Apartamento 804
11 O que você faz com esse amor
Notas iniciais
Acordo com a cabeça estourando de dor, a luz machucando profundamente meus olhos. Pouco a pouco, percebo que estou deitada no sofá, coberta por uma manta, com um travesseiro debaixo de minha cabeça. Sento-me e olho em volta. O apartamento está completamente silencioso, consigo ouvir apenas alguns pássaros no lado de fora. Arrasto-me até a cozinha, encontro um remédio para dor de cabeça e o engulo com um copo d’água. Sento na bancada da cozinha e tento recuperar algumas memórias da noite anterior. Não consegui dizer à minha mãe a verdade, que estava em um relacionamento com uma mulher. Que eu tinha uma namorada. Eu havia quebrado minha promessa com Vick e sabia disso, não quis voltar pra casa imediatamente após o café. Parei no bar para beber alguma coisa e pensar no que faria. Fiquei, fui bebendo, bebendo, bebendo… E não pensei em coisa nenhuma. Não consigo me recordar de minha conversa com Vick quando cheguei em casa, mas lembro-me de seu olhar decepcionado e a julgar pela minha noite no sofá… O tom da conversa manteve-se assim.
Passo as mãos pelo rosto e respiro fundo.
— Chegou no fundo do poço, hein garota? — Digo baixinho a mim mesma.
— Você nem faz ideia. — Diz James, saindo do banheiro.
— Que susto, garoto! O que você está fazendo aqui?
— Vick saiu e não queria te deixar sozinha, aí chamou a babá aqui.
Dou uma risada seca e o contorno para ir até o banheiro.
— Isso é um péssimo sinal. — Falo e me debruço sob a pia para lavar meu rosto borrado pela maquiagem.
— Você acha?
— A última vez que vi Vick pedir pra você cuidar de uma namorada dela, a menina virou ex rapidinho.
— Vocês estão namorando?!
Retorno do banheiro, prendo meu cabelo em um rabo de cavalo e sento-me ao lado de James, que está sentado no sofá com as pernas cruzadas.
— Não comemora tão rápido, ela tá puta comigo.
— Ah, querida, eu sei.
— Sabe? O que ela disse?
— Melhor perguntar pra ela. — James responde, ao ouvir o barulho de chave na porta. Rapidamente, ele levanta-se e pega seu casaco.
Vick entra no apartamento com algumas sacolas em mãos e o semblante completamente fechado. James passa por ela dando-lhe um beijo no rosto e vai embora. Ela não olha pra mim e nem fala uma palavra, apenas deixa as sacolas na bancada da cozinha, remexe em uma delas e vai até o quarto. Após ponderar a decisão por alguns minutos, sentindo um peso gigante no peito, levanto-me e vou atrás dela.
Encontro a garota sentada na cama, próxima à janela, acendendo um cigarro.
— Eu não sabia que você fumava.
— Você não sabe muita coisa sobre mim.
— O que mais eu não sei sobre você?
— Se eu quiser que você saiba você vai saber.
A frase se constrói como se faz um muro entre nós. Sinto os primeiros tijolos sendo colocados. Encosto as costas na porta do armário e sutilmente abraço meu próprio corpo.
— Talvez a gente devesse conversar. Sabe, sobre ontem.
— Eu não sei se eu quero conversar. — Os olhos dela se mantém direcionados para fora da janela.
— Bem — Falo baixinho após alguns minutos. — em algum momento a gente vai ser obrigada a conversar.
— Eu ainda tô tentando engolir o quão falsa você sabe ser.
— Como assim? — Descruzo os braços, confusa.
— Em momento você faz todo um teatro para agradar a sua mãe, no momento seguinte você me diz que vai assumir que sou sua namorada e no mesmo dia você me aparece podre de bêbada fazendo um drama meia boca pra me dizer que não conseguiu. — Vick joga tudo em um fôlego só. Mantenho-me calada, tendo no ar um tom de quem não terminou o que iria dizer. Ela dá um trago no cigarro e solta a fumaça pela janela. — Ontem você disse que me amava pela primeira vez.
As palavras saem de sua boca junto com a fumaça, ambas permanecendo igualmente suspensas no ar. A voz de Vick deixa escapar a emoção que ela tenta esconder.
— É verdade. — Digo, baixinho. — Eu te amo.
— E o que você faz com isso, Christine? — Ela fala, apagando o cigarro no parapeito da janela e passando por mim para sair do quarto.
— Eu não consegui contar para a minha mãe, mas por que isso importa tanto? — Pergunto, seguindo-a.
— Você prometeu, Christie! Isso que importa, você me prometeu algo que não poderia cumprir! — Ela grita, indo para a cozinha. — Eu tô cansada dos seus dramas, de hora é isso, hora é aquilo!
Fico em silêncio encarando-a. Meus músculos se retraem e minha respiração fica fraca, o coração apertado no peito.
— O que isso significa?
— Eu não sei. Me diz você. Por que eu deveria aturar tudo isso? — Ela para, as duas mãos apoiadas na cadeira, o olhar firme no meu. — Me dá um motivo pra eu lidar com todo esse drama? Pra eu te trazer pra minha casa, pra eu receber sua mãe aqui, pra eu te ver tendo milhões de crises com a sua sexualidade, pra uma hora você me querer e no segundo seguinte sair correndo, pra eu lidar com teus rolos com um cara qualquer, pra te ouvir coisas lindas e acreditar nelas sem garantia nenhuma de que sejam verdade. Me diz, por que eu deveria te perdoar? Por que eu deveria querer você por perto?
As lágrimas escorrem pelo meu rosto, meu corpo se retrai.
— Eu não sei. — Sussurro. — Por que você aturou tudo isso até agora?
— Porque eu te amo, Christie. Porque eu sou estúpida o suficiente pra te amar. — Ela exala o ar e deixa os ombros caírem, numa postura derrotada.
— Eu sinto muito...
— Eu também.
Ela se senta na cadeira e eu dou um passo pra trás, encarando o chão. Enxugo minhas lágrimas, tentando conter os soluços, quase tentando me tornar o menos perceptível possível no ambiente. Lentamente, entendo a situação e sinto meus pés perderem o chão. Sento-me no braço do sofá.
— Eu acho que eu deveria ir, né?
— Eu acho também.
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