Notas iniciais
Espero que gostem deste capítulo. Eu estou satisfeita com ele.

O louro era sinistro. Tinha um olhar gélido e um sorriso maldoso no rosto. Por um momento pensei que se tratava de Luke, mas ao olhar mais detalhadamente seu rosto, notei inúmeras diferenças. Talvez não fosse pessoal e ele seja assim com todos, no entanto me afasto um pouco. Ele é assustador! Mas parece inofensivo.

-Parabéns, mano!- Sou pego de surpresa ao receber um abraço de Allie.

-Hã, obrigado- Digo e retribuo seu abraço.

Tomei opiniões precipitadas. Os brasileiros são legais, sérios nas horas certas e brincalhões nos melhores momentos. Eu me sinto em casa. Amo Allie, pois me lembra de Bianca. Quando ela tentava ficar brava comigo, mas nunca conseguia deixar de abrir seu lindo sorriso. Bianca morreu por culpa dele “Nico! Pare agora, você sabe que não foi culpa dele!”, grita o meu subconsciente. Allie me solta um pouco envergonhada, mas eu sorrio para ela.

Os semideuses me dão tapas nas costas, bagunçam meu cabelo, apertam as minhas bochechas como se eu fosse um novo irmãozinho na família. Agora estou vendo a diferença entre acampamentos. Aqui sou um garoto, lá eu sou um garoto estranho.

Não foi fácil acalmar os campistas, quer dizer, não foi fácil acalmar os sátiros que incentivavam a bagunça e obviamente não queriam ser acalmados. Só foram para a cama depois que houve uma breve briga entre um filho de Hefesto e outro de Ares e a senhora da cantina- Allie disse que é uma semideusa idosa de Deméter- teve que separá-los com uma vassoura. Todos rindo da cena se recolheram para seus chalés.

O chalé de Hades é incrível! Feito de madeira como os outros, possui duas camas de solteiros apenas, acompanhadas de uma mesinha e um guarda roupa cada. No canto há uma lareira que queima com um fogo azul. É aconchegante! Ok, talvez esta estátua enorme de Hades seja um exagero.

-Fique á vontade, o sua cama é a esquerda e você pode usar aquele banheiro- Allie diz apontando para o banheiro mais próximo de minha cama.

Dois banheiros! Aleluia. Ela vai para o seu, tranca a porta e ouço o barulho do chuveiro.

Começo a sentir falta de minha jaqueta. Quando cheguei aqui estava um calor de matar, porém estou quase congelando agora. Resolvo tomar um banho antes de dormir. Estou cansado de minha viagem, foi longa e... Bom, cheia de monstros. Pena que Blackjack não pôde ficar. Será que há pegasos aqui?

Vou ao banheiro e tranco a porta. É tudo tão limpinho e arrumado. Parabéns, Allie! Descanso minha espada em cima da pia, junto com minhas roupas.

A água está maravilhosa, bem quente, fazendo com que forme vapor. Agradeço que haja uma toalha branca me esperando. Droga, fiquei com a mesma roupa durante três dias e gostaria muito de trocá-la.

Allie bate a porta.

-Nico, deixarei sua roupa aqui na porta. Maria acabou de trazer!

-Ok- Respondo.

Hum. Será que os brasileiros usam “ok”? Sei que perceberam meu sotaque, especialmente minha irmã.

Abro a porta e pego as roupas caprichosamente dobradas que estão ao chão. Uma calça xadrez e uma camisa sem manga. Visto-as e saio do banheiro secando meus cabelos com a toalha.

Allie está sentada em sua cama lendo um livro com uma gravata na capa e esta usando praticamente o mesmo pijama que eu. Talvez todos estejam.

-Precisamos conversar, novato- Diz ela sem tirar os olhos do livro.

Uau. Ela não parece tão amistosa agora. Sento em minha cama.

-No seu guarda roupa está suas roupas que usará aqui durante o dia- Finalmente fecha o livro e me encara.

-Tudo bem.

-Nico, você não é um novato, tem experiência- Afirma ela.

Não respondo, pois não é uma pergunta. Allie continua me encarando até que confirmo com a cabeça. Seus olhos aumentam.

-De onde você é?

-Vim dos EUA, de um lugar chamado Acampamento Meio-Sangue, mas não estou lá há muito tempo.

-Por que está aqui?

-Vim aprender. Somos muito fechados no lugar de onde venho. Não sabemos nada sobre o mundo á fora, não sabíamos que existiam outros acampamentos até então.

Sua expressão endurece.

-Vocês vão nos invadir? Brigar conosco? Não temos medo de matar, Nico- Diz com um tom seco.

-Não! Nada disso- grito rapidamente- Eles não sabem que estou aqui.

-Não vão te procurar?

Hesito. Não, eles não ligam para mim.

-Não, por ser filho de Hades eu posso ficar no Mundo Inferior e no acampamento. Provavelmente acham que estou com nosso pai.

Allie parece ansiosa.

-Como você sabe português?

-Recebi uma pequena benção de Hermes antes de vim.

Sua expressão relaxa imediatamente.

-Ok, Nico. Só não deixem que os outros descubram sobre você, estou transgredindo regras aceitando-o aqui e não quero que questionem as minhas ordens. Se perguntarem de onde você veio, diga Bastos, há muitos japoneses lá, isso talvez explique seu sotaque- Deuses, ela é inteligente.

Obviamente a conversa estava acabada. Com um olhar ameaçador, coloca sua aljava e o arco dourado em uma prateleira acima de sua cama onde há inúmeros livros. Eu não havia notado esta prateleira. Allie gosta de ler.

Ela se cobre com as cobertas, virando-se de costas para mim. Faço o mesmo.

-Por que você usa um arco, Allie?- A pergunta praticamente voa de minha boca.

Não responde de imediato.

-Porque quando cheguei aqui todos pensaram que eu era filha de Apolo. Depois de algum tempo, percebi que preferia o arco- responde monotonamente.

Como Bianca.

Eu não costumo ser tão curioso, mas estou intrigado.

-E por que pensaram isto?

-Eu canto bem e tenho uma boa mira.

-Ah- Digo.

Tento dormir, mas é claro, não é fácil dormir em um lugar desconhecido. Gostaria de ter minha jaqueta, talvez amanhã eu a peça de volta.

-Você o conhece?- pergunta Allie baixinho depois de algum tempo.

Viro-me para olha-la. Allie mantem seus olhos fixos na estátua gigante de Hades. Vejo magoa nos olhos de minha irmã.

-Sim, claro- Respondo.

-Legal- Diz ela com raiva na voz.

Vira para o outro lado.

-V-você nunca o viu?- Pergunto mal acreditando.

-Não.

O quê? Ela nunca viu seu pai? Ele não a ajuda quando ela precisa? Como assim? Como ela descobriu que era filha dele e não de Apolo? Porque há poucos adultos neste acampamento? Como os semideuses descobrem que quem são filhos? Onde os não reclamados ficam? Porque tudo é tão distante aqui? Porque é tão difícil de achar este lugar? Uau. Tenho muitas perguntas.

-Bem, você não está perdendo nada- Digo tentando anima-la. –Hades é um otário.

Espero algum esqueleto do mal surgir do chão para me matar, mas nada acontece. Aqui é tão seguro.

Allie bufa. Bom, nossa conversa está acabada, viro-me e consigo dormir. E claro, tenho pesadelos.

Estou deitado em algum lugar que desconheço. Posso ver apenas o branco. Allie está deitada ao meu lado com os olhos fechados. Ela usa um roupão de banho e esta molhada, como se tivesse acabado de sair de uma piscina. Logo, percebo que também estou molhado. Um vento começa a bater em meu rosto e tenho uma sensação maravilhosa de liberdade.

-Nico- Alguém me chama.

Olho em volta e não vejo ninguém além de Allie.

-Nico, estou aqui, seu idiota- uma melodiosa voz masculina me chama novamente.

Olho novamente e percebo um jovem á minha frente. Tem no máximo dezenove anos e usa um terno preto. Não consigo deixar de reparar em seu rosto. Ele tem uma aparência ótima, como se fosse um modelo bonitão. Os cabelos muito pretos estão arrepiados e rebeldes, as pele morena pálida é tão lisa como a de um bebê, os olhos castanhos, quase vermelhos, brilham sinistramente, o sorriso gélido é tão branco que arde aos meus olhos. Não o reconheço, mas não parece um amigo.

-Quem é você?- Pergunto rispidamente.

Ele solta uma risada angelical.

-Quem eu aparento ser, Nico?

Ele pega uma flecha maldosamente afiada, com a ponta em forma de coração. De onde ele tirou isso? Ah, deuses! Esse cara é o Cupido!

Ele solta outra gargalhada ao perceber que sei quem ele é.

-Isso mesmo, Nico. Sou eu. Estou aqui para fazer de sua vida um inferno.

Droga!