Ao som dos Violinos
4 O que houve comigo?!
Notas iniciais
Era sexta feira, final da aula... Muito bom! O sinal soou, todos saíram às pressas eu claro, fiquei sentada como o de costume...
–Layla? – chamou Linos colocando sua mão em meu ombro.
–Ah! D-desculpe... É que, eu não... Acostumei-me com a ideia de ter um... Amigo. – disse meio sem jeito.
–Hahaha, então se acostume, pois vou colar em você!
Minhas bochechas ganharam um tom de rosa, mas escondi com meu cabelo... Levantei-me e peguei minha mochila, enquanto caminhávamos pelos corredores, Linos falou-me:
–Por que aquele garoto te chamou de olhos de peixe? Ah e também há aquela garota, que me chamou de gatinho, por que ela te chamou de “anormalayla”?
–Você... Você não notou? Parei de andar e olhei para ele indignada!
Como ele não reparou em meus olhos? A primeira coisa que alguém via em mim eram meus olhos, além de meu tamanho...
–Er... Seu tamanho?
–Não... É outra coisa...
–Hum... Mas você é realmente pequena, deve ter uns 30 cm de diferença entre nós...
–Não é meu tamanho!
Ele não conseguia entender o que tinha de errado em mim, decidi ajuda-lo... Ergui meus cabelos destampando meus olhos, para que ele pudesse ver nitidamente o que estava “errado” em mim... Ele me olhou surpreso e com brilhos nos olhos...
–Seus olhos... São de cores diferentes... – disse Linos boquiaberto...
–Eu sei... Nasci assim, ruim não? Ganhei vários apelidos por causa da minha aparência... Principalmente por causa de meus olhos... – falei soltando meus cabelos.
–São... São... Magníficos... – Linos tinha uma expressão besta no rosto... Haha além de ficar me encarando.
– Anh? Magníficos? Você não achou feio, ou anormal?
–Mas é claro que não! São lindos! Isso é até legal, pois alem de eu nunca ter conhecido alguém com heterocrômica, você tem um olho igual o meu haha.
–Heterocrômica?
–Sim... Você não sabia como era o nome de quem tem olhos de cor diferentes?
–N-não... Eu nunca quis saber... Sobre isso, sempre me chateada saber qualquer coisa assim...
–Então não fique! Seus olhos são lindos!
Fiquei sem jeito, então comecei a andar novamente e ele veio seguindo-me novamente, rindo e sorrindo... Saímos do prédio da escola, mas começamos a ouvir gritos. Pareciam de uma garota pedindo socorro, então começamos a seguir os gritos e a cada passo, mais alto ficava. Confesso que eu estava um pouco assustada, mas nem por isso eu fiquei dizendo, “Oh Linos! Proteja-me!” ou “Estou com medo! Segure minha mão Linos!”, me poupe né.
Quando chegamos, vimos o “trio da dor de cabeça” e mais umas duas pessoas, pareciam machucar alguém.
–Me ajudem! Socorro! Parem! Eu imploro! Uma garota estava gritando, eu fiquei com um aperto no coração, os gritos lembravam-me do dia em que EU mesma sofri bulling, em um impulso sai correndo em direção deles o mais rápido que eu podia. Linos entrou em desespero e tentou correr atrás de mim.
–LAYLA!!! Volte!!
Não liguei para Linos, quando cheguei lá, empurrei Will e mais um garoto que eu não conhecia e fui em direção à garota.
–Você esta bem?!
–S-sim... Só me arranhei...
–Hey! Fisheye! O que acha que ta fazendo?! – disse Will zangado comigo.
–Não preciso dar satisfações para um babaca de cabelo espetado! – disse ficando em pé e virando-me para ele.
–Sua baleia desgraçada! Will me pegou pelo colarinho da camisa, olhando-me muito zangado, mas foi ai que Linos tomou uma providencia!
–Não a chame de desgraçada! Muito menos de baleia! Maldito!
Linos após dizer aquilo, fez com que Will me soltasse dando um soco em suas costas. Imediatamente Will caíra no chão e eu também, a garota que eu havia ajudado, segurou minha mão e se aproximou rastejando, agarrando meu braço tremendo de medo. Linos bateu em Will e nos outros dois garotos, parecia que ele estava em um ringue de boxe, as gêmeas saíram correndo, temendo sobrar para elas... Os garotos saíram correndo todos machucados, bocas sangrando, marcas roxas e com alguns arranhões com medo de Linos, eu o olhava, admirada por ele não ter medo, logo ele se aproximou e me deu a mão afim de que eu me levantasse, mas a garota não queria levantar...
–Ei, garota, levante-se- disse Linos dando a mão para a garota também.
–E-eu não posso levantar...
=Por quê? – eu e Linos falamos um coreto...
–E-eu sou paraplégica... Não ando. Minha cadeira está ali... – disse apontando para a cadeia caída no chão.
Eu fui pegar a cadeira para ela. A cadeira estava tombada de lado, era feita de couro e metal, muito bonita para uma cadeira de rodas e levei para a garota. Linos a ajudou pegando ela no colo e a colocando em sua cadeira. Admito que, fiquei um tanto incomodada com a situação... -Muito obrigada a vocês, não sei como retribuir! Muito obrigada mesmo!
–Não há de que! Qual seu nome?
–Meu nome é Sophie. Shophie Tavares.
–Prazer! O meu é Linos Vieres.
–Ah! Você é o garoto que todos falam! Seu nome ta no...
Por um momento, parei de ouvir tudo e me concentrei apenas na garota... Ela era tão bonitinha... Lindos cabelos lisos castanhos claros, iguais da minha mãe... Olhos de um azul esverdeado lindo!
–Layla!
Era magra e branquinha de bochechas rosadas... Parecia uma boneca de tão linda... Queria ser tanto bonitinha assim, queria tanto ter olhos de cores iguais... Tanto, tanto... Que já gastei minhas forças pedindo por isso...
–Layla! Hey! Layla, você esta me ouvindo?
–Anh? — Voltei à realidade com Linos me chamando, por um momento estive em transe.
–Ah... Você é muito desatenta... Se apresente sim?
–Ah... Okk... Er, p-prazer... Meu nome é Layla Fattore... – disse baixinho...
–Oi? Laya? É isso?
–Hahaha, não Sophie, é Layla. Ela fala bem baixinho, acho que porque ela é tímida... Haha. Fiquei quieta, olhando para baixo então vir-me-ei indo em direção à minha mochila, apenas queria ir embora... O clima estava pesado de mais para mim... Parecia que Linos tinha gostado de Sophie...
–Ei! Layla, aonde vai?! – Linos gritou para mim.
Eu o olhei e acenei, queria ir para outro lugar, mas... Por que eu estava agindo daquele jeito? Eu nunca fiz uma desfeita dessas... Apenas vir-me-ei e fui andando, não demorou e senti alguém pegar meu braço fortemente. Eu gelei na hora! Você deve estar pensando que sou uma medrosa, ou dramática, mas fique oito anos sem ter amigos, ganhar um abraço ou um aperto de mão, você vai desacostumar!
–Por que você já esta indo? – era Linos quem pegara meu braço, mas ele disse de um jeito tão frio, que me surpreendi.
–E-eu... Er... Eu...
–Ah, eu, eu, eu, eu! Será possível você falar logo?! To ficando sem paciência! Ele começou a apertar meu braço, mas foi por impulso por estar bravo comigo (?).
–Ai! Ta machucando! Me larga! – sacudi meu braço para que Linos me soltasse.
–Não! Não vou largar! Não até que você me fale o porquê você esta indo embora!
– Se você esta ficando sem paciência, me solta, tenho uma coisa pra fazer!
–Me diga!
–Não.
–Layla! Pare de esconder coisas de mim! Isso é irritante! Comecei olha para baixo, com raiva dele.
Poxa! Por que eu deveria dizer tudo para ele?! Eu mesma estava ficando sem paciência!
–JÁ DISSE PRA ME SOLTAR!
Pela primeira vez em minha vida em gritei de raiva, e o que aconteceu depois? Uma crise de asma! Comecei a tossir e cai de joelhos no chão, Linos me soltou e Sophie veio rápido em nossa direção “pilotando” sua cadeira.
–Layla! – Linos se abaixou colocando a mão em minhas costas e parecia bem preocupado comigo.
Abri minha mochila, quase sem ar e peguei minha bombinha, fiquei tão aliviada em estar perto a minha bolsa nessa hora...
–Asma? Layla, você tem asma? – disse Sophie.
–T-tenho, mas... J-já estou... Bem... – disse ofegante já que ainda estava sem ar...
–L-Layla? Você está bem? Por que não me disse que tinha asma?
–Já disse... Já disse que odeio ser cobrada Linos! Deixe-me em paz! Por que, por que, por quê?! Você sempre pergunta por quê! Eu não preciso dar satisfações pra você! Minha vida não é da sua conta! Você acha que só porque você me salvou duas vezes, precisa saber tudo sobre mim, não quero isso! Não quero mais falar com você! Odeio pessoas que são cobradoras!
Depois de falar tudo aquilo... Senti-me culpada por algo e sai correndo triste por causa disso, Linos não foi atrás de mim, acho que ele ficou chocado com isso tudo o que eu falei pra ele e Sophie não poderia vir tão rápido atrás de mim... Só sei que eu tinha de correr o mais rápido possível, correr, correr e correr, sem nunca parar, até você chegar a seu destino. Todos os sons do mundo ecoavam em minha mente, todas as emoções batiam em meu coração, precisava falar com papa... Parei de correr em uma curva que dava ao cemitério, eu cai no chão e peguei minha bombinha, precisava de ar... Virei minha cabeça para a esquerda, vi uma velha senhora vendendo rosas brancas na rua levantei-me e fui falar com ela.
–Senhora... Eu quero uma... Por favor. – disse pegando o dinheiro na minha bolsa. Mas ela me deu um papel, que dizia: “Sou deficiente auditivo, não tenho trabalho fixo e por conta disso estou aqui vendendo essas rosas, você poderia me ajudar? Cada rosa é 3,00 reais, obrigada.” Atrás tinha um mini manual de sinais, olhei para a senhora e ela estava sorrindo... Seu rosto enrugado, seus cabelos brancos como a neve, suas mãos tremulas, porém ela estava feliz... Fiz os sinais falando que eu queria uma rosa, ela assentiu com a cabeça que sim e me dando a rosa mais bonita entre todas disse em sinais, devagar para eu entender;
–O-b-r-i-g-a-d-a... D-e-u-s t-e a-b-e-n-ç-o-e...
Fiquei alegre com isso e eu lembrei que tinha o cornetto na minha mochila, peguei e dei para a senhora, dando um “adeus” com minha mão e fui embora com a rosa em mãos... Fui caminhando até o cemitério, em passos lentos e fortes... “Cemitério Vale Perdido”, era o que a placa dizia, adentrei o lugar “sagrado” e fui caminhando... Entre as lápides negras como a noite, com santos e cruzes por todos os lados... Até chegar a uma lápide embaixo de uma árvore morta. Corri até a lápide um pouco alegre... Sim, a lápide que eu ia ver era de meu pai, Dante.
Visitava o tumulo dele duas vezes por mês, ou quando precisava conversar com ele... Tirei a outra rosa que colocara na ultima visita, colocando a nova...
–Buona sere, papa! Mi sono perso di te! Ah papa, não sei o que esta havendo comigo... Tem um garoto novo na escola e toda vez que estou com ele meu coração dispara! Não sei o que eu faço, preciso que você me de uma luz, uma ajuda, um sinal... Qualquer coisa que me ajude... Sei que você já se foi há muito tempo, mas prefiro falar com você a outras pessoas, ainda ouço você tocando violino na sala, sinto seu cheiro pela casa... Queria ter mais um dia com você, guardar mais fotos, mais lembranças felizes... Por favor... Ajude-me... – disse sentando na frente de seu túmulo, tremendo angustiada.
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