Notas iniciais
Foi um desafio escrever esse capítulo por muitos motivos e um deles é eu ter simplesmente perdido a maior parte do texto algumas vezes haha espero que curtam ♡

Estou sentada na cama, ainda tentando entender o que acabou de acontecer. Tenho uma xícara de chá morno em mãos. Claire volta do banheiro e me entrega uma caixinha de lenços para que eu enxugue minhas lágrimas, então se senta ao meu lado e suspira.

— Vocês deram um tempo então?

— Eu nem sei. — Respondo, fraca.

— Vocês vão ficar juntas de novo, você a ama.

— Sim, mas isso não é garantia de nada.

Claire dá de ombros timidamente.

— São só minhas apostas. Enfim, você pode ficar à vontade, você sabe.

Ela então prepara um colchão no chão, apaga a luz e se deita, deixando-me dormir na cama dela. Fico um bom tempo me revirando de um lado para o outro, sem conseguir pregar os olhos, com o coração apertado no peito. Levanto-me, abro minha mochila, pego uma de minhas blusas, abraço-a e finalmente consigo dormir, embalada pelo cheiro doce que permanecera no tecido.

Estou há provavelmente uns quarenta minutos olhando para o teto branco da casa de Claire. Já faz uma semana que estou ficando na casa dela e ainda não consegui resolver nada da minha vida, muito menos com Vick. Sinto meu corpo dormente, sem nenhuma motivação para se mover. Minha barriga ronca com fome, mas a ideia de me levantar parece extremamente cansativa, quase como se meus músculos não fossem dar conta. A porta se abre e Claire entra, com um prato de torradas em mãos, dando a impressão de que a garota leu meus pensamentos.

— Você precisa se levantar em algum momento.

— Eu não quero ter que ir pro mundo e... Tomar decisões. — Respondo segurando o prato e pegando uma das torradas.

— Em que tipo de decisão você está pensando em tomar?

— Será que eu tento falar com Vick?

— Você acha que vocês estão prontas para conversar?

— Eu nunca estou pronta pra merda nenhuma... Mas acho que preciso. Além disso, minhas coisas ainda estão lá.

— Se ela não tiver queimado ainda.

— Ela não faria isso! — Respondo, recebendo uma sobrancelha levantada de Claire. — Ok, talvez.

— Se quiser falar com ela, eu te dou todo apoio. Só me avise o que acontecer, ok?



Vick está sentada no banco da praça próxima ao seu prédio, soltando a fumaça densa do cigarro no ar frio de inverno. Me aproximo cautelosa, as duas mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro, tentando inutilmente me manter aquecida. A garota chega para o lado no banco sem dizer nada, mantendo os olhos perdidos no horizonte. Fico um tempo em silêncio até que ela finalmente se pronuncia.

— Bem, diga. Foi você que pediu para conversar.

— Eu senti sua falta.

Meu corpo treme com o frio, talvez mais do que o normal. Ela dá uma tragada lenta e fica mais um tempo em silêncio, abaixa a cabeça e exala o ar, deixando os ombros caírem.

— Eu também senti sua falta.

— Por que estamos afastadas?

— Eu precisava pensar. Você também.

— No que você pensou?

— No início eu pensei… — Ela começa a explicar, mas se interrompe no meio. — Muita coisa, não importa. Eu pensei que nós não podemos continuar fazendo isso uma com a outra.

— Fazendo o quê? — Pergunto, encolhendo meu corpo.

— Nos torturando.

— A gente se ama.

— A gente é fodida. Você não vê? Eu sou hostil o tempo todo e você não consegue deixar de complicar tudo. É como se a gente quisesse se afastar uma da outra, mas não conseguisse.

— Achei que todo mundo fosse fodido… — comento, mas ela não responde. Meu coração acelera, sinto minhas mãos geladas. — Você quer se afastar de mim?

— Não... Não desse jeito, não de propósito.

Permaneço em silêncio, encarando o chão e tentando conter meu tremor. Observo então a mão de Vick apoiada no joelho, o cigarro pendurado entre os dedos queimando sozinho.

— O que você quer que eu faça? — Pergunto.

— Eu não acho que você possa fazer nada.

— Mas me diz o que você queria que eu fizesse! — Imploro, sentindo meus olhos queimando e minha garganta fechando à medida que tento segurar o choro.

— Eu gostaria que você tornasse as coisas mais simples, que você enfrentasse seus medos, assumisse o nosso relacionamento, que a gente tivesse paz de uma vez por todas!

Não consigo responder. Minha garganta queima e meu estômago se revira inteiro, meu coração bate forte e minhas mãos suadas se tornam duas pedras de gelo enquanto meu corpo continua treinamento. Fecho os olhos e tento ao máximo conter uma ameaça de vômito.

— Foi o que eu pensei. — Vick diz, após um longo silêncio.

— Eu sinto muito. — Digo baixinho, quase inaudível.

— O que? Eu não ouvi… Christie? — ela chama, então segura meu ombro. — Você está bem?

Não respondo, apenas mantenho meus olhos fechados. A garota então abraça meu corpo e me levanta.

— Venha, você precisa sair desse frio.

Ela me guia até seu prédio e, quando entramos no elevador, minhas primeiras lágrimas escapam. Só percebo que chegamos no apartamento de Vick quando ela me senta em seu sofá. Rapidamente, ela me cobre com cobertor e vai até a cozinha. Mantenho meus olhos fechados, mas posso ouvir o som de água corrente, o fogão sendo ligado, gavetas sendo abertas e fechadas e louças sendo mexidas. Em poucos minutos Vick me entrega uma xícara quente.

— Respira o vapor do chá antes de beber, vai ajudar.

Obedeço e fico sentindo o aroma do chá até minha respiração se normalizar e meu coração voltar ao ritmo normal, mesmo que ainda apertado. Devagar, bebo a bebida quente, sentindo meu estômago protestar inicialmente, mas então se estabilizar. Quando acabo, Vick toma a xícara de minhas mãos, escuto seus passos irem até a cozinha e retornarem. Quando ela volta, senta-se novamente ao meu lado e segura suavemente minha mão.

— Melhor?

Finalmente abro os olhos e encaro nossas mãos unidas. Cautelosamente, levanto o olhar e encontro os olhos de Vick me encarando preocupados. Dividimos um momento em silêncio, olhando uma para a outra, guardando cada detalhe como quem olha para os últimos minutos de um lindo pôr do sol, sabendo que logo anoitecerá.

Nossos lábios se tocam muito suavemente. Sinto a mão de Vick em minha cintura e levo a minha até sua nuca. O toque se mantém tenso, mesmo que ambas possam sentir a pele queimar uma pela outra. A garota rompe o beijo, sem se afastar, e me olha com uma mistura de desejo e apreensão. Coloco uma mexa do cabelo escuro atrás de sua orelha e acaricio seu rosto. Nossas respirações ofegantes se misturam, nossos corpos estão próximos e nossos olhares estão fixos uma na outra. Vick começa a falar algo, mas coloco meus dedos em seus lábios, pedindo que não fale.

— Eu não quero pensar agora. — sussurro. — Só me responda uma coisa, você quer isso? Aqui, agora.

— Sim — ela responde com um riso rouco. — Mas você...

— É tudo que eu preciso.

Vick morde seu lábio e parece parar para considerar a proposta. Meus dedos sobem por seu couro cabeludo e descem devagar pela nuca. Ela solta um suspiro e me puxa para um beijo, dessa vez intenso e voraz. A garota abraça minha cintura e me deita no sofá, por cima do cobertor que acabara de cair dos meus ombros, e se coloca por cima de mim. Seus beijos sedentos migram para o meu pescoço, então descem pelo meu busto, parando no decote da regata, deixando um pedido implícito para me despir.

Com um suspiro pesado, faço sinal positivo com a cabeça e, impacientemente, retira minha jaqueta e minha regata. Em pouco tempo o frio do inverno não é mais suficiente para mantermos nossos corpos cobertos. Nosso suor se mistura, assim como nossas respirações pesadas. Ainda que só por um momento, mesmo que apenas em uma ilusão mútua, nós pertencemos uma à outra.

Notas finais
E então? O que acharam?