Notas iniciais
é com carinho, juro

Estou deitada no sofá, nos braços de Vick. Suas mãos acariciam minhas costas preguiçosamente, minha cabeça descansa em seu peito, escuto sua respiração calma. O silêncio repousa sob o ambiente e ninguém ousa perturbá-lo. Abro a boca para dizer algo, mas Vick me impede.

— Shh... Ainda não. — Ela sussurra. — Não estou pronta.

Quando a encaro, vejo que a garota mantém os olhos fechados. Suspiro e deito novamente, fechando os olhos e escondendo meu rosto em seu pescoço. Seus dedos passeiam pelo meu cabelo por um tempo, então ela me abraça, segurando meu corpo suavemente contra o dela.

— Isso não muda nada não é? — Digo, ainda com os olhos fechados, sem me mover.

— Eu disse que não estou pronta.

— Está sim. — Dessa vez me levanto, tentando conter minhas lágrimas. — Você acha que deveríamos...

— Terminar, sim. Eu não posso esperar você resolver as suas crises, Christie.

Fecho meus olhos com força, tentando não chorar. De repente me torno extremamente consciente da minha nudez, passo a me sentir exposta e desconfortável. Junto minhas roupas no chão e me visto rapidamente. Vick faz o mesmo, em silêncio. Quando me levanto, ela faz o mesmo e segura minha mão. Meu corpo inteiro congela.

— Espero que você possa me perdoar um dia.

— Eu não te culpo... — Respondo, a voz fraca. — É só... Eu te amo.

— Por favor, não me diz isso.

— Mas é verdade. Eu te amo, apesar de todas as crises, eu te amo.

— Eu também te amo, Christie... — Ela me puxa pela mão e segura meu rosto delicadamente. — Não sei se algum dia vou deixar de amar... Mas eu não posso lidar com tudo isso.

Falho em tentar segurar o choro. As lágrimas correm livremente por meu rosto. Afasto-me de Vick e saio do apartamento sem olhar para trás, carregando um coração partido no peito.



Batidas na porta ecoam em minha cabeça dolorida. Abro levemente os olhos para o quarto ainda meio escuro. Parte da luz do sol entra pelas persianas de metal, sinalizando que já é dia, mas a maior parte da luz é bloqueada. A luz fraca ilumina os móveis empoeirados e as prateleiras preenchidas com peças genéricas de decoração. Viro-me de lado e, com um resmungo, ignoro as batidas na porta. Escuto o som da maçaneta e sons suaves de salto alto no assoalho em seguida.

— Filha? Você não vai almoçar?

— Não quero.

— Come alguma coisinha.

— Não quero.

O sono me impede de formular frases mais elaboradas. Escuto minha mãe suspirar, impaciente.

— Por que você está fazendo isso com a mãe?

— Eu já falei que eu não quero, depois eu como.

— O almoço vai ficar na geladeira. Qualquer coisa você esquenta.

Escuto os passos de salto alto se afastarem. Rolo na cama e volto a abraçar meu travesseiro, encolhendo-me. Minha barriga ronca, mas a ideia de sair do quarto é exaustiva. Pensar em comer algo já é suficiente para me deixar enjoada. Meus músculos voltam a se afundar na cama e retorno a um estado parcialmente adormecido.

Levanto algum tempo depois precisando ir ao banheiro. Não sei que horas são. Arrasto-me até o banheiro e, após utilizá-lo, encaro minha própria imagem no espelho. Olheiras escuras circulam meus olhos inchados. Minha pele está completamente pálida e cheia de feridas provocadas em momentos ansiosos. Meus cabelos estão embaraçados e completamente oleosos. Estou usando a mesma camisa velha de pijama há dois dias.

Com uma careta, lavo minhas mãos e fujo do espelho, evitando minha imagem. Hoje faz três semanas do meu término com Vick, duas semanas que fui demitida e uma semana e meia que tranquei meu curso. Uma semana que voltei a morar com minha mãe.

Volto para o quarto e sento-me na cama. Depois que fui embora minha mãe transformou meu quarto em um quarto de hóspedes. É estranho ver um lugar que já foi repleto das minhas marcas agora se tornar um espaço neutro. Minha única marca agora é a cama bagunçada e a mala ao lado da escrivaninha. É estranho voltar para o lugar de onde você tanto fugiu.

Notas finais
Eai, gente, como estão? Me contem, como tá o coração?