram os nazistas, eles usam o Tweek e muitos outros em experiências científicas.
–Que tipo de experiências? –Perguntei em um fio de voz, gaguejando.
–Você não vai querer saber. –Ele respondeu em um tom sombrio e eu comecei a chorar mais ainda.
–O que vai ser de nós? –Perguntei novamente, soluçando mais do que antes.
–Eu não sei. –Simplesmente respondeu. –Mas eu não quero morrer aqui. –Completou.
Eu sentei em um canto e abracei às pernas. Eu chorei o resto da noite, todos me mandavam calar a boca e mandavam paus e pedras no meu rosto, mas aquilo só me fazia chorar mais ainda. Eu tentava pensar em coisas boas, mas eu percebi que tudo de bom que aconteceu na minha vida acabou em questão de dias. Nada durou. Eu queria morrer, mas eu não queria ser abandonado em uma cova rasa, eu estava com muito medo. E por isso chorava.
Xxxx
Eu não percebi que o dia amanheceu, pois as únicas janelas daquele lugar eram pequenas e redondas, um quarto extremamente mal iluminado. As tropas nazistas invadiram o lugar e levaram todos os detentos de forma rude e brutal, enquanto estes imploravam por piedade. E eu nem percebi quando o tenente Cartman se aproximou de mim.
–Vejo que estranhou o lugar. –Disse ele rindo, enquanto tocava minhas cicatrizes que os próprios detentos fizeram em mim durante a noite. Eu tentei afastar meu rosto de suas mãos nojentas, mas ele segurou com mais força e me obrigou a encará-lo. Pela primeira vez meus olhos se encontraram com os orbes castanhos-avermelhados do gordo. Eram tão raros os momentos em que isso acontece na vida de qualquer pessoa.
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Quando eu era criança, eu pedia para a minha mãe me contar histórias ao dormir, mas ela sempre me contava mitos gregos, e teve um que me marcou tanto, que eu sinto que devo coloca-lo aqui.
“Sempre temos a fantasia de que em algum lugar do mundo alguém está olhando para as mesmas estrelas que você, pensando em você, sem ao menos te conhecer.
Quem é esse outro que deveria nos completar? Um mito antigo que surgiu do filósofo Platão. Chamado do mito do andrógino, ou almas gêmeas. Andrógino eram criaturas quase perfeitas, assim como os deuses, ele contém em si mesmo todas as oposições, ele se basta a si mesmo e, completo e fecundo, dá a luz a si próprio.
Essa criatura perfeita era redonda, suas costas e suas costelas formavam um círculo, ela tinha quatro mãos e quatro pés e uma cabeça com duas faces exatamente iguais, cada uma olhando em direções opostas, pousada em um pescoço redondo. A criatura poderia andar para frente e para trás, tinha um intelecto perfeito sobre o universo e os mistérios dele. Eram velozes como raios de luz e fortes como um herói.
Isso irritou os deuses, pois devido à perfeição dessas criaturas, eles não precisavam venerar os mesmos. Zeus então lançou um raio e partiu-os ao meio. A intensidade do raio era tão forte, que jogou cada metade em um lugar na Terra.
Após o desastre, as criaturas acordaram, desnorteadas. Elas sabiam que estava faltando alguma coisa nelas, não eram mais velozes ou fortes, estavam longe da perfeição. Elas nunca chegaram a olhar o rosto do seu parceiro, por isso não sabiam como procura-las.
E foi ai que as criaturas começaram a morrer. Morriam de fome e desespero. Abraçavam-se em busca de preencher o vazio de seus corpos, em vão. Quando uma das partes morria, a outra ficava em prantos, procurando e procurando...
Zeus ficou com pena dessas criaturas e teve outra ideia. Ela deu almas a elas, mas não qualquer alma, é a mesma alma para ambas as partes. Daí criou o termo “almas gêmeas”, duas pessoas, mas com apenas uma alma.
E dizem que os olhos são a janela da alma. Se você cruzar os olhos com sua alma gêmea, você enxerga sua alma naquela pessoa e pode ter a certeza de que ela é a sua parte que foi cortada.”
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Porque eu tinha que me lembrar dessa história apenas de olhar nos olhos do tenente Cartman? A vida não teria sido dura o suficiente comigo, para surgir que minha alma gêmea seria um gordo nazista e violento? Eu francamente não ligava para isso. Platão mentiu, e mesmo se for isso, eu não ligo, eu não quero mais viver nessa terra.
–O que você está me olhando? –A voz irritante daquele homem me despertou e eu vi novamente minha alma em seus olhos. –Levante-se e vamos ao trabalho.
Sem esperar, ele me levantou pelo braço e me puxou para junto dos outros detentos que estavam carregando blocos de concreto pelo quintal da prisão.
–Vá logo, verme. –O gordo me empurrou para um dos blocos de cimento e eu contive um grunhido de dor. Levantei-me lentamente e peguei um carrinho, colocando o máximo de concreto que eu podia, seguindo os outros.
De vez enquanto, alguns soldados riam de mim e me tacavam bolas de cimento que não vingaram, mas paravam ao ver o olhar hostil do tenente Cartman para cima deles, quando eles fugiam, ele olhava para mim novamente. E sempre que meus olhos se encontravam os dele, eu corava, pois sempre sentia meu coração bater mais rápido. Não posso negar que não me senti feliz por ele ter, em termos, cuidando de mim.
Mas não, isso não pode estar acontecendo. Deus seria muito sacana comigo. Eu me apaixonar por alguém que serve aquele que arruinou a minha vida.
Continua...
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