Ao infinito...

5 Capítulo 5 – Piano.


Notas iniciais
Olá, pessoas virtuais, como vocês estão? Eu estou super feliz! Aliás, tenho três coisinhas para dizer antes de vocês começarem a leitura deste capítulo: 1°: Lady Lovenista, muito obrigada pela recomendação, meu Deus do céu, que palavras lindas foram aquelas? Saiba que elas me influenciaram muito a escrever o quinto capítulo e que eu o dedico a você, querida! E cá entre nós, ele é o meu preferido até agora. Espero que goste viu? E obrigada mais uma vez! 2º: Agora eu tenho uma beta! Yey! Sugiro a vocês que deem uma relida nos outros capítulos, pois eu os editei. Na realidade eles foram betado pela querida Visenya Targaryen. 3º: Mil desculpas pela demora, gente! Eu empaquei para escrever esse aqui, porém espero que gostem. Enfim, sem mais delongas, aí está! Boa leitura. P.S: Os itálicos são flashbacks. Betado por Visenya Targaryen.

Eu estava em estado de choque. Minha mãe havia largado a faca e soltado um grito assustador conforme percebia o que havia acabado de fazer. A covarde saiu correndo, deixando a pequena Angeles do passado chorando descontroladamente e soltando gritos de histeria. A dor que ela sentia me atingia como descargas elétricas, causando-me calafrios e tremores. Era horrível ter que passar por aquilo de novo, porém a única coisa que eu conseguia fazer era observar o corpo do meu irmão ir ficando cada vez mais pálido, ao tempo em que ele tossia e cuspia sangue.

— Por favor, Gabe, não me deixe. Fique, eu te imploro... Eu... Eu... — Minha versão mais nova tentava dizer, apertando com força a mão dele. — Troque de lugar comigo, eu quero que você fique vivo, quero que você termine a faculdade, quero que se case e tenha filhos. Eu quero que você viva, Gabriel. Por favor, eu imploro que me levem no lugar dele, me levem no lugar dele! — A pequena choramingava, com os olhinhos fechados.

— Angeles... — Gabe dizia, com seu tom baixo e fraco, quando teve outro ataque de tosse. Os barulhos produzidos por ele faziam com que a Angeles do passado chorasse ainda mais, desesperada por não poder ajudar.

A aflição, a dor e a culpa que ela sentia me esmagavam a ponto de me deixarem sem ar. Lágrimas silenciosas desciam pelas minhas bochechas enquanto aquela lembrança se passava.

— Não, não, não. Eu vou chamar a ambulância e...

— Já chegou a minha hora, pequena. Onde eu estiver, prometo que cuidarei de você, prometo com todas as minhas forças, Angeles. Eu te amo, entendeu? Você é a coisa mais importante na minha vida. Seja forte por mim, neném.

Ela assentiu trêmula e abraçou o corpo do irmão escondendo o rosto no peitoral dele, não se importando com o sangue que agora manchava suas roupas. Nós duas chorávamos baixinho enquanto a respiração de Gabe ia ficando mais difícil e fraca a cada inspirada, até que o silêncio predominou o local.

Ergui meu olhar e sufoquei um soluço quando constatei que os olhos azuis, antes brilhantes e carinhosos, agora estarem opacos e sem foco.

Trinquei o maxilar com força, sentindo minha garganta apertar.

— Não! — urrei com todas as minhas forças. — Tragam-no de volta! Por favor, tragam ele de volta, por favor... — Agora eu chorava sem cerimônias. Senti meu corpo ficar mais fraco a cada nova fungada que a pequena Angeles soltava, pois eu sabia que ela estava tentando ser forte por ele. Tentei abafar o choro tapando a boca, contudo meu corpo estava ficando cada vez mais pesado, então tudo que fiz foi cair de joelhos e fechar os olhos tentando acalmar a respiração.

Uma voz calma e baixa ressoou pelo cômodo, cantando baixinho.

Aqui estou, Senhor. Sou eu, Senhor?

Ouvi-O chamando na noite. Irei, Senhor, se me conduzir

Levarei Seu povo em meu coração. ¹

Naquele mesmo instante, senti uma mão tocar no meu ombro, porém permaneci com a cabeça baixa e os olhos fechados.

― Você vai ficar bem, Angeles. Eu sei que vai ― disse a voz, que logo reconheci.

Era meu pai.

Gabriel e eu gargalhávamos alto de uma comédia na TV. Meu irmão mais velho tinha o cabelo castanho preso num rabo de cavalo baixo, que chegava até o começo da nuca. Os olhos azuis estavam marejados devido ao riso exagerado e eu o olhava com uma profunda e sincera admiração.

Gabe, quero te perguntar uma coisa — comecei a falar, colocando o pote de pipoca em cima da mesinha de centro e dando um longo gole no suco que estava tomando.

Ele colocou as mechas rebeldes que insistiam em cair no seu rosto atrás das orelhas e assentiu para que eu continuasse.

Por que você cuida tanto de mim? – perguntei um pouco envergonhada, afinal, aquela era uma pergunta, muito, muito boba.

Gabe sorriu e então bagunçou meus cabelos, como sempre costumava fazer.

Porque você é meu neném! — respondeu simplesmente, dando de ombros.

Mas eu tenho dez anos! – protestei com um bico emburrado nos meus lábios avermelhados e cruzando os braços em frente ao peito.

Você sempre será meu neném! – concluiu, deixando um beijo estalado e babado na minha bochecha.

— Ai, que nojo, Gabe! — protestei, dando tapinhas no braço dele.

Ah, vai me agredir? Ataque de cócegas na senhorita Angeles! – Berrou, enquanto se levantava e fazia cócegas em mim, que apenas me debatia e ria histericamente.

Eu amo você, Gabe — declarei com os olhos marejados, ao mesmo tempo em que recuperava o fôlego do ataque de risos.

Eu amo você, minha irmãzinha.

Aquela lembrança não havia se tornado menos dolorosa. Revivê-la despertou o mesmo sentimento de vazio que eu vinha sentindo há anos, desde a perda do meu irmão. Estava sentada no chão da montanha abraçando minhas pernas, com a cabeça apoiada no joelho.

Acordei logo após aquele vislumbre do meu passado, mas ainda conseguia ouvir meus gritos desesperados pedindo por socorro, chamando o nome de Gabe incansavelmente, chacoalhando seu corpo inerte, observando seus olhos ainda abertos perdendo o brilho e o foco aos poucos.

O estranho de tudo era que eu não queria chorar. A calma que eu sentia naquele momento era de fato estranha, porém, era tudo.

— Você está em estado de choque, Angeles — murmurou Enziel, bem baixinho. — Não falou nada durante quarenta minutos e está sentada na mesma posição com esse mesmo olhar perdido.

Tombei a cabeça para o lado, ainda mirando o olhar no horizonte, contudo um pouco surpresa por ter se passado tanto tempo. Na realidade eu não ligava.

— Me diga o que viu, por favor. Garanto que se sentirá melhor.

Balancei a cabeça negativamente, sentindo um nó se formar no fundo da minha garganta.

Fechei os olhos por um instante respirando fundo e abaixando a cabeça. Os abri novamente e só então percebi que o anjo estava com as mãos nos meus ombros, massageando-os de leve.

— Pare já com isso. E saia de trás de mim — resmunguei, desvencilhando-me de seu toque.

— Okay, okay, dondoca.

Soltei um muxoxo e virei o rosto para o lado. Enziel se sentou novamente do meu lado, encarando-me com preocupação.

— Angeles, por favor... — insistia ele novamente quando outra voz se fez presente.

— Não a pressione, Enziel. Sabe muito bem o quão difícil é relembrar-se de coisas que guardamos no fundo do nosso subconsciente.

Virei-me a tempo de observar o arcanjo Gabriel me lançar um sorriso reconfortante enquanto piscava o olho direito.

— O problema é que eu não quero mais sentir isso, entende, arcanjo? Eu só quero que isso pare. Quero que isso acabe.

— Isso o quê, minha querida? — perguntou ele e seu tom deu a entender que ele provavelmente já sabia a resposta.

— Essa culpa... — sussurrei, trincando os dentes logo em seguida.

Em nenhum dia após o ocorrido, eu deixei de sentir culpa pela morte do meu irmão. Culpa por ele não ter tido uma vida longa e feliz, como merecia. Culpa por ele não ter terminado a tão sonhada faculdade de veterinária. Culpa por ele ter desperdiçado os anos de sua vida cuidando de mim, quando deveria estar se divertindo. Culpa por não ter chamado o socorro rapidamente e o salvado. E aquilo me matava aos poucos.

O arcanjo caminhou devagar até onde eu estava sentada, abaixando-se na minha frente.

— Senhorita Angeles, tão querida, tão especial, e não tem a menor noção disso — começou ele, colocando uma mecha solta do meu cabelo atrás da minha orelha. — Nada do que acontece na terra é culpa de alguém, pequena. É óbvio que nossas ações geram consequências, mas não sabemos ao certo o que é o bom e o que é o ruim quando vivemos naquele mundo. Já passou pela sua cabeça que o seu irmão pode ter ido para o paraíso? — Ele sorriu, tão abertamente que acabei dando um meio sorriso também — Que ele pode ter cuidado de você, todos esses anos em que se sentiu sozinha? Que ele está...

— Arcanjo. — interveio Enziel, num tom repreensivo. — Cuidado com o que diz, por favor.

Gabriel sorriu fracamente, seus olhos tomados por uma tristeza incompreensiva para mim. Ele suspirou e se levantou, passando a mãos pelos cabelos loiros, bagunçando os cachos logo em seguida.

— É difícil, Enziel. É difícil até para mim.

— Eu entendo, arcanjo. Mas você sabe tão bem quanto eu que o tempo do Pai é o tempo do Pai.

Franzi o cenho, confusa com aquela declaração, porém resolvi não intervir e prestar atenção no que eles estavam dizendo.

— Às vezes eu não entendo esse tempo — balbuciou, bufando logo em seguida.

Arqueei as sobrancelhas, surpresa pelo arcanjo estar falando aquelas coisas. Ué, não era ele que acatava todas as ordens sem nem refletir?

— Acho que esse é o propósito — concluiu Enziel, dando de ombros.

O arcanjo virou o rosto na direção de seu aprendiz e sorriu, balançando a cabeça.

— Então o aluno supera o mestre? Quando se tornou tão sábio, Enziel?

Ele sorriu e deu de ombros novamente, parecendo muito satisfeito consigo mesmo.

Alô? Quem está falando? — atendi ao telefone, com um tom claro de desânimo.

— Sou eu, Diana. Onde você está? O que aconteceu?

Suspirei.

— Oi, Dana. ― Chamei-a por seu apelido, porque sabia que quando a chamava assim sua raiva diminuía um pouquinho. ― Estou em casa, por quê?

— Você não apareceu na clínica durante uma semana! Angeles, por Deus, o que está acontecendo com você?! — Ouvi-a reclamar, parecendo claramente preocupada.

— Agora não, Dana, estou ocupada — murmurei.

­— Estou indo pra aí! — vociferou, desligando na minha cara. Ai, que ótimo.

Estiquei as pernas no sofá, com o álbum de fotos repousado sobre as minhas coxas. Meu cabelo estava emaranhado e meu pijama sujo de café com leite, mas eu não me importei. era minha amiga mais antiga. Ou a única, devo dizer. Desde pequenas nós brincávamos juntas e ela sempre me levava para sua casa e me dava sorvete quando eu estava chateada.

Após a morte de Gabriel descobri por meio de um advogado responsável pelo seu testamento que ele não havia alugado aquele apartamento, ele havia o comprado e deixado para mim, bem como todo o dinheiro que tinha guardado para a faculdade.

Assim sendo, Miguel se mudou para o meu apartamento e ficou responsável por mim até eu completar meus dezoito anos e, depois disso, não tive problemas em começar a trabalhar numa clínica para idosos com mal de Alzheimer e me sustentar por um tempo.

Depois de alguns minutos folheando o álbum de fotos e fazendo preces silenciosas para que Deus tomasse conta da alma do meu irmão, ouvi três batidas na porta, indicando que Dana havia chegado.

— Entra! — gritei do sofá mesmo, já que a porta estava aberta.

Ouvi o familiar som do salto alto da minha amiga contra o piso e logo observei sua figura aparecer na minha frente com uma careta raivosa, apoiando as mãos uma de cada lado da cintura.

— O que pensa que está fazendo consigo mesma? — começou e eu revirei os olhos. — Olhe o estado deplorável que você está, Angeles Sanchez Del la Vega.

— Não me chame pelo meu nome inteiro, sabe que não gosto.

— Vai renegar suas raízes espanholas, Sanchez Del la Vega?

— Cállate, desgraciada (cale-se, infeliz) — resmunguei deixando meu sotaque aparecer, tacando uma almofada na cara dela.

Dana riu, maravilhada. Ela amava quando eu falava em espanhol, principalmente se fosse para xingá-la. Vai entender.

— Vamos, Del la Vega, reaja!

— Não, me deixe curtir minha fase emo em paz, por favor! — exasperei, levantando do sofá e deixando o álbum de lado.

Diana se aproximou e deu uma espiada nas fotos que eu estava vendo, deixando um sorriso triste transparecer no seu rosto.

— Sinto a falta dele também, Angeles.

— Eu sei. Tem lasanha no forno, se você quiser. Estou indo tomar banho.

Eu odiava falar sobre o Gabriel. Ninguém, ninguém, entendia o que ele significava para mim. Jamais entenderiam a conexão que nós tínhamos.

Caminhei calmamente até meu quarto, não sem antes ouvir Diana dizer baixinho:

— Quando será que ela vai superar, Gabriel? Quando?



— O que é difícil para ele, Ezazel? — Resolvi perguntar assim que notei que o arcanjo havia ido embora.

O moreno piscou lentamente, dando um suspiro logo em seguida.

— É complicado, senhorita Angeles.

Acenei com a cabeça, ainda observando o céu.

— Nós não sentimos fome e nem vontade de usar o banheiro e afins? — questionei, tentando puxar assunto.

— Não. Bem, pelo menos não aqui no seu paraíso. Não precisamos nos alimentar, nem usar o banheiro e nem nada que os humanos façam.

— Hm... — resmunguei — E quanto ao tempo? Não sei direito que horas são, nem que dia e nem sei o porquê não escurece logo.

— Você é quem controla tudo isso. Mesmo que não perceba, o seu humor acaba afetando o lugar que estamos. Quando chegou aqui, estava visivelmente feliz e animada, por isso o céu estava claro e o Sol raiando. E agora que está assim, pensativa, o Sol está se pondo. E sei que, por alguma razão, você não quer que escureça.

Mordi o canto da bochecha, absorvendo aquelas afirmações.

— Certo...

— Você quer saber quando isso irá acabar, não é?

Virei a cabeça na direção dele, arqueando as sobrancelhas, num sinal claro da minha surpresa.

— Como você sabe?

— Porque eu também pensava nisso quando estava no seu lugar. Era torturante não saber as razões pelas quais eu fui escolhido e quando iria acabar essa iniciação.

— E?

— A iniciação de cada anjo é diferente — começou ele, com seu tom sério de professor diplomático da faculdade. — Pelo que eu sei, a maioria dura de três a seis meses, dependendo do tempo de evolução de cada ser. A minha durou dois meses, longos e torturantes dois meses. Nesse meio tempo, nosso tutor nos avalia e tira suas conclusões da nossa preparação para cuidar e zelar do nosso protegido. No meu caso, eu não fui resignado para um humano e sim para um anjo. Você, em específico.

Meu queixo quase caiu e eu olhei para ele com perplexidade.

— Você é meu guardião?

— Quase isso.

— Coño... (porra) — E soltei um assovio.

— Olha a boca, Angeles, não vou falar de novo.

— Você entendeu o que eu disse? — perguntei interessada.

— Sim, entendi, eu sei um pouquinho de espanhol. Mas, não diga mais palavrões, okay?

Dei uma risadinha, coçando a nuca.

— Foi mal, é que minha mãe era uma baita boca suja e acabei pegando essa mania feia dela.

— Sua mãe? — indagou curioso.

Acenei a cabeça, me levantando.

— Quero dar uma olhada por aí. Você me leva?

— Na realidade nós ainda não acabamos por hoje... Mas, como você se demonstrou muito forte em superar sua lembrança, vou te dar uma folga.

“Eu não fui forte, Enziel. Fui covarde. Bloqueei a lembrança novamente para não ter que lidar com ela”, pensei frustrada.



Eu estava morrendo de vergonha. Aquele era o dia em que os funcionários da clínica se reuniam para fazer alguma atividade que envolvesse lazer juntamente dos idosos, e a miserável da Diana resolveu abrir o bico e falar que eu sabia tocar piano. Eu queria matá-la, esfolá-la, arrancar cada maldito fio loiro do cabelo oxigenado daquela infeliz. Ela sabia muito bem que desde os dez anos eu não praticava e que era muito tímida ao tocar. Porém a vadia convenceu o diretor da clínica (dando algo a ele, se é que me entendem) a me convidar para tocar naquela tarde.

Estralei os dedos, encarando as teclas do piano com relutância.

— Angeles, Angeles, Angeles... — os velhinhos diziam em coro, batendo palmas animadas.

Dei um sorriso fraco, sentando-me no banquinho ao mesmo tempo em que Diana berrava animada pedindo por silêncio.

Movi os dedos até as teclas, posicionando-os, e comecei a tocar timidamente, fechando os olhos para escutar as notas suaves que se formavam conforme eu tocava.

A música começava lenta e suave, com notas graves e melancólicas. A partir de certo momento eu não sabia mais onde estava, apenas movia a cabeça conforme tocava, com a música chegando ao seu ápice, raivosa e harmoniosa, as notas agudas estralando no local, fazendo com que eu entreabrisse a boca para soltar um suspiro, enquanto movia os dedos rapidamente pelas teclas.

No momento em que o ritmo foi diminuindo, notei as lágrimas que desciam pelas minhas bochechas, e não parei de tocar um segundo sequer. Era a música preferida do meu falecido professor... e pai.

Assim que terminei os aplausos eclodiram no lugar e eu abri os olhos, observando com admiração os velhinhos se esforçarem para aplaudirem de pé.

Agradeci a todos e me dirigi ao jardim, ciente de que no outro dia apenas poucos dos pacientes se lembrariam da minha pequena apresentação.

— Você foi incrível. ­

Virei para trás, assustada com a voz grossa e rouca, mas sorri.

— Oi, Benjamin Franklin.

Ele riu.

— Já disse para me chamar só de Ben. E pode parar de zoar meu nome, hein.

Ignorei seu comentário.

— Obrigada. Provavelmente semana que vem nenhum deles irá se lembrar, mas fico feliz que tenham se divertido.

Ele se aproximou.

— Estava com saudades, Angel.

Meu batimento cardíaco falhou por um segundo e eu quase engasguei com a falta de ar. Droga, ele não fazia ideia de como mexia comigo.

Ben levantou sua mão até meu rosto e tocou minha bochecha com carinho.

— Como sabia que eu estava aqui? — sussurrei baixinho, fechando os olhos para aproveitar o afago que ele fazia na minha bochecha.

— Diana me trouxe.

Dei um sorriso debochado.

— É claro que sim.

— Eu sei que está sorrindo, posso sentir suas bochechas levantarem — murmurou, se aproximando mais.

Conforme ele chegava mais perto o cheiro do seu perfume amadeirado enchia minhas narinas, impossibilitando a ideia de eu me afastar.

— Não é justo — reclamou. — Não é justo que eu não possa ver você.

Suspirei com pesar, observando os óculos escuros que tapavam os olhos de Ben. Ele havia nascido cego, com uma doença rara que nunca me explicava exatamente o que era. Nunca vi a cor de seus olhos.

— Mas você pode me sentir, Ben. — Peguei sua outra mão, levando-a até meus cabelos, onde ele os alisou, dando um sorriso. Puta merda, e que sorriso.

Ben era o meu tipo de cara. Tanto interiormente quanto fisicamente. Havíamos nos conhecido há algumas semanas atrás, quando ele estava visitando seu tio avô Henry. Um senhor adorável, que sempre me chamava de menina moça por não se lembrar do meu nome.

Ele havia solicitado uma enfermeira para levá-lo até o quarto do seu tio e por sorte a escolhida fui eu. Quando cheguei à recepção quase caí para trás. Ele estava sentado num dos bancos, com uma muleta ao lado e batendo o pé insistentemente no chão. O cabelo liso estava jogado para o lado num topete charmoso e a luz que refletia dava a impressão de haver tons dourados naquele castanho. Os óculos escuros combinavam perfeitamente com a jaqueta de couro, a camisa vermelha lisa e calça jeans azul que ele vestia. Os traços do rosto eram másculos, a não ser por seus lábios que pareciam tão macios quanto sua pele.

Naquele dia nós passamos a tarde toda conversando e eu percebia o quanto aquele cara era inteligente e bem humorado, apesar de não enxergar. Com o passar do tempo, nós acabamos nos aproximando e ele insistia em ficar tocando em mim. Eu adorava, lógico.

— Não sabia que tocava piano — dizia ele, ainda passeando as mãos pelo meu rosto.

— Há anos eu não tocava.

— Foi incrível, Angel. Só me deu mais vontade ainda de... — declarava ele, quando de repente parou.

— De quê? Ben, o que houve? — perguntei preocupada, já que ele havia afastado as mãos de mim e parado de falar.

— Quais as chances de um cara cego beijar uma garota incrível como você?

Paralisei. Oh, Deus, eu vinha fantasiando esse momento desde que o vi pela primeira vez.

— Ben... — Foi a minha melhor resposta. Pode rir.

Ele levou as mãos até a minha cintura, onde deu um leve puxão, fazendo com que eu batesse em seu peito e soltasse um arfar.

Benjamin abaixou a cabeça, fazendo com que eu batesse o nariz nos seus óculos, o que arrancou uma risada de nós dois.

— Acho que vou precisar de um GPS para achar o que eu quero — murmurou roçando o nariz no meu, até que encostou seus lábios bem de leve nos meus, num selinho. — Achei — sussurrou antes de me beijar.

Notas finais
¹: Esse trecho eu retirei do livro Halo, página 129, da autora Alexandra Adornetto. Espero que tenham gostado. Digam-me o trechinho que vocês mais gostaram que eu digo o meu XD.