Apenas Tonks
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Uma mulher. Todos olham pra mim e veem uma mulher, sempre foi assim. Uma mulher diferente de todas as outras mulheres, e de todos os outros homens, mas, ainda assim, uma mulher. Uma mulher desastrada, uma mulher totalmente instável — do humor aos fios de cabelo —, mas, ainda assim uma mulher.
Eu sou uma mulher. Exceto que não sou. Meu nome é Nymphadora. Exceto que não é, e que eu o odeio. Meus pronomes são “ela” e “dela”. Exceto que não são.
Batalhei para realizar meu sonho de me tornar uma policial; entrei e, quando o fiz, não fui levada à sério. Eles nem mesmo disfarçavam, nem era algo escondido, pelas sombras. Todos abertamente falavam coisas do tipo “Como podemos confiar uma missão importante a uma mulher que não decide nem mesmo a cor do cabelo?” ou, quando eu finalmente conseguia algo para fazer em meu trabalho, faziam apostas sobre quanto tempo eu demoraria para começar a ficar desatenta e falar bobagens ou exercer a minha capacidade de ser um imã para desastres. Também falavam sobre “aquilo não ser uma profissão para mulherzinhas”.
Mas eu dava o meu melhor naquilo. Fazia o meu melhor nas tarefas que me eram confiadas, sabia nomear as normas, leis e códigos melhor que qualquer um ali, eu tinha certeza. Porque “mulheres” como eu tinham que doar sua alma em algo para que pudessem alcançar seus sonhos, e, ainda assim, sendo desacreditadas na maior do tempo.
Isso é o que acontece com mulheres. Mas, como eu já disse… eu não sou exatamente uma mulher. Eu sempre odiei o nome Nymphadora. Para mim, além de soar mal, não combinava nada comigo. Era longo, complicado e tinha um quê de conservador, na minha percepção. Sempre esperei o dia em que, quando eu chegasse ao trabalho, me chamassem de Policial Tonks. Ou apenas Tonks, tanto fazia para mim.
Só que, no meu primeiro dia de trabalho, não foi assim. Todos me chamaram de “Nymphadora” enquanto seguravam a risada. Afinal, como levar a sério uma mulher e que se chamava Nymphadora? Outros, me chamavam de “Dora”, e não era nenhum pouco melhor. Além de eu não me sentir nenhum pouco confortável com esse nome, ele era sempre acompanhado de um homem flertando enquanto olhava para os meus peitos, o que, obviamente, contribuiu para que eu não me sentisse confortável ao me chamarem por aquele conjunto de fonemas.
Eu nunca consegui entender qual era a lógica disso tudo. Era apenas um pênis que mudava tudo? Se fosse para provar algum ponto, eu poderia colocar um. Não que eu não gostasse do meu corpo, muitas pessoas dizem por aí que ser uma pessoa trans é estar preso num corpo que não é seu, e, para algumas pessoas pode até ser isso, mas eu me sinto diferente disso. Eu me sinto presa na percepção que as pessoas têm do meu corpo. Meu corpo, como já é dito, é meu, e de ninguém mais, e é meu templo. Eu amo meu corpo, ele é uma das poucas coisas que eu nunca posso perder, e não é por eu ter uma vagina que isso vai mudar. Mas eu quero ser levada a sério, e eu realmente acho que, se ter um pênis é o preço, que seja.
Mas eu sei que isso não vai mudar. Eu sei que certos homens vão continuar me chamando de Dora enquanto não tiram os olhos dos meus peitos. Eu sei que as pessoas vão continuar me resumindo à garota desastrada que muda a cor do cabelo toda semana. Eu sei que vão continuar insistindo em me chamar de Nymphadora quando sou Tonks, apenas Tonks.
Certa vez, me disseram que escrever alivia; me disseram que o papel entende, que o papel não te julga e apenas te ouve. Eu não sei sobre essa última parte, mas eu sei que está me aliviando agora, então, pela primeira vez, eu vou me apresentar de maneira sincera e genuína, na esperança de que ao menos o papel não me resuma a estereótipos, qualquer que seja ele.
Meu nome é Tonks, tenho vinte e sete anos. Dizem que eu sou instável quanto aparência e humor, e eu tenho que concordar quanto a isso, mas com pessoas, digamos que eu seja bastante estável; é difícil eu sair do lado daqueles que realmente amo e me importo. Sou intensa e dou o meu melhor naquilo que quero e sonho. Sou bissexual e isso de forma alguma significa infidelidade, até porque, como eu já disse, raramente deixo aqueles com quem me importo na mão. E sou uma pessoa não binária. Me identifico mais com os pronomes “ele” e “dele”, mas não me importo tanto com isso, a não ser que a pessoa que use os pronomes femininos apenas por teimosia. Só não me chame de Nymphadora. Eu sou Tonks. Apenas Tonks.
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