Ao som dos Violinos
2 Um novo dia!
Notas iniciais
Acordei com o sol em meu rosto, deveria ser umas seis horas da manha já que costumo acordar com o despertador. Fiquei pensando se deveria levantar da cama, depois da noite passada nem queria abrir os olhos... Nesse momento lembrei-me de meu pai e do jeito que me acordava todo dia, sempre as sete em ponto, haha que memórias agradáveis... Nunca se atrasava para me despertar, era incrível! Vinha ele com seu cheiro de menta e chocolate perto de meu ouvido e sussurrava um “Buon giorno, bambina!” já despertava muito feliz! Ah que saudades que tenho de papa... E acho que até agora, não contei muito sobre ele não é? Bom, se quiser posso lhe contar... Meu pai era um belo italiano, de cabelos castanhos compridos e olhos verdes escuros, seu nome era Dante Fattore um lindo nome a meu ver, ele adorava musica, principalmente o som do violino, sempre o deixava mais vivo e seus olhos ganhavam um brilho lindo quando ouvia ou tocava. Ele também cozinhava bastante, um verdadeiro cozinheiro! Fazia os mais diversos pratos! De doces a salgados... O que eu mais gostava era o Cassata, é um tipo de sorvete com calda de chocolate, era sua especialidade... Ainda posso sentir o cheiro de chocolate emanado pela casa nas tardes de sol, sempre o ajudava a fazer e mesmo que eu fosse pequena na época, lembro-me da receita de cór.
Ele era professor de musica em uma escola para pessoas carentes, sempre achei que ele era um herói, já que sempre me disse para ajudar o próximo e nunca ser má com os outros e sempre ouvia de bom grado esses conselhos. Ele também contava histórias de sua terra natal, e sempre dizia que a Itália era a terra mais romântica do mundo e que um dia nós dois iríamos para Veneza, apreciar a culinária, musica e cultura italiana, ai entra meu segundo sonho... Mas antes desse dia chegar, ele faleceu e desde então carrego comigo um medalhão com sua foto e minha, que coloquei depois do seu enterro, assim pensava que eu e ele iríamos estar juntos para sempre! E é verdade.
Voltando à realidade, levantei-me da cama embora não tivesse motivação para isso... Desprendi meu cabelo e fui “arruma-lo” uma coisa quase impossível, mas até que gosto do meu cabelo... É igual ao do meu papa a diferença é que são enrolados, puxei da minha mama ou Samantha se preferir só que ela vive fazendo chapinha... Nem precisei ajeitar tanto, estavam bonitos até... Abri a porta e olhei para os lados, temendo encontrar Rafael... Por sorte ele não havia levantado, ainda pelo menos...
–Acho que eles não acordaram... Vou aproveitar enquanto posso né. – disse para mim mesma. Fui até o banheiro, escovei os dentes e tomei uma ducha rápida. Sai e me olhei no espelho no que fica atrás da porta, que facilita para mim, pois dá para ver o corpo por inteiro. Às vezes não fico feliz com o que vejo... Acho-me gordinha e sou bem pesada até, acho que peso uns 65 quilos... Meus seios são “grandinhos”, mas nem reparo direito, sou pequena com 1.50 de altura... Meu rosto é estranho, por isso escondo-o... Que vida viu... Logo em seguida, me cobri com a toalha e fui até meu “covil secreto” muahaha, haha tentei quebrar o gelo, mas acho que não funcionou, haha.
–Vamos ver... Camisa do colégio... Achei agora a jeans ta na cama, calcinha... Aqui e sutiã também... Acho que minhas meias então lá em baixo junto com meu casaco... – disse fuçando no meu armário uma roupa para vestir...
Vesti-me sem demora, coloquei meu amuleto e fui para baixo, tentar achar minhas coisas. Minhas meias estavam na secadora, tirei-as de lá e coloquei, faltava o casaco que achei no sofá então fui à cozinha preparar meu café da manha.
–Hum... Estou afim de algo diferente, talvez faça como papa com capputino e cornettos. Aham, são sempre gostosos, acho que tenho algum aqui em casa... Ah, se você não souber o que são cornettos são basicamente croassaints... Peguei o avental que eu usava para ajudar meu pai e comecei por a mão na massa, literalmente, haha. Farinha, ovos, manteiga, fermento, um pouco de leite com um toque de amor e estava pronta a massa, recheia-los e fazer o formato dos cornettos e colocar no forno, esperava em torno de meia hora para assar ou quando começas a dourar. Em quanto me divertia cozinhando, ouvi passos e toda minha alegria em um segundo sumiu. Achei que era Rafael, mas não era e sim minha mãe.
–Que cheiro bom... – disse ela olhando para mim, com um pequeno, mas notável sorriso no rosto.
Não liguei muito, apenas olhei-a por um segundo e logo voltei ao meu “trabalho”.
–Vendo assim, você lembra seu pai quando ele fazia o café-da-manha...
–Que raro... Você nunca fala do papa...
Minha mãe ficou quieta, não que ela não sentisse falta dele, muito pelo contrário! Ela sentia muita falta dele, mas tentava não pronunciar seu nome em casa, pois ficava triste e deprimida novamente...
–Às vezes filha... Não podemos evitar falar em seu nome... — disse vindo em minha direção e passando a mão em meus cabelos.
Tirei sua mão de minha cabeça e disse meio ressentida:
–Não adianta... Você tentar me amar... Agora já é tarde... Sai da cozinha, subi as escadas quase chorando...
Pô! Vê se você consegue me entender, sua mãe nunca te deu carinho desde que você nasceu teu pai morrem quando você tem oito anos, sua tia some quando você tem doze anos e pra completar, seu padrasto é um nojento que tenta “ficar” com você. E minha mãe nunca tentou me consolar! Acha mesmo que vou deixa-la alisar meus cabelos?! Não mesmo.
Esperando os cornettos ficarem prontos, andei até meu quarto refletindo o que tinha acabado de acontecer na cozinha, nada tão difícil assim... Só uma mãe cega de tristeza tentando se aproximar da única coisa que lembra seu amado que já falecera... Como sempre não liguei e arrumando meus cabelos, fazendo duas chuquinhas baixas ouço uma voz que tanto odeio...
–Hum... Tentando mostras mais esse rosto de porcelana?
Olhei-o furiosa, como de quem acaba de perder o ônibus sabe? Então brava, desfiz as chuquinhas e soltei meu cabelo como sempre, deixando-o no meu olho esquerdo tampado e só dando para ver minha boca e olho direito...
–Não faça isso docinho... Ou prefere que eu te chame de bam-
–CALADO!
–Ui... Ficou nervosa...
–Só meu papa me chama desse jeito! E que fique cof, cof, claro! Cof, cof.
Malditas crises de asma! Sempre me atrapalhando, como sempre peguei a bombinha e usei-a, logo em seguida guardei em meu bolso, peguei minha mochila e tentei sair do quarto.
–Aonde pensa que vai... Docinho?
O encarei e depois o empurrei para que eu pudesse passar, desci as escadas correndo para poder preparar o capputino e pegar os cornettos do forno, coloquei minha mochila no sofá e caminhei até a cozinha... Minha mãe ainda estava lá, tomando um café então perguntei a ela:
–Você... Quer um cornetto?
–Quero filha... Há tanto tempo que não como um... Fiquei feliz de ela ter aceitado, então retirei os cornettos do forno e fiz um capputino para mim. Como tinha feito três cornettos deu certo para nós e só para provocar Rafael, fui pegar o terceiro para levar para escola.
–Layla... Não vai deixar esse para o Rafa?
–Mãe... Não vou deixar esse nojento pedófilo comer do meu “prato”.
–Layla! Não fale assim do ra-
–Já disse! E esta dito! Se você quer um conselho, livre-se dele antes que algo ruim aconteça... Mamãe ficou quieta tentando entender o que eu tinha dito, pequei o cornetto e embrulhei-o. Logo coloquei meu lanche na mochila, coloquei meu tênis e disse para minha mãe que estava indo e que voltava tarde. Fui caminhando pela calçada, indo até o ponto de ônibus...
Chegando lá, deparei-me com um garoto de cabelos vermelhos como as rosas, um jeans rasgado nos dois joelhos e uma camiseta da mesma escola que a minha... Sentei-me na outra ponta onde se encontrava e fiquei lá... Em silencio... Porém com todo esse silencio, podia escutar meu papa tocando belamente seu violino e por algum motivo eu via aquele garoto que me salvou... Mas não sabia como ele realmente era só tinha ouvido sua voz e nunca tinha visto seu rosto... Até em tão, o garoto de cabelos cálidos como o fogo não havia me visto, até um momento repentino que ele virou o rosto sem motivos para mim.
–Você...
–Hum...? – olhei-o de volta para ele, por algum motivo ele parecia totalmente feliz, levantou-se e veio até mim com um sorriso no rosto.
–Você é aquela garota de ontem! – disse ele radiante...
–Eu... ANH?!
Agora estava tudo claro... Ele era o garoto que me salvara, mal podia acreditar que era ele e que tinha aquela aparência... Achei que fosse um garoto matusquela com cabelos curtos... Estava totalmente enganada e em meio desses pensamentos meu coração disparou!
–Você é até que bem fofinha! E por que não me deu seu numero ontem?
Parecia uma criança falando, em parte era engraçado e em outra parte irritante!
–Não gosto de pessoas me cobrando. Por favor, pare. – disse séria como sempre, voltando-me para frente.
–Aaah, o que foi isso? Que dura!
Ele se levantou e veio para minha frente, se agachando tentando olhar meu rosto! Q-Que coisa chata!
–Eiii, não vai falar nada? Eiii, “tô” te chamando!
–Ah! O que você quer de mim?! – falei brava mirando-o.
Foi ai que eu reparei, seus olhos tinham um tom de verde escuros iguais ao do meu papa... Quando papa morreu, não chorei já que ele sempre dizia para ser forte, por isso comecei a comer mais que o normal, por isso sou gordinha... Mas naquele momento, não pude me aguentar e uma lágrima me escapou...
–Aahh meu deus! O q-que eu fiz?! Desculpa!
Fiquei em silencio e enxuguei meu roto... Até o ônibus chegar, pedi licença e subi no ônibus... Mas ele veio atrás de mim e sentou-se ai meu lado...
–Sabe... Você não tem culpa... Do que aconteceu no ponto... – disse meio envergonhada.
–Sério? Ufa... Estou aliviado, achei que tinha falado besteira... Faço sempre isso...
–Tudo bem...
–Você fala tão baixinho... Por quê?
–Digamos que... É o meu tom normal...
–Ah... Entendi... Qual seu nome?
–Meu nome... Pra que quer saber?
–Ora, eu vou ser seu colega de classe sendo assim, preciso saber seu nome. Só para você ficar mais à vontade meu nome é Linos Vieres.
–Ah... Er... M-meu nome é Layla... Layla Fattore...
–Haha, lindo nome! Layla Fattore... Italiano não é?
–Ann, é s-sim.
Ele colocou o braço por cima de meus ombros, sorrindo disse:
–Então agora somos amigo! Amigos pra sempre!
–Amigos...? Mesmo?
–Claro! Já que salvei sua vida, quero ser seu amigo, pois você me deve.
–Tudo bem...
“Amigos”, me senti tão feliz em ouvir aquilo... Sentia que poderia morrer de alegria e vergonha... Seriamos amigos, além de colegas de classe... Isso era como um milagre para mim... Como se meu papa visse o que eu estava passando, haha...
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