Aos olhos da guerra
5 Cap 4- O acidente
Notas iniciais
Mais um dia de treinamento tinha acabado. Não podia negar que fora produtivo e que a semana de treinamento com a mulher foram essenciais para o seu bom desempenho durante todo esse período de um mês de adequação militar.
Voltou para a barraca que dividia com mais alguns outros soldados e a encontrou vazia. Decidiu sentar um pouco e escrever mais uma carta...como fazia 1 vez por semana desde que embarcara.
Começaria a carta quando o vento soprou mais forte do que estava acostumado...quase apagando a vela que usava para escrever.
Olhou ao redor e não descobriu a origem da corrente de ar.
Concentrou-se na carta novamente quando ouviu passos leves o tirarem da realidade.
Olhou para a saída da barraca bem na hora em que essa se abriu.
Pensou que havia perdido toda a sanidade quando a viu.
Sorria daquele jeito que só ele conhecia. Vestia uma farda militar e mantinha os cachos ruivos soltos.
–Não acha que está tarde para escrever?
–O que oce ta fazendo aqui?- ele se levantou e piscou algumas vezes para confirmar que a visão não era uma miragem.
–Ara...eu vim te encontrar frangotinho...
–Oce só pode estar maluca meu amor...e ninguém te encontrou pelo caminho? Como você chegou aqui?
– Muitas perguntas para quem esta com saudade...oce não acha?- ela levantou uma das sobrancelhas levemente e sorriu de maneira provocante.
Ele riu e apenas se atirou na direção da felicidade. Tomou seus lábios com a intensidade de uma falta tremenda. Perdeu o folego nas curvas ainda cobertas dela. Deixou que ela o conduzisse para longe do mundo ferido em que viviam. A sentia sugar os lábios e a alma ao mesmo tempo...em uma sede absurda. Tentou prender-se em cada canto delicioso da boca da esposa. Se recusava a deixa-la ir...se recusava a voltar a respirar...mas sabia que ela também precisava de ar tanto quanto ele.
Ele apenas se afastou dos lábios dela para direcionar beijos em seu pescoço. Sentiu o aperto que as mãos dela davam em seus cabelos e não resistiu a vontade de te-la. Não teve paciência para desabotoar os botões do uniforme que ela vestia e apenas deixou que a força da vontade livrasse a esposa da camisa sem nenhuma delicadeza e não ligou para os botões que se espalhavam depois de serem rasgados da farda.
Percorreu as mãos na cintura fina dela e a puxou para um beijo ainda mais intenso. Deixou que a moça o desfizesse da camisa também e forçasse sua nuca para aprofundar o beijo. A agarrou ainda mais forte e a levantou, posicionando suas pernas em sua cintura e deixando evidente a saudade latente que o corroía.
Caíram em alguma cama perdida e vazia...não ligando para os barulhos que os denunciavam.
Ele queria devora-la. Arrancar qualquer dor que a falta dela tinha lhe causado e deixava o seu desejo evidente nas marcas feitas por suas mãos fortes que apertavam incontrolavelmente as pernas, a cintura e outros caminhos que o corpo da esposa lhe proporcionava.
Parou o ato de despi-la apenas para olha-la novamente e confirmar a tentação que era te-la.
Separaram-se ofegantes e ainda sorridentes apenas por um breve momento.
–Eu não acredito que oce ta aqui...
Ela acariciou o rosto do marido e se perdeu no olhar penetrante dele.
Adotou a confusão de combustão e passividade que os acompanhavam sempre. Uma paixão avassaladora que se curvava ao amor pleno.
–Mas eu não estou.
O rapaz viu os olhos dela se inundarem em lágrimas de dor e a sentiu desaparecer em suas mãos.
–Gina...
–Mantenha-se vivo meu amor...temos novidades..- ela forçou um riso enquanto deixava-se esvair.
–Não vai...por favor...não vai...não me deixe..
–Eu nunca vou te deixar Nando...nós não vamos...- ela sorriu e posicionou as mãos no ventre. Um ultimo ato antes de apagar-se completamente e devolve-lo a realidade da cama vazia e do acordar agoniado depois de um belo sonho.
–Você está bem soldado? – o jovem rapaz estranhou ver o mais novo amigo levantar no meio da noite.
–Estou...volte a dormir Peep.
Ferdinando pegou uma toalha e saiu pela escuridão da noite.
Os sonhos podem ser cruéis...por mais que pareçam bons.
*
A noticia a tinha feito muda. Sentou-se na cama e permaneceu la. Presa em pensamentos de uma confusão que ia além do físico.
Ora ou outra direcionava um certo carinho tímido na direção do próximo grande amor da sua vida. Apenas não conseguia sentir a felicidade que era te-lo em seu próprio ventre...e se culpava por isso.
Tinha o camafeu aberto em uma das mãos e não tirava os olhos do passado preso na pequena foto.
A decisão não era mais só sua...e sentia as esperanças de encontrar o marido desaparecerem com o passar das horas.
Era observada por um trio de amigos preocupados. A situação não era das mais fáceis de ser resolvida...mas tinha solução.
–Temos que voltar.- o sussurro denunciava sigilo.
–Ainda bem que concorda com isso. Pensei que teria mais trabalho em convence-las.
–Ora essa Renato...você sabe muito bem que não colocaríamos a vida de uma criança em risco.
–Sinceramente Juliana, não posso dizer que lhe conheço depois de tudo.
–Oces dois podem parar com isso...nos temo que resolver como vamos fazer para leva-las de volta sem alarde.
–Você está certo Vira...alguma ideia doutor?
–Bom...acredito que posso convencer o sargento de que vocês duas estão com alguma doença contagiosa como a peste ou a gripe espanhola...o que seria bem convincente ja que temos homens convalescendo dessas causas nos dias de hoje. Poderia pedir para que o Viramundo ficasse para ser avaliado ja que entrou em contato direto com vocês. Essa seria a informação passada a eles.
–Otimo...e depois?
–Bom depois eu creio que podemos utilizar uma das ambulâncias e leva-los daqui o mais rápido possível. Porém não hoje ja esta bem tarde e o estado da Gina é delicado. Vejam...ela...precisa descansar. Tem feito muito esforço e qualquer estresse, no nível que ela está, poderá ser fatal para a criança. Ela também precisa de vitaminas essenciais do contrário a gestação será difícil. Eu proponho que saiamos amanhã bem cedo. Vamos a cidade das Antas que não está tão longe. Eu conheço o hospital e consigo facilmente as vitaminas com as enfermeiras de lá e logo depois partimos para a vila.
–Me parece um bom plano.
–Acredito que vá funcionar.
–Eu...eu não sei como lhe agradecer Renato.
–Não me agradeça... faço isso pelo Ferdinando e pelo bebê dele.- o medico se retirou. Estava claro que a decepção era mais forte que ele.
–Eu vou tentar falar com ela.- a professora ainda estava incomodada com a situação com o ex...mas o entendia perfeitamente bem. Foi em direção a amiga que ainda vestia as roupas militares. Ela estava com um olhar perdido que Juliana nunca tinha visto. Gina era uma das mulheres mais fortes que conhecia na vida...e pela primeira vez...parecia tão frágil como uma boneca de cristal.
Juliana sentou-se na cama e pegou na mão fria da amiga que ja não estava mais acariciando a barriga. Ela apenas olhava a foto no colar.
–Você percebe que agora os planos terão que ser outros...não percebe? Teremos que voltar...
–Não é o que quero fazer...
–Mas Gina...o seu bebê..- Juliana iria continuar mais foi interrompida pela voz calma demais da amiga.
– Mas é o que devo fazer...
–Minha amiga...não é o fim...pense que essa criança vai trazer uma enorme felicidade...imagina a cara do Ferdinando quando souber que vai ser papai!
–Eu espero que ele chegue a receber essa notícia...pelo menos...
–Que isso Gina?!Onde está a minha amiga tão certa de tudo?!
–Ela não tem certeza de mais nada.
*
Os passos dados na mansão eram quase corridos. Catarina nem se preocupou em bater na porta do escritório do marido... a alegria que trazia nas mãos era maior que qualquer boa educação.
–Chegou mais uma carta do seu filho Epa.
–Me de aqui Catarina...me de aqui...
O senhor leu rapidamente a carta e foi inundado por perguntas da mulher a cada paragrafo que lia silenciosamente.
Ao final suspirou aliviado.
–Ele diz que está bem.
–É...eu vejo que está meu querido.
–Devemos escrever para ele.
–Epaminondas...até quando vamos esconder dele o desaparecimento da Gina?
–Até que ele volte....ou ela volte.
–Não seria justo manter essa informação para nos mesmos Epa...ele vai descobrir...e você viu que ele ja esta desconfiando que algo esta errado.
–Em campo de batalha Catarina...qualquer noticia capaz de nos desestabilizar...nos leva a morte.
–Não fale uma coisa dessas homem.
–É a verdade Catarina...Deus sabe o quanto aquele meu filho gosta daquela uma. E as bobagens que ele seria capaz de fazer se a perdesse.
–Alguma noticia dela?
–Nenhuma...todo mundo que se dispôs a procurar não encontrou nenhum sinal...nem dela e nem da professorinha.
–Eu rezo tanto para que elas estejam bem.
–E eu peço que elas voltem logo...por que se eu não perder o meu filho pra guerra...eu sei que quando ele voltar e ela não estiver aqui...eu vou perde-lo para a loucura...ou para a depressão.
*
O dia seguinte foi marcado por estratégias e espera de confirmação.
As bombas caiam longe dali...não podia ouvir mais sabia que muitos de seus companheiros gritavam de agonia ou fechavam os olhos de seus aliados desfalecidos.
Enquanto isso, no seu regimento, uma falsa calma pairava. O comandante resolveu que precisava de seus deveres estratégicos,já havia dado provas suficientes de que era essencial na equipe. Não esperava se sair bem...apenas sobreviver...mas em guerra não se pensa no amanha...sua sorte já é ter o hoje...e ninguém queria abusar dela.
–Certos soldados! Estamos sabendo que os bombardeios às cidades começou então escalarei um grupo de homens para ir a cidade mais próxima e ajudar os civis na evasão rápida e tranquila antes que o pior aconteça...enquanto isso...
–Senhor Capitão!
–Sargento Maués...o que poderia ser tão serio para que o senhor interrompa as minhas instruções...
–Chegaram informações do Sargento Cunha do acampamento a leste senhor. 2 soldados foram acometidos pela peste.
O capitão dirigiu a total atenção para o sargento e ambos mantiveram a conversa em tons normais...como se o pelotão precisasse saber da realidade a sua volta.
–E ele ja informou a família?
–Bom.. não conseguiram achar. Parece que esses dois soldados nem haviam sido convocados....soldado Falcão e soldado Alves me parece.
Ferdinando reconheceu de imediato o nome do sogro e engoliu em seco quando a realização do que aquilo poderia se tratar o atingiu.
Zelão foi outro que ficou irrequieto. Rezava com todas as forças para que fosse apenas uma coincidência de sobrenomes...haviam muitos Alves no mundo...mas ele não conhecia nenhum que fosse amigo de um Falcão. Haveria de ser coincidência...Tinha que ser coincidência.
–Bom...que deus tenha piedade de suas almas. E o que o sargento Cunha espera que façamos...?
–Ele pede para ficarmos de olho em qualquer soldado com mal estar frequente senhor. E que o mesmo seja mandado imediatamente para o acampamento médico nas proximidades da unidade Leste.
–Correto. Obrigado pelas informações sargento.
Um breve ato de respeito foi apresentado e logo o capitão recomeçou a fala. Chamando os soldados que fariam parte da primeira expedição.
Ferdinando e Zelão não ligaram quando seus nomes foram convocados...apenas tinham a ultima informação presa na memória.
–Você não acha que elas seriam capazes....acha doto?!
–Sim Zelão...elas seriam.
*
–Gina...você está bem?
–Oce pare de me amolar Juliana...eu to prenha não to doente.
Juliana respirou fundo e pediu mais uma dose de paciência aos céus.
–Tudo bem minha amiga...só estou sendo gentil.
–Mas eu não to precisando de gentileza nenhuma...
A professora olhou nos olhos da amiga e viu um medo profundo instalado ali. A ruiva suspirou e balançou a cabeça negativamente.
–Descurpa Juliana
–Não se preocupe com isso minha amiga...apenas tente se manter calma sim?
A moça balançou a cabeça afirmativamente e ambas esperaram Renato dar a partida na ambulância. Viramundo ia no banco do carona enquanto as moças iam na parte de trás do automóvel.
–Você não quer se deitar na maca Gina?
–Não eu to bem...
Juliana notou o quanto a moça estava tremendo e segurou suas mãos docemente.
–Vai ficar tudo bem....nós vamos pegar as suas vitaminas e vamos voltar pra vila...sua mãe vai saber cuidar direitinho de você e do seu bebe.
–Eu só não queria deixa-lo Juliana...
–Você não vai deixa-lo minha amiga...assim como eu não vou deixar o Zelão... e eu tenho certeza de que toda essa confusão vai acabar logo e nós estaremos felizes de novo...juntos e esperando esse anjinho nascer.
–Eu não sei se estou preparada pra isso...
–Ninguém está Gina...mas é por isso que temos 9 meses para nos acostumarmos com a ideia.
As moças riram e começaram a fazer planos e imaginar nomes.
*
Ferdinando ainda tinha o pensamento entre a realidade, o sonho que tivera e a suposição quando entrou no carro que o levaria para a missão.
–Soldados... Recebemos a informação de que a cidade em que nossa unidade estava montada na região norte foi atacada. Precisamos esvaziar as cidades mais próximas com eficácia e rapidez. E, se necessário, força. Vão em paz e voltem com a vitória.
–Sim senhor capitão- o coro mais uma vez soou forte...forte demais para esconder o nervosismo.
– Qual a cidade que estamos indo?- Peep era realmente um curioso e não escapava das patadas que tomava dos oficiais mais antigos.
–Não interessa criança.
–Eu acho justo sabermos o nome da cidade que ajudaremos a salvar.- O engenheiro olhou para um dos oficiais e deixou claro que não admitiria brincadeiras.
–Estamos indo para a cidade das Antas.
*
Certo...chegamos...as moças podem ficar aqui enquanto entramos no hospital.
–Não...eu posso ir.
–É melhor não Gina...apenas fiquei aqui...eu vou ficar com você.
–Mas eu não vou poder fazer mais nada?
–Até chegar na vila...temo que não minha cara.- Renato saiu apressadamente com Viramundo deixando o carro destrancado...apenas pegariam as vitaminas e voltariam...não havia necessidade de alarde.
Nesse mesmo momento as tropas militares chegavam e encontravam a cidade em uma calma incomun.
–Nem parece que estamos em guerra...- Zelão comentava enquanto observavam as pessoas andarem tranquilas.
–Esta tranquilo demais para o meu gosto.
Foi então que ouviram um estrondo distante o suficiente para apenas causar caos.
–Certo soldados....mulheres e crianças primeiro. Ajudem todos a encontrar esconderijo ou a deixar a cidade em seus carros com segurança. Vamos! Mexam-se!
Enquanto isso na ambulância duas amigas se olhavam assustadas.
–Mas o que foi isso Juliana?!
Ouviam gritos de desespero e viam as pessoas correrem para todos os lados.
–Calma minha amiga...vamos sair daqui...logo..
Outra explosão...dessa vez mais próxima. Juliana colocou as mãos a boca e tentou raciocinar. Precisavam se salvar.
–Cade esse doutorzinho?!
–Gina você sabe dirigir?
–Não...
–Então minha amiga...temo que teremos que tentar...
Os gritos do lado de fora eram mais fortes e faziam o coração acelerar. Gina sabia que deveria ser racional...mas as preocupações quanto ao bebe e ao marido a assombravam e a faziam esquecer de ser ela mesma.
Sentiu o coração parar quando o ouviu.
–Juliana...você ouviu isso?
–O que...?
–Shhii! De novo!
–Do que você está falando minha amiga?
–É o Ferdinando...eu sei que é ele...
A moça se atirou para fora da ambulância não dando tempo da amiga a impedir.
A professora apenas a seguiu tentando em vão faze-la retornar para a segurança da ambulância.
–Nando!!
–Gina isso é besteira...ele não está aqui
–Não é Juliana...eu ouvi a voz dele...eu sei que é ele...
–Minha amiga...por favor vamos voltar...
–NANDO!!- ela gritava com a força que lhe restava no corpo. Não poderia abandona-lo.
Não muito distante...o engenheiro parou de orientar os colegas militares ao ouvir a voz da amada..
–Gina...
–O que foi doto?
–A Gina...eu ouvi a Gina!
– Doutorzinho...isso não é possível...é?
–Eu sei que é ela Zelão...
O rapaz abandonou o posto e partiu, no meio da cidade caótica, a procura da esposa.
Zelão o seguia apenas para manter sua sanidade e segurança.
–GINA!
–Você ouviu Juliana?!
–É amiga...eu queria dizer que não ..mas dessa vez eu ouvi...
A ruiva sorriu e gritou mais uma vez ...saía esbarrando em pessoas, pulando obstáculos de objetos arremessados e outros totalmente destruídos.
–NANDO!
Os olhos se encontraram no meio da confusão. Sentiu o corpo tremer quando o viu. Do outro lado da agonia.
O coração acelerado parecia não dar conta dos batimentos.
Estavam separados por poucos metros e uma infinidade de pessoas.
Sorriram e partiram em direção um do outro. Ansiavam pelo contato. Ele necessitava do calor dos braços dela e ela precisava da segurança que só os braços dele poderiam lhe dar.
Duas almas que mereciam permanecer unidas mas que o destino escolheu separar.
Não chegaram a se encontrar...Um clarão absurdo denunciou a queda de mais uma bomba. Dessa vez...certeira.
O chão da cidade ficou inundado em sangue. Muitos feridos gritavam em agonia, outros pediam clemencia por suas almas. E no meio de tudo...um Napoleão se despedia do mundo.
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