Apenas Um Olhar

2 O misterioso homem de terno.


PARTE I

Há um ano me formei em Pedagogia. No meu segundo ano da faculdade eu consegui um estágio, meu contrato era apenas de um ano. Mas eles não me remunerarão por falta de verba. Mesmo assim eu saí de lá feliz, pela experiência e pelas pessoas que conheci. O único problema é que desde então não consegui nenhum outro trabalho como professora ou ajudante de classe, mas aceitei uma vaga como bibliotecária em uma escolinha aqui do bairro.

Eu trabalho de segunda a sexta-feira das sete quinze da manhã as duas e meia da tarde e é uma honra pra para mim fazer parte disso. Onde eu posso estar em contato com as crianças, que é algo que eu amo. E também com os livros, que é uma das minhas maiores paixões.

Conheci minha melhor amiga, Alícia, no estágio, há anos atrás. Ela que teve bem mais sorte que eu, está atualmente dando aula na escolinha onde ela me arrumou uma vaga como bibliotecária.

Alícia e eu somos muito parecidas, por isso nos demos tão bem logo de cara. Ela é tímida, calada, observadora, muito inteligente, prestativa, reservada, muito amiga e muito companheira. Ela está sempre ali, para o que der e o que vier. E ela faz de tudo para ajudar a todo mundo no que for preciso.

Depois do trabalho nós sempre vamos almoçar da pousada dos meus pais. É uma pousada grande com um salão principal, muitos quartos, piscina, área de lazer, playground, vegetação. Mas também é construção muito antiga, foi passada de geração por geração.

Minha irmã que parou no segundo ano da faculdade de Estética por não saber o que queria da vida, atualmente trabalha na pousada como ajudante da mamãe. Ela serve as mesas, limpa o chão e ajuda na cozinha também. Juliana faz de tudo um pouco.

E ela parece muito feliz com esse trabalho. Parece que verdadeiramente se encontrou ali. Onde ela pode estar em contato com as pessoas diariamente, conhecendo gente nova, socializando, fazendo amizades e servindo ao próximo como a mamãe nos ensinou.

Ao contrário de mim, Juliana sempre foi mais aberta com as pessoas. Sempre teve mais amigos, sempre foi mais alegre, entusiasmada, espontânea. Ela sempre gostou mais de sair para dançar com as amigas e conhecer rapazes.

Até que ela encontrou o Igor, que está terminando a faculdade de Direito e mora em uma republica com vários outros amigos. O Igor é apenas um ano mais velho. Os dois namoram há dois anos e meio e são aqueles casais que têm uma relação muito intensa, o que não agrada nada o papai e mamãe.

O Igor só foi bem aceito pelo papai, porque é muito pé no chão. Acontece que a Juliana é que o leva para o mau caminho.

— Oi, meninas. – Juliana se aproxima com um sorriso, assim que eu e Alícia nos sentamos em nossa habitual mesa. — Querem o de sempre?

Assentimos e ela se afasta com seu avental e seu bloquinho de anotações.

Geralmente a pousada não é tão movimentada assim, mas estamos em temporada de férias e tem aparecidos muitos novos clientes por aqui desde então.

— E o Bruno, está bem?

Alícia é bem mais baixinha que eu, tem o cabelinho preto Chanel, pele branquinha, algumas sardas no rosto e os olhos escuros. E ela está sempre usando um batom vermelho bem marcante.

Alícia namora o Bruno há seis anos, desde os dezoito anos. Os dois são extremamente apaixonados e muito fofos. Estão até pensando em se casar em breve.

— Ele está viajando, foi visitar a família no Paraná. Você sabe como ele é, sempre tão comprometido e delicado com a família.

O Bruno é Engenheiro Civil.

Não paramos de conversar mesmo depois que Juliana deposita nossos pedidos sobre a mesa.

Está um lindo dia de sol lá fora.

Alícia vai embora depois de terminar a refeição e eu vou para casa, que fica nos fundos da pousada, como eu já havia mencionado antes. Nossa casa, em comparação a pousada, é bem simples.

Tem apenas dois andares.

Em baixo fica a sala, onde o papai predominada. Sempre deitado no sofá assistindo ao jornal. A cozinha é da mamãe, ela raramente deixa a gente chegar perto, a não ser para fazer as refeições. E nos fundos um pequeno quintal, onde fica os nossos dois cachorros vira-lata, Paçoca e Chantilly.

Lá em cima são os quartos e o banheiro. No começo do corredor fica o quarto dos nosso pais. No meio, o banheiro. Depois o quarto do meu irmão mais novo, o Augusto. E por fim o quarto que eu divido com a minha irmã.

Como eu disse: é tudo muito simples. Nosso quarto nem é tão grande nem tão pequeno. O bastante para nós duas. Com duas camas, separadas por um criado-mudo e um abajur. Na frente um guarda-roupa. Ao lado da porta da entrada uma penteadeira e algumas prateleiras com meus milhares de livros. E na outra parede a janela com uma cortina.

Pego uma toalha e vou direto para o banheiro, onde eu tomo um banho morno bem demorado. Depois visto um shortinho e uma regata, afinal, vou ficar em casa pelas próximas horas.

Estou lendo Extraordinário, da R. J. Palácio. E fico lendo no quarto pelas próximas horas. As seis horas a minha irmã chega em casa e começa com sua típica barulheira.

Ela desce e sobe como se procurasse por algo. Entra e sai como se não soubesse para onde ir. Suspira, passa a mão no cabelo, e balança a cabeça de um lado para o outro.

— Posso ajudar em alguma coisa?

— Mel, por acaso, você viu a minha toalha?

— Ju, sua toalha está na em baixo, no varal. No lugar de sempre.

Ela solta uma risada alta.

— Ah, é verdade. Me esqueci.

Volto para minha leitura que já está chegando ao fim.

— Mel, você viu aquela minha blusinha verde?

Juliana está na minha frente, enrolada em uma toalha.

— Está na segunda gaveta, junto com as outras.

— E a minha sainha jeans toda rasgadinha?

— Essa aí está para lavar.

— Posso pegar aquele seu shortinho branco?

— Claro que pode, Ju. Nem precisa pedir.

Ela sai novamente para se trocar no banheiro.

— Aquele seu batom que eu tanto gosto tá na sua bolsa?

— Sim, pode pegar lá.

— Posso usar o seu rímel? O meu está acabando...

— Claro. Pega aí.

A essa altura eu já nem sei em que parte do livro estou, devido as interrupções.

— Mel, você pegou meu carregador?

— Não, Ju. Tá na gaveta, lá em baixo.

Por fim, fecho o livro. Desisto.

— Estou bonita assim?

Ela dá uma voltinha, depois de se olhar mil vezes no espelho.

— Vai sair com o Igor?

— Sim, vamos a lanchonete de um amigo nosso. Quer ir com a gente? Ele vem me pegar as oito.

— Ah, não. Obrigada. Vão vocês.

Ouço a voz do meu irmão caçula, subindo as escadas, pisando forte na madeira velha, só para irritar o papai.

Ele passa o dia fora. Pelo menos nas férias. Soltando pipa com os amigos, jogando bola ou surfando na praia. E sempre que volta para casa, no comecinho da noite, está imundo.

— Vai direto para o banheiro, garoto nojento. – grita a minha irmã ao colocar a cabeça pra fora do quarto.

— Eu vou se eu quiser, sua estupida. – é nesse momento que ele mostra a língua pra ela. — Você não manda em mim.

Levanto-me, preparada para separar a briga caso eles resolvam fazer disso aqui um ringue de luta.

— Guto, vai tomar banho, vai. Antes que a mamãe chegue.

— Eu vou sim, Mel. – ele vem na minha direção e me abraça, todo sujo de terra e todo suado. — Mas só porque você pediu.

Minha irmã suspira por conta da provocação e cerra os punhos, controlando-se para não bater nele.

— Juliana, seu namorado está buzinando lá fora. – grita o papai, no pé da escada. Ele parece bravo.

— Então, eu já vou. – ela pega sua bolsa e antes de sair ela beija a minha bochecha. — Tchau, Mel. Até mais tarde.

Acho que agora posso voltar para a minha leitura....

— Mel! – grita meu irmão de baixo do chuveiro. — Esqueci a toalha lá em baixo, pega para mim, por favor.

É sempre assim. Já até me acostumei.

Desço e pego a toalha do Augusto no quintal. Entro em casa pela porta dos fundos impedindo que os cachorros entrem juntos, quando a Juliana entra feito um foguete pela porta da frente.

— Eu vou matar aquele desgraçado! Eu juro que vou.

Ela sobe pisando forte.

— O que foi, Ju?

— O desgraçado do Igor, acabou de furar comigo. Disse que tinha muito trabalho da faculdade para fazer e pediu para deixarmos para sair outro dia.

Não adianta eu pedir para ela entender o lado dele, nem nada parecido. Juliana é muito estourada. Ela é alegre na maior parte do tempo. Mas se estressa com facilidade. É muito explosiva.

Entrego a toalha ao Augusto pela frestinha da porta.

Ele agradece.

— Calma, Ju...

— Vou ligar para as meninas. Eu é que não vou ficar mofando em casa hoje.

Em dez minutos ela saí de casa de novo, como se nada tivesse acontecido.

— Mel! – grita a mamãe que acabou de chegar. Desço correndo e ao passar pelo papai na sala, ouço ele se queixar da loucura que é essa casa. —Querida, por acaso, sua irmã levou os cachorros para passear hoje depois que chegou em casa?

— Não.... Mas pode deixar comigo. – digo, já me dirigindo ao quintal. — Eu levo eles para dar uma voltinha na rua.

Não é uma tarefa fácil prender Paçoca e Chantilly com a coleira, pois eles não param de pular de alegria só por saberem que vão dar uma voltinha por aí.

Assim que consigo prende-los, dou a volta na casa e saio com eles pela lateral da pousada diretamente na rua.

Damos uma volta pelo quarteirão. Cumprimento alguns vizinhos e conhecidos pelo caminho. Faz muito calor essa noite e o céu está encantador, recoberto de estrelas.

Me distraio por um momento e isso é o bastante para Paçoca, o cão maior, sair correndo e escapar de minhas mãos.

Chantilly late sem parar, louco para fugir também.

Vejo um homem de terno no final da rua. Ele bem que tenta ajudar ao ver o meu desespero. Ele tenta segurar o Paçoca pela coleira, mas o cão é mais rápido. O homem tenta novamente, um tanto desengonçando e quando está prestes a alcançar o cão, Paçoca lhe dar uma mordida.

Vou correndo em sua direção, morrendo de preocupação.

— Meu Deus do céu! – queria muito ficar brava com o Paçoca, mas ele me olha como se não entendesse o que acaba de acontecer ali. — Moço, eu sinto muito. Ele nunca agiu assim antes.

O homem que estava curvado como se sentisse muita dor, endireita-se e me olha pela primeira vez.

Fico sem folego por alguns segundos.

O homem é extremamente bonito. Alto e traja um terno preto bastante refinado. Parece até um galã de novela. Cabelos negro, barba bem feita, sorriso largo e olhos amendoados.

— Não foi nada. Nem está sangrando. Veja...

Olho para a ferida em seu dedão e realmente não parece nada muito grave. O que é um alivio. Mas estou bastante assustada ainda. Paçoca nunca mordeu ninguém. Muito pelo contrário, ele sempre foi tão dócil.

— Deixe-me ajudar. Vamos até ali, na pousada da minha mãe. Você tem que lavar isso antes que infeccione.

O homem me segue até a pousada.

— O que foi que aconteceu? – mamãe que já estava prestes a fechar a pousada, vem às pressas em nossa direção.

— Não foi nada, senhora. Foi só um susto...

— Vem! – puxo-o pelo braço, um pouco receosa por estar tocando-a assim de maneira íntima. — Tem um banheiro ali.

Ele lava a mão e passa sabonete líquido.

— Tem certeza que está tudo bem? Não quer ir ao médico?

— Apesar de sua preocupação ser adorável, não precisa ser preocupar comigo. Eu já disse: não foi nada. Está tudo bem.

Sorrio meio sem graça.

— Pronto. Já levei Paçoca e Chantilly para casa. – mamãe volta e fica bastante desapontada ao saber da verdadeira história.

— Agradeço a atenção de vocês, mas eu preciso ir agora.

— Eu te acompanho até a saída.

Calados, nós seguimos até a saída.

Já lá fora, em baixo daquele céu estrelado, o homem de terno vira-se de frente para mim com aquele sorriso hipnotizante.

— Não quero parecer muito ousado, mas será que eu poderia passar aqui amanhã para te ver?

Fico sem reação.

Ele ri quando percebe que fico sem palavras.

— É que eu sou novo aqui, estou a negócios. Queria um lugar para ficar. E coincidentemente você apareceu no meu caminho hoje, mesmo que de maneira inusitada... Então acabo de descobrir que sua família é dona de uma pousada e fiquei bastante interessado...

Não sei nem onde enfiar a cara de tanto constrangimento.

Por um momento eu pensei que ele estaria interessado em mim, mas eu me enganei. Ele só quer um lugar para ficar...

Como eu sou tola!

— Claro, claro. Seja bem-vindo aqui a hora que quiser. Minha mãe poderá te mostrar melhor as instalações...

— Bom, eu preferiria que fosse você. Mas... – ele me faz corar ainda mais. Então eu estava mesmo certa. Será que ele...? — Enfim, aparecerei aqui amanhã por volta das quatro e meia, tudo bem?

— Claro, sem problemas. Vou avisar a minha mãe.

— Então, tchau. – ele se vira de costas para ir embora, mas para no meio do caminho e vira-se para mim de novo. — Espero poder encontra-la de novo amanhã. Seria uma grande honra.

Não sei o que faz meu coração bater tão depressa nesse momento: a beleza incomparável desse homem, a forma como ele me olhou e sorriu, o mistério e o charme que o envolve ou possibilidade de encontra-lo amanhã.

Notas finais
Comentem! Postarei o próximo capítulo semana que vem.