Ao infinito...

6 Capítulo 6 – Hallelujah.


Notas iniciais
Boa leitura. P.S: Os itálicos são flashbacks. Betado por Visenya Targaryen.

Eu havia passado longos três meses revivendo minhas lembranças. E acredite quando eu digo que não foi fácil. Era estranho não poder tocar e nem conversar com ninguém. O arcanjo estava certo quando havia dito que seria extremamente doloroso, pois, na maioria do tempo, era apenas isso que eu sentia. Angústia, medo, culpa, dor. Principalmente dor. Meu peito estava constantemente esmagado por uma sensação sufocante e tudo que eu desejava era dar um fim naquilo tudo.

― Hoje é o grande dia! ― exclamou Enziel, visivelmente animado. ― Você passará pela sua última lembrança e eu vou lhe avaliar para decidir se está pronta ou não. Lembre-se de tudo que lhe ensinei durante esse período, hein.

Sim, Enziel havia pegado minha mania de colocar o “hein” no fim das frases. Era uma graça... Só que não. “De onde eu venho, plágio é crime, queridinho”, foi o que eu quis dizer, porém optei por ficar quieta. O anjo esbanjava felicidade, e eu só queria uma porção de batatas fritas. Estava com tanta saudade de sentir o gosto dos alimentos, o odor e...

― Senhorita Angeles, você está me ouvindo?

Revirei os olhos.

― Sim, mestre.

Ele resmungou alguma coisa sobre respeito, sobre odiar meu sarcasmo e blá blá blá. Para ser sincera, eu só queria ir para casa. Voltar para o meu apartamento, para a clínica, para os meus amigos... para o Ben.

― Lembra-se do que combinamos, certo?

― Uhum.

Ele estreitou os olhos na minha direção, duas pérolas violetas desconfiadas.

― Posso lhe fazer uma pergunta?

Olhei para ele e arqueei as sobrancelhas, como quem diz “você já fez, não é mesmo?”

― Você gostou do tempo que passamos juntos?

Meus lábios começaram a tremer e eu juro que retirei forças de outro plano espiritual para tentar segurar uma risada. Mas não deu. Desculpe, sociedade.

Enziel me olhou feio e eu tentei parar de rir tapando a boca com a mão e apertando minha barriga que já começava a doer.

― Qual é a graça? ― perguntou seco.

Balancei a cabeça em negativo e suspirei, contendo os risos que ainda teimavam em escapar da minha garganta. Respirei fundo, virando de costas para ele e tentando manter a calma.

A questão era que eu não ria daquela forma já fazia um tempo, e quando eu o ouvi dizer aquilo várias lembranças de momentos engraçados me vieram a mente. Foi como um interruptor que as ligou assim que eu soltei a primeira gargalhada.

― Ezazel, você pode...

― É tão difícil assim proferir o meu nome? — Ele me interrompeu, bufando.

― Não.

― Então é mesmo implicância sua, senhorita Angeles?

― Por que me chama de senhorita? Nós aparentamos ter a mesma idade, ora bolas.

― Existe uma coisa chamada respeito, se me permite colocar essa palavra como algo que deveríamos ter para com o outro.

Dei de ombros e me virei para ele, paralisando logo em seguida.

Ele me olhou com o cenho franzido e tudo que eu pude fazer foi apontar para trás dele.

― Mas o quê... ― dizia ele, virando-se na direção em que eu apontava.

― Saudações. ― Um coro de vozes entoou, todas suaves e harmoniosas.

Meu corpo estava extasiado, tamanha era a emoção que eu estava sentindo naquele momento. Quando eu era humana, por assim dizer, nunca fui muito religiosa. Tinha fé em Deus, porém nunca realmente parei para pensar em anjos, arcanjos e serafins. Porém a cena que eu via a minha frente era simplesmente surreal. Respirei fundo e soltei um “meu Deus”.

Meu paraíso estava repleto de anjos, todos com suas asas abertas e resplandecentes. Suas roupas eram de tons claros, como azul, amarelo, verde, entre outras. As únicas vestes brancas em meio àquele círculo de anjos eram as minhas e as de Enziel.

Meus olhos arderam e minha garganta apertou. Eles sorriam para mim, seus rostos solenes, caridosos. Meu paraíso havia se tornado ainda mais belo e tive de sufocar um suspiro de admiração quando notei que havia mais deles planando no céu. Eles voavam com graciosidade, alguns juntos e rindo, outros apenas com os braços abertos e os olhos fechados. Desejei ter asas por um momento. Queria juntar-me àqueles anjos, sentir a paz que eles sentiam, a compaixão e a solenidade que eles transpassavam.

― Nós viemos prestigiar você, minha querida ― disse uma voz já conhecida por mim.

Enxuguei as lágrimas teimosas que insistiam em molhar meu rosto e tentei amenizar um pouco o sorriso que tomava o meu rosto.

― Arcanjo Gabriel, quanto tempo ― sussurrei indo de encontro a ele.

Ele vestia uma roupa azul clara, que só serviu para destacar ainda mais seus olhos cristalinos. O arcanjo sorriu e abriu os braços, convidando-me para um abraço. O abracei forte, pois eu realmente estava com saudades dele. Fazi três meses que eu não o via.

Como eu esperava, uma paz se apossou do meu corpo e logo senti meus membros relaxarem e meu coração bater mais calmamente.

― Hoje é o grande dia ― murmurou ele, e naquela hora eu realmente me senti especial.



― Menina moça, você poderia pegar uma xícara de café para mim, por favor?

― É pra já, senhor Henry. Dois cubinhos de açúcar, certo?

― Sí, chica adorable (sim, menina adorável) ― respondeu ele. Sorri, indo em direção à garrafa térmica.

Coloquei o café numa xícara de porcelana branca com detalhes em dourado, sendo aquela a preferida dele. O senhor Henry era bem exigente quanto às suas manias.

Entreguei a xícara a ele e sentei-me na poltrona ao seu lado. O quarto dele era parcialmente grande, contendo uma cama, uma estante repleta de livros, um rádio, uma tv e um mini frigobar. A clínica era requintada, isso eu não podia negar. Eles sentiam-se confortáveis ali, apesar de que tudo que precisavam era, na verdade, de gentileza e atenção. Passar um tempo com aqueles senhores era extremamente agradável, apesar das circunstâncias. Requeria muito controle emocional e paciência.

― E então, como sua família está? ― indagou ele com aquele costumeiro sorriso de lado.

Era a quarta vez que ele me perguntava aquilo no mesmo dia. Até que o senhor Henry estava progredindo, afinal.

― Estão todos bem, e perguntam muito do senhor, já que eu comento sempre com eles ― menti, como nas outras quatro vezes.

― Oh, a senhorita é tão gentil. Eu já comentei que acho seu sotaque espanhol extraordinário? ― questionou ele novamente, bebericando seu café.

“Já, senhor Henry, já comentou sete vezes hoje.”

― Obrigada. Meu pai era espanhol e meu irmão e eu praticávamos às vezes. ― Aquilo era verdade. De certa forma, o senhor Henry me confortava apenas por me escutar falar do Gabe. Pouco importava se eram repetidas vezes.

― Incrível.

Sorri com sinceridade. Era praticamente a mesma conversa do dia anterior, mas ele soava tão gentil quanto nos outros dias.

― Hora do remédio, senhor Henry ― avisei checando o relógio que estava pendurado na parede.

Ele assentiu e eu fui até o armarinho, retirando de lá as pílulas certas e enchendo um copo com a água que estava na jarra em cima do criado mudo.

O senhor Henry os engoliu de bom grado e se levantou, rumando para cama.

― Boa noite, menina moça ― murmurou ele.

― Boa noite, senhor Henry.

Fechei a porta do quarto com cuidado, saindo de fininho pelo corredor. Já eram vinte e uma horas e todos provavelmente já estavam descansando. Caminhei calmamente até o jardim, sentando-me num dos bancos.

Chequei o relógio. Ele estava atrasado quatorze minutos. Ergui a sobrancelha direita e levantei o olhar, observando duas sombras se aproximando.

― Oi, coisa linda! ― saudou Dana, puxando-me do banco para um abraço.

― Hola, corazón (oi, coração) ― saudei de volta.

Dana riu e deu um tapa na minha bunda assim que me virei para falar com Ben. Ela estava animada demais para o meu gosto, mas decidi não comentar nada.

Abracei ele, sentindo aquele cheiro amadeirado e gostoso preencher minha alma.

― Hmm, pode ir embora, Diana. ― Soltou Ben de repente, fazendo com que eu sorrisse. ― Quero ficar a sós com a minha namorada.

Ouvi ela bufar e dei uma olhadela por cima do ombro, só para constatar o bico emburrado que ela fez antes de ir embora.

Dei mais uma risadinha, e assim que virei o rosto, fui beijada. Tão calmamente que eu poderia ter saído levitando. Ben suspirou e passou as mãos pelo meu rosto. Eu ainda podia sentir seu hálito quando ele proferiu apenas uma palavra:

― Angel.



Sentir aquela brisa morna, ouvir o som daquelas risadas suaves, ser tomada por aquela paz aconchegante era tudo que eu queria pela eternidade. Aquilo tudo era realmente inexplicável. Jamais encontraria palavras para descrever, tamanha era a perfeição daquele momento.

― Está pronta, senhorita Angeles? ― indagou Enziel, tocando no meu braço gentilmente.

Mal pude conter o sorriso.

― Sim.

― Feche os olhos e me dê as mãos.

Fiz o que ele pediu, sentindo uma queimação se apossar do meu estômago, fazendo com que ele se contraísse.

Ansiedade.



Assim como nas outras lembranças das quais eu tive de relembrar, não pude tocar em ninguém. As pessoas andavam apressadas pela rua, trombando umas nas outras, rindo, mexendo no celular, dando as mãos, tossindo, arrumando o cabelo.

E eu estava lá, inerte, apenas observando um rapaz alto se sobressair no meio da multidão.

― É ele.

Meu coração bateu forte e eu olhei para o lado assustada, notando o anjo de cabelos amendoados ao meu lado.

― E-ele quem? ― gaguejei, temendo pela resposta.

― Venha.

Ele começou a seguir o rapaz, mas parou logo em seguida quando percebeu que eu continuava estática.

Eu não queria ir. Não queria olhar para ele.

― Vamos, senhorita Angeles. É necessário que você veja isso para que possa concluir sua iniciação.

Meu corpo estava simplesmente paralisado devido ao medo que eu sentia naquele instante.

Meu assassino. Era ele que havia passado na minha frente.

Senti uma mão macia e gélida tomar a minha, entrelaçando nossos dedos. Enziel me puxou suavemente com ele, e juntos nós caminhamos na direção que o rapaz havia seguido.

Após passarmos por quatro quarteirões, finalmente reconheci o lugar em que estávamos.

A clínica.

― Eu quero que você se lembre de respirar, que canalize os pensamentos ruins, quero que se lembre do amor divino.

Era ele.

― Enziel, me tira daqui... ― sussurrei aflita.

― Eu sei que você consegue, Angeles. Eu acredito em você.

Apertei a mão dele com força, sentindo minha respiração ficar cada vez mais descompassada conforme o rapaz ia se aproximando da clínica.

― Me acorde, por favor, me tira daqui! ― gritei, tentando soltar a mão dele, mas ele a agarrou com mais força ainda.

Uma figura de cabelos negros presos em um coque e vestida com um uniforme branco saiu pelos portões da clínica.

Ele sacou um calibre 38 da calça.

Soltei um grito agudo, sentindo meus olhos queimarem fortemente e minha garganta fechar.

Ela soltou o coque, fazendo com que os fios longos se espalhassem pelas suas costas, balançando a cabeça logo em seguida.

O rapaz parou por um instante, observando-a. Assim que ela parou no meio da calçada para checar o celular, ele mirou na nuca dela.

E atirou.

Ouvi um estrondo alto logo em seguida. Minha cabeça latejou e eu senti um enjoo tão grande que tive de virar para o lado e vomitar.

― Lembre-se de respirar! ― Ouvi alguém dizer em meio ao zumbido na minha cabeça.

A dor era cada vez mais forte, atingindo-me como descargas elétricas, esmagando o meu crânio, provocando gemidos de desespero em mim.

Tão logo quanto chegou, ela se foi. Pisquei os olhos lacrimejantes, tentando focá-los e observei Enziel olhar caridoso para mim.

― Observe.

Olhei para o meu corpo caído no chão, manchado de sangue. Meus cabelos negros espalhados pela calçada, meus braços contorcidos devido à queda repentina.

O rapaz se aproximou, ajoelhando-se do meu lado.

― Aqui estou, Senhor. Sou eu, Senhor? Ouvi-o chamando na noite. Irei, Senhor, se me conduzir. Levarei Seu povo em meu coração ― cantou ele baixinho, passando a mão nos meus cabelos. Logo após ele fez o sinal da cruz e se levantou, caminhando na mesma direção, ainda de costas para mim.

Corri até meu corpo, meu coração martelando no peito.

― O que eu devo fazer? E-eu...

O anjo tremeluziu e desapareceu, deixando-me confusa ao lado do meu próprio cadáver.

Pessoas se aproximaram, gritando desesperadas por socorro. Algumas ligavam apressadamente para a emergência, outras apenas tapavam a boca numa expressão horrorizada.

― Diana, o que está acontecendo? ― ouvi uma voz próxima perguntar.

Levantei o olhar e observei minha amiga chorar baixinho, enquanto Ben continuava estático, esperando por uma resposta.

Ela estava sendo forte, muito forte. Por ele. Por mim.

― Ben...

― Você está chorando, Diana? O que aconteceu? Está me deixando preocupado! ― exclamou ele, ajeitando os óculos escuros e batendo com a bengala no chão. Era um tique típico de quando ele estava nervoso ou ansioso. Ou ambos.

― Ela... morta. ― Foi o que a minha amiga conseguiu dizer antes de desabar no chão, chorando copiosamente.

Levantei-me rapidamente, indo até ela.

― Eu estou aqui, Dana ― chamei-a pelo apelido que ela tanto gostava, tentando inutilmente abraçá-la. ― Por favor, eu estou bem, me ouça!

Ela colocou as mãos no rosto e seus ombros tremiam conforme ela soluçava.

Olhei para cima e Benjamin estava estático. Coluna ereta, braços na lateral do corpo.

― Quem, Diana? ― perguntou ele receoso.

― Eu sinto muito, talvez se eu não tivesse me atrasado... Ben, me desculpe, Angeles, me desculpe, me desculpe! ― respondeu ela com a voz estrangulada.

Ele soltou um arfar e balançou a cabeça em negativo, largando a bengala no chão e abraçando o próprio corpo.

― Não... Aquele tiro que nós ouvimos... ele?

― Sim, ele a atingiu.

Observei ele se virar e começar a andar na direção oposta a passos rápidos e desajeitados.

― Benjamin! Onde você vai? ― berrou Diana correndo atrás dele.

Ela se virou e olhou mais uma vez para o local onde meu corpo estava caído, franzindo o cenho para as pessoas que ameaçavam tirar fotos.

Ela mudou de direção, correndo até mim e empurrando todos que via pela frente. Ela gritou e afastou a todos, como uma leoa que protegia sua cria.

Que no caso era eu.

Morta.

Sorri em meio às lágrimas quando esse pensamento me veio à mente.

Enxuguei o rosto e respirei fundo, tentando me acalmar. O que eu devia fazer, afinal? Qual era o objetivo de rever tudo aquilo?

Logo uma ambulância chegou. Os paramédicos saltaram para fora do veículo carregando uma maca às pressas, porém desaceleraram o movimento assim que perceberam meu óbito. Dois deles balançaram a cabeça em negativo, colocando-me na maca e cobrindo-me com apenas um lençol branco. Observei eles fazerem algumas ligações, e então a ficha caiu.

― Eu estou morta... ― murmurei, sentindo-me completamente vazia e idiota ao mesmo tempo, apenas por me dar conta daquilo depois de tantas coisas pelas quais eu havia passado.

― Sim, agora você é apenas luz, Angeles. Um ser divino. Parabéns, a senhorita concluiu a iniciação.

Pisquei lentamente, virando o rosto para o lado para contemplar o sorriso mais aberto que o anjo Enziel havia me dado desde que eu o tinha conhecido.

Era lindo.

― Obrigada. ― Foi o que consegui sussurrar, ainda abalada com tudo aquilo. Fechei os olhos por um instante e quando os abri, ouvi uma salva de palmas.

Eu estava de volta ao meu Paraíso, e finalmente pude respirar aliviada ao perceber que tinha acabado.



― Alguém pode me explicar o objetivo disso tudo? ― questionei alto em meio ao burburinho que se formou assim que o arcanjo Gabriel me conduziu até um lago próximo. A grama estava aparada, porém meus pés descalços pinicaram e eu senti uma vontade imensa de sentar no chão e coçá-los loucamente.

― Você admitiu que estava morta, certo? ― rebateu Enziel e eu assenti, um pouco cabisbaixa. ― Com isso, seu espírito evoluiu, senhorita Angeles. Mesmo que não seja capaz de admitir, você superou seu assassinato. Sentiu medo no início, contudo a sua sede por ajudar e confortar sua amiga e ― Enziel bufou e revirou os olhos ao continuar sua explicação ― seu amado, superou os sentimentos de angústia, medo e raiva que você sentia enquanto revivia aquela lembrança. O objetivo é provar a sua força e determinação em proteger as pessoas, mesmo colocando a si própria em segundo plano.

Arqueei as sobrancelhas e respirei fundo, tentada a bombardeá-lo de perguntas.

― Está na hora! ― O arcanjo exasperou e bateu palmas, tentando silenciar a todos.

Enziel se postou ao meu lado, com um sorriso tão largo e sincero que me causou certa desconfiança. Por que estávamos perto do lago?

Eu não sabia nadar, mas que coisa!

Também havia percebido que todos os anjos, serafins e o arcanjo Gabriel estava com as asas recolhidas, mas mesmo assim ainda emitiam um brilho extraordinário de suas roupas claras.

― Senhorita Angeles, primeiramente quero dizer que tenho muito orgulho e sou extremamente honroso por ser supervisor da sua iniciação. Peço agora a colaboração de todos para que possamos batizá-la. ― A voz do arcanjo se sobressaiu e reverberou, tão majestosa que meu corpo se arrepiou. ― Enziel, dou a benção para que você tenha a graça de batizar sua aprendiz. Assim como um dia eu tive a alegria de batizá-lo. O Pai nos escolheu e elevou nosso espírito para que possamos sempre proteger e pregar a paz e a compaixão naquele mundo. Que assim seja.

Uma salva de palmas eclodiu pelo meu Paraíso e senti uma mão me empurrar levemente. Enziel me conduziu até a beirada do lago e mesmo não sabendo nadar, confiei nele. Nós adentramos até a água bater na metade da minha cintura, morna e suave.

― Você foi escolhida pelo Pai, Angeles ― começou Enziel, sua voz macia acariciando meus ouvidos tão docemente que fechei os olhos para escutar. ― Seu espírito é banhado por luz, é algo tão esplendoroso que no momento em que a vi, temi ficar cego, tamanho era o seu brilho. ― Ele se aproximou por trás de mim e segurou nos meus ombros, enquanto continuava seu discurso ― Rogo ao Pai que te dê a sabedoria necessária para enfrentar as provas que virão. Rogo ao Pai para que ele olhe por você, em todos os instantes em que estiver completando a sua missão. Rogo ao Pai para que ele te cubra com o fogo celestial em momentos de perigo. Hallelujah!

Eu estava tão emocionada com aquelas palavras que mal notei quando um coro suave de vozes e sons melodiosos de harpa começaram a ressoar, todos juntos:

“São tantas lutas pra ganhar
E o mundo custa a escutar
Que a vida está gritando
Aleluia

Hallelujah, hallelujah, Hallelujah

Segura firme a minha mão
Que o nosso amor
É feito de aleluia*

O coro de vozes continuou repetindo “Hallelujah” conforme Enziel tombava meu corpo para trás e me afundava devagar na água. Emergi, sentindo minhas emoções se embaralharem, ouvindo glórias e améns ressoarem.

Passei as mãos pelo rosto e, lentamente, senti os músculos das minhas costas se contraírem e queimarem, e logo após relaxarem conforme algo macio e morno roçava minha pele. Fechei os olhos me deliciando com aquela sensação, até que ouvi arquejos admirados.

Abri os olhos e movi os ombros, sentindo um peso incomum vir deles.

Observei pontas curvadas e brancas resplandecerem à minha frente e sufoquei um soluço quando estiquei o braço para tocar uma delas e sentir a plumagem macia e quente reagir ao meu toque.

Eram as minhas asas.

Notas finais
*Música “Hallelujah” interpretada por Sam Alves. Compositor: Leonard Cohen. Eaí :3?