Apartamento 804

2 Fazendo a Mudança


Notas iniciais
(Ps.: Fiz uma pequena alteração no outro capítulo, na história inteira na verdade. Mudei o nome de Pietra para Christine, pois em Nova Atlantis a protagonista também se chamava Pietra kkk Só isso mesmo, obrigada ♥)

Estou sentada no sofá velho da sala de Theo, com uma xícara de chá nas mãos. Ele é um bom ouvinte, escuta calmamente enquanto explico toda a história. Ao final, suspiro e ele dá uma rápida risada.

—Pelo menos você tem uma ótima história para quando ficar velha. — Ele diz, pegando minha xícara já vazia.

—É, mas será que essa história vale a pena? Normalmente eu não pediria isso, mas eu realmente não tenho para onde ir. Não tenho economias suficientes para comprar uma kit-net nem para alugar um apartamento. Posso dormir no sofá, não há problema algum.

—A gente pode arrumar aquele quarto, não vai ficar nenhum quarto dos sonhos, mas deve ser suficiente. Se me permite perguntar, seus pais não têm grana para isso? Ou, no mínimo, por que não voltar para a casa deles?

Droga. Esse não era um tema no qual eu me entusiasmava em entrar. Muito menos se eu estava pedindo um favor. Tento pensar em uma forma breve de contar o ocorrido, sem entrar em detalhes.

—Se eu voltasse para casa deles, teria que sair da faculdade. Não é algo que eu possa considerar. E, bem, eu sempre fiz questão de ter independência. Essa é uma das razões que me fez sair da cidade. Mesmo que eu quisesse pedir, eles nunca enviariam dinheiro para me ajudar.

—Por que não? — Ele pergunta, sentando-se na ponta da poltrona. -Qual foi o outro motivo?

Entrando em detalhes. Merda.

—Nós… Nos desentendemos durante meu ensino médio. Eles ainda não perdoaram isso. Acham que o fato de eu morar sozinha é um ato de rebeldia, meus pais fazem questão de me terem em seu controle. Se eles me financiassem, controlariam minha vida. Se não pudessem fazer isso, sem grana.

—Desculpe a expressão, mas parece vender a alma para o demônio. — Ele comenta, fazendo-me rir.

—Parecido.

—Não vai me contar o motivo das brigas?

—Hm… Não, por enquanto. Posso usar sua curiosidade para me manter aqui por mais tempo.

Ele ri e balança a cabeça. Apesar da minha brincadeira, nós dois sabemos que ela pode ser levada mais a sério do que isso. Tiro o casaco e começo a trabalhar junto com Theo na reorganização do quarto. Enchemos caixas de papelão com as tralhas largadas ali — algumas coisas que ele não queria que eu visse, como alguns DVD’s que ele jurou ser do irmão mais novo — e entulhamos as caixas em um canto, permitindo que houvesse um espaço onde eu pudesse ficar. Dou uma olhada no relógio e vejo que já são 20h30min. Explico que todas as minhas coisas estão no apartamento de Vick, então precisarei voltar lá para buscá-las. Como já está tarde, combinamos que no dia seguinte voltarei com as malas.

Faço o caminho de volta um pouco mais tranquila, até tocar a campainha. Jennifer atende. Cabelo bagunçado, vestindo uma blusa larga de pijama e calcinha. O sorriso simpático deixa a entender que as duas se entenderam muito bem. Vick aparece logo em seguida, vestindo uma calça de pijama e uma regata branca amassada. Ela sorri sem graça.

—Fiquei meio maluca quando vi que você foi embora de repente, mas fiquei mais tranquila quando vi as malas. Imaginei que você voltaria em algum momento. — Ela sorri enquanto Jenn abraça sua cintura.

—Eai? Já se ajeitou? — Jennifer pergunta.

—Sim, sim. Saio daqui amanhã. Precisava das minhas coisas, mas já está tarde para voltar com uma mala, então vou ter que passar uma última noite aqui. Tudo bem?

—Claro, sem problemas. -Jenn responde, antes que Vick abra a boca. — Se quiser ajuda, é só ligar. Com licença.

Ela voa para dentro do quarto, deixando-me sozinha com Vick. Noto um clima esquisito, então a contorno e vou até minha mala.

—Desculpe. — Ela fala. — Não queria que precisasse ir tão rápido. Vai ficar aonde?

—No apartamento de um amigo do fundamental. Ele é gente boa, então acho que tudo bem. — Abaixo o tom de voz. — Não é nada contra você, sério, só não quero atrapalhar vocês duas.

—Não se preocupe com isso. — Ela bufa e senta no sofá. — Não vou insistir que você fique porque tenho certeza que você deve se sentir mais confortável com um conhecido antigo, mas saiba que sempre pode aparecer por aqui.

Jennifer volta do quarto, vestida como estava antes, e se despede de nós. Melhor dizendo, dá um tchauzinho para mim e rouba um beijo de cinema de Vick. Sinto-me sem graça quando Jenn recebe um empurrãozinho extremamente discreto e Vick sussurra um ‘chega’. A garota sai do apartamento e posso ouvir as botas estalando por mais alguns minutos antes do som se dissipar.

—Desculpe por isso… — Vick fala baixinho.

—Tudo bem. Por que não me passa seu número? Não posso ser sua colega de apartamento, mas acho que podemos ser amigas. Só uma pessoa realmente muito legal poderia abrir desse jeito a porta de casa para uma estranha.

—Ou uma psicopata. -Ela diz com um sorriso.

—Ok, ou uma psicopata. — Dou uma risada. — Não acredito que seja o caso, então… Vai me passar o número, ou não?

Vick sorri e dita os dígitos. Salvo o número na lista de contatos do celular. Ela levanta e vai tomar um banho, enquanto isso me troco na sala mesmo. Me enfio nos pijamas limpos, coloco o colchão no chão e deito. Quase não noto quando Vick sai do banheiro com os cabelos enrolados na toalha.

—Já jantou? Ou quer pedir algo? Pizza?

—Pizza está ótimo. — Respondo. Ela faz o pedido através de um aplicativo de celular, então vai arrumar algo na cozinha. A toalha se desenrola dos cabelos escuros e posso notar o incômodo estampado no rosto de Vick. — Não é melhor secar o cabelo?

—Seria bom. Detesto cabelo molhado, mas o meu secador queimou.

—Eu tenho o meu, posso emprestar. Se quiser ajuda…Seu cabelo é gigante.

—Ainda não chegou onde eu quero, mas sim, está enorme… E sim, aceito a ajuda. — Ela sorri e eu pego meu secador de cabelo na mala.

Vick senta-se na poltrona e me explica os prós e contras de ter um cabelo extremamente comprido, enquanto eu o escovo e seco. Ela diz que quer o cabelo até quase o joelho, mas repensa quando imagina os cuidados necessários. Concordo e fico passando os fios negros por entre meus dedos, não totalmente focada na conversa, mas entretida pela animação em sua voz. Quando a entregador chega, o cabelo já está seco. Guardo minhas coisas e arrumo tudo para comermos enquanto Vick vai buscar a pizza.

Assim que retorna, sugere um filme, já que não há muitas coisas para fazer e nenhuma das duas está com sono. Escolhemos uma dessas comédias bobas, Vick traz uma garrafa de vinho já na metade e ficamos comendo e bebendo, distraídas com as piadinhas adolescentes. Minha cabeça está longe, pensando em Jennifer. Lembro-me da raiva dela quando chamou-se de vagabunda e de como fez questão de ‘marcar território’ ao ir embora. Não a culpo pelo xingamento, não sei por que situação estava passando, mas não foi exatamente a coisa mais legal de se couvir. Suspiro.

—Você não acha que a Jenn ficaria extremamente puta da vida se visse isso? -Pergunto.

—Não acho que o filme tenha nada de mais. — Vick responde. Encaro-a com meu melhor olhar sarcástico, então ela dá uma risada. — Ok, ela ficaria puta se visse a gente vendo filme e bebendo vinho. Se é para você se sentir melhor, ela fica puta da vida quando eu respiro de forma diferente. Literalmente. Não tem nada de mais nisso aqui e ela não está aqui para inventar coisa. -Seu telefone toca. — Falando no demonio… — Mas ela não atende. Desliga logo que pega o celular na mão.

—Por que fez isso?

—Ela só quer garantir que não estamos transando. Deixa ela ser vítima da própria imaginação. A guria ainda não entendeu que você é a princesinha hétero da casa.

Sinto meus músculos ficarem rígidos por um momento. Muita coisa vem à mente ao mesmo tempo. Imagens do banheiro da escola, os sons das risadas compartilhadas misturando-se com a lembrança de meus pais gritando e os soluços de uma garota que enterrei em meu passado. Uma Christie que não tem mais ligação comigo. Sinto um calafrio subir pelas minhas costas, mas o ignoro. Limito-me a rir e beber mais um gole de vinho.

Vick me pergunta como foi no apartamento de Theo, se eu confio mesmo no cara, se eu realmente preciso ir, esse tipo de coisa. Respondo tudo, tentando não parecer mecânica. Estou sinceramente agradecida com a preocupação, mas ainda estou afetada por Vick ter cutucado a ferida, ainda que acidentalmente.

—Tudo bem? — Ela pergunta. Os olhos negros me encarando com profundidade. Demoro alguns segundos para sair de meu devaneio.

—Claro. Tudo sim.

—Eu tinha perguntado se você queria que eu te levasse para a casa do tal Theo. A mala parece pesada... James pode me emprestar o carro.

—Ficaria feliz. Obrigada.

Depois disso, voltamos a ver o filme. Após de longos minutos, meus olhos pesam e logo se fecham enquanto minha cabeça vai caindo para o lado. Ainda tenho plena conciência da presença de Vick, mas aos poucos noto que na verdade é algo reconfortante. Mergulho em um sono profundo e quase não escuto quando ela ri e me deseja boa noite.



Dormir largada no sofá e acordar na manhã seguinte no colchão, enrolada em cobertores, me tráz a sensação de ser criança novamente. Espreguiço-me e levanto. Olho o relógio. 9h35min. Vick ainda não levantou. Visto-me rápido, sem querer ser pega de surpresa. Vou até a cafeteria da esquina, compro um cappuccino médio e um pacote de pães de queijo. Quando volto ao apartamento, às 10h15min, Vick está na cozinha, bebendo um suco de morando.

—Já achei, de novo, que tinha fugido. — Ela comenta.

—Para de achar que eu vou sair correndo, você ainda não deu motivo nenhum. — Dou uma risada e coloco o pacote de pães de queijo em cima da mesa da cozinha, enquanto tomo meu último gole do cappuccino. — Não sabia o que comprar, imaginei que você iria gostar disso.

—Como você sabe que eu amo pão de queijo?

—Sei lá, acho que todo mundo ama.

Sentamos à mesa e comemos preguiçosamente enquanto Vick lê em voz alta as mensagens que Jenn mandou na noite anterior. A garota realmente estava incomodada. Depois do café da manhã, Vick pega o carro de James e me leva até o prédio de Theo. Ela encara a estrutura durante um bom tempo e faz uma careta.

—Tem certeza que é seguro? Esse prédio está caindo aos pedaços.

—Eu já subi, ele não vai cair.

—É, mas sua mala é pesada. Acho que vai pelo menos balançar.

—Se eu sobreviver te aviso.

Então saio do carro e vou até o apartamento.

Notas finais
Obrigada por ter lido! Por favor, deixa um comentário dizendo o que achou! (Aceito as críticas construtivas)