Apenas Um Olhar
4 Será que foi amor à primeira vista?
Minha irmã e minha melhor amiga tiraram a noite para pegar no meu pé. Após meia hora de discussão entre as duas, onde eu nem podia dar a minha própria opinião, elas enfim escolheram a roupa que eu usaria naquela noite para o jantar com o Carlos.
— Nada de vestido e salto alto. – disse Alícia de braços cruzados, só para contrariar a minha irmã. — Assim vai aparecer que ela passou a noite toda só se produzindo para ele.
— Como se isso não fosse verdade. – Juliana bufou, já sem paciência. Normalmente, ela e Alícia discutem muito, por tudo. — E nada de jeans e camisetinha. É básico demais para um jantar romântico. Vai parecer que ela não deu a mínima...
— Tá. Você tem razão. Mas nada de shortinho e blusinha.
— Então que tal uma saia?
— Essa é muito curta!
— E esse chopped?
— Não! Que coisa horrorosa...
E foi assim por longos minutos. Por fim, as duas chegaram a uma conclusão: uma saia preta de cintura alta e uma camisetinha cinza. Nada muito justo ou decotado. Para os pés sapatilhas listradas. E alguns acessórios: pulseiras e um longo colar. Os cabelos eu prenderia em um coque despojado e a maquiagem seria básica.
Pronto.
Uma hora depois eu estava pronta.
— Agora coloca um batonzão vermelho. – sugeriu minha irmã.
— Não! É melhor um que tenha tom de coral. – rebateu Alícia.
— Prefiro um rosinha claro. – concluí, determinada.
Estava cansada de vê-las brigando.
Faltava dez minutos para as oito e meia quando eu desci.
— Pai? – Augusto cutucou o papai. Papai resmungou. A hora do jornal era sagrada para ele. — A Mel arrumou um namorado?
E pela primeira vez em muito tempo o papai desviou os olhos da televisão para olhar para mim. Ele me deu uma boa analisada.
— Para onde você pensa que vai?
— Ela tem um encontro. – disse Juliana, empolgada.
— É só um amigo, pai. – expliquei.
Papai é sério na maior arte do tempo e muito calado. Ele nunca foi de brigar com a gente, por mais errados que estivéssemos. Ele é do tipo de pai que basta um olhar para a gente se arrepender amargamente de qualquer erro cometido.
— Tenha cuidado. – disse ele, voltando-se para o jornal.
Saí de casa com as garotas logo atrás e fomos até a pousada.
Para o meu total alivio, o Carlos já estava por lá, conversando com a mamãe. Quando me viram entrar pelos fundos, os dois pararam de conversar e me olharam, encantados.
Foi estranho. Me deu até um embrulho no estomago.
Se eu já estava apavorada antes, imagine agora.
— Uau! – Carlos levanta-se, para me dar o terceiro beijinho em um único dia. — Você está linda!
Mamãe não diz nada, mas só pela expressão dela percebo que está admirada e ao mesmo tempo surpresa com a minha super produção. Eu não sou muito de me arrumar, exceto em ocasiões especiais, que são muito raras. Isso tem mais a cara da Juliana, que se produz toda só para ir na padaria, as sete da manhã.
— Vamos, meninas.
Mamãe sai arrastando minha irmã e minha amiga.
Nem tive tempo de apresentar Alícia ao Carlos.
Como um verdadeiro cavalheiro, Carlos puxa a cadeira para eu me sentar. Eu não fazia ideia de que ainda existiam homens assim, mas fiquei feliz por um deles estar ali comigo essa noite.
Acho que nunca me senti tão especial.
Ou talvez eu só estivesse exagerando.
— Já vamos fazer os pedidos ou você quer esperar um pouco mais? – Carlos pergunta, sem tirar os olhos de mim.
Ele trocou o terno por uma calça jeans e uma camisa social.
Ele parece o tipo de homem que fica bonito até usando calção de dormir. Mesmo que esteja furado e muito velho.
— Melhor pedirmos agora. Estou faminta!
— Ótimo! – ele ri. — Porque eu também estou. Estive tão ocupado resolvendo alguns pepinos que nem tive tempo de comer.
— Do que você trabalha?
— Eu sou empresário.
Isso explica porque ele anda tão elegante mesmo de baixo de um sol escaldante.
Pelo menos a noite de hoje está refrescante e o movimento no restaurante da pousada é quase mínimo.
— E você faz o quê?
— Eu trabalho na biblioteca de um colégio infantil. Mas sou formada em Pedagogia e só estou esperando a oportunidade poder trabalhar em uma sala de aula junto com as crianças.
— Então você gosta muito de crianças?
— Se eu gosto de crianças? Eu amo crianças! Elas são tão espertas, inocentes, risonhas, alto astral, divertidas, sonhadoras. É sempre tão bom poder estar perto de crianças.... Faz com que eu me sinta revigorada, entende? Eu amo a profissão que escolhi.
— Eu não me dou muito bem com crianças, mas talvez seja minha falta de experiências com elas.
— Então você não tem filhos?
— Não, não tenho. Mas espero algum dia poder encontrar uma mulher que goste muito de crianças e só assim saberei que ela é a mulher certa para mim, pois me ensinará a lidar melhor com elas.
Não sei porque, mas seu comentário me atingiu em cheio. Como se ele estivesse se referindo a mim, como uma espécie de indireta. O que fez meu rosto inteiro corar de vergonha.
Carlos fez um sinal e a mamãe se aproximou para anotar nossos pedidos. Eu pedi o de sempre. Já o Carlos pediu um dos pratos mais caros do cardápio que envolvia frutos do mar. E pediu também uma garrafa de vinha.
Mamãe saiu toda animada com os pedidos em mãos. Raramente as pessoas gastavam tanto assim na nossa simples pousada.
— Desculpa perguntar.... Sei que isso é grosseiro, principalmente com uma dama... Mas, quantos anos você tem?
— Sem problemas. – eu dou risada. — Pode perguntar o que quiser, eu já disse isso antes. Respondendo a sua pergunta: não faz muito tempo que completei vinte e quatro anos.
— Sério? Eu pensei que fosse menos. Por isso perguntei, tive receio que você fosse muito nova. – ele riu. — Eu tenho vinte e oito.
— Também não parece. – foi tudo que consegui dizer.
Mamãe voltou com uma garrafa de vinho tinto aberta em mãos. Ela depositou duas taças sobre a mesa e nos serviu.
Achei estranho.... Ela sabia que eu não bebia nada além de água, suco e refrigerante. Lembro-me da primeira vez que resolvi beber uma cerveja, em uma festa de aniversário das amigas da minha irmã. Eu fiquei tão mal que só sabia correr para o banheiro e vomitar. Confesso que exagerei. E no outro dia senti a pior dor de cabeça do mundo. Depois daquele dia disse a mim mesma que jamais voltaria a sentir aquele mal-estar outra vez.
— Você bebe, não bebe? – ele me ofereceu uma das taças, após a mamãe se afastar.
— Na verdade, não. Sou muito fraca para esse tipo de coisa. Mas se eu não exagerar, posso abrir uma exceção para essa noite.
Sorrimos uma para o outro.
Carlos começou a me dizer o que ele fazia no seu trabalho.
Descobri que ele tinha um pequeno escritório com um sócio, que por sinal era seu amigo de infância.
Sem nem perceber eu já tinha tomado duas taças de vinho. Não completamente cheias, é claro. Isso seria demais para mim. A essa hora eu já estaria atirada no chão, completamente apagada.
Minutos depois mamãe trouxe os pedidos. Comi calada, sem saber quais eram os hábitos dele. Será que ele tinha o costume de conversar durante as refeições? Porque tem gente que não gosta.
Fiquei observando-o, vendo o quanto ele era refinado.
Deve ter sido uma excelente educação, com pais ricos, em uma mansão luxuosa e cercado de empregados.
Mas isso não era um problema. Ou será que era?
— Você não é casado, ou é? – perguntei na lata. E me arrependi imediatamente. Mas agora a besteira já estava feita.
Com certeza era o álcool do vinho falando mais alto.
— Não. Claro que não! Porque? – perguntou ele, com um sorriso brincalhão. — Você não achou que...?
— Por um momento, sim. Confesso que achei que você era. Porque você é perfeito demais para estar sozinho...
E novamente eu disse besteiras.
Ele riu.
— Obrigado. Mas o que me admira aqui é você, linda e inteligente, sem ninguém... Melissa, você é espetacular. Uma mulher admirável, tanto por fora quanto por dentro, mesmo com o pouco que conheço. Você deveria estar por aí, no mundo a fora, vivendo todos os tipos de experiências. Realizando seus sonhos...
— Meu lugar é aqui. – explico. — Junto da minha família e dos meus amigos. Eu não preciso de muito, Carlos. Sim, eu tenho muitos sonhos. A maioria deles é bastante bobo. Mas eu sou feliz aqui, sou realizada e eu não desejo muito. Eu só quero ser feliz e amada.
Ele me olha com admiração como se eu tivesse dito a coisa mais inteligente que alguém já pode ter dito. Mas eu não disse nada de mais, apenas falei com o meu coração. Fui sincera.
Fui eu mesma.
Assim que terminamos nossa refeição, a mamãe se aproxima para recolher os pratos e talheres. Ela pergunta se desejamos sobremesa, mas eu estou tão cheia que dispenso.
Carlos também recusa, mas continua a beber seu vinho. E eu o acompanho para não fazer feio.
Continuamos a conversar.
Conto a ele sobre as maluquices dos meus irmãos, das brigas, das discussões, da infantilidade e dos objetos que voam quando eles resolvem se atacar, aos tapas.
Ele ri de quase tudo que falo.
— Eu sei que está tarde. Mas, quer dar uma volta?
— Seria bom. — respondo.
Levantamos e saímos para a rua.
Já se passa das dez da noite, a rua está silenciosa e vazia.
Caminhos devagar, sem rumo especifico.
— Quando eu vim para cá, eu não esperava te conhecer. Naquele dia em que nos encontramos, eu estava tão estressado, tão furioso e resolvi sair para caminhar. Eu faço isso sempre que me sinto esgotado. Então eu te vi com seus cachorros. Um deles me atacou, você veio correndo me ajudar. Foi tão prestativa, tão carinhosa, tão generosa. Eu acho que eu nunca antes conheci uma mulher assim como você. Com essa pureza, essa inocência, com esse brilho no olhar, com esse coração enorme...
— Nossa, obrigada. – digo, envergonhada. Abaixo a cabeça e fito meus próprios pés, sem coragem de encara-lo. — Assim você me deixa sem graça.
— Você não tem que ficar envergonhada. – nós paramos e ele ergue a minha cabeça com a mão no meu queixo. — Você é incrível, Melissa. E estou realmente disposto a te conhecer melhor. Se você permitir, é claro. Porque se você não quiser....
— Sim, é claro que eu quero.
Apesar de ter dito isso mais depressa do que gostaria e muito sem pensar, ele parece gostar do que ouviu.
Ele está sorrindo.
— Posso te buscar no trabalho amanhã? Nós podemos dar uma volta. Eu não conheço muito de Niterói, mas você pode me mostrar os principais pontos. Eu ficaria bastante satisfeito.
— Sim, é claro. Eu posso te mostrar muitos lugares, seria uma grande honra. Eu saio do trabalho as duas e meia.
Refazemos o caminho e voltamos para a pousada.
No balcão da recepção eu pego um pedaço de papel e anoto muito rapidamente o endereço da escolinha onde trabalho e também o número do meu telefone celular caso aconteça algum imprevisto e ele preciso me telefonar.
— Está ficando tarde.... Eu preciso entrar.
Entrego o pedaço de papel para ele, ele agradece.
— Você tem razão.... Está mesmo muito tarde.
Pela maneira como ele me olha, por um momento penso que ele vai me beijar. Eu até prendo a respiração e fico na expectativa. Mas não sei se seria bom um primeiro beijo acontecer com todos olhando. Não seria nada romântico.
— Boa noite. E obrigado pelo jantar. – ele beija apenas a minha bochecha. — Nos vemos amanhã, então.
— Até amanhã.
Ele acena para a minha mãe e sobe para seu quarto.
Mamãe vem as pressas em minha direção, limpando as mãos no avental.
— Ele não é um amor?
— É sim, mãe. Ele é incrível!
— E ele também é muito rico. Pediu o prato e a garrafa de vinho mais cara que temos! E também optou por ficar com uma das suítes máster. E você ainda nem não viu o carrão dele!
A mamãe fala essas coisas como se elas me importassem, mas tudo que eu consigo pensar agora é no sorriso do Carlos, no perfume dele, no som da voz dele, a sensação do seu beijo da minha bochecha, sua mão no meu queixo, a forma como ele me olha ou como ri das besteiras que eu digo.
Ajudo a mamãe a trancar a pousada e organizar as mesas. Já foram todos dormir. Depois, seguimos juntas até em casa.
Como já era de se esperar, Juliana está me esperando acordada.
— Me conta tudo!
— Amanhã eu conto.
— Porque só amanhã? Não é justo!
— Porque amanhã eu posso contar para você e para a Alícia ao mesmo tempo. Não quero ter que fica repetindo a história toda.
— Ah, poxa.
— Você pode esperar, Ju.
Tiro aquela roupa, coloco o meu pijama e tiro a maquiagem.
Estou pronta para dormir.
Minha irmã já pegou no sono, emburrada por eu não ter contado nada a ela. A casa agora está toda silenciosa. Tirando os resmungos da minha mãe, pedindo para o meu irmão sair do computador e ir dormir antes que ela meta o chinelo na cara dele.
Apago as luzes e deixo só o abajur ligado. Vou até a janela. Ela sempre fica aberta, para entrar um ar fresco no quarto. Já que não temos ar-condicionado e sempre faz muito calor aqui nessa época do ano. Eu só puxo as cortinas.
Dou uma boa espiada lá fora e olho para o alto, para a pousada, e acabo vendo a última coisa que eu esperava ver agora.
Lá está a pequena figura do Carlos, a vontade, em sua pequena sacada. Usando apenas uma calça preta. Está descalço e sem camiseta. Mas quase não dá para ver nada, devido ao escuro. Mas ele está absolutamente lindo e parece tão tranquilo, olhando para o céu, pensativo.
No que será que ele está pensando agora?
Fico olhando para ele por um tempo. Escondida, com medo de ser pega em flagrante. Porque sei que não é certo invadir a privacidade dos clientes. Mas a cena é tão tentadora!
De uma hora para outra ele desaparece. Acho que foi se deitar. Assim como eu devo fazer agora que não tem nada para se admirar. Deito-me e puxo o lençol fino para me cobrir. Apago a luz do abajur e fecho meus olhos.
Meu último pensamento antes de pegar no sono é o Carlos.
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