Apenas Meu.
8 As Alterações.
Notas iniciais
Para escrever este capítulo usei muito as músicas: Jar of Hearts - Christian Perri (CAntora de A THousand Years)
Stay - Rihanna feat. Mikky
Boa leitura!!!!
Acordei com uma forte ressaca, como uma bola de golfe batendo em todos os cantos do meu cérebro. Eu nem ao menos lembrava o que acontecera depois que a namorada de Christian retornara, nem como eu fora parar dormindo no sofá... mas não era para eu dormir na cama de Christian? Ou será que alguém me esquecera? Aquela era mesmo a sala de Christian? Mas que droga! Claro que era.
— Querida? – Kate me chamou com uma xícara de café fumegante em mãos.
Estava puro, ressoando sobre a dor de cabeça e afastando, ao menos momentaneamente, a dor.
— Porque eu dormi no sofá? – Indaguei olhando os lençóis ao meu redor.
— É que Corinne dormiu com Christian esta noite. – Kate falou com cuidado, olhando minha reação.
— Corina o que? – Enruguei as sobrancelhas.
— Corinne Tramell para você. – Uma voz melancólica respondeu rispidamente.
Nos viramos e me deparei com Corrine com uma das camisas de Christian. Ótimo! O dia seria mesmo maravilhoso!
— Obrigada pela informação, querida. – Pisquei os olhos.
Kate segurou uma risada com os lábios, fazendo um som de ronco.
— Pare de rir, vaca. – Corinne sussurrou seguindo até a cozinha e abrindo todas as portas dos armários.
— Ela é sempre assim? – Perguntei baixo e aproximando meu rosto do de Kate.
— Na verdade, não. Só quando Christian não está por perto.
Enruguei a testa em dúvida.
Christian rompeu pela sala olhando para todos os lados, uma cueca boxer pendendo baixa em sua cintura. Seus cabelos desgrenhados e os lábios vermelhos, o que indicava que algo – talvez silencioso – ocorreu naquele quarto. Eu nunca mais chegaria perto daquela cama.
— Ah, Corinne. – Suspirou aliviado como se a mesma tivesse saído.
— Estou aqui, amor. – Respondeu erguendo as sobrancelhas.
— Você já conheceu as meninas? – Ele perguntou educado.
A xícara com um pouco de café queimava entre meus dedos.
— Já a conheço, Christian. – Kate respondeu olhando fixamente para suas unhas bem-pintadas, como se nada de muito interessante ocorresse ao nosso redor.
— Estava falando de Ava, Kate.
— Sim, já me apresentei, mas não sabia do nome da mesma. Ava, o que? – Corinne indagou com as sobrancelhas arqueadas.
— Ava Steele. – Respondi com a garganta presa.
— Filha de Rachel Steele? – Arqueou uma sobrancelha.
Responderia que não, mas Kate foi mais rápida.
– É sim, para que tantas perguntas?
Uma desconfiança eriçou os pelos de minha nuca.
— É que vi uma matéria sua do primeiro evento Gala que você foi ao Palace Maddox.
— Ah sim. – Respondi aliviada.
Tinha de colocar na minha cabeça, que minha mãe tinha fama e, que não foi porque saíram algumas matérias sobre meu caso do passado, que todos se lembrariam da mesma.
— Não acredito que ela também está na Jimks! – Kate reclamou sussurrando em meu ouvido e olhando de soslaio para a conversa animada de Christian e Corinne no banco do refeitório da Jimks.
Eles não demonstravam estar em um relacionamento, mas as pessoas me olhavam com pena, como se a mesma tivesse estragado algo entre Christian e eu.
— Eu sei! Já não basta ela lá em casa. – Despenquei meus ombros.
Cary se sentou ao meu lado olhando para o mais novo casal com indignação.
— Ele é muito fácil. – Sussurrou e rimos com os lábios prensados.
Cary seguiu ao meu lado até a aula que tínhamos juntos.
— Você gostou dela? – Ele perguntou.
— De quem? – Fiz-me de mal-entendida.
— De Corinne, é claro. – Murmurou determinado a saber minha opinião.
Nos sentamos em nossa mesa de costume e arregacei as mangas da blusa de algodão cinza até os cotovelos.
Meneei com a cabeça. – Digamos que ela poderia ser muito melhor.
Demos risadas e o assunto fora encerrado pelo teste dado pelo professor Keyes. Os exercícios não eram tão complicados e Cary me explicava tudo a respeito do mesmo. Nossa preparação para a Universidade estava indo de bem a melhor, e aquela era a última aula da semana, pois nos informaram que algumas salas entrariam em reforma, nos dando o resto da semana livre. O que era ótimo.
— A gente tem que fazer algo hoje! – Cary cantarolou.
— Porque Cary? – Perguntei deitada no tapete felpudo da sala do apê de Christian.
— Comemorar a folga das aulas.
Eu e Kate rimos, pois Cary sempre adorou comemorar tudo e qualquer coisa. Ele era um craque naquilo.
— Isso nem é motivo de comemoração. – Elliot interveio entrando pela porta da sala e nos encontrando esparramados no chão.
— O que não é motivo de comemoração? – A voz melancólica de Corinne indagou.
Ela deveria estar fazendo beicinho, pensei.
— Termos sido liberados das aulas. – Kate respondeu com Elliot sobre seu corpo depositando beijos em suas faces.
— Eu acho que é motivo de comemoração. – Corinne deu de ombros apoiando seu braço no ombro de Christian.
— Concordo. – Ele acenou com a cabeça.
Seus olhos se demoraram, momentaneamente, em meu corpo esparramado em seu tapete e sorri em sua direção. Com um pouco de tristeza, notei que aquela fora a primeira demonstração de afeto, desde que Corinne chegara.
— Não estou afim de sair hoje. – Informei.
— Muito menos eu. – Kate disse acariciando as costas de Elliot com os dedos, que concordou com a namorada.
— A maioria vence! – Corinne disse.
— Deixa de ser burra. São três contra três. – Kate rebateu e eu ri.
— É mesmo. – Corinne respondeu com um sorrisinho falso.
— Vamos gente! – Agitou Cary colocando lenha na fogueira.
— Eu não vou. – Virei de lado fechando os olhos e deixando-me embalar pela escuridão dona do sono.
— Vamos, Kate. Você adora sair. – Elliot pediu.
— Não quero e não vou! – Teimou.
Ri sozinha.
— Vamos. Vamos. Vamos. Vamos. – Elliot pedia selando as palavras com um beijo em algum ponto da pele de Kate.
— Tudo bem. – Kate soltou uma risada. – Eu vou.
— Agora só falta uma. – Cary disse brincando ao longe. Não abri os olhos e segurei um sorriso.
Eu só queria que uma pessoa me obrigasse como sempre fazia: Christian. Mas ele nem se prontificou, nem falou nada em minha direção, ou me carregou nos ombros, obrigando-me a me arrumar e ir.
Suspirei, segurando um choro repentino.
– Vão vocês, estou com dor de cabeça.
Ninguém pareceu se importar com o informado, ouvi os passos se dispersando pela casa e senti o ar ao meu redor vazio, fiquei deitada durante alguns instantes e só abri os olhos quando ouvi passos apressados chegando pela sala, me sentei sobre os calcanhares, Christian procurava algo pela mesinha de centro.
— Oi. – Cumprimentei sorrindo.
— Olá. – Respondeu sem me olhar.
— Como estão as coisas? – Consegui indagar me levantando e caminhando em sua direção.
Christian pareceu encontrar algo e deu as costas sem me fitar nos olhos.
– Está tudo ótimo, Ava. Ótimo.
E virou o corredor a direita, batendo com força a porta de seu quarto.
Me sentei no sofá tirando os slippers e soltando-os por algum canto do tapete. Comecei a vasculhar a televisão em busca de algo bom e encontrei um filme de comédia romântica, deitei-me novamente.
Eu já havia me sentido de tal forma antes, mas não conseguia identificar o momento exato em minhas lembranças.
Risadas inundaram a sala e me levantei, encontrando todos bem-arrumados e prontos para algo ao que eu não participaria.
Estou me esquivando? Me esquivando de diversão por capricho? Apenas para chamar a atenção? Nem eu conseguia identificar aquilo.
— Tchau, docinho. – Cary depositou um beijo em minha testa.
Kate me deu um beijo no rosto e os outros três saíram pela porta sem me olhar nos olhos.
Até Elliot?
Acordei com risos baixos percorrendo o ambiente. Aquela era a risada de Kate, eu sempre reconheceria. Passos firmes soaram e duas portas se bateram, eles haviam chegado.
Tirei o pote com pipoca do sofá e desliguei a TV.
Achei que o sono viria novamente, mas a consciência me abateu. Sozinha, sozinha, sozinha!
Eu não conseguiria dormir, tinha certeza daquilo. As memórias viriam, enxurrando minha mente e lavando as felicidades que eu havia conquistado.
Dor era o que eu sentia sempre que pensava no assunto. Vergonha fazia a raiva em meu corpo crescer e algo dentro de mim ressoava em nojo. Eu queria acabar com o sofrimento das pessoas que me rodeavam. Queria deixa-las livres para serem felizes. Queria tirar a tamanha preocupação dos ombros daquelas pessoas.
E foi com esse pensamento que vi o dia nascer lá fora. Que vi a vida ressurgir, na verdade continuar, pois a vida não tinha um botão de pause.
Meus olhos estavam ardendo quando a porta de algum quarto se abriu.
Christian e Corinne surgiram de mãos dadas, dando selinhos estalantes.
Agora era a prova, ambos estavam juntos.
— Já está acordada, Ava? – Ele indagou com a voz rouca pelo sono.
Porque ele está me chamando assim? Éramos amigos, droga! Porque não visitante, ou princesa? Porque não uma intimidade em poucas palavras? Eu queria as últimas semanas de volta. Queria Christian Maddox de volta para mim.
— Pois é. – Concordei apenas.
Eles passaram por mim e seguiram pela porta de saída e lembrei-me instantaneamente das coisas que havia deixado no quarto de Christian, então por respeito ao seu relacionamento e muito mais por orgulho próprio, segui até seu quarto, em busca das minhas coisas.
Abri a porta do quarto de Christian e havia roupas espalhadas pelo chão, os lençóis desarrumados. Um frio interno me atingiu, a falta de afeto percorrendo-me com ardor. As costas pesaram junto aos olhos, pela falta de sono.
Comecei a percorrer o ambiente com os olhos, em busca das poucas coisas que havia deixado por lá. Minha visão foi interrompida pelo antigo mural de Christian. Ou o que deveria estar ali.
Eu não via mais as fotos de quando o mesmo era criança. Ou com uma menina de cabelos castanhos claros e curtos. Ou em uma piscina inflável. Ou aquela que tirei dele com Kate, Elliot e Cary durante uma manhã. E muito menos a nossa foto do evento de Gala, me aproximei com os olhos embaçados, olhando várias fotografias espalhadas.
Corinne estava em todas elas.
Sozinha, com amigos e a maioria estava com Christian. Christian em eventos importantes enlaçando a cintura de Corinne. Ele havia tirado a nossa foto. A foto de seus amigos e familiares e de sua história. Olhei para o chão tentando afastar as imagens e procurar minhas coisas, mas meus olhos pararam abruptamente em sua lixeira negra... nossa foto estava amassada e solitária lá dentro.
A porta se abriu com força e os dedos brutos de Christian me tiraram de minha visão dolorosa.
— Que merda está fazendo aqui? – Ele gritou próximo ao meu rosto, chacoalhando meus ombros.
Nathan fazia aquilo. Ele fazia a mesma coisa quando eu entrava em um lugar que não queria que eu estivesse. Nathan? Minha mente indagava, divagando dentre lembranças e o momento atual.
— Responde, porra! – Christian cuspiu as palavras em meu rosto.
Era um pesadelo? Nathan, o antigo melhor amigo de Cary, estava retratado nas reações de ódio de Christian. O ar me faltou quando minhas costas atingiram com força a parede fria atrás de mim, gemi.
— Ava, responda agora. – Ordenou com voz passível.
Meu lábio inferior tremeu.
– Vim buscar minhas coisas, Chris.
Ele fechou os olhos e seus dedos pressionaram com mais força a carne do braço próximo ao cotovelo. Aquilo fora um resquício de raiva? Pelo o que? Pelo apelido?
— Já pegou? – Reabriu os olhos com o maxilar trincado.
Balancei a cabeça em discórdia.
Ele me soltou repentinamente, procurando algo ao nosso redor e pegou uma pequena bolsa vermelha, com minhas poucas coisas dentro. Jogou-a contra meu peito e me segurou pelo cotovelo abrindo a porta.
— Pronto, encontrou o que queria. – Disse antes de bater a porta diante do meu rosto.
Nathan agia da mesma forma. Raiva em todos os quesitos, como se eu nunca tivesse feito nada certo. Como se eu fosse sua propriedade e como se eu tivesse que obedece-lo a todo instante.
Virei o corredor e trombei com Corinne empoleirada por ali, como se estivesse escutando tudo escondida. E não duvidava nada daquilo.
— Você não o conhece mesmo. Ele não gosta que mexa nas coisas dele quando o mesmo não está por perto. – Disse indignada esbarrando seu ombro no meu para ir até o quarto, sem me dar tempo de resposta.
Fazia duas noites que não dormia por puro medo e meus olhos já estavam oscilando, mas eu não queria aquilo, por isso passava a maior parte do dia bebericando café e era o que eu estava fazendo calmamente antes de Kate irromper pelo quarto com um roupão de seda.
— Adivinha! – Cantarolou com três envelopes dourados entre os dedos. – Os convites de outro red carpet chegaram!
Ah minha nossa! Mais com o que se preocupar. Kate pareceu notar – pela primeira vez na semana – o sofrimento evidente em meus olhos.
— O que houve, baby? – Indagou jogando os convites na cama e sentando diante de mim enquanto segurava meus ombros.
Acenei em negativo, informando-lhe que nada de mais havia ocorrido.
— Ava Steele, nada de segredinhos! – Apontou o dedo diante do meu rosto.
— Não estou conseguindo dormir. – Sussurrei passando os olhos pelo cômodo, exasperada.
— É pela quantidade de café. – Deu de ombros.
— Eu tomo café para não dormir, Kate. – Informei com os olhos fechados.
A xícara foi tirada com força da minha mão e colocada na mesa de cabeceira.
— O que aconteceu? – Perguntou em tom mais sério.
Uma lágrima escapou do meu olho direito.
— Christian agiu como Nathan. – Minha voz oscilou. – Ele fez igualzinho. Me agarrou pelo ombro e me jogou contra a parede, gritando comigo. – Subi meus olhos até os seus que estavam cheios de lágrimas. – Não chore, por favor. – Pedi iniciando um pranto baixo. – Não faça isso com você, baby.
— Não estou acreditando. Sei que ele não é gente boa, mas fazer isto? – Ela mexia as mãos de um lado para o outro.
Funguei o nariz tentando afastar a minha tristeza e a dela.
– Cadê os convites?
Ela passou um dedo embaixo dos olhos, limpando suas lágrimas delicadas.
— Aqui está o seu. – Ela informou passando-me um dourado cintilante com os dizeres: Srtª Tramell.
O convite nos honrava e dizia o local com horário com uma escala das premiações e em observação estavam as vestes obrigatórias.
Kate sorriu e abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida por um gemido alto. Mas era de manhã! Olhei exasperada para a parede que dava com a de Christian. Kate segurou um riso.
— Ai que horror. Ele deve ser grande. – Deu de ombros.
— Que horror, Kate! Sua pervertida. – Rimos juntas, trazendo um mínimo de humor, ao menos por aqueles minutos.
Olhava para meu celular, decidindo se ligava ou não para o consultório do Dr. Flynn.
Sem que eu notasse o número já chamava.
— Consultório do Dr. Flynn, boa tarde. – Uma garota atendeu com mensagem automática.
— Boa tarde. Aqui quem fala é Ava Steele...
— Olá, Srtª Steele. Em que posso ser útil? – Me interrompeu, provavelmente reconhecendo meu sobrenome.
— Gostaria de marcar uma consulta, quando é o próximo horário livre? – Indaguei.
Por experiência própria, sabia que a agenda de Flynn, sempre estava lotada.
— Uma senhora desmarcou um horário para daqui a duas horas.
— Perfeitamente. Estarei aí.
— Nos encontramos em breve, então. Tenha uma boa tarde. – Cumprimentou.
Eu já me sentia mais leve apenas com a consulta marcada.
Tomei uma ducha fria e ao sair escovei os cabelos, prendendo-os em um coque frouxo. Coloquei jeans de cintura alta, uma camiseta vermelha com um par de all star.
Peguei minha bolsa e a chave da minha moto, que não usava há um bom tempo.
Saí pela porta do quarto e Kate estava para bater.
— Aonde vai, baby? – Indagou ajeitando a barra do short colorido.
Contava ou não? Era melhor sim, eu teria um apoio ao menos e se minha mãe ligasse exasperada para mim e eu não atendesse, por não querer ouvir seus lamentos, Kate poderia lhe informar.
— Vou ao consultório do Dr. Flynn. – Sorri.
Seus olhos encheram-se de uma compaixão.
Ela se aproximou e me deu um beijo na testa.
— Você está mesmo precisando, baby. Boa sorte. – Desejou-me
— Katherine Kavanagh! Você é incrível. – Disse dando-lhe um abraço.
Segui ansiosa para a consulta até retirar o capacete da caixinha eletrônica. Os de Christian não estavam lá e a resposta veio quando ele rasgou pelo estacionamento com Corinne agarrada a ele. Quando o mesmo estacionou a moto, ela bateu em seu ombro, indignada pela velocidade.
Logo hoje, que poderia estar como um homem para que ninguém me reconhecesse eu havia colocado o jeans mais justo do closet. Coloquei o capacete sobre o coque e tranquei a caixinha de metal, bom que seu modo de abrir era com senha e não chave.
Subi na moto e a esquentei durante alguns instantes tentando passar despercebida, mas os olhos de Corinne e Christian viraram-se para mim quando dei ré na BMW S1000RR. Os olhos de Christian arregalaram-se em reconhecimento, mas não fiquei para ver o resto de sua reação. Cortei caminho dentre os carros e respirei ar puro ao passar pela cancela e rasgar pelo calor de Manhattan. Percorri as ruas com pessoas caminhando alegres para lá e para cá. Crianças derrubando sorvete na roupa e deixando seus responsáveis exasperados. Carros esportivos e motos como a minha. Barraquinhas de fast foods em frente a prédios luxuosos e envidraçados. Passei diante do prédio de Indústrias do meu pai e depois por um de Finanças de Maddox. Maddox, o simples sobrenome lembrou-me o real motivo de eu estar indo até o consultório de Flynn, Christian era o motivo, era por ele que eu estava indo a uma consulta, depois de muitos anos.
Estacionei a moto no local apropriado, diante do prédio de três andares e envidraçado com os dizeres: Consultório Flynn.
Desci da moto e, guardei em um local no hall, que o segurança simpático disse para mim que existia, meu capacete. A porta dupla envidraçada da recepção do consultório se abriu para mim e a recepcionista saiu de trás do balcão branco com um coque louro e alto. Andou em minha direção com o braço estendido. Apertamos as mãos.
— Você deve ser Ava. – Adivinhou.
— Exato. – Respondi acenando em positivo, enquanto a via dar a volta e informar o mesmo para o Dr. Flynn que acenou para mim de dentro da sala.
— A senhorita pode entrar. – Ela informou.
Agradeci e Dr. Flynn me aguardava com a porta entreaberta.
— Quanto tempo, Ava. – Cumprimentou-me com um beijo no rosto. – Sente-se, por favor.
Nos sentamos frente a frente e relaxei em seu estofado no tom de grafite. Era daquilo que eu precisava, daquele sofá que me libertava de todos os maus.
Ele não precisou pedir. Eu lhe contei sobre o pesadelo que não tinha há muito tempo. Contei que descobri que se dormia com alguém eu não tinha esses pesadelos com as memórias guturais de Nathan. Contei que a única voz que conseguiu me libertar das imagens foi a de Christian e que o mesmo, em um lampejo de raiva, pareceu Nathan com seus acessos de dominador. Disse que estava tomando café por medo de dormir e que não o fazia há exatos dois dias.
— Entendo. – Ele concluiu. – Primeiro vou lhe passar um calmante para aliviar os nervos e para afastar as memórias no momento de relaxar. Pare com o café. – Disse cético e concordei com a cabeça. – Ele pode piorar os ânimos e, incialmente aos poucos, faça como fez quando tudo ocorreu, Ava. Se enturme. Saia com seus amigos, converse com as pessoas que lhe rodeiam e não coloque em sua mente que as pessoas estão te deixando de lado, isso só vai fortificar o acesso de depressão e pode levar você a uma muito profunda, tudo bem? – Concordei novamente. – Agora, este Christian... Ele provavelmente tem algo como você, uma insegurança. Se ele continuar a agir de tal forma, afaste-se dele, mas se você notar algum tom de arrependimento, dê uma chance para ele. É disso que as pessoas precisam, todas elas: de uma chance.
— E quanto a dormir? – Indaguei tirando sua atenção de minha antiga papelada.
— Tente não dormir sozinha. Seu amigo Cary pode ajudar você com isso. – Ele mexeu em um gaveteiro próximo e tirou um frasco com poucos comprimidos. – Não tome em exagero, tudo bem?
Concordei e me ergui nos pés, fora tudo muito rápido, imaginei que eu iria chorar exasperada como fazia antes, ou que ficaria receosa e tímida em contar, mas não encontrei nenhum dos sentimentos. Tomei o frasco de suas mãos.
— Posso dar uma dica? Pessoal agora? – Ele indagou caminhando comigo até a porta. Acenei para que continuasse. – Tente mudar sua aparência, quando estiver pronta é claro, mas sinto em você que o momento já chegou. Talvez isso te ajude, coisas de garota, sair para fazer compras. Surpreender todos a sua volta fará com que você se surpreenda.
— Obrigada. – Agradeci abatida por suas palavras pessoais.
Ainda com seus dizeres segui em minha moto até o prédio de Christian. Pensando e repensando em suas palavras. Lembrando-me do dia em que decidi andar por aí, da forma como ando, por medo de alguém fazer comigo o que Nathan fizera em um passado distante para todos, exceto para mim.
Acho que Kate ficaria animada com as minhas ideias para passar o restinho de tarde. Subi o elevador com uma animação instantânea, conversar com Dr. Flynn sempre me fizera bem. Irrompi pela entrada e encontrei dois casais aos beijos no sofá.
Pigarreei chamando a atenção apenas de Kate, que se levantou animada e cobriu meu ombro com seu braço.
— Tenho planos para a tarde. – Disse. – Mas como você odeia moto, precisamos de um carro.
— É pra já! – Ela se virou. – Elliot? Empresta seu carro para mim e Ava?
— Vão de moto. – Christian optou sem nos olhar.
— Kate não anda de moto. – Lhe informei.
— Chame Cary. – Optou novamente sorrindo para algo que Corinne tinha dito.
— Chamaria Cary se eu quisesse sair com ele, Christian, e estamos pedindo o carro de Elliot e não seu Audi R8. – Cruzei os braços, indignada com seu novo modo de me tratar. No início fiquei muito triste com tudo aquilo, mas naquele momento fiquei com raiva por suas palavras e atitudes imaturas.
— Meu carro foi para o concerto. – Elliot disse preocupado.
— Pegue meu Audi R8. – Christian imitou minha voz o que fez Corinne dar uma risadinha.
— Obrigada pela gentileza, Sr. Maddox, mas eu tenho dinheiro para pagar um táxi. – Ironizei com uma piscadela puxando Kate pelo punho e passando pela porta.
— O que você está armando? – Indagou Kate quando passamos pelo portão aberto pelo porteiro que tocou em seu quepe nos cumprimentando.
— Dr. Flynn me falou umas coisas. – Comecei enquanto me esticava nas pontas dos pés procurando pela típica cor amarela. – E realmente já está na hora de sair do armário, Kate.
— Não estou acreditando nisso! Você poderia repetir? Para eu filmar! – Brincou tocando seu ombro no meu.
— Como você é engraçadinha. – Mostrei a ponta da língua, enquanto um táxi vazio parava ao nosso lado e Kate informava um endereço de uma rua com várias lojas de roupas em vários estilos.
Ela estava sorrindo; e sorri com sua animação.
— Seguinte, Kate. – Comecei. – Quero mudar, mas não muito e também a aquisição do dia vai ser a encomenda do vestido do evento. E é surpresa! Vou comprar tudo e deixar guardado, quando eu me sentir pronta, vou me arrumar como antigamente. – Instrui.
— Tudo bem, baby. Estou com você em tudo, sempre. – Sorriu dando uma piscadela.
— Ah, você tem que levar essa! – Kate estava com duas sacolas repletas por roupas já compradas e uma plástica com mais algumas para eu experimentar.
Até que aquela saia não era mal. Aprovei e ela colocou junto com as outras peças.
— Depois temos de comprar sapatos! – Ela informou.
— Curto meus sapatos. – Lamentei.
— Baby, aprenda uma coisa, sapatos nunca são demais.
Olhei para a quantidade de coisas e arqueei as sobrancelhas.
– Precisamos de ajuda.
— Aposto que não vai chamar Christian. – Ela me olhou cética. – Dê uma chance para ele, Ava. Tenha paciência com ele. O mesmo age muito por impulso. – Ela pediu.
Acenei em positivo prometendo que faria e concordando com suas palavras.
— Vamos chamar Cary? – Indaguei.
— Ele não vai acreditar! – Kate riu.
— Você pode repetir onde está, por favor? – Cary exasperou-se pelo telefone.
— Já disse, em uma loja de sapatos com Kate. Estamos com muitas sacolas, você poderia ajudar? – Indaguei.
— Kate, pare de palhaçada. – Cary pediu.
— Cary, sou eu, seu docinho. – Ri.
— Ainda não estou acreditando, tenho de ir aí para ver com meus olhos. – Desligou.
— Ele vai vir? – Kate indagou guardando meu cartão na bolsa. Confirmei com a cabeça.
— Ótimo. São muitas peças, muitas caixas. – Ela se virou em direção ao vendedor. – Tem como colocar em várias sacolas?
Ele concordou e pegou uma das maiores sacolas, colocando dentre três e duas caixas em cada.
Kate me deu algumas e pegou outras. Seguimos dentre as estantes de sapatos e chegamos a uma das ruas movimentadas de Manhattan.
Depois de alguns minutos, Cary estacionou seu porsche atrapalhando o comentário de Kate sobre o vestido encomendado aos meus gostos e no meu tamanho.
— Meu Deus. – Cary murmurou quando jogamos todas as sacolas no banco traseiro.
— Oi, docinho. – Cumprimentei com um beijo em seu rosto.
Fechamos as portas e Cary arrancou com o carro.
— Kate, porque não filmou isso? – Cary indagou olhando Kate apertada dentre as sacolas pelo espelho retrovisor central.
— Garoto! Você acha, mesmo, que deu tempo? – Ela murmurou dando um tapa leve em sua cabeça.
— Acredito que não. Ava é muito determinada, quando ela quer, ela consegue.
Rimos com a afirmação.
O porsche entrou pelo estacionamento quando Kate liberou a entrada com seu cartão de passagem. Cary estacionou em sua antiga vaga que dividia com Kate e nos ajudou com as sacolas. É claro que ele carregou mais do que eu e Kate juntas.
Entramos dando risadas pela porta da sala e Elliot se ergueu assustado. – Vocês demoraram.
Ele falou um pouco alto demais, como se quisesse avisar algo. Olhei em volta procurando.
E encontrei: Christian sendo inteiramente compensado por um prazer indecifrável da boca de Corinne.
— Que nojo. Vocês tem um quarto. – Murmurei passando por eles em direção ao corredor.
— Ele tem tesão pelo balcão. – Corinne surgiu diante de mim, em uma distância razoável, limpando o canto dos lábios. Eca.
— Espero que vocês não tenham transado lá. – Kate deu uma piscadela e me acompanhou até o quarto com Cary logo atrás. Trancamos a porta quando Elliot começou a bater na mesma constantemente.
— Vocês brigaram? – Cary indagou retirando os óculos escuros.
— Ele sabe que não gosto de Corinne. – Ela respondeu tirando as peças das sacolas.
A porta em reverberação constante pelas batidas de Elliot.
— Nós temos muito que conversar! – Cary afirmou.
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