Aos 16
23 Capítulo XXII - Simples e pura conveniência
Notas iniciais
Estar no quarto de Ian novamente é angustiante, é como se meu corpo e minha mente soubesse o que está por vir, e eu sei que não é algo bom. Graças a esse, não tenho nem adjetivos para classificá-lo, Cassandra vai fuder mais ainda com a minha vida, isso se ela não me matar assim que me ver.
Enquanto Ian calça seus tênis, me aproximo de seu violão, a única coisa naquele ambiente que para mim seria improvável ele gostar, os carros de corridas eu até entendo, mas o violão é uma surpresa.
– Você toca? – pergunto pegando o instrumento.
Ele rapidamente vem para perto de mim, arrancando-o de minhas mãos e o colocando no lugar.
– Não te interessa. – e volta a se sentar na cama e a calçar seus sapatos.
Chega de levar patada, cansei.
– Escuta aqui garoto, quem você pensa que é para ficar o tempo todo sendo grosso? Eu só queria ter uma conversa agradável.
– Sou a pessoa que vai te levar para casa. Cuidado, eu posso te deixar ir a pé. — diz sem nem me olhar.
– Que seja. – digo saindo do quarto. – Não preciso de você.
Antes que eu chegue as escadas, Ian segura meu braço.
– Você é bem irritante sabia?
– Você não fica por baixo.
– Chata.
– Arrogante.
– Mimada.
– Olha quem fala, sou o filhinho rebelde de papai aqui? – cutuco com um sorriso vitorioso, continuamos nos encarando até que uma criança nos atrapalha.
– O que ela ainda faz aqui Ian, não percebe que o ar fica poluído com sua presença?
Cara, essa garota dá uma bela aspirante ao trono da SM, Cassandra que a aguarde.
– Já estamos indo Yasmim. – diz sem deixar de me encarar, como se a quebra do contato visual determinasse quem é o vencedor. Irritada com a superioridade de Yasmim e de ser maltratada por Ian, me livro de seus lindos olhos e desço as escadas.
– Quem não quer ficar aqui sou eu. – passo por Yasmim e a encaro. – Posso ser infectada por excesso de orgulho.
Vejo os olhos da atrevida me fulminarem, mas não espero resposta, abro a porta e sigo em direção ao desconhecido.
O sol ilumina o dia intensamente e logo percebo o quão quente está, lembro-me que não sei as horas, o que me faz questionar, onde estaria meu celular? Não importa agora, só quero dá o fora daqui. Saio andando em direção aos enormes portões de ferro e sinto o solado dos meus pés queimarem, começo uma dança engraçada de pisar com um pé depois o outro, resmungando. Eu havia me esquecido que estava descalça e com certeza, isso iria me render bolhas.
Ian logo vem atrás de mim.
– Só você mesma para queimar os pés, está ficando louca? – ele me puxa para a sacada da casa, é então que eu vejo, que não é uma simples casa e sim uma mansão, uma enorme mansão. Fico impressionada, que acabo não o respondendo e me deixando ser guiada por ele.
Ian me leva até a garagem, onde vários carros clássicos estão estacionados, fico boquiaberta com a quantidade de veículos no local, Ian se dirige para um carro preto mais a frente e quando me aproximo fico maravilhada.
– O seu carro é um Duesenberg Model J LWB? – não escondo minha empolgação.
– Você entende de carros? – ele para no meio do caminho curioso e eu sei, que essa seria a oportunidade perfeita para dar um passa fora nele, mas o que eu faço surpreende até a mim.
– Meu avô era mecânico, aprendi muita coisa com ele. – digo melancólica, talvez seja por isso que eu perdi a oportunidade de retrucar na mesma moeda, lembrar do meu avô me deixa triste.
Ian percebe o meu olhar perdido e fala uma coisa legal, o que surpreende mais ainda nós dois.
– Ele devia ser um cara legal. – sorri torto, retribuo seu sorriso.
– E era, ele iria adorar ver a coleção que vocês tem aqui.
– Eu sei que ia. – ele fica pensativo, mas depois continua. – Todos os carros que você está vendo aqui são do meu avô, nenhum deles é meu.
Espera aí, ele estava sendo legal comigo? Definitivamente esse garoto é bipolar.
Entrei no carro ainda encantada, mas me contive, passamos a maioria do caminho em silêncio até que curiosa quebro o sossego.
– Por que você foi legal comigo agora pouco?
Ele está concentrado na estrada, mas mesmo assim me olha de soslaio e suspira.
– Eu sei como é perder alguém que se ama.
Pensei que ele fosse falar mais alguma coisa, mas o silêncio retornou ao carro. Fico perdida em meus pensamentos e antes que possa frear minha língua, me vejo perguntando algo que estava entalado na minha garganta desde o café da manhã.
– Como você sabe que eu sou bolsista? – não que eu tenha vergonha nem nada parecido. – Andou perguntando por mim? – brinquei.
– Eu não me interesso por garotas como você se quer saber.
– Se não se interessa porque teve a preocupação de me levar para sua casa ontem, podia simplesmente me abandonar lá. – ainda tinha um pingo de esperança que ele talvez estivesse interessado. Por que mesmo eu estou preocupada com isso?
– Conveniência e você sabe disso. — me olha com ar de deboche e isso me deixa revoltada. — Simples e pura conveniência. — continua zombeteiro, vejo que ele parou em frente ao prédio em que eu moro e saio do carro batendo a porta fortemente em seguida.
– Ei. – ele chama, mas não lhe dou atenção. – Foi um prazer ficar com você.
O desgraçado ainda brinca e como resposta levanto o dedo do meio para ele, relembrando nosso primeiro encontro.
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