Apartamento 804
9 Que saudades
Notas iniciais
—Ei, Christine, acorda. — Escuto a voz de Vick. Não consigo focar minha mente nela, é como se estivéssemos separadas por uma cachoeira. — Christie, anda logo, acorda.
Com muita dificuldade, abro meus olhos. Vick está apoiada no cotovelo, a cabeça na mão, e me encara preocupada. Os cabelos morenos e bagunçados estão jogados para o lado e o rosto sonolento me diz que ela acabou de acordar. Esfrego meus olhos e me espreguiço, o efeito do remédio ainda me deixando zonza.
—Bom dia. — Digo, com um sorriso.
—Para você, nem tanto… Perdeu a faculdade hoje. Dormiu demais.
—Ah, merda! — Exclamo, enfiando o rosto entre as mãos.
—Desculpe, foi minha culpa. Não deveria ter te dado aquele remédio.
—Não, tudo bem sério. Não é de todo mal. — Digo, me sentando. Vick me encara confusa.
—Como assim?
—Agora a gente pode ficar um pouco juntas… — Respondo, me inclinando sobre ela. — Podemos fazer um café da manhã e depois ficamos vendo um filme. O que acha?
—Me parece um plano sólido.
Duas horas depois, a cena final do filme está passando. Uma música emocionante toca de fundo enquanto seguro firme os cabelos de Vick. Quando ela finalmente volta a beijar minha boca, metade dos créditos já passaram. Eu não faço a menor ideia de qual é a história, mas foi o melhor filme de toda minha vida. Eu abraço a cintura de Vick com as pernas e ela joga uma manta por cima de nossos corpos suados. Nós damos risadas e ela deita a cabeça no meu busto.
—Sobre o que era o filme mesmo? -Pergunto.
—Quando você me colocou no seu colo eu ouvi balas, então acho que era de ação. -Vick responde, dando mordidinhas na minha clavícula.
Um barulho de chaves girando vem da porta. Vick deita por cima de mim, protegendo meu corpo, e puxa a manta para mais perto. A porta se abre e vimos James entrando e tirando o cachecol. Quando nos vê, congela por um momento então começa a rir. Vick esconde o rosto no meu pescoço e eu a abraço de forma protetora.
—Oi James. — Digo, controlando a vergonha. — Eu não sabia que você tinha a chave do apartamento.
—Desculpa. — Sussurra Vick.
—Meu bem, eu praticamente moro aqui! Enfim, eu vou pra cozinha e vocês se vestem, ok?
— Vocês são impossíveis! — Diz James, se servindo com uma taça de vinho. — Eu dormia naquele sofá, ok?
—Agora o sofá tem memórias muito melhores do que você dormindo nele. — Sorrio e bebo um gole de vinho.
—Convencida! — Exclama Vick.
—Mas é verdade. Enfim, James, porque você surgiu aqui no pior momento possível?
—Sua amiga mandou recado… — Ele diz, desviando o olhar. — Sua mãe está na cidade.
—Ai caralho! — Agarro o telefone e disco o número apressada. — Emma? Onde está minha mãe?
—Aqui na sala. Quer saber onde você está para se hospedar aí.
—Meu Deus, isso não pode acontecer…
—Ué, por que não?
— Eu talvez tenha uma amizade com benefícios com a dona do apartamento.
—Uau! — Grita Vick. — Ótimo jeito de definir nosso relacionamento!
—Mandou bem. — Diz Emma. — Enfim, o que eu faço com sua mãe?
—Segura ela por mais um tempo, eu ‘tô indo aí.
Ajeito meu vestido branco, prendendo um cinto na cintura. Coloco rímel e batom, finalizando a aparência menininha da mamãe. Saio do elevador e toco a campainha do apartamento. Uma mulher loira atende a porta, em seus sessenta anos, blazer feminino vermelho e um vestido social preto, cabelo em corte channel. Engulo a seco enquanto ela sorri.
—Oi mãe. — Respiro fundo. — Que saudades.
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