Notas iniciais
Sejam todos bem-vindos ♥

A família toda acordou cedinho para ajudar na organização da nossa festinha de aniversário. A mamãe fez questão de chamar toda a vizinhança, o que incomodou um pouco o meu pai que imaginava que seria uma festinha simples só para os mais chegados.

Meu irmão caçula, Augusto, no início se queixou. Ele detestava ajudar nas tarefas de casa, mas ele era esperto o bastante para saber que "não" era uma palavra que não existia para a nossa mãe. Ela não pensaria duas vezes em deixa-lo de castigo pela próxima semana.

Sei que ele preferia estar lá fora, aproveitando mais um dia de suas tão esperadas férias para soltar pipa com os amigos em baixo do sol escaldante. Mas assim que a minha irmã Juliana, que também era a aniversariante do dia, chegou com o papai com as caixas cheias de doces e salgados encomendados pela mamãe, meu irmão logo se animou e sua ajuda foi bastante útil.

— Augusto, será que dá para você parar de comer e ajudar as suas irmãs a encher as bexigas?

Sempre que a mamãe flagrava o meu irmão metendo a mão nas caixas ela lhe dava um beliscão.

Um tempo depois as bexigas estavam todas cheias e eu comecei a montar o arco para colocar na parede, em cima de onde ficaria a mesa com o bolo de aniversário.

Minha irmã começou a arrumar as mesas em volta, colocando as toalhas e os vasinhos de flores em cima.

O papai saiu para comprar as bebidas.

Aproveitando que a mamãe estava lá dentro, na cozinha, preparando a carne para colocar no pão, meu irmão estava fazendo mais bagunça do que nos ajudando no salão principal.

Juliana perde facilmente a paciência com ele. Os dois vivem brigando e saindo na porrada. E sabe o que é o mais engraçado nisso? Ele só tem quinze anos, é um garoto levado, mas ela já é adulta e está prestes a fazer vinte e quatro anos.

As cinco da tarde já estava tudo pronto. A decoração impecável, a comida pronta, as bebidas no freezer, a mesa com o bolo e cheia de docinhos em volta.

Eu não queria uma festa grande assim, acontece que a minha irmã insistiu muito. E ela sempre tem esse jeito que ninguém consegue resistir ou dar uma resposta negativa. Então eu concordei e ela facilmente convenceu nossos pais a fazer a festa aqui na pousada da família.

Fomos para casa, que fica nos fundos da pousada, e começamos a nos arrumar. Eu levei meia horinha para colocar um vestido simples todo floral, uma sapatilha, fazer uma maquiagem básica e pentear o meu cabelo. Ao contrário da minha irmã que sempre demorava pelo menos duas horas para ficar pronta.

Fiquei lá em baixo na sala esperando por ela, pois ela disse que deveríamos aparecer juntas na festa. Quando ela enfim apareceu no alto da escada, estava sensacional, o que não é nenhuma novidade. Juliana usava um vestido dourado com paetê, sandálias pretas de salto alto e os cabelos cheios de ondas que ela fez com o babyliss. Sem contar a maquiagem que parecia coisa de profissional.

— Uau! — digo, já me levantando. Minha irmã e eu somos gêmeas e praticamente idênticas, mas eu sempre achei ela muito mais bonita que eu, em vários sentidos.

Mamãe, papai e o meu irmão já estavam na festa recebendo os convidados que chegavam aos poucos. Assim que entramos pela porta de entrada todos pararam para olhar para nós.

Ou olhar para a Juliana, que estava um arraso.

Cumprimento a maioria do pessoal, recebemos muitos presentes e tentei ao máximo curtir a festa: a música, a comida, a bebida, os amigos, a família.

A festa acabou por volta da meia-noite e foi um sucesso total. Minha irmã estava toda boba com a quantidade de presentes que recebemos e de quantidade de convidados que vieram.

Ficamos na sala por mais um tempo abrindo os presentes com a nossa família. Depois tivemos o trabalho de levar tudo lá para cima, para o nosso quarto. Foi um alivio e tanto quando tirei aquela roupa e entrei no chuveiro para enfim colocar o meu pijama de corujinhas.

Quando voltei para o quarto minha irmã não estava mais ali, mas tinha deixado um bilhetinho dizendo que aproveitou que o papai e mamãe já tinha ido dormir para ir à casa do namorado.

Tentei guardar ao máximo os presentes que eu tinha ganhado em seus devidos lugares. Sendo a maioria blusinhas que tinham muito mais a ver com a minha irmã por causa dos decotes. Estava pensando seriamente em dar quase tudo para ela.

Ganhei um porta-retratos vermelho, minha cor favorita, e pensei em colocar uma foto antiga. Fui até o guarda-roupa e da última gaveta eu retirei um álbum de fotos muito velho, cheio de pó e um tanto amassado.

Sentei-me em minha cama com o álbum de fotos sobre as pernas. Fui espirrando diversas vezes enquanto passava foto por foto e sentindo uma imensa nostalgia ao ver fotos de quando eu e a Juliana ainda éramos bem pequenas.

Uma das fotos me fez paralisar e a sensação que eu tive foi que eu podia voltar no tempo, no exato momento em que tudo aconteceu.

Eu tinha apenas quinze anos, a idade do meu irmão, e participei do meu primeiro concurso de beleza aqui da cidade.

Eu sempre fui muito tímida e acanhada para esse tipo de coisa. Me faz tremer só de pensar em encarar uma grande multidão que não ia tirar os olhos de mim. Mas na verdade era para a minha irmã participar, ela que sempre foi tão mais desinibida.

Uma semana antes do concurso, depois de já ter se inscrito, minha irmã caiu da laje, quando ainda estava construindo nosso quarto aqui em casa, e ela quebrou o braço.

Ela dizia que não teria chances nenhuma de ganhar o concurso com aquele braço com gesso, assinado por todos seus amigos da escola. Juliana insistiu para eu participar em seu lugar. Ela praticamente implorou de joelhos e lágrima nos olhos.

Eu, claro, concordei, para deixa-la mais feliz.

Mamãe me comprou um vestido de princesa, todo azul com dourado, vestido que por sinal custou muito caro e o deixou o papai bastante furioso.

Naquele dia eu me senti uma verdadeira princesa, como nos livros que eu tanto adorava ler. Passei o dia no salão de beleza dando um trato no cabelo, fazendo a maquiagem e as unhas.

Mamãe e minha irmã me levaram ao concurso, que aconteceria no centro de Niterói e estava cheio de gente de todos os lados. Só de ver aquela multidão eu fiquei apavorada, tremendo dos pés a cabeça. Morrendo de medo de subir naquela passarela, com todos olhando para mim e me avaliando.

Não queria perder. Não queria desapontar a minha família. Mas no fundo eu sabia que tinha grandes chances de não ganhar. Afinal, haviam tantas garotas muito mais bonitas que eu com cabelinhos cheio de cachinhos perfeitos e que pareciam ter nascido para aquilo.

Fazia muito calor aquele dia. Quando a minha irmã viu uma barraquinha de sorvete ela abriu o berreiro. Juliana sempre foi muito infantil e dramática.

— Filha, vamos tomar sorvete depois, tá? Eu prometo! Olha só o tamanho daquela fila, querida.

— Mas mamãe, está muito calor hoje. A minha garganta está tão seca. Eu queria tanto um sorvete...

Juliana nasceu para ser atriz.

Mamãe acabou cedendo, pegou a mão da minha irmã com raiva e praticamente a arrastou até o final da fila.

— Fique aqui, Mel. Nós vamos voltar logo. – disse ela antes de partir com a minha irmã para comprar o tal sorvete.

Eu fiquei ali quietinha, como a mamãe pediu. Odiava desaponta-la ou contraria-la. Mamãe vivia dizendo que eu era o seu anjinho, enviado especialmente por Deus para acalma-la em dias difíceis.

Não me lembro bem como aconteceu aquela tragédia, só me lembro de ter me virado rapidamente para trás quando um grupo de garotos adolescentes passaram por mim correndo feito cavalos e esbarram com força em mim, me derrubando com tudo no chão.

Eu, que estava em cima da calçada, cai diretamente de bunda na rua, onde justamente havia uma poça de água com lama da chuva que caiu na noite passada. Meu vestido ficou todo melecado.

Completamente arruinado.

Ficaram todos em volta olhando para mim intrigados, como se eu tivesse caído de propósito. Mas ninguém me ajudou. Meu rosto queimava de vergonha e meus olhos estavam cheios de lágrimas, porque além de a queda ter doido, eu tinha estragado o vestido.

Eu não soube onde enfiar a cara, só vi com os olhos embaçados por conta das lágrimas, quando um garotinho muito pequeno e loirinho de mais ou menos sete anos se aproximou correndo e se abaixou perto de mim.

— Você está bem? – ele perguntou, todo preocupado. — Você se machucou muito?

Ele me deu a mão e mesmo sem forças, devido ao tamanho, ele me ajudou a levantar do chão. De cabeça baixa, morta de vergonha, eu olhei para o meu vestido todo sujo e tive ainda mais vontade de chorar.

— Não se preocupe. – o garotinho voltou a dizer, ainda do meu lado e com a mãozinha gelada junto a minha. — Não chore. Vai ficar tudo bem.

Eu fiquei um tempão olhando para ele, intrigada, imaginando de onde aquele anjinho havia aparecido para me salvar.

E ele era tão bonitinho. Uma gracinha. O cabelo loirinho caindo sobre os olhos escuro e as bochechas gorduchas e rosadas devido ao sol.

— Filho! – um homem corria em nossa direção, ofegante. — Porque você saiu correndo assim?

O homem que também tinha um cabelo claro muito parecido com o do garotinho, se abaixou e olhava para ele com muita preocupação.

Eu fiquei olhando curiosa para os dois, imaginando se eram pai e filho. Mas pelo menos eu já não chorava mais.

— Querida, o que aconteceu? – era a voz da minha mãe. Ela e minha irmã tinham voltado, só que tarde demais. — Oh!

Mamãe levou a mão a boca quando viu a minha situação.

Eu não tinha condições de explicar nada ou voltaria a chorar. Mas o garotinho começou a explicar tudo, como se realmente fosse um adulto. Ele falava tão bem e não parecia ter um pingo de vergonha.

— Mel, eu sinto muito. – minha irmã me abraçou, sem se importar em sujar a própria roupa. — Quem fez isso com você? Eu juro que vou matar a pessoa que fez isso com você!

Depois que estava tudo muito bem esclarecido, todos deram risadas como se não tivesse sido nada de mais e se tornaram amigos.

A mamãe e o pai do garotinho se apresentarem e ficaram conversando, como dois velhos conhecidos.

O garotinho, do lado do pai, olhava para mim e para minha irmã com um sorrisinho meigo e infantil.

— Então ele é o seu herói? – cochichou a minha irmã, como uma risadinha cheia de malícia. — Até que ele é bem bonitinho.... Imagine só se fosse um pouquinho mais velho...

— Juliana! Para com isso! Ele é só uma criança.

O pai do garoto chamou nossa atenção e teve a ideia de tirar algumas fotos nossas. Dos três. Juntinhos. Como se isso fosse fazer eu me sentir um pouquinho melhor. E sim, fez.

A mamãe pegou a máquina na bolsa, daquelas bem antigas, que tinham que levar o filme para revelar, e fez o pai do garoto tirar mais fotos de nós. E uma delas está aqui agora, nas minhas mãos que tremem eu nem sei porque. Talvez seja a emoção de relembrar aquele dia que tinha de tudo para ser triste e infeliz, mas que acabou se tornando uma lembrança especial e bastante significativa.

Depois de escolher uma foto minha com a minha irmã fantasiadas para o Halloween quando tínhamos onze anos para pôr no porta-retratos, eu fechei o álbum e o guardei de volta na gaveta.

Apaguei as luzes e me deitei, cobrindo-me com o lençol fino. Estava cansada, mas não consegui dormir de imediato.

Fiquei pensando na foto, naquele dia, no garotinho, em seu gesto de solidariedade, no seu sorriso, em seu olhar e por um momento me perguntei aonde ele estaria agora, o que estaria fazendo, se estaria bem ou se ainda lembrava daquele dia como eu.

Notas finais
Os mistérios e o suspense serão esclarecidos com o tempo. Espero que tenham ficado com vontade de ler mais. Não se esqueçam de comentar e me dizer o que acharam.