Notas iniciais
Eu vi os comentários, muito obrigada ♥ Não respondi por que meu tempo com internet é mínimo, então ficou difícil, mas obrigada mesmo :3 Boa leitura!

A convivência com Theo é fácil. Talvez isso seja porque apenas nos vemos de manhã e à noite. Durante a manhã ele vai trabalhar na loja do pai e eu vou para a faculdade. À tarde eu trabalho num café no centro da cidade até as 19h. Só então vou para o apartamento de Theo, quem geralmente já está em casa. Costumamos comer alguma coisa e conversamos enquanto isso. Descobri que ele fez administração e provavelmente vai continuar com os negócios da família quando o pai se aposentar. A mãe, já aposentada, vende bordados. Mais por prazer do que pelo dinheiro, ele explica. Os irmãos mais novos gêmeos, Sophie e Fred, passaram um bom tempo no apartamento dele antes de saírem para o intercâmbio. Sophie, por ser mais apegada, ficou quase um mês antes de ir.

Preocupo-me mais em escutar do que em falar, apesar de gostar muito de compartilhar histórias. Estou criando uma boa relação com Theo, não quero despejar carga emocional em cima dele. Depois do lanche/jantar, tomo um banho e vou ao meu quartinho. Tenho mantido contato com Vick através de mensagens frequentemente. Ela tem um ótimo gosto musical, e uma facilidade enorme em me manter entretida com seu humor levemente ácido.

Quinta à noite, depois do banho, jogo-me na cama e digito animadamente.

Dia 5, o prédio não caiu ainda.

A resposta de Vick não demora.

Tem certeza de que não balançou?

Dou uma risadinha e digito.

Ok, talvez tenha balançado um pouquiiinho durante a noite.

Escuto duas batidinhas na porta e então ela se abre. O rosto sorridente de Theo aparece pela fresta.

—Tudo bem nas acomodações? — Ele pergunta.

—Claro, acho bacana como consigo alcançar todas as paredes do quarto sem sair da minha cama.

—Em minha defesa, isso era um depósito.

—Sem problemas, amo a ideia de não sair da minha cama. — Sorrio e ele se senta ao meu lado. -Escuta. Vamos supor que você tem uma amiga com um namorado muito ciumento, mas você quer sair com ela sem atrapalhar os dois. O que você faz?

—Você tem um amigo com namorada ciumenta?

—Uma amiga com namorada ciumenta.

—Ah! Tudo bem… Tenta fazer amizade com a moça? Convida as duas?

—Acho bem difícil, mas tudo bem… Vou tentar.

—Boa sorte… E, falando em sair, quer fazer algo sábado? Uns amigos meus vão para uma casa de praia, não sei se você ia querer ficar sozinha aqui…

—Seria bacana, sei lá. Não curto praia, mas ficar na casa de praia pode ser interessante.

—Se não tiver nada para fazer, está convidada.

Algum tempo depois que Theo sai, puxo o celular. Vick respondeu apenas algumas risadas, então marco a mensagem como lida e ligo para ela. O celular toca quatro vezes antes de Vick atender.

—Oi Christie, tudo bem? Aconteceu algo? — Ela pergunta em tom preocupado.

—Não, tudo bem. Só queria saber se vai fazer algo na sexta… A gente não se vê desde domingo, talvez… Eu, você, Jenn e James? — Ela suspira e fica um tempo quieta.

—Não sei se a Jennifer vai querer, mas posso ver com ela e James. Onde?

Passo o endereço e ela promete me mandar a resposta logo. Largo o celular e vou até a sala contar a Theo que fiz o que ele recomendou. O garoto está dormindo em frente à TV com uma tigela de cereal no colo. Delicadamente, retiro-a de seu colo e levo até a pia, então vou até seu quarto procurar um cobertor. Abro o armário e estendo os braços para apanhar o vermelho, que está no topo da pilha.

—O azul é maior. -Grita um Theo sonolento, largado no sofá. Olho pela porta e dou uma risada ao ver que ele está procurando os cereais. -Traz esse.

Puxo o cobertor azul e estendo por cima do corpo quase adormecido de Theo. Quando estou prestes a ir embora, sou supreendida por um abraço, me sugando para uma confusão de tecido azul claro. Debato-me até conseguir levar meu rosto até o oxigênio. Theo ri e joga o cobertor por cima de nós dois, então volta a dormir em poucos minutos. Fico parada com a cabeça em seu ombro, assistindo o filme clichê de ação, até ter certeza de que caiu em sono profundo. Só então levanto e vou dormir.

Assim que saio do trabalho, pego um táxi direto para o apartamento. Tomo um banho rápido e acabo demorando algum tempo para escolher o que vestir. Opto por meia-calça preta, sem me importar com os fios puxados, um short jeans, uma regata preta, blusa de flanela xadrez e uma jaqueta de couro por cima. Vou até a cozinha e preparo um saduíche, sabendo que preciso manter o estômago forrado. Minhas mãos começam a suar, eu nem imagino porque. As seco no papel-toalha e verifico o horário. 20h15min. Merda. Vou até o espelho e tento arrumar meus cabelos, mas nada me satisfaz. O telefone toca e eu atendo, apressada.

—Já estou aqui em baixo. — Diz Vick.

—Ok, estou descendo já. -Desligo o celular e corro pelas escadas enquanto amarro meu cabelo em um coque. -Estou muito atrasada?

—Não, eu que gosto de chegar cedo sempre.

—Cadê o James e a Jenn? — Pergunto ao notar a ausência deles.

—Jennifer está mal humorada e decidiu que não vai vir. James ficou com ela no apartamento para garantir que não pire… Talvez os dois venham de táxi mais tarde.

—Tomara que venham… — Digo, preocupada, enquanto entro no carro. Vick dá partida e respira fundo.

—Não sei… Jennifer está emburrada demais, já estou cansando… Mas não quero falar disso. Como está com o cara? Ele é legal? Te trata bem?

Concordo com a cabeça e explico nossa rotina. Ela escuta e faz alguns poucos comentários, sem tirar a atenção da estrada. O cabelo está solto, caindo sobre os ombros nus, expostos pela blusa solta que escorrega pelo braço. Desvio o olhar para as ruas enquanto conversamos. Quando ela estaciona o carro, solto o ar que não percebi que estava segurando.

O ambiente é propositalmente mal iluminado, como a maioria dos bares. Há um homem cantando com um violão, algumas mesinhas e um balcão. Escolho o balcão por me parecer menos formal. Vick pede um copo de whiskey e peço uma caipirinha. Pergunto com o que ela faz da vida, então explica que faz enfermagem e já está trabalhando. Noite sim, noite não. Quando me pergunta meu curso, digo que faço psicologia. Vick ergue as sobrancelhas e bebe um gole de sua bebida. Seu telefone toca.

—Alo? — Ela apoia o copo no balcão. — Sim, estamos no bar. Vão vir? Por que não? — A pessoa no outro lado da linha fala. — Christie convidou nós três, qual o problema? — A pessoa fala novamente. — Jennifer, para de cu doce. Eu não vou voltar agora, se quiser me ver vem aqui. — Dessa vez ouço a voz frustrada de Jenn. — Passa para o James.

—Manda um beijo meu para ele. -Digo baixinho. Vick concorda e espera na linha.

—James, você pode ficar em casa com a Jennifer? — Ela diz e aguarda enquanto ele responde. Me arrumo na cadeira, desconfortável com a situação. — Ah, ótimo, melhor assim. Obrigada, depois te pago um porre. Ah, Christie mandou um beijo. -Ela desliga. — James vai com a doida para a casa dela…

—O que aconteceu? — Pergunto, largando o copo vazio no balcão.

—Paranóia. De novo. — Ela responde e joga todo o resto do whiskey goela a baixo. — Nem sei por que namoro essa garota.

—Não acha que está ficando… Um pouco abusivo? — Falo, erguendo a mão para pedir outra caipirinha. Vick ergue uma das sobrancelhas.

—Você não tinha dito que não queria nenhuma influência no meu relacionamento?

—Deixei isso para lá depois que me mudei, mas tudo bem, eu posso calar a boca. -Ergo os braços, como se me rendesse.

—Tudo bem, está uma bosta mesmo… Mas tenho medo de largar a Jennifer e ela sair correndo se entupir de remédios.

—E você acha que se arrastar nisso é melhor? — Pergunto. Ela batuca com os dedos no celular, pensa e fecha os olhos, como que com vergonha do que fosse dizer.

—Entre um a dez, o quão filha da puta eu seria se terminasse por mensagem de texto?

—Doze. Pelo menos liga para ela.

—Ligação é quanto?

—Nove, mas é melhor do que mensagem de texto.

—Já volto.

Vick sai por alguns minutos, mas me parece uma eternidade. Fico assistindo o homem cantando. Não conheço a música, mas balanço um pouco ao seu ritmo. Pelo canto do olho vejo alguns garotos conversando e olhando para onde estou, mas ignoro. Continuo bebendo até Vick voltar. Ela respira fundo e coloca as mãos nos bolsos da calça, com um olhar cansado, embora esteja sorrindo.

—Acabou. Ela está com James, vai ficar bem. Preciso… Começar a superar. — Ela sorri de forma um pouco brincalhona e maliciosa.

—Se você prefere ir rápido assim… -Dou uma olhada em volta. — Quem você quer?

—Eu me viro sozinha. -Vick senta-se ao meu lado e pede uma dose, então a vira sem piscar.- E você?

—Não estou muito a fim de ninguém hoje. -Minto. Não tenho opções disponíveis.

—Sei…

Vick vai até a outra ponta do balcão e começa a falar com uma outra garota. Viro para o outro lado e peço um whiskey, dispensando um rapaz que se oferece para me pagar alguma coisa. Honestamente, não sei como eu vou pagar minha bebida, mas não quero aceitar nada de um desses caras. Puxo o celular e digito uma mensagem para Theo.

Que horas você vai para aquela casa de praia?

Ele responde que vai às 10h, então decido sair com ele e seus amigos. Suspiro, já cansada, e sinto alguém segurar minha cintura por trás. Viro, pronta para mandar a pessoa sair de perto de mim, então me deparo com Vick. Ela dá uma risada de minha expressão assustada e se afasta.

—Sou eu, relaxa! Só vim perguntar se queria ir no banheiro.

—Estou bem, mas posso te acompanhar. — Digo, indo em direção ao toalete. — E a sua amiga ali?

—Ah, beija bem, mas nada de mais. — Responde, abrindo a porta para que eu passe. Procuro uma região seca da pia e me sento, miinhas pernas balançando no ar. Vick entra em uma cabine e logo escuto o barulho de água caindo. Dou uma rissadinha. — O que foi?

—Você limpou meu vômito e agora estou te escutando se aliviar. Acho que já temos uma amizade bem sólida.

—Isso é nojento. — Ela ri. -Mas também acho.

Vick sai da cabine e lava as mãos. Tento dar impulso para descer da pia, mas fico instantaneamente tonta. O álcool bagunça meus sentidos e não sei mais a distância entre meus pés e o chão. Sinto-me como um gato que sobe na árvore e não sabe descer, desses clichês de desenho animado. Vick se aproxima e estende os braços. Demoro para perceber que ela quer me ajudar a chegar ao chão. Seguro seu antebraço, ela segura o meu, então dou um pulinho assustado. Vick ri e abraça minha cintura. Enterro meu rosto em seu pescoço e me sinto completamente embreagada, não só pela bebida, mas pelo cheiro doce e delicado que invade minhas narinas e bagunça meus neurônios, impedindo-me de pensar direito.

—Christie? Tudo bem? -Vick pergunta, parecendo preocupada. Abro a boca para responder que estou ótima, mas as mãos acariciando minhas costas me distraem.

—Obrigada…

Quero explicar que não estou agradecendo pela ajuda na pia. Estou agradecendo por ter me acolhido, por me oferecer um lugar para que eu ficasse quando mais precisava, mesmo que não tivesse a menor obrigação para isso. Estou agradecendo por ter entendido quando saí de seu apartamento e por ter concordado em sair comigo. Vick suspira, só então me dou conta do que estou fazendo. Meus lábios passeiam pela pele de seu pescoço e meus dedos já estão enrolados nos cabelos dela. Relutantemente, afasto meu rosto e escorrego minha mão de sua nuca.

Meu coração está acelerado, meu rosto queimando. Nos entreolhamos por um momento. Aqueles olhos negros estão me engolindo, me puxando mais para ela. Minha cabeça está gritando para que eu me afaste. Isso não vai dar certo, não vai mesmo. Eu sei… Mas não consigo absorver isso. Sua boca está entre aberta, próxima da minha. Próxma demais…

Nossos lábios se tocam, muito delicadamente. Estamos desarmando uma bomba. Estamos tentando salvar vidas, mas qualquer coisa errada pode nos explodir. O beijo é suave, mas minha pele queima em cada ponto que a toca. Minha mão volta aos cabelos negros de Vick. As dela deslizam pelas minhas costas, se enfiando por de baixo da blusa, passando as unhas delicadamente pela minha pele. Seus braços se enroscam em minha cintura, como uma cobra prestes a devorar sua presa, e me aprertam contra si..

Boom.

O fogo se espalha pelo meu corpo, fazendo o álcool contido nele entrar em combustão, queimando qualquer vestígio de racionalidade que restara em mim. O beijo se intensifica, torna-se invasivo e faminto. Vick me senta novamente na pia e eu abraço seu corpo com as pernas. Ela agarra minhas coxas e eu volto a enrolar os dedos em seus cabelos, puxando-a mais para mim. Suas unhas se prendem contra minha pele e um arrepio intenso sobe pela minha coluna, então desce pelo abdômem. Todo tipo de coisa passa por minha mente, coisas que eu mesma reprovaria se estivesse sóbria. Estou prestes a sugerir uma delas, quando a porta do banheiro se abre, cortando o beijo.

—Sabe de uma coisa… — Vick diz ao pé do meu ouvido, com a voz rouca. — Eu tenho um apartamento perto daqui.

Suspiro e dou risada antes de responder.

—É uma ótima ideia.

Pagamos nossa conta e vamos direto para o carro, praticamente correndo. Quando fechamos as portas, ela segura minha nuca e me dá um longo e intenso beijo entes de começar a dirigir. Não consigo me manter focada em nada além de sua mão acariciando minha coxa. Não penso no caminho até o prédio, nem na portaria, muito menos no elevador. Apenas me concentro na boca dela na minha. Vick tem dificuldade para abrir a porta do apartamento, mas assim que o faz, jogo-a no sofá. Ela tira minha jaqueta e minha blusa de flaneja sem pensar duas vezes. Agarro sua coxa e volto a beijá-la como se minha vida dependesse disso. Muito pelo contrário, meu oxigênio está acabando, mas não tenho tempo para respirar. Eu a quero agora.

Quando já levantei metade da blusa de Vick, escuto a porta do quarto abrir. Afasto-me rapidamente, voando para a outra ponta do sofá, só para me deparar com uma garota de olhos arregalados, vestindo apenas uma camisa de pijama.

—Jennifer, que porras você está fazendo no meu apartamento?! — Diz Vick, levantando-se e arrumando a blusa.

—Eu tinha a cópia da chave e vim. Queria conversar melhor, mas você estava demorando… — Jenn me encara com desprezo. — Agora sei porque.

Fecho os olhos, envergonhada. Fico cada vez pior, à medida que Jenn joga tudo na minha cara e Vick rebate. Merda, merda, merda, merda… Esforço-me para abafar o calor em meu ventre, tentando afastar os pensamentos. Entro em um conflito interno. Não sei se me odeio por ter ido até a merda do apartamento, ou se odeio Jenn por me impedir de me divertir junto com a dona do apartamento.

—Quer saber? Chega! — Grita Vick. — Vai embora, some daqui, Jennifer! Some da minha frente!

—Tá! Eu vou te deixar em paz pra fazer o que ia fazer! Foda-se! — Jennifer sai do apartamento batando a porta. Escuto-a chorar até ela entrar no elevador. Então o som é abafado pelas portas de aço. Enterro o rosto nas mãos e suspiro, cansada.

—Desculpe por isso… -A voz de Vick mal sai da boca. — Eu vou te levar para casa…

—Não. Vou chamar Theo. Melhor. -Pego minha jaqueta e levanto. Não quero testar outras reações que posso ter perto dela. Caminho até a saída, mas Vick segura meu braço. Não machuca, apernas forte o suficiente para me fazer parar. Encaro-a na defensiva, mas ela não está irritada. Está chateada, tão arrependida quanto eu.

—Por favor, eu gosto de você, não quero perder sua amizade porque ficamos bêbadas juntas no momento errado ou porque minha ex-namorada maluca nos interrompeu. — Ela solta meu braço. — Deixa eu te levar pra casa.

—Eu… Não… Não é isso…

—Então o que é?

—Tenho medo de ficar num carro com você. — Falo, então me arrependo ao ver seu olhar assustado. — Não! Não por você. Por mim. Não quero ser seu consolo-pós-término. Tenho medo de entrar agora no carro com você e não me controlar. Não acho que consigo…- Tenho dificuldade em manter-me focada em seus olhos. Meu olhar fica descendo para sua boca e toda vez que o faz, tenho dificuldade em formular a frase. — Não consigo nem aqui, agora…

O espaço entre nós me incomoda. Inclino-me um pouco para frente, mas então me forço a recuar. Vick não diz nada, apenas concorda e abaixa a cabeça. Saio do apartamento, fechando a porta suavemente atrás de mim, então ligo para Theo. Ele está morrendo de sono, mas concorda em me buscar. Enquanto espero na frente do prédio, fico pensando em nós duas no banheiro. Argh! Não, não posso! Sei que preciso me distrair de tudo o que passa em minha cabeça, não quero desenterrar tanta coisa… Dou um tapa no banco de madeira, frustrada, sem saber o que fazer. Só quero subir para aquele apartamento e terminar o que comecei. Theo chega, eu entro no carro e bato a porta. Ele me pergunta muitas vezes o que foi que aconteceu, mas não respondo.

—Eu fui te buscar às duas da manhã e você não vai me dar nem uma resposta? -Ele reclama, assim que subimos. Estou com um copo d’água na mão, mas ainda estou zonza. -Vou considerar isso no mínimo grosseria.

—Theo, por favor, cala a boca. -Respondo, com o olhar perdido na parede branca da cozinha.

—O que? — Ele me encara como se não me reconhecesse.

—Cala. A merda. Da boca. — Largo o copo na pia e puxo Theo pelo corredor.

—O que tá fazendo?

—Você sabe bem. — Respondo, tirando a regata.

Notas finais
Se quiser dizer o que achou, meus ouvidos/olhos são seus ^^