Notas iniciais
Ok, nesse capítulo eu vou lançar uma charada *u* Cartman tem uma doença mental, quero ver quem vai adivinhar o que é!

–Você é meu, Kyle. Meu pequeno judeu.

Suas palavras ecoaram pela minha cabeça assustadoramente por um tempo antes de eu realmente perceber o que estava acontecendo. Então ele queria que eu ficasse vivo, mas apenas para que ele pudesse me atormentar? Isso é cruel, maldoso e... Bem, combina com ele. Eu não acredito que ele ia me fazer viver apenas para satisfazer sua vontade de infernizar a minha vida.

Eu fiquei completamente quieto enquanto ele mandava uns guardas me levarem de volta ao dormitório junto com os outros detentos, quando eles me jogaram lá, Craig correu até mim.

–Eu achei que tinham te matado. –Ele falou com tanta naturalidade e indiferença que já devia estar acostumado com isso. Eu olhei para ele, estava ainda em choque com tudo que havia acontecido.

–Quem dera.

Xxxx

Muitos dias se passaram, não sei dizer quantos dias ou meses, mas meu cabelo começou a crescer, ralo e enfraquecido pela minha má alimentação. Meu corpo sofreu mudanças drásticas, às vezes ficamos dias diretos sem comer e quando comemos é uma sopa rala, por isso eu emagreci muito, o suficiente para que eu sentisse meus ossos, através de uma camada fina de carne e muita pele.

Mas o pior não era isso, era o Cartman. Onde eu estava lá estava ele, olhando diretamente para mim, seu olhar era tão penetrante e intenso que me fazia estremecer muito. Ele lambia os lábios em um olhar sombrio e mal piscava e isso me assusta, ele me assusta. Ele ainda acha que eu sei de algum plano comunista e sempre que eu tento negar, eles me torturam, eu aprendi a não sentir mais dor, meu corpo estava repleto de cicatrizes, e as chicotadas, embora rasguem alguns ferimentos antigos, já não me atingem como antes. Eu não tinha mais sentimentos.

No ápice da noite eu voltei ao meu dormitório, depois de fazer alguns brinquedos, eu estava exausto como sempre e deitei no chão, olhando para cima. Eu fechei meus olhos por um momento, só um pouco, mas acordei em um rompante quando a porta de metal se abriu rangendo, eu olhei quando os soldados jogaram um menino. Eu nunca o vi por aqui, era só uma criança ainda, não devia ter menos de quatorze anos, ele se sentou no chão e começou a chorar, me lembrou de eu quando eu vim parar aqui, eu fiquei com tanta pena e cheguei perto dele e o abracei. Mesmo que ele não me conhecesse, ele enterrou o rosto no meu peito e continuou a chorar e eu pude notar a estrela amarela em sua camisa. Eu fiquei assim com ele até ele se acalmar um pouco.

–Eu também sou judeu. –Tentei puxar assunto com o menino que levantou a cabeça, revelando seus olhos avermelhados e inchados. Ele limpou sua face molhada com o pano grosso da roupa e suspirou.

–Meus pais estão mortos. –Ele mal terminou de se limpar e começou a chorar de novo, eu o puxei para encostar a cabeça em meu colo e acariciei os seus cabelos.

–Os meus também. –Eu falei manso, com uma pitada de tristeza na voz. –Muitos aqui estão na mesma situação.

–O que vai ser de mim?

Eu olhei para ele e alguma coisa desceu em mim. Uma coisa que eu não sentia há muito tempo, mas eu tive vontade de chorar só de pensar nas coisas que ele passará nesse inferno, ele era só uma criança inocente, não merecia passar por nada disso.

–Eu não sei. –Respondi com sinceridade.

–Eu estou sozinho. –Ele murmurou e meu coração falhou de compaixão. Eu o puxei para mim e o abracei o mais apertado e aconchegante que eu pude. As lágrimas escorriam pela minha bochecha do modo que eu apertava o abraço, eu encontrava forças para falar alguma coisa.

–Não, você não está. –Eu falei pausando pelos soluços que escapavam sem querer. –Eu estou aqui, eu não vou deixar você sozinho nunca.

Ele se afastou um pouco do abraço para me olhar, acho que no meio de tantas lágrimas, eu não o via direito, mas vi o pequeno sorriso que se formava em seu rostinho. Aquele sorriso reacendeu a chama da esperança dentro de mim e pela primeira vez em anos, eu sorri.

–Meu nome é Kyle. –Apresentei-me, limpando as minhas lágrimas.

–E o meu é Ike. –Disse ele, enquanto limpava o resto das lágrimas.

Eu não sei o que deu em mim hoje, é como se eu reencontrasse minha família morta em um menino de quatorze anos. Eu me via no Ike, minha tristeza refletia a tristeza dele e ele era muito pequeno ainda para se defender sozinho, por isso eu não posso morrer. Não vou morrer e deixar ele sozinho com esses monstros.

Xxxx

O dia começou antes de amanhecer, o Ike foi separado de mim na divisão de trabalho, eu não sei onde ele foi, mas eu fui para o campo de blocos de granizo, eu devia transportar granizo até o vagão do trem, que era uma caminhada de dez minutos com um carrinho cheio de blocos de granizo pesados, tudo rigorosamente inspecionado pelos soldados e, claro, o Cartman.

Estava um sol escaldante que só o verão poderia proporcionar, muitas pessoas passaram mal na caminhada, eu também passaria, mas hoje estou me sentindo forte, pois eu não posso passar mal. Minha mão estava suada e o bloco de granizo que eu carregava escorregou e caiu no pé de um dos soldados. Ele soltou um grito.

–Seu imundo! Vai pagar caro. –Antes que eu pudesse perceber, eu fui acertado com o cassetete na minha cara e cai no chão, segurando meu rosto que ficou extremamente vermelho. –Eu vou te matar! –Proclamou, levantando seu cassetete, eu fechei os olhos esperando pelo golpe que nunca veio.

Ao invés disso eu ouvi um estrondo e abri os olhos lentamente, olhando para o soldado caído no chão com um tiro na cabeça e uma poça enorme de sangue, e a pessoa que atirou foi o Cartman? Eu olhei para ele com medo e ele me olhou de volta, guardando sua semiautomática no bolso antes de abrir as correntes que prendiam o meu corpo. Eu ainda estava confuso.

–Voltem a trabalhar, seus vermes. –Ele ordenou frio e ninguém ousou questionar a sua ordem, seja soldado ou prisioneiro, mas eu fiquei em choque.

Ele segurou o meu braço e me arrastou para trás do balcão de blocos e eu comecei a tremer compulsoriamente ao pensar que ele iria me estuprar de novo, ele me jogou e eu bati as costas na parede de madeira podre.

–Você tentou se matar esses dias? –Que tipo de pergunta era aquela? Eu cheguei a achar que era algum escárnio ou ironia, mas seus orbes diziam que ele estava sério.

–Por que você fica insistindo com isso? O que quer de mim? –Eu não gritei, pois supus que ele estava lá escondido.

–Eu quero você, Kahl. –Eu o olhei incrédulo, nunca vi um homem com tantos problemas mentais na minha vida, chegava a dar pena se não fosse tão patético.

Mas antes que eu pudesse retrucar, ele agarrou a minha cintura e me empurrou novamente contra a parede e me beijou. Um beijo impulsivo e selvagem, eu não conseguia acompanhar seu ritmo e mexia meus braços e pernas, tentava empurrar aquele lunático, mas era óbvio que ele era bem mais forte do que eu. Ele mordeu meus lábios e meu coração disparou com a ousadia que ele mexia as mãos na minha cintura. Quando ele finalmente se afastou, eu usei as mangas para limpas meus lábios e cuspi no chão.

–Você é louco! –Eu gritei sem me importar se alguém iria ver, queria é vê-lo se ferrar para o seu superior.

–Eu te amo.

Eu não estava entendendo mais nada.

–Você me odeia! –Eu retruquei, irritado.

–Eu sei. Eu amo te odiar.

Eu comecei a andar de um lado para o outro, tentando digerir tudo aquilo que estava acontecendo. Ele me ama e me odeia. Isso é possível?

–Você tem que procurar um psiquiatra. –Eu disse como forma de escárnio, mas no fundo ele sabia que eu estava certo.

–Vai me dizer que você não me ama também.

–Não! –Eu esbravejei diante do absurdo. Eu nunca sequer considerei amar aquele idiota, embora eu sempre fique balançado quando ele está por perto.

–Mentira! Eu te soltei, mas você não fugiu. –Eu juro que isso nunca passou pela minha cabeça, mas como poderia com tudo aquilo que estava acontecendo? –A não ser... –Ele começou com um tom psicótico e eu olhei pra ele, como se profetizasse suas próximas palavras. –Que você tenha outra pessoa que te prenda aqui.

Seu olhar mudou de desesperado para sombrio novamente, acho que eu nunca vou entender perfeitamente com quem eu estou lidando.

–Eu vou descobrir quem é, Kahl. –Ele se aproximou de mim e eu recuei até encontrar minhas costas na parede. –E vou matar ele, eu não vou deixar ninguém na sua vida, Kyle.

Meu coração disparou porque eu sei que ele falou sério e eu temi pela jovem vida do Ike, a qual eu prometi preservar. Eu comecei a chorar, olhando assustado para o monstro a minha frente, Cartman levou a mão no meu rosto e o acariciou, aproveitando para limpar todas as lágrimas que saiam do meu rosto, embora elas não parassem. E ele continuou se aproximando de mim e eu fechei meus olhos esperando sua próxima ação. Ele me beijou.

Um beijo diferente do que ele me deu antes, agora era um beijo terno e calmo, por isso eu não vi problemas em retribuí-lo.

Continua...

Notas finais
Pois é, coitado do nosso Kyle, mais essa agora na vida dele UHASUSAHUSAUASH
Espero que tenham gostado do capítulo, comentários são sempre bem-vindos!