Apartamento 804
8 Apenas colegas de quarto
Puxo os últimos centímetros do zíper da mala, então coloco-a em pé. Respiro fundo e olho Theo com seus braços cruzados, encostado no batente da porta. Não sei dizer se ele está magoado ou com raiva. Ambos são válidos. Quando passo por Theo, puxando a mala comigo, ele segura minha cintura. Não me afasto, mas cada nervo do meu corpo entra em alerta. Ele coloca uma mexa de cabelo para trás da minha orelha e acaricia meu rosto.
—Você sabe que não precisa ir… — Theo fala, quase em um sussurro. Desvio o olhar.
—Preciso… Não é justo com nenhum dos dois, isso já ficou bem claro.
Com um pouco de coragem que me resta, olho em seus olhos e ofereço meu melhor sorriso arrependido. Ele dá um suspiro triste e beija minha testa. Meus músculos se retraem, prontos para me afastar dali caso necessário. A mão quente de Theo desliza pelo meu pescoço, indo até minha nuca. Abro a boca para lhe dizer que nada irá acontecer, então vejo seus olhos, que antes transbordavam emoção, virarem pedra. Ele está encarando meu pescoço.
—Theo? O que foi? -Pergunto.
—Você deveria cobrir essa marca com alguma coisa. Maquiagem, cachecol, sei lá. — Então vira o rosto e se afasta.
Vou até o banheiro olhar-me no espelho, levantando o queixo para ver melhor meu pescoço. Uma marca roxa e escura, uns três dedos a baixo da orelha. Merda.... Tento pensar em algo para dizer a Theo, qualquer desculpa. Sinto-me péssima ao vê-lo assim. Então ocorre-me uma coisa. Eu não preciso explicar nada a ele. Jogo o cabelo claro por cima do hematoma e volto a puxar minha mala. Theo me ignora completamente enquanto vou embora.
O carro de James está esperando na frente do prédio. Um rapaz sai do banco do carona e me ajuda a colocar minhas coisas no porta-malas, então abre a porta do banco de trás para mim. Após todos estarem acomodados e a caminho de casa, as apresentações são feitas.
—O cavalheiro aqui é Ethan. — Diz James. — Estamos saindo ultimamente. Ethan, essa é Christie. Ela que Vick está pegando.
—James!— Exclamo.
—Que foi?! Eu realmente quero um encontro duplo! Não é justo vocês duas saírem sem mim!
—Se faz você se sentir melhor, — Diz Ethan. — James não para de falar do casal perfeito que vocês formam.
—Não somos um casal e não saímos juntas para encontros. — Digo a James.
—Aah, corta essa! — Ele exclama, batendo no volante com uma risada. — Vocês foram naquele restaurante maravilhoso semana passada. Sozinhas!
—Como amigas! Só fomos porque não tínhamos saco para cozinhar!
—Ok, vamos resolver isso. -Ethan intervêm. — Quando voltaram para casa… O que fizeram?
—Quando voltamos… Nós... — Meu rosto fica repentinamente vermelho. – Nós fomos dormir.
—Não acredito, mas tudo bem. -Ele me dá tapinhas calorosos no joelho e continua. — Dormem na mesma cama ou têm camas separadas?
—Mesma cama…
—Ahá! — Grita James.
—Ah, para! Porque gastar tempo colocando o colchão no chão e recolhendo, quando eu posso só dormir na cama dela?! — Os dois dão risadas altas enquanto minha voz vai afinando — Outra cama é cara!
—Tudo bem, Christie, vocês podem não ser um casal… — Conclui Ethan, no final das contas. — Mas têm potencial.
Os dois me deixam em frente ao prédio onde irei morar e partem para a casa de James. Quando finalmente largo a mala na sala, Vick me mostra o armário reorganizado. Metade do espaço está livre para que eu coloque minhas coisas. Reparo como as roupas dela estão meticulosamente organizadas por cor e modelo, então sinto-me envergonhada pelo meu modo usual de organização. Melhor dizendo, desorganização. Abrimos minha mala e ela me ajuda a encaixar tudo no espaço limitado que temos. Vick marca quais roupas quer pegar emprestada eventualmente, então faço o mesmo. Do armário dela, deixo “marcada” algumas blusas da banda Matanza e ela escolhe algumas que eu mesma fiz há muito tempo atrás.
—Sabe, eu amo essa blusa que você está usando. — Vick comenta enquanto coloco minha última peça de roupa do lugar. Ela abraça por trás minha cintura e enche meu pescoço com beijos. Inclino minha cabeça e seguro suas mãos, fechando os olhos e aproveitando a sensação. — Mas prefiro você sem ela.
Sorrio enquanto seus dedos escapam dos meus e vão escorregando por baixo do tecido. Suas mãos sobem pela minha cintura e logo minha blusa sobe junto, indo parar no chão em seguida. Suas mãos continuam na curva da minha cintura, enquanto sinto os beijos de Vick por minhas costas. Viro-me e abraço sua nuca, dando uma mordida leve em seu lábio. Ela sorri e compartilhamos um beijo lento.
—Sabe o que eu acho? — Sussurro. — Que você é uma folgada.
Sorrio e vou até a cozinha. Vick me segue e me encara cética enquanto abro a geladeira e pego uma maçã. Lavo a fruta, dou uma mordida e sento-me na bancada.
—E eu acho que você se acha. — Ela diz. Ergo uma sobrancelha.
—Ah é? Por quê?
—Você está no meu apartamento… — Vick explica, se aproximando. — Comendo minha maçã, na minha cozinha…Sem blusa… E eu sou folgada?
—Uhum. — Respondo, mastigando a maçã. Engulo então sorrio. — Acha que é assim? Só tirar minha roupa e caímos na cama?
Vick faz uma expressão dramaticamente pensativa, então passa as mãos por minhas coxas e beija meu busto. Os beijos sobem pelo pescoço e terminam em uma mordida na orelha. Com sua voz cheia de malícia, ela sussurra.
—Não precisa ser na cama.
Vick agarra minhas pernas e em segundos estou sentada em cima da mesinha, a única divisão entre a cozinha e a sala. Minha maçã cai no chão e rola até o armário. Entre um beijo desesperado e outro, a regata de Vick vai parar em cima da cadeira, meu sutiã no chão, o short dela no sofá e por aí vai. Enquanto me beija devagar e intensamente, uma de suas mãos passeia por minhas coxas. Calmamente, seus dedos vão traçando o trajeto do meu joelho até minha virilha. Quando chegam perto demais, quebro o beijo.
—Ei… Shh… Vick… — Estou abraçando sua nuca, nossos lábios ainda estão próximos e é difícil me concentrar enquanto seus dedos acariciam minha virilha. — Tem certeza? Estamos na cozinha....
— E daí? — Ela pergunta, beijando meu maxilar.
—Não sei, talvez você quisess...- Não consigo terminar a frase. Sou interrompida assim que seus dedos deixam de brincar e resolvem ignorar os limites. Minha boca fica entreaberta, com o vestígio da frase que seria dita. Enrolo os dedos nos cabelos de Vick enquanto ela fica claramente cada vez mais satisfeita à medida que minhas palavras vão sendo substituídas por outros tipos de sons, então continua com cada vez mais intensidade.
Os beijos descem para meus seios, demorando um bom tempo ali, então continuam seu trajeto por minha barriga. Inclino meu corpo para trás e me apoio na mesa, a outra mão ainda nos cabelos de Vick. Fecho os olhos quando os beijos chegam até o espaço entre minhas pernas. Sem interromper a ação anterior, Vick brinca cada ponto em sua boca com delicadeza e precisão, mas gradualmente a suavidade vai dando lugar ao desejo instintivo.
Repentinamente, ela para. Abro os olhos, alarmada, imaginando que algo acontecera, mas encontro apenas o olhar presunçoso de Vick. Ela se ergue, orgulhosa, mordendo o próprio lábio.
—Isso foi de propósito? — Pergunto, ofegante. Ainda sinto meu ventre pulsando e não dou-me por satisfeita. Ela coloca os dois dedos na boca e os tira devagar, sem perder o sorriso.
—Talvez.
—Desgraçada.
Dou impulso, levantando-me da mesa e derrubando nós duas no chão. Sem paciência alguma, coloco uma de suas pernas em meu ombro e desconto toda minha frustração com minha boca. Fico ainda mais irritada por saber que era exatamente isso que ela queria, mas a frustração passa ao escutá-la reagindo ao toque. Assim que chega ao ápice, volto a beijá-la, pressionando meu corpo contra o seu. O beijo é selvagem e não há tempo para respirar. Quando finalmente nos separamos, ambas estão ofegantes demais para conversar.
Ficamos deitadas no piso gelado, sem falarmos nada. Vick deita a cabeça em meu ombro e puxo sua perna para minha cintura. Faço carinho em sua coxa enquanto ela dá beijos e mordidas em minha clavícula. Sorrio e deslizo minha mão por sua pele macia. Vick solta um gemidinho baixo, próximo ao meu ouvido, assim que acaricio tua virilha, então volto a tocá-la.
Às sete horas da noite percebemos que estávamos famintas. Depois de uma longe discussão sobre as opções de lanches na lista telefônica, fizemos o pedido. Estamos no sofá, comendo hambúrgueres. Eu de roupa íntima e blusão, ela com calcinha box e regata. Ambas com os queixos sujos de Ketchup e morrendo de rir.
—Melhor colega de quarto da vida! – Digo entre risadas.
—Eu nunca mais vou conseguir ir para a minha cozinha de novo! — Exclama Vick.
—Porque não?! Viemos ao mundo para comer e comer. Estamos indo muito bem.
—Ah, claro! — Ela se aproxima e olha para mim com uma expressão analisadora. — Eu não deixei nenhuma marca dessa vez?
—Você nunca deveria deixar. — Respondo, revirando os olhos. — Hoje passei por uma situação constrangedora por isso.
—O que aconteceu?
—Theo viu… Não gostou nada. — Respondo. Sua expressão brincalhona se fecha de repente. Ela termina o hamburger, levanta e vai para o quarto. — Ei! Onde vai?
—Hoje é meu turno no hospital. Ganho mais ficando à noite. Te cuida. — Vick já está vestida e amarrando o cabelo, contra sua vontade. Faço beicinho.
—Ok… Que horas volta?
Mas ela já saiu, batendo a porta do apartamento.
Não consigo pregar os olhos a noite inteira. Fico pensando em como Vick fechou-se ao ouvir o nome de Theo e em como o mesmo detestou ouvir o nome dela. Quando finalmente escuto o barulho da fechadura, já não sei que horas são. Esfregando os olhos, levanto-me da cama e encontro Vick exausta, soltando os cabelos morenos e compridos. Ela olha para mim e franze as sobrancelhas.
—O que faz acordada? – Pergunta, com uma acusação implícita.
—Não consegui dormir. Como foi hoje?
—Uma merda. – Ela responde, indo para o quarto. — Teve um acidente hoje. Um babaca com o carro cheio bateu num poste.
—Que horror... Como ficaram?
—Um rapaz com as pernas moídas, uma garota com um puta sangramento, um moleque com um braço quebrado e duas mortas. -Diz enquanto troca de roupa. – Agora me pergunta como está o maldito do motorista?
—Como?
—Com um arranhãozinho na testa. Precisamos dar calmantes a ele e ao moleque do braço quebrado. Estavam surtando. O motorista estava podre de bêbado e o rapazinho era um coitado.
Ela se abaixa e começa a mexer em uma sacola.
—O que está fazendo? – Pergunto.
—Procurando meu remédio para dormir. – Ela tira a cartela da sacola. — Quer metade?
Penso em responder que melhor não, afinal ninguém deve tomar remédios sem uma receita médica. É algo extremamente arriscado e ela não deveria estar tomando um remédio desses assim.
—Claro. Tem água?
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