Apenas Meu.
52 Apaixonada.
Notas iniciais
'Cause I'm ready to love, I've been guarded long enough.
Porque eu estou pronto para amar, eu tenho guardado o tempo suficiente. (Guarded – Kevin Daniel).
Eu não sabia se ficava entre “os dois lados” – era o apelido que eu havia dado – todos os dias. Não sabia com que frequência conseguia escutar as pessoas ao meu redor. Às vezes, me deparava no completo silêncio. Sentia alguém ao meu redor, porém, sem o som de sua voz, não podia distinguir quem era.
Estava lá quando as crianças me visitaram. Quando Brad beijou minha mão e quando Jullie penteou meus cabelos. Jurando-me, com sua doce voz, que me deixaria ainda mais linda para o papai.
Senti algo diferente naquele momento. Como se eu estivesse na beirada de uma travessia sem ponte. Como se eu precisasse me jogar. Mas o medo era tão grande, que permaneci e não consegui corresponder às falas das crianças.
Elliot e Kate foram me visitar. Alguns davam oi, outros apenas permaneciam lá, conversando uns com os outros. Os pais de Christian foram junto a Mia e meu melhor amigo, Cary. Ele parecia tão desesperado. Seus dedos estavam trêmulos quando tocaram os meus.
Christian era a frequência máxima. Entre algumas conversas, consegui saber que estava no melhor hospital de Manhattan, tudo as contas dele. Ouvi isso em uma conversa de meu pai com o mesmo. Ambos reviveram os acontecimentos, que, ditos em voz alta, me espantaram. Christian parecia vitorioso por conseguir a adoção de Brad, depois de demonstrar toda a papelada em defesa e de que não o colocaria em risco novamente. Sem contar que nem fora intencional.
Não sabia o que iria me tirar de lá. Todos estavam lá. Todos me visitaram. Pronunciaram palavras sensibilizadas. E Christian estava lá naquele momento, digitando em algo. Podia ouvir o som ritmado e rápido de seus dedos contra o teclado. Provavelmente de um notebook. Também, bem ao longe, conseguia ouvir o mexer de papéis, podia ouvir ele se ajeitando em uma poltrona ao meu lado.
E eu queria abrir os olhos. Não queria imaginar sua imagem... eu queria vê-lo. Queria tocá-lo. Queria corresponder ao seu toque e mostrar que eu me importava. Que eu realmente me importava. Que não queria ficar lá. Presa.
Um silêncio nos cobriu. Ele não digitava mais e nem estava mexendo nos papéis. Foi então que senti seus olhos queimando minha pele. E que ouvi o choro baixinho. Que o escutei suspirando, contendo os soluços. E, naquele momento, eu realmente queria abrir os olhos.
E como num passe de mágica, eu os abri. Sem força. Sem esforços. Estava fitando o teto branco. Movi a cabeça lentamente, sentindo uma dor invadir minha nuca com o movimento.
Ele realmente estava lá. As mangas da camisa branca estavam erguidas até os cotovelos. As calças elegantes estavam amassadas. Os antebraços estavam apoiados nas coxas e a cabeça apoiada nos punhos cerrados. Ele não me viu.
– Já é noite? – Indaguei com a voz rouca.
Christian se ergueu em um susto, derrubou a caneca de café no chão e correu até onde eu estava. Ia me abraçar, mas interrompeu seus movimentos. Os olhos examinavam meu rosto. As lágrimas gotejavam sua face.
– Pode me tocar. – Pedi com um sorriso fraco.
Só com aquele movimento senti o ressecamento em meus lábios. Eles sendo rasgados e repuxados.
– Preciso de água. – Pedi, com a voz ainda rouca.
Christian acenou em positivo, sem reação. Sem palavras. Caminhou até estar ao meu lado. Pressionou os botões de um controle, um som tecnológico soltou-se de algum lugar da minha maca e lentamente eu fiquei sentada. Arrumou os travesseiros para meu conforto. Depois ouvi o som dele despejando a água no copo. Segurou o copo com uma das mãos, enquanto com a outra erguia meu queixo e ia me dando água na boca. Devolveu o copo ao lugar e com os dedos limpou a água que escorreu das laterais dos meus lábios.
– Não estou acreditando... – Ele disse. – Eu tentei tanto. De tudo. Com todos.
– Acho que seu desespero me despertou. – Dei de ombros. Sentindo-me fraca.
– Você precisa comer. – Refletiu.
Correu até a porta do quarto individual. Abriu-a e chamou por uma enfermeira.
A enfermeira entrou e realizou os procedimentos. Fazendo-me perguntas. Provavelmente para testar a memória. Movendo as juntas dos braços e pernas. Olhando no fundo da minha garganta e nos meus olhos. Depois ela sorriu.
– Você foi bastante forte. – Ela era a dona da suave voz que eu sempre escutava.
Acenei em positivo, sem força para sorrir.
– Mas precisa dormir um pouco. Os remédios que apliquei agora foram para que você descansasse. – Ela passou a mãos pelos meus cabelos.
E sem pensar em mais nada. Cai em um profundo sono.
*
Acordei assustada. O quarto estava escuro quando enfim abri meus olhos. Senti-me sozinha e olhei ao redor. Sorri, vendo que Christian havia dormindo no sofá ao pé da minha cama. Seu corpo esparramado, a boca entreaberta e as pernas longas escapando por um dos lados do sofá bege.
– Psiu. – Chamei. Conhecia meu noivo e sabia, por experiência própria, que o mesmo tinha o sono leve.
Porém, ele nem se mexeu. Parecia uma pedra de tão fixo em seu lugar. Procurei algo ao meu redor, então notei que não estava ligada a nenhum tubo. Os fios que me transmitiam as medicações tinham sido retirados. Eu provavelmente estava sob observação, pronta para receber alta.
Meu corpo estava magro, mas não tão fraco como quando acordei. Me sentei na cama, sentindo um suave incomodo no corpo por ficar tanto tempo deitada. Lentamente tirei o lençol que me cobria de cima de mim. Joguei as pernas para o lado e desci da maca. Cai no chão. Feito uma jaca podre. A maca estava meramente alta e minhas pernas estavam fracas.
Comecei a rir loucamente. Reconhecendo a situação em que eu me encontrava. No escuro. Caída no chão de um hospital, com aquelas camisolas que mostravam nossa bunda. A propósito, a minha estava contra o gélido chão. Que sensação horrorosa, meu Deus. Minhas risadas ecoavam pelo quarto e comecei a tossir desesperadamente, em busca de ar. Sentindo o efeito de algum remédio emergir pelo meu corpo.
Christian estava intacto e nenhuma enfermeira invadira meu quarto. Encontrei um urso de pelúcia caído ao chão. Estava a poucos centímetros da minha mão, me estiquei ainda caída e peguei-o entre meus dedos. Reuni a pouca força que me restara e joguei o urso contra Christian. Bela pontaria! Direto no rosto.
Christian se levantou com pressa e assustado. E comecei a rir também. Ele olhou para a maca, se levantou e se espantou quando me viu caída.
– Olá, Sr. Maddox. – Cumprimentei sonolenta. – Não quero deitar nessa maca horrorosa. – Reclamei, olhando-o de baixo.
Christian estava meio risonho, meio preocupado.
– O chão esta mais confortável? – Indagou ele, se aproximando com calma e se sentando ao meu lado.
Seu cheiro estava bom. Mas as bolsas sob seus olhos indicavam a falta de sono. Os cabelos estavam enormes, a barba por fazer escurecia seu maxilar.
– Você está horrível. – Comentei com a boca seca.
Ele acenou em positivo, sorrindo abertamente.
– Fala alguma coisa. – Pedi.
Os olhos estavam semicerrados. Ele se deitou ao meu lado no chão. Gentilmente, colocou a mão na minha nuca e ergueu minha cabeça, colocando-a em cima dos músculos do seu braço direito.
– Senti sua falta. – Ele sussurrou ao pé do meu ouvido, depois beijou meus cabelos.
– Eu não quero ficar aqui dentro. – Murmurei, me aconchegando nele e vendo que havia uma cama melhor que king size: Christian.
Sua mão esquerda procurou pela minha e ele entrelaçou nossos dedos. Seu calor se expandiu pela minha mão, conseguindo me esquentar completamente.
– Prometo que compensaremos amanhã. – Disse ele.
– Estou com fome. Tipo, quero comer, mas fora daqui. – Ergui meus olhos para encarar os seus. – Com você.
Ele estava me olhando profundamente. Suspirou com alívio, e me apertou contra seu corpo.
– Graças a Deus. – Murmurou.
Soube, no momento em que vi seus olhos, que ele não agradeceu por eu comer fora daquele lugar e com ele. Seu agradecimento se dera pelo fato de eu estar acordada. Sonolenta em seus braços. Conversando sobre coisas desconexas. Eu também estava feliz e agradeci tanto internamente que chegava a ser incontável.
Se algum dia tive dúvidas do meu amor por ele, elas cederam naquele instante. Não completamente, pois já haviam cedido em outros momentos. Em outras coisas maravilhosas que ele fizera por mim.
Repentinamente, Christian estourou nossa bolha. Ergueu-se rapidamente e, sem dizer uma palavra sequer, retirou-se do quarto, deixando-me estendida no chão, ainda sem forças.
Não demorou muito para que ele voltasse. Ouvi quando ele fechou a porta atrás de si, depois acendeu a luz. Meus olhos arderam e aos poucos se acostumaram com a iluminação. Tombei a cabeça para trás, Christian estava com uma pequena mala pendurada no ombro e uma cadeira de rodas.
Ele caminhou até mim. – Vem, princesa. Vamos cumprir essa promessa agora mesmo.
Sorri, satisfeita com ele. Satisfeita por estar com ele. O mesmo inclinou-se sobre mim. Ajudou-me a levantar quando enlaçou seu braço em minha cintura, colocou-me sentada na maca. Naquela posição ficávamos na mesma altura. Olhos ligados por um fio invisível.
– Você vai me deixar nua agora. – Murmurei olhando seu atento rosto. Eu estava um pouco lenta pelos remédios, podia perceber aquilo. Mas era tão divertido. – Posso deixar você nu?
Ele sorriu, os olhos brilhando. – Não aqui, futura Sra. Maddox. Só na nossa casa. Quando você estiver inteiramente recuperada para mim.
Um arrepio subiu por minha espinha. Seus dedos roçavam em minhas costas desnudas. Ele estava desfazendo os pequenos nós da camisola horrorosa. E enfim, eu estava nua diante dele. Mas não com todo aquele calor que uma relação sexual era capaz de trazer. Ainda assim, aquilo parecia ainda mais íntimo.
Ele estava colocando minhas roupas em meu corpo. Segurou-me pela cintura ao colocar minha calcinha, subindo-a por minhas pernas e ajeitando as tiras na cintura, prendeu meu sutiã delicadamente nas minhas costas, ajeitando suas alças e admirando seu trabalho com olhos atentos. Vestiu minha blusa vermelha, e soltou meus cabelos quando os mesmos ficaram presos entre a mesma e as costas. Depois colocou uma calça de moletom cinza e, por fim, calçou chinelos de dedo nos meus pés. Rapidamente, eu passei as mãos pelo rosto, retirando as lágrimas antes que ele pudesse ver. Fiquei abalada em vê-lo inclinado na minha direção, trocando minhas roupas. Realmente cuidando de mim.
Nós, mulheres, precisamos de palavras doces. Mas, acima de tudo, queremos ver a realização das promessas vociferadas. Desejamos vê-los fazendo o que juraram fazer. Christian jurou cuidar de mim. E ao ver ele o fazendo, me derreti. E, se é que era possível, me apaixonei mais uma vez.
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