Apenas Mais um Fantasma

1 O jovem no cemitério


Notas iniciais
Meu Deus, eu não acredito que finalmente postei uma fanfic aqui. Há muito, muito tempo eu venho cogitando a ideia de postar uma história, mas estava com muito medo.
Eu não diria que esta história tem um enredo muito interessante e envolvente, ou personagens incríveis, mas tentei meu melhor aqui. Não sou boa com aventuras, digamos que não vai ser uma aventura muito... aventureira.
(Minha senpai leu e disse que ficou bom, então talvez vocês achem bom também -q)
Perdoem-me pelos emoticons, mas eles equivaleriam a um desenho da Julieta, então achei meio necessário. Prometo não fazer isso com frequência.
Espero que gostem.
E, só para constar, eu não manjo dos paranauê de espíritos, então me perdoem se eu escrevi asneira.

O vento de hoje é forte, violentamente entortando os galhos fracos das pequenas árvores e arbustos. Pessoas andam com pressa, as nuvens estão acinzentadas: tempestade. Todos correm para seus lares secos e seguros, onde o frio e a chuva não os atormentarão. Seria bom poder me refugiar em algum lugar neste momento, isto é, caso fosse necessário. Mas, em minha situação, não é.

Lembro-me que posso pensar que tenho para onde ir. Há um lugar que identifico como minha casa, apesar de não gostar muito de lá. Vou andando. A chuva fará o local parecer ainda mais aterrorizante, como nos filmes de terror cujos cartazes já vi nas paredes de cinemas, não haverá “ninguém” lá. Nenhum batimento cardíaco, nenhuma respiração. Apenas as vozes dos meus companheiros. Apesar de velhos, são bem animados, sempre contando histórias de quando ainda eram vivos. Gostaria de contar minhas próprias histórias, mas quase não me lembro do meu passado.

O portão do cemitério está aberto, como se alguém fosse passar por lá. Entro e sou cumprimentada por alguns senhores nos túmulos próximos à entrada. Retribuo a simpatia e vou em direção a minha lápide. Antes de chegar ao meu destino, vejo um jovem, corajoso por enfrentar o clima aterrorizante, em frente a um túmulo. O espírito do falecido já não habita este lugar, mas ouvirá a mensagem do garoto, seja lá onde ela estiver.

É apenas impressão minha ou a aura do garoto está brilhando? Não parece chamar a atenção de mais ninguém daqui. O que isso significa?

Já segui algumas pessoas apenas por curiosidade antes. Estou morta, não é como se alguém estivesse realmente seguindo essas pessoas. É o que me resta fazer, para tentar me lembrar da vida que tive: observar aqueles que ainda não foram escolhidos pela morte. Talvez não tenha problema nenhum em seguir este jovem.

Com um sussurro, ele se despede do ente querido que estava visitando e sai em disparada, para não ser atingido pela chuva que chegaria. Vou atrás dele. Seus cabelos pretos e ondulados são levados até seus olhos pelo vento, bloqueando parte de sua visão, mas ele não se incomoda com isso. Vejo que em suas costas ele carrega um violão, ou talvez outro instrumento de cordas semelhante, protegido por uma capa especial para a função. Sinto algo vindo à minha memória. Ignoro e entro com o jovem em um ônibus.

Ele se senta e suspira. O trajeto é silencioso e curto, logo descemos do transporte e vamos em direção a uma casa pequena, com paredes brancas e um jardinzinho pobre. O garoto nem se importou em abrir o portão para entrar, apenas pula o muro. Quando entramos na aconchegante sala de estar, graças a uma garota que deve ser sua irmã, descubro seu apelido e o que estava fazendo antes de entrar em meu cemitério:

- E aí, Math! Como foi a aula de guitarra?

A garota não teve uma resposta. Math entra em seu quarto, joga a guitarra em um sofá e se atira em sua cama. Parece cansado, irritado e talvez um pouco triste, tomo a conclusão que a visita ao túmulo lhe trouxe o desejo de que aquela pessoa retornasse e a frustração de que aquilo nunca se realizaria.

Venho notando que os humanos sofrem, até os mais sorridentes e alegres choram de vez em quando. Tem gente que sofre tanto que prefere se tornar um de nós, desistindo da própria vida. Viver parece ser um grande sacrifício. Tanta raiva, maldade e tristeza... Será que eu sofria assim quando estava viva? De todo jeito, isso não importa mais.

Algum tempo se passou e neste momento Math está distraído com seu computador. A ação é interrompida pela voz de uma mulher chamando-o para jantar. Ele sai do quarto, com uma cara mal-humorada. Seu cabelo ainda está bagunçado, como se fosse manhã e ele tivesse acabado de acordar. Na cozinha seus pais e sua irmã estão sentados, com seus pratos já servidos. Minhas suspeitas acabam aqui. Seus pais ainda estão vivos, não era nenhum deles que Math estava visitando. A família toda tem cabelos pretos, apesar das mechas azuis no cabelo da irmã, e, como Math, os pais também têm semblantes sérios.

O jantar corre normalmente, sem muita conversa. A família aparenta ser bem quieta, com exceção da garota – que acabei descobrindo que se chama Viviane. A comida parecia boa: macarrão com carne moída. Gostaria de lembrar-me do gosto de macarrão, devia ser bom.

Sem dizer nada, Math sai da sala de jantar e volta ao seu quarto quando termina de comer. Pega uma toalha e vai para o banheiro. Enquanto espero seu banho terminar, tenho uma idéia. Nunca tentei me comunicar com os vivos, mas desta vez realmente quero tentar. Talvez exista uma forma de me manifestar. Uma forma que não assuste tanto o garoto... Bom, assustá-lo será inevitável, mas vamos ignorar essa parte.

Em menos de dois minutos o chuveiro é desligado. Por questão de educação e para respeitar a privacidade dele, espero alguns segundos para Math se vestir e entro no banheiro. O jovem está de pijama, escovando os dentes sem olhar para o espelho, que agora se encontra embaçado. É minha chance.

Acho que ainda me lembro de como escrever. Posiciono meu dedo no espelho, desenho um círculo e um palito. “Oi”. A palavra fica marcada. Ele se vira e, pela primeira vez, vejo uma expressão consideravelmente exagerada invadir seu rosto. Olha para os lados, perplexo, procurando o culpado por aquela vandalização do espelho. Entre sua respiração irregular consigo ouvir um “’Quem está aí?”. O espelho é grande o suficiente para conter algumas explicações.

“Não se assuste, não vim para lhe fazer mal : ) Sou apenas um jovem espírito. Espero que não se importe se eu te seguir por um tempo ^^”. Ele via as palavras sendo escritas. Provavelmente pensa que isso é um sonho ou que está delirando. Isto está sendo muito divertido!

- Então... Você é um espírito e resolveu me seguir. Ok então... Qual é o seu nome? – Ele pergunta com sarcasmo. Desaprovo a falta de gentileza, mas mesmo assim informo-lhe meu nome. Não seria legal ser chamada só de “espírito” ou talvez coisa pior.

“Julieta.”

Ele ficou em silêncio por um tempo, processando a quantidade de informações sem sentido que estava recebendo.

- O meu é Matheus – Disse, mal sabia ele que já o segui o suficiente para saber disso – Bom, eu não permitiria, mas já que você foi educada, tudo bem, pode continuar me seguindo. Eu andava meio sozinho mesmo – Ele ri e me permito soltar uma risada também, o que não fazia há muito tempo.

Math parece se surpreender com alguma coisa quando rio. Seus olhos se arregalaram como quando comecei a escrever no espelho. Foi a minha risada? Ele pode me ouvir? Acabo dizendo isso em voz alta. O moreno se vira para mim, provavelmente não me vê, mas seus olhos encaram os meus.

- Posso.

Notas finais
Não me arrependo de nada.