Apenas Um Olhar
3 Convite inesperado.
Notas iniciais
— De onde será que ele veio? – perguntou Alícia, curiosa. Eu tinha acabado de contar a ela tudo que aconteceu na noite passada.
Eu posso estar exagerando um pouco, mas aquele homem realmente dominou meus pensamentos por toda noite, até mesmo quando eu tentava dormir.
Eu não sabia como ele se chamava, de onde ele veio, na verdade, eu não sabia nada sobre ele. Mas havia alguma coisa nele que despertou algo dentro de mim até então desconhecido.
Sim, eu já fiquei com alguns caras. Rolaram alguns beijinhos. Mas foi só isso. Eu nunca namorei sério por medo de me envolver a fundo com alguém e acabar louca como a minha irmã.
De repente, tudo mudou. Eu me dei conta de que já estou grandinha demais para ter medo de me apaixonar, de me envolver, de conhecer pessoas. Sei que existe muitos homens maus por aí, mas não posso generalizar. Porque aquele homem, mesmo depois de ter sido mordido pelo meu cachorro, me pareceu muito bom e do bem. E me olhou de uma forma tão intensa, sorriu de maneira tão encantadora, foi tão gentil, educado e era tão elegante.
Tudo nele parecia bom demais para ser verdade.
— Você precisa vê-lo de novo hoje. Precisa saber mais sobre ele e depois vir correndo me contar tudo.
Alícia não pôde ir comigo almoçar na pousada, pois o Bruno estava voltando de viajem hoje e ela iria encontra-lo.
Assim que entrei no restaurante da pousada, Juliana veio correndo em minha direção com um sorriso insinuante.
— Mamãe me contou que um futuro cliente da pousada irá te ver hoje e que ele pareceu bastante interessado em você.
— Não é verdade! – digo, na defensiva. Não queria me iludir com tão pouco, mas as pessoas, principalmente a minha irmã e a minha cabecinha doida, não ajudam muito. — Ele só quer conhecer melhor as instalações da pousada.
— Ta bom, vou fingir que acredito. – ela revira os olhos, divertida. — Que horas ele vem? Você precisa estar deslumbrante!
Tento fugir das maluquices da minha irmã, mas como o movimento hoje está fraco, mesmo enquanto estou comendo ela tagarela sem parar, querendo saber mais sobre o misterioso homem, o qual eu nem sei o nome, que prometeu vir aqui hoje.
Assim que termino de comer vou pra casa.
— Oi, papai. – cumprimento-o rapidamente e subo as pressas para o quarto. Olho no relógio e são três da tarde.
Resolvo tomar um banho. Tento não ficar pensando muito e nem dar tanta importância. Vai que ele nem resolve aparecer? E eu aqui, como uma boba que sou, me iludido com tão pouco.
— Irmãzinha, vim te salvar.
Tomo um susto dos grandes, nesse momento Juliana se encontra sentada em minha cama como uma assombração.
— Ju, o que você faz aqui? Não deveria estar ajudando a mamãe...
— Ela me liberou para eu te dar uma forcinha.
— Que tipo de forcinha? Eu não preciso de nada...
— Ah, é? E que roupa você pensou em usar?
— Ainda não pensei nisso. – abro a porta do guarda-roupa e dou uma olhada rápida nas minhas poucas peças de roupa.
Diferentemente da minha, a parte do guarda-roupa que pertence a minha irmã está tão cheia de roupa que parece que a bagunça dela vai explodir a qualquer momento.
— Pensei em vestir algo básico, sei lá, qualquer coisa...
— Ficou doida? Não, de jeito nenhum! Eu não vou deixar você fazer isso consigo mesma. – ela se levanta e se coloca em minha frente para avaliar de perto as minhas roupas. — Deixa eu ver....
Somos gêmeas, aparentemente parecidas, mas nenhum pouco igual, principalmente nos gostos e preferencias.
Fisicamente temos o mesmo tom claro de pele, os olhos azuis do vovô e os cabelos pretos e lisos da mamãe. Porém, o meu cabelo é mais curto, um pouco a baixo dos ombros. E eu tenho uma franjinha que cobre a testa toda. Já os cabelos da Juliana são longo, batendo na cintura. Ela também é mais alta alguns centímetros e mais corpulenta. Eu sou magra e nenhum pouco atraente.
Esse é um dos principais motivos para os homens jamais se interessarem por mim. Pois não sou bonita e nem divertida como a Juliana que sempre teve os homens atirados aos seus pés. É por isso que quando um homem aparece repentinamente em minha vida e se mostra um pouquinho interessado, já é muito suspeito.
— Credo, Mel, você só tem roupas feias e sem graça.
Não é verdade! Minhas roupas são bem básicas e confortáveis. Afinal, é isso que importa, não é? Eu tenho muitas regatinhas, suéter, cardigãs, jeans, saias e sapatilhas. Já a Juliana adora vestidos, shortinhos e saias jeans, blusinhas decotadas, saltos altos...
— Pronto! Achei o look ideal para você. – ela me entregou algumas peças de roupa que tirou da sua própria parte do guarda-roupa. — Vai, experimenta logo. Eu quero ver como vai ficar!
Era um vestidinho soltinho todo floral em tons de azul, branco e verde. A cara do verão! Eu raramente usava vestidos, fora ocasiões especiais, como festas. E apesar desse vestido pertencer a minha irmã, eu gostei bastante dele. É simples, delicado e fofo.
— Eu nunca gostei desse vestido. Ele é a sua cara!
Juliana é minha irmã, mas também é uma das minhas melhores amigas. Ela me conhece como ninguém, duvido até que me conheça mais do que eu. Deve ser por isso que soube exatamente como me vestir, de uma forma não tão exagerada quanto ela, mas algo que se parecesse mais comigo.
Calcei uma rasteirinha e penteei os cabelos molhados, deixando-os soltos. Juliana sugeriu que eu colocasse uma tiara, e eu concordei. Depois ela me maquiou. Coisa básica: pó, blush, rímel, uma sombra clarinha e um gloss rosado.
— Meninas! – a mamãe gritou lá de baixo. — Ele chegou.
Meu coração deu um pulo.
No fundo, uma parte de mim estava bastante ansiosa. Mas outra parte de mim não acreditava que ele falava sério. E eu até cheguei a duvidar que ele realmente vinha.
Juliana praticamente me empurrou lá para fora, pois eu estava tremendo e totalmente sem coragem de encara-lo novamente. Ainda mais em plena luz do dia, com todos olhando, curiosos.
E lá estava ele. Eu vi de longe. Usando outro terno de marca e sapatos de grife. Os cabelos escuros bem penteados.
— Vai, boba. Não deixa ele esperando!
Vagarosamente, sentindo as mãos tremerem, eu caminhei até ele. Ele ainda estava lá fora, distraindo, olhando para os lados. Acho que analisando as redondezas. Mas quando viu me aproximar, ele olhou diretamente para mim e sorriu encantadoramente.
— Nossa, você é ainda mais linda do que eu me lembrava.
Ele beijou a minha bochecha. Por essa eu não esperava.
Ah, e estava muito perfumado. Deu para sentir muito bem.
— Vamos entrar? Vou te mostrar melhor as instalações...
Aquela era uma tarefa da minha mãe, afinal, ela conhecia aquele lugar melhor do que ninguém. Mas com seu entusiasmo de enfim um homem aparecer na minha vida, é obvio que eu não teria como escapar e aquela passaria a ser uma tarefa minha.
— Bom, como você poder ver, aqui em baixo fica a área de convivência. – expliquei, nervosa. Até gaguejei e pela expressão dele ele estava gostando nessa situação toda. O que me deixou ainda mais tensa.
Será que ele estava me achando muito patética?
— Aqui em baixo fica o restaurante caso os clientes resolvam fazer suas refeições por aqui. Servimos café da manhã, almoço e janta. A cozinha fica nos fundos onde só permitida a entrada dos funcionários, os lavabos daquele outro lado e lá fora o jardim.
— E quantos funcionários trabalham aqui?
— Na verdade, eu não sei ao certo. É a minha mãe que cuida de tudo desde o falecimento dos meus avôs. Ah, minha irmã também a ajuda a servir as mesas e na cozinha. Mas temos também alguns garçons, o pessoal da cozinha, faxineiras e o jardineiro.
Por falar na mamãe, lá vem ela, limpando as mãos em seu avental e com sua toquinha preta na cabeça. Minha irmã vem logo atrás, sorrindo muito, e louca para me fazer passar vergonha.
— Bom, essa é a minha mãe, Paula. Ela você conheceu ontem. – os dois apertaram as mãos e sorriram um para o outro. — Ela cuida de absolutamente tudo. E essa é a minha irmã, Juliana.
— Olá, prazer. – muito cara de pau do jeito que só ela é, minha irmã beija o rosto do rapaz dispensando os cumprimentos formais.
— Vocês são...? – ele olha para mim, depois para ela. E fica assim durante alguns segundos, alternando o olhar entre nós duas. — Vocês são gêmeas?
— Pois é. – solto uma risadinha, constrangida. — Vamos subir agora? Vou te mostrar os quartos, pode ser?
Ele assente e educadamente se despede da mamãe da Juliana.
Nós subimos as escadas.
— Aqui no primeiro andar ficam os quartos. Todos têm seu próprio banheiro. Do lado esquerdo há cinco quartos com duas camas de solteiro cada um. Do lado direito há cinco quartos com apenas uma cama de casal. Ah, e claro, e toda a mobília.
Subimos novamente as escadas.
— Esse é o segundo e último andar. Onde ficam as suítes máster, que são bem mais elaboradas, mais luxuosas e caras.
— Nossa, estou bastante impressionado com tudo.
— Gostou? – não consigo conter o sorriso e o rubor por ele está olhando diretamente nos meus olhos. — É tudo muito simples, mas ninguém saí daqui reclamando. – solto uma risadinha.
Nós descemos até a recepção, onde a mamãe já se encontra atrás do balcão.
— Será que vocês têm uma vaga para mim?
Afasto-me para deixa-los mais à vontade, enquanto ele faz o check-in com a mamãe.
— Ele é bem bonão, hein. – cochicha a minha irmã. — Parece ser um bom partido. Imagine só quantas concorrentes você tem...
Antes que eu possa dizer alguma coisa em minha legitima defesa, o rapaz vem em nossa direção parecendo bastante satisfeito.
— Pronto. Vou ficar instalado aqui pelos próximos quinze dias.
— Que maravilha! Então, seja bem-vindo. Vou pegar alguma coisa para você beber. Você aceita uma água? Suco? Cerveja?
— Um suco de limão seria ótimo. Obrigado.
Minha irmã se afasta, deixando-nos sozinhos outra vez.
— Podemos nos sentar lá fora, se você quiser. – sugiro.
— Claro, seria uma grande honra.
Vamos até o jardim.
— E vocês moram ali naquela casa? – pergunta ele, olhando para os fundos da pousada. Onde está a nossa casa, com sua fachada antiga, pintada de amarelo.
— Sim, moramos ali desde que me entendo por gente.
— E vocês são quantos? – pergunta ele, mantendo o ritmo da conversa. Porque se dependesse de mim, isso seria uma tragédia bastante vergonhosa. Sou péssima nesse tipo de coisa.
— Eu, mamãe, o papai, Juliana e meu irmão caçula, Augusto.
— Você tem um irmão caçula? – ele parece bastante impressionado. — E quantos anos ele tem? Desculpa parecer tão intrometido, mas é que eu não tenho uma família grande como a sua.
— Tudo bem, sem problemas. Pode perguntar o que quiser. – sorrio, corada. — Ele tem quinze anos. Mas, como assim? Você não tem irmãos?
— Não, sou filho único. E também não tenho pais presentes assim como os seus. Digamos que, seja bastante complicado...
— Entendo.
Juliana aparece trazendo o suco.
— Obrigado.
Ela sorri e depois desaparece, voltando ao trabalho.
— Será que você não gostaria de jantar comigo essa noite? – pergunta ele, de uma hora pra outra. — Poderia ser aqui mesmo.... Eu não me importo. Desde que você aceite.
Penso por um momento.
Será que eu deveria aceitar? Não quero parecer tão oferecida ou tão fácil. Na verdade, eu não sei como agir com os homens.
— Claro, eu aceito sim.
Sorrimos um para o outro.
Ele termina seu suco e se levanta, então eu levanto também.
— Preciso resolver uns problemas do trabalho antes e pegar minhas coisas no hotel onde estou hospedado no momento. Mas, podemos nos encontrar as oito e meia. O que você acha?
— Parece ótimo para mim.
— Então, tá. Oito e meia. Agora eu preciso ir. Até mais.
Novamente ele me beija, pegando-me desprevenida.
Então, ele se afasta. Mas para abruptamente como se lembrasse de algo importante e se vira de volta para mim.
— A propósito, eu me chamo Carlos.
— E eu sou a Melissa.
Ele sorri e se vai.
Juliana vem correndo até mim assim que ele se desaparece.
— E aí?
— E aí, o que?
Ela me dá um tapinha no braço.
— Não se faça de desentendida, Mel.
Dou risada de sua impaciência comigo.
— Ele me convidou para jantar hoje.
— Sério? – ela praticamente grita.
— Sério.
— Ai, meu Deus. Ele está amarradão em você!
Agora ela está dando pulinhos. O que é um exagero.
— Mas pode não ser grande coisa, afinal como ele mesmo disse, só vai ficar hospedado aqui por quinze dias. Talvez eu seja só uma distração temporária. E se ele for casado?
— Não seja tola, Melissa! – ela me dá um novo tapa. — Se ele é casado ou não você terá que descobrir isso hoje. E mesmo que a presença dele por aqui seja por pouco tempo, quem garante que esses não serão os melhores quinze dias da sua vida? Ele pode até mudar de ideia e ficar um pouco mais. Isso só vai depender de você!
Talvez ela tenha razão...
— Já pensou na roupa que você vai usar hoje à noite?
Minha irmã é meio obcecada por essas coisas.
— Não.... Mas você pode me ajudar depois com isso. Agora eu vou para casa. Eu preciso ligar para a Alícia. Ela deve está louca para saber sobre tudo o que rolou.
Fale com o autor