Notas iniciais
Essa é minha primeira longfic. Por ser um diário, já vou avisando que haverá pouco diálogo, apenas o que o Kyle achou realmente importante ressaltar. Eu espero que não tenha ficado maçante.

Apenas uma história de amor.

Capítulo 1

O exército soviético derrubou as grosas portas de metais, foi relativamente fácil, pois a porta estava enferrujada. Com o queixo levantado e nariz empinado, um homem de meia-idade, possivelmente o general marchou, verificando o local para ter certeza que não havia nenhum soldado alemão. Eles mataram todos. Levantando a mão arrogantemente, ele deu sinal para que seus soldados o seguissem, quando a tropa entrou, eles reviraram o local todo, em busca de alguma alma viva.

Estava silencioso e o número de corpos era inestimável, foi um massacre violento, pois um dia antes, os soldados alemães enviaram um grande número de judeus para a câmara de gás, os que não foram mandados, foram brutalmente espancados até a morte. Um massacre violento e repugnante pensou o general, estava tolamente à procura de alguém forte o suficiente que aguentou, mesmo que no fundo saibam que era impossível.

O chão estava coberto de corpos e sangue seco e fresco também. Estava quase mandando a tropa recuar quando viu um flash de movimento. Alguém sobreviveu milagrosamente a essa chacina? Lentamente andou até aquela fresta na parede e quando chegou perto pode ver no ombro direito da pessoa o símbolo do nazista; um deles sobreviveu. Pronto para atirar friamente, mas parou ao olhar em seu outro braço, algo tremendo, um garoto ruivo vestindo roupa listrada, ele estava ferido, doente e desnutrido, sabia que iria morrer a qualquer momento, o general chegou mais perto, mas o soldado apontou a arma para ele. Estaria esse tolo soldado querendo matar, provavelmente, o único sobrevivente? Não, estava envolvendo seus braços gordos no garoto. Protegendo-o.

-Tira ele daqui... Faça qualquer coisa, mas não o deixa morrer. –O soldado suplicou com uma voz arrastada e desesperada. Foi ai que o velho notou que o soldado também estava ferido.

Sem dizer uma palavra, o general gritou a um dos soldados que trouxesse a maca, pois encontrou um sobrevivente. Virou-se novamente para os dois quando ouviu o menor tossir dolorosamente, em busca de manter-se acordado. O nazista soltou seu revolver imediatamente e acudiu o ruivo. Implorava para que ele não o deixasse, dizia que o amava, o homem apenas assistiu em silêncio o que parecia ser dois amantes.

Alguns momentos depois, dois paramédicos soviéticos chegaram ao local, no entanto ao segurar o garoto nos braços, um deles acabou quebrando suas costelas, mostrando que ele estava mais fraco e doente do que poderia pensar. Soltou um grito de dor, enquanto os paramédicos aplicavam-lhe uma injeção que o fez adormecer.

Quando saíram, o soldado alemão olhou para o mais velho. Ele abaixou a cabeça em respeito e agradeceu sinceramente pelos cuidados, em sua voz poderia ser encontrada uma emoção, quando ele estava tentando desesperadamente parecer frio.

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Uma semana se passou e o general sempre ia ao campo de concentração, não sabia o por quê. Talvez estivesse curioso com o caso dos dois amantes. Passeava pelo frio local atrás de arquivos, registros, qualquer coisa. Mas tudo foi incendiado um dia antes, quando eles descobriram que os exércitos soviéticos estavam chegando, até que parou na fresta onde encontrou os garotos, examinando bem ele, percebeu um relevo, algo se camuflava com o chão preto. Ao chegar mais perto notou que era um caderno, estava amassado e sujo de sangue e cinzas, mas estava intacto, como se o dono daquele caderno o protegesse mais do que tudo.

O velho folheou um pouco, era um diário. Interessado, ele abriu a primeira página do diário, estava assinado por alguém chamado Kyle Broflovski, ao deparar com a foto de tal Kyle, arregalou os olhos, era o mesmo garoto doente que resgatou há uma semana, mas a foto estava diferente do que vira, ele estava sorriso genuinamente, estava com mais massa, embora ainda fosse bastante magro e seus cabelos estavam mais volumosos, podia concluir que era um garoto normal e feliz, assim como seus filhos.

Engoliu a seco e virou a primeira página, começando a lê-lo.

Eu comecei a escrever esse diário, pois não aguentava mais tudo que eu estava passando, todos os amigos que eu tinha se foram e eu preciso desabafar com alguém, parece idiota escrever a um diário, mas é minha única esperança.

Meu nome é Kyle Broflovski, eu sou um judeu que mora em um bairro fino no Sul da Alemanha, meu pai é um respeitado advogado e minha mãe é dona de casa, entretanto, nós tínhamos uma vida confortável, eu estudava em uma escola de elite e era o mais inteligente da classe. Minha vira era perfeita. Mas tudo mudou de uma hora pra outra. Ou seria de um ano pro outro? Não sei, só sei que tudo mudou quando ele chegou ao poder. Sim, o novo chanceler chegou ao poder, com planos para restabelecer a economia, após a grave crise que o país estava passando. Ele queria fazer um país único de uma raça só. Ele implantou propagandas que incentivavam a reprodução da raça, segundo ele, pura. E nossa família, junto com tantos outros judeus, fomos discriminados.

Em alguns meses, os nazistas nos obrigaram a andar com uma marca na roupa. A estrela de Davi, assim eles saberiam quem era “puro” ou “impuro”, foi ai que as coisas ficaram assustadoras, todos me olhavam como se eu fosse uma aberração, a diretora da escola achou uma desculpa ridícula para me expulsar da escola, e nenhuma outra queria me aceitar por eu ser judeu. Meu pai foi demitido do emprego e nós enfrentamos uma crise. Mal tínhamos mais o que comer, e fomos expulsos de nossa casa. Sem comida, moradia ou dignidade, eu andava pelas ruas parecendo um cachorro, vasculhando latas de lixo em busca de um bagaço de fruta ou qualquer coisa.

Um dia eu estava sozinho vasculhando a lata de lixo, quando quatro adolescentes se aproximaram de mim, eles tinham sorrisos sombrios em seus rostos, sorriso que eu jamais iria esquecer.

-Olha isso, indefeso e frágil, do jeito que eu gosto. –O maior disse, aproximando-se de mim. A essa hora eu já tremia como um condenado.

Ele chutou meu rosto com tamanha força que eu caio no chão indefeso, doía tanto que eu não pude segurar as lágrimas que caíram devido à dor. Eu tentava me levantar, segurando o olho que eu sabia que ia ficar roxo.

-Por favor, me deixem em paz. –Eu não sabia por que diabos estava suplicando, mas só queria sair dali logo e ir pros braços da minha mãe.

Eles nunca me responderam, ao invés disso, outro deles deu um chute no meu estomago que me vez cair de joelhos e vomitar, enquanto estava frágil, outro deu um soco em minha cabeça, fazendo-me cair completamente e afundar meu rosto no meu próprio vômito. E assim foi uma sucessão de chutes, então começaram a tacar pedras também, eu não conseguia fazer nada além de chorar e gritar por socorro. Algumas pessoas apareceram, mas não fizeram nada, aliás, fizeram, elas riam e incentivavam os adolescentes a fazer cada vez mais. Eu queria morrer naquela hora, morto eu teria mais paz, não teria que passar por aquilo nunca mais. Estava quase perdendo a consciência quando eu ouvi um grito.

-Kyle! –Era minha mãe, ela gritava desesperada enquanto corria a mim e me colocava em seus braços. Seus fortes braços me envolveram completamente e de repente, ela passou a receber todas as agressões por mim. Eu gritava a minha mãe, escondia meu rosto ensanguentado em seus seios macios, chorando, implorando para que aquilo acabasse.

Algumas horas depois todos se cansaram e deram meia-volta, voltando para suas casas, satisfeitos, enquanto eu e minha mãe ficamos ali, em meio a uma poça enorme de sangue, dois miseráveis excluídos pela sociedade. Mamãe me pegou no colo, como se eu voltasse a ser um bebê que não podia fazer mais nada sem a ajuda da mãe, eu escondi o rosto em seu ombro e sussurrava o quanto eu estava com medo.

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Dei um breve resumo do que aconteceu na minha vida, a partir de agora escreverei todos os dias. Depois de um longo tempo na rua como sem-teto, nós fomos mandados para um local onde todos eram como nós. Achamos uma casa, velha e caindo aos pedaços, mas ainda é melhor do que viver na rua. Papai começou a trabalhar como descascador de frutas, embora ganhasse absurdamente pouco, poderíamos viver.

A comida desse local é péssimo, frutas azedas, carnes putrefatas, eram apenas sobras do que era na cidade grande, aquilo que ninguém quer. Como nós.

Hoje é o meu primeiro dia na escola nova depois de tanto tempo. Meu pai comprou um caderno velho de um lápis, com o qual eu estou escrevendo esse diário, eu entrei na sala e vi vários com a estrela de Davi no peito que me fez sentir mais normal no meio dessa gente. O professor chegou à sala, ele tinha cara de miserável, completamente magro e doente, tossia como se fosse perder a vida a qualquer instante, parecia que não comia há dias e tremia absurdamente ao segurar um pequeno pedaço de giz.

Eu fiz alguns amigos, não, não podia chamá-los de amigos, são... aliados. A palavra mais correta seria aliados. Nenhum deles falava muito e olhavam uns aos outros com desconfiança, estavam repletos de machucados, igualmente a mim, eu poderia supor que eles passaram o mesmo que eu ou pior.

Uma menina chorava e dizia que foi violentada pela pessoa que chamava de melhor amigo. Ela era judia, ele era puro e eu confesso que não me senti muito surpreso, há um ano eu acharia aquilo um absurdo e iria imediatamente às autoridades, mas agora nem as autoridades estavam do nosso lado.

Foi um dia longo e cansativo, no caminho de volta pra casa eu notava como tudo era diferente da minha vida de antes, havia vários cadáveres sobre as calçadas e ruas e as pessoas jogavam mais e mais os corpos, não passavam de pedaços imundos de lixo, aquilo me deixou muito triste, será que se eu morrer agora minha família faria isso comigo? Eu não quero morrer e ser abandonado na rua.

Lá em casa meu pai perguntava como foi o dia, mas nenhum de nós queria responder, pois tudo que poderia sair de nossas bocas era algo deprimente. Eu tentava comer, mas o cheiro da alface podre era tão forte que sugava todo o meu apetite, mas eu comia mesmo assim, pois estava faminto.

Encerrando mais um dia com uma oração virada a Jerusalém, será que havia algo que poderia me buscar e me salvar de todo esse sofrimento? Será que um dia minha vida voltará ao menos ter dignidade? Muitas perguntas; incertezas e sem esperança respostas.

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Hoje eu acordei com meu estômago doendo devido à podridão da comida de ontem à noite. Muito lentamente eu fui sair do meu colchão, sim, eu mal tinha uma cama, apenas um colchão velho que eu achei no lixo. Estava fraco e a cada passo que eu dava, eu sentia que ia cair no chão e morrer. Mas eu não queria morrer, porque eu não queria ser abandonado para os ratos me comerem.

Passei direto até a porta, até porque sabia que não ia ter café da manhã, meus pais saíram cedo e eu era o último a sair da casa, fechei a porta e andei a caminho da minha escola, vendo a mesma cena de miséria que todos os dias e todos os dias eu tinha a impressão de que a pilha de mortos aumentava mais.

Eu diria que esse foi um dia normal, até que nossa sala foi invadida, sem avisar, um soldado cujo no ombro direito estava o terrível símbolo que me fez sofrer. Ele estava de nariz empinado, olhando a nós com desprezo. Então ele tirou um papel do bolso do seu uniforme e chamou alguns nomes, naquele momento eu senti um frio percorrer toda a minha espinha. Estava com um mau pressentimento por aquelas pessoas.

Depois o arrogante homem saiu e o dia continuou, mas no ar pairava algo: medo. Ninguém sabe o que aconteceu a aqueles meus colegas, mas sabiam que não era algo bom.

O dia acabou e eu voltei para casa, minha rotina habitual, mas quando eu cheguei a minha casa, algo estava diferente. No momento que eu abri a porta, minha mãe me agarrou chorando, desesperada. Ela gritava “Não vão levar meu filho, não vão!” ela chorava enquanto me apertava em seu peito e eu olhei para eles, confuso e assustado. Meu pai segurava algo em suas mãos, uma carta, estava à beira do choro também.

-O que está acontecendo? –Eu perguntava com uma voz fraca, tentando não assustá-los mais ainda.

-Os nazistas, filho. –Meu pai começou, debruçando-se em lágrimas sofridas. –Eles querem te levar de nós.

Eu arregalei meus olhos. No momento a única coisa que eu lembrei foi do soldado na sala de aula, os meus colegas sendo chamados e não retornado mais. Passei meus magros braços ao redor da minha mãe e a apertei com força, logo meu rosto estava quente pelas lágrimas e eu gritava “Eu não quero ir, mãe. Eu estou com medo”.

Foram longos minutos com esse desespero até que meu pai pediu a palavra.

-Vamos fugir. –Duas palavras, uma ordem, nenhuma contestação. Obedecemos imediatamente ao meu pai e saímos, deixando tudo para trás. Exceto meu diário e o lápis. Eu irei escrever de novo. Não sei quando, mas irei.

Por hoje, encerro minhas atividades.

Notas finais
Então, é isso, esse foi um breve prólogo. Haverá mais em breve, se vocês quiserem.
Se gostou, comentem e se não gostarem, postem suas críticas a vontade.
Obrigada por lerem!