Apenas Meu.

12 Obscuridade.


Notas iniciais
Essa palavra existe? Enfim, ela descreve um tiquinho do que terá por parte de Christian.
Esse capítulo me faz chorar muito, plmds ]=
Leiam com essa música: To Build a Home - The Cinematic.
Pra quem curte um pianinho, com um toque de acontecimentos raros vai curtir ♥
Amei a Hospedeira! Gente, é perfeito! Perfeito mesmo! Chorei no primeiro segundo do filme, plmds.
Boa leitura ♥
PS.: Essa música faz parte da trilha sonora de A Hospedeira.

Cary não sabia mesmo preparar um café da manhã sozinho. A pia de sua cozinha estava uma zona, com coisas do jantar, vários copos desnecessários e colheres em todos os cantos possíveis e impossíveis.

Peguei um copo no armário acima da minha cabeça e me servi com suco de laranja natural. Abri os e-mails no tablet e sorri com um de Kate, como se fizesse muito tempo que não nos falávamos.

“Olhe só isso!!!” sua mensagem dizia. Ela parecia animada, ponderei.

Abri o link que ela me enviou e fui transportada para um site de fofocas americanas, revirei os olhos, já esperando encontrar algo sobre o evento simples de ontem.

“Os cinco melhores vestidos da noite!” Era o título da manchete. Minhas sobrancelhas se ergueram e me interessei em ler. Me sentei em uma banqueta enquanto bebericava o conteúdo do copo.

Os posicionamentos começavam de trás para frente. A última era uma moça que havia ganhado de atriz revelação, seu vestido era roxo, sem decote, com mangas e duas fendas enormes, mostrando as duas pernas. Em quarto lugar estava o vestido de Kate, com duas fotos mostrando todos os detalhes de forma perfeita. Para mim estava explicado o porquê de ela passar a manchete e o porquê de estar animada, afinal, ela era a quarta mais bem vestida da noite. Em terceiro lugar estava uma colega de elenco da minha mãe, que fizera o papel de sua filha. Ela era nova e por isso usava um vestido curto e justo que ficava lindo com seu tom de pele e o penteado despojado. Um decote em forma de ovo mostrava o risquinho do encontro dos seus bustos e o tom dourado resplandecia com seus olhos verdes. Meus lábios se abriram em um perfeito ‘o’ com a aparição da pessoa na segunda foto. Meu sorriso se ostentava diante das câmeras e ao lado estava a foto do meu primeiro red carpet, mostrando as diferenças entre os estilos e até nas poses fotogênicas, sorri animada. Aquilo daria assunto para mim e Kate hoje. Como havia chegado até o segundo lugar, quis ver para quem eu perdi. E lá estava o sorriso medíocre de Corinne com os lábios pintados de vermelho. A foto parecia esfregar na minha cara: “sou melhor que você até nisso.”

Andar de moto me aliviava de todo e qualquer estresse. Inclusive da minha irritação com aquela garota que me causava náuseas. Se eu tivesse muitas amigas mulheres, todas diriam que era ciúmes pelo o que ocorreu comigo e Christian depois de sua chegada. Mas não era. Havia algo a mais nela que me dava toda essa repugnância. Esse desejo indecifrável de querer me afastar dela. Eu queria distância dela e de seus entes, de qualquer coisa que me levasse até ela.

De alguma forma, ela fazia com que eu me lembrasse de meu passado. De cada ponto para ser apropriada. Me puxava para lá, como uma geladeira faz com um ímã bonitinho. Até seu timbre de voz me arrastava a força para memórias que eu queria trancar a sete chaves e jogar do alto de um penhasco.

Estacionei em frente ao prédio luxuoso, e subi de elevador com o capacete pendurado no antebraço, após minha entrada ser liberada.

Toquei a campainha do apartamento de Christian. Para ser exata toquei cinco vezes e ninguém me atendeu. Nem Kate, sendo que tínhamos combinado que nos encontraríamos hoje, neste local há exatos cinco minutos. Abri a porta com um impulso, já irritada pela espera, mas meus passos pararam abruptamente com o som baixinho, quase tímido de um choro ecoando pelas paredes da sala.

Procurei ao redor, pensando encontrar Kate. Mas foram as costas de Christian que eu avistei. Ele estava delicadamente empoleirado no chão, com as mãos sobre o rosto, os ombros arqueados de uma forma cansada. Sem camisa e uma leve camada de suor, resplandecendo com a pouca luz de final de tarde. Eu não precisava ouvir o choro, só por sua posição e pela curvatura dos ombros eu sabia que ele estava triste, quase arrasado.

Me movi em sua direção de forma silenciosa e deixei o capacete sobre o sofá. Me agachei diante de sua figura, agora mais calma por perceber a presença de alguém. Toquei seu joelho e sua carne se retesou. Seus dedos se moveram com velocidade e arrancaram meu pulso de sua pele próxima. Olhei em seus olhos, procurando a verdade de forma tranquilizadora, procurando o culpado por suas lágrimas raras. Procurando quem havia machucado ele de tal forma, meu menino corajoso e que tinha aparência rude, daqueles que você tem medo de dizer oi, ou de olhar na mesma direção que ele. Aquele garoto não estava lá. Seus olhos verdes estavam afogados em lágrimas que deslizavam por sua face suavemente vermelha. Meu peito se apertou, diminuindo meu coração ao tamanho da semente de uma laranja. E meus olhos arderam, cedendo por sua tristeza e não pela minha.

Sem esperar por sua reação, joguei meus braços sobre seus ombros e ele não hesitou em me colocar em seu colo e me embalar entre seus braços. Ele suspirou por diversas vezes, arfando de vez em quando. Afundando seu rosto no contorno do meu pescoço com o ombro e beijei sua pele próxima a minha boca, não consegui identificar o ponto pelas lágrimas escorrendo de meus olhos.

Porque eu me senti de tal forma? Talvez tudo aquilo não fosse apenas por sua tristeza, fosse também por saudade. Pelo iceberg que nos separava mesmo quando estávamos a centímetros de distância.

— O que houve, Chris? – Minha voz saiu em um sussurro embargado pelas lágrimas solidárias.

— Corinne. – Meu coração explodiu em diversos cacos, ele estava chorando por ela. – Aquela garota fez o que jurou que não faria. Merda. Como eu pude ser tão burro, princesa? – Meu Chris voltou, beijei a ponta de seu ombro e sorri em seguida, algumas lágrimas pingando nos meus lábios abertos para um sorriso verdadeiro.

— Me conte, Chris. – Pedi.

Christian suspirou, e foi naquele instante que ao longe vi a iceberg derreter por completo. Espalhando-se ao redor, com o calor do nosso sentimento. Ele ponderou quieto durante alguns instantes, e então suspirou. Ouvi-o umedecer os lábios. Sua voz estava baixa, quase como um sussurro.

— Quando terminamos pela primeira vez, foi porque ela tratou a família da minha mãe mal. – Enruguei as sobrancelhas, tentando entender, mas sem indagar. Ele suspirou, sua respiração morna abanando meus fios negros. – Ela os trata mal porque eles não são ricos como toda a família de meu pai. – Sua voz se embargou e prensei meus olhos. – Ela trata minha irmã mal... porque... porque... porque ela foi abusada quando nova. – Ele parecia querer chorar de verdade agora e as lágrimas correram mais depressa de dentro dos meus olhos. Reconhecendo seu sentimento como se eu estivesse na pele de Cary para comigo. Me senti triste por sua irmã.

— Sinto muito...

— Não sinta por ela. – Ele pediu. Seus dedos me apertando com mais urgência.

— Não sinto por ela. Nunca gostei dela, Chris. Sinto por você, por sua família materna e por sua irmã. – Suspirei no final, deixando minha voz falhar momentaneamente, mas me recuperando quando respirei fundo. Não podia demonstrar a verdade entalhada em mim e não demonstraria.

— Minha irmã foi abusada quando tinha oito anos. Ela era tão pequena. Me lembro quando ela saia das alas dos empregados chorando. Mancando um pouco. – Apertei os olhos, sentindo tudo em minha pele, sentindo a dor passada. – Eu nunca entendia o porquê, até que a segui quando um jardineiro a levou para um quarto e eu peguei. Eu tinha dez anos na época. Eu gritei, chorei e tentei bater no jardineiro. Ele também me jogou ao lado de minha irmã e ficava gritando: “daqui a pouco vai ser sua vez.” Minha irmã chorava e quando ele estava quase fazendo o que já havia feito por muitas vezes, meu pai chegou e o pegou no flagra.

Ele não precisava nem contar o resto e nem me dizer como se sentia humilhado por como fora tratado. Era por isso que ele e sua irmã, Mia, eram tão próximos.

Me afastei um pouco, o suficiente para olhar diretamente em seus olhos. Limpei minhas lágrimas e depois passei meus dedos trêmulos pelas suas.

E passei a beijar o seu rosto.

Beijei o centro de sua testa, enquanto segurava firme em sua cabeça. Beijei suas pálpebras, percorrendo o caminho que ele fazia tão bem. Beijei suas faces. Beijei o comprimento do nariz e levei meus lábios até o queixo, beijando-o levemente. Depois levantei o rosto e minha intenção era dar um beijo no canto de sua boca, mas Christian virou e seus lábios tocaram os meus. Nossos corpos se prensaram com mais necessidade. E um formigamento que nunca senti percorreu minhas entranhas. Nossos lábios ficaram lá, colados por mais alguns instantes e permaneci de olhos fechados, sucumbindo à sensação gostosa que aquilo me trazia.

Foi ele quem nos afastou, tocando nossas testas. Selando o sentimento e a solidariedade pelo o que ele sentia. Selando a saudade que se formou naquelas semanas.

— Você faria algo por mim? – Ele indagou.

Estávamos nos olhando agora e eu podia ver o brilho que gostava vindo do fundo de seus olhos verdes.

— Qualquer coisa. – Sorri inerte pela felicidade que o calor de sua pele me trazia.

— Vamos juntos ao almoço? Cary pode ir com alguém. Mas só se você...

— É claro, Chris. Amigos são para essas coisas. – Permaneci com o sorriso, mas notei a perca do brilho de seus olhos.

A felicidade estava me inundando de qualquer forma, principalmente pelo fato de que esta mesma felicidade se encontrava no garoto sob meu corpo. Coxa contra coxa, os braços musculosos de Christian rodeando minha cintura, enquanto seus dedos longos acariciavam as pontas de meus fios negros. Funguei um pouco e senti seu cheiro limpo misturando-se com o salgado de seu suor. Aquilo me arrebataria sempre. Seu modo de agir e de se comunicar com apenas um abraço apertado, envolto em calor. Sorri, mas logo o mesmo desapareceu.

Katherine! Me afastei rapidamente de seu corpo e olhei profundamente em seus olhos.

— Kate armou tudo, não é? – Perguntei um pouco cética.

Os olhos de Christian estavam confusos, indo e vindo, mas não desgrudando-se dos meus olhos.

— Armou? Ela saiu com Elliot quando estava chegando...

Antes que eu pudesse responder a porta se abriu com força e escutei as risadas agudas de Kate. Seus fios louros claros entraram primeiro e seu sorriso se diminuiu a uma linha reta de seus lábios.

Elliot exibiu a mesma expressão em seu rosto bem desenhado.

— O que é isso? – Ele perguntou incerto.

— Um abraço entre amigos. – Christian respondeu em escárnio. Havia mais ali do que eu podia saber. Havia algo mais. Algo que os três sabiam, mas e eu? Não, eu não sabia.

Minha melhor amiga era um traíra! Ela sabia, estava evidente na oscilação de seu olhar, indo e vindo, insegura, incerta.

— Kate? Você armou, não foi? – Indaguei. Meus braços ainda apoiados nos ombros de Christian.

— É claro que não. Enviei uma sms. – Sua voz resplandecia um choque contido.

— Tudo bem. Mas posso ver que está mentindo para mim, de qualquer forma.

— Não estou mentindo sobre isso. – Esbravejou, mexendo os braços desconfortavelmente. Lá estava a resposta, ela estava mentindo mesmo.

Christian deu seu riso baixo, olhando com encanto para meu rosto.

— O que vocês foram fazer no centro de Manhattan, Kate? – Desviei a conversa.

Elliot e Kate estavam nervosos, mas Christian, ainda sob meu corpo, parecia confortável com a situação. Como se aquilo tudo fosse o correto. Como se seu apê devesse ser sempre cheio de tal forma. Com pessoas de que ele gostasse.

— Comprar a roupa para o almoço na casa de Christian. – Respondeu desconfiada.

— E não me convidou? – Dobrei o pescoço para o lado, com olhos pidões.

Me levantei relutante do colo de Christian, sentindo um frio repentino nas minhas pernas.

— Encomendei umas peças para você. Do jeito que acredito que vá gostar.

Sorri.

— Obrigada. – Me levantei nas pontas dos pés e depositei um beijo em seu rosto.

Aquele sentimento de complexidade não se remetia apenas para Christian, pois eu também podia sentir que aquele era o lugar certo para estarmos juntos. Felizes e inertes pelo ar leve que se tornou ao nosso redor. Estava tudo tão bem, em tão pouco tempo.

Voltei com mais felicidade do que meu corpo aguentava para o apê de Cary. Encontrei o mesmo largado no sofá, e murchei um pouco, lembrando-me que teria de dispensá-lo.

Ele se sentou abruptamente no sofá e me encarou com olhos alarmados.

— Docinho. – Disse seco.

— Oi, Cary. – Sorri.

Me aproximei aos poucos e me sentei ao seu lado. Sabia que seria complicado, pelo fato de sempre irmos juntos, sempre como amigos. Desde nosso primeiro pequeno almoço, quando tínhamos dez anos.

Ele pareceu notar a lembrança em meus olhos e sorriu.

— Acho que... deixa eu falar de uma vez! – Acrescentou. – Convidei outra garota para ir comigo ao almoço, amanhã.

Não me senti triste e nem feliz pelo fato de ser dispensada. Me senti repleta, por vê-lo nervoso em me fazer este tipo de confissão.

— Ah, não! Cary Cross convidou uma garota para um almoço? – Brinquei empurrando seu ombro com a mão.

Ele sorriu, aliviando a tensão de seus ombros.

— Vou ir com Christian, ele me convidou.

Ele parou abruptamente com o sorriso.

— Seus lábios estão vermelhos. – Ele reparou.

— Não viaja. – Rolei os olhos.

— Hum. – Murmurou e levantei os olhos para o seu sorriso travesso.

— Não está rolando nada. – Respondi.

E aquelas palavras me levaram ao desespero do passado que se refletia no futuro. No presente, em todos os cantos de minha vida. Meus olhos arderam um pouco, carregando um pouco de dor por aquilo que eu não podia fazer por qualquer homem. Eu não podia amar, não tinha esse poder e nem queria.

Cary me abraçou pelos ombros e encostei minha cabeça em seu peito.

Ele deixou que minhas lágrimas repentinas rolassem, sem pedir explicação e sem reclamar. Ele só ficou lá, mexendo nos meus cabelos e sussurrando juras de que tudo daria certo.

Notas finais
O que vocês acham que ainda tem para ser revelado por ambas as partes? E no que acham que tudo isso vai dar? Gostaram do capítulo? Ou tava muito "Eca"? Beijinhos e até depois de amanhã ♥
PS.: Alguém viu o trailer? Curtiram os personagens? Beijunds ♥