Ao infinito...

4 Capítulo 4 – Nirvana.


Notas iniciais
Olá, pessoas virtuais. PRIMEIRAMENTE OBRIGADA VICK, SUA LINDAAAAA! Amei a recomendação, chorei, pulei de alegria, fiquei em estado de neurose aqui hahaaha. Sinceramente, fico muito agradecida por você estar gostando tanto da história, já que é uma leitora compulsiva e eu não chego nem aos pés dos autores veteranos, mas dou meu melhor. Obrigada mesmo, eu me emocionei muito e dedico esse capítulo à você, querida! Boa leitura. P.S: Os itálicos são flashbacks, porém as lembranças no fim do capítulo não estão em itálico porque ela está presente. Betado por Visenya Targaryen.

Ezazizel e eu andamos por tanto tempo, tanto tempo, que achei incrível minhas pernas não terem se tornado apenas cotoco¹. Conversamos pouco no caminho, porém ele parecia querer manter uma distância razoável de mim, o que só me irritou ainda mais... E, bem, quando estou irritada é óbvio que irrito a pessoa que me deixou irritada e acabo a irritando também, sabe?

— Você é virgem, Ezazel? — questionei inocentemente caminhando atrás dele. Observei com animação as costas do anjo enrijecerem. — Nós já estamos chegando? Hein? Hein? E o arcanjo Gabriel, aonde ele foi? E nós, aonde vamos? Você não achou meu paraíso incrível? Aqui é tão perfeito, acho que poderia passar a eternidade apenas observando essa paisagem. Mas e o seu paraíso? Eu posso vê-lo assim como você vê o meu? E o do arcanjo? Ele tem um também e... — Eu tagarelava sem parar apenas para irritá-lo mesmo, até que ele finalmente cessou a caminhada e virou para trás com um olhar gélido.

— Peço, por gentileza, que pare de me fazer perguntas desnecessárias. Não irei respondê-la e nossa pequena viagem se tornará bem mais agradável se manter sua boca fechada — disse irritadiço, aproximando-se de mim com uma expressão intimidadora. — Estamos entendidos?

Maneei a cabeça positivamente, envergonhada por ter tomado uma bronca daquelas. Continuamos caminhando, em silêncio desta vez.

Aproveitei que Ezaziel estava distraído para poder observá-lo melhor.

Os cabelos castanhos amendoados brilhavam sob a luz do sol reluzindo nos cachos que balançavam suavemente conforme ele caminhava. As costas largas, que abrigavam aquelas lindas e celestiais asas, estavam cobertas por uma regata branca, da mesma tonalidade de sua calça moletom. Baixei meu olhar para os pés descalços dele, notando como eram brancos e frágeis.

— Pare de me analisar — balbuciou, lançando uma olhadela para mim por cima do ombro.

Revirei os olhos e resmunguei de volta.

— Argh, você é tão desagradável. Vai me falar aonde estamos indo ou não? Estou cansada de ficar sem respostas!

— Chegamos — anunciou, virando-se para mim.

Soquei o ar ironicamente, fingindo empolgação.

Havíamos parado perto de um lago, e, fiquei me perguntando o que diabos estávamos fazendo ali, porque, afinal, eu não sabia nadar.

Arqueei as sobrancelhas e cruzei os braços, esperando meu querido mentor começar a explicar.

Enziel estalou o pescoço e soltou um longo suspiro.

— Bom, vamos lá. Hoje começaremos a sua iniciação para que você fique pronta para cuidar do seu protegido, entendeu? — Acenei positivamente com a cabeça e ele continuou a explicar. — Subiremos naquela montanha ali — Enziel apontou para além do vale, onde as montanhas esverdeadas encontravam-se —, e você entrará num estado de... como posso explicar... de zen, de nirvana, de hipnose, seja lá como queira chamar. Vou te instruir a pensar, agir e sentir como uma verdadeira anja da guarda. Você terá que confrontar seus medos, suas aflições passadas e isso será extremamente doloroso, porém necessário. Alguma dúvida?

Meu peito doeu quando ele terminou de explicar. “Confrontar seus medos, suas aflições passadas e isso será extremamente doloroso.”

A frase se repetiu na minha mente enquanto eu sentia meu corpo esquentar.

— Ei, vai ficar tudo bem, eu estarei lá com você. Enfrentará suas lembranças junto comigo. Quer dizer, não todas, algumas você terá que ir sozinha, contudo eu estarei lá — sussurrou se aproximando de mim, com os olhos violetas repletos de preocupação.

— Okay, vamos — respondi baixinho.

Ouvi um barulho familiar de asas batendo e logo Enziel estava planando a poucos centímetros do chão, estendendo a mão para mim.

Olhei assustada para ele e franzi o cenho, balançando a cabeça negativamente.

— Mas nem pensar que eu vou... — dizia, quando de repente ele se abaixou rapidamente na minha direção, puxando-me com força contra seu peito e segurando-me com firmeza.

— Não vou te deixar cair — murmurou, esbanjando um sorriso de lado.

Resmunguei trincando os dentes e me atrevi a olhar para baixo. Estava alto, muito alto. Fechei os olhos com força e senti o corpo de Enziel tremer levemente ao mesmo tempo em que ele ria.

Logo estávamos planando tão suavemente que criei coragem para espiar. Meu paraíso estendia-se diante dos meus olhos, brilhante e colorido. O lago agora parecia apenas uma pequena piscina, e as árvores, pontinhos verdes de diferenciados tons.

Enziel segurava-me pela cintura, de modo que minhas costas estavam prensadas contra seu peitoral. Abri os braços e gargalhei alto, sentindo-me tão esplendorosa e infinita como nunca havia sentido antes. Aquela sensação era mesmo digna do Paraíso.

Ei, posso falar com você? — Escutei a voz do Gaga perguntar num tom calmo.

— Uhum, deixa só eu terminar isso aqui. — Miguel respondeu, provavelmente apertando os botões do videogame freneticamente.

Eu estava deitada no tapete felpudo da sala de barriga para baixo, desenhando a minha família. Gaga tinha ficado tão bonito no desenho! Miguel também. Os dois sorriam, me dando uma das mãos, e eu me desenhei no meio. Nossa casa estava logo atrás, colorida de amarelo. Pintei o chão de verde, porque nosso jardim era daquela cor.

Droga, Gabe, pare com isso. — Escutei Miguel dizer num tom irritado.

Virei-me para trás e observei o Gaga bagunçar os cabelos do Miguel, enquanto ele tentava jogar e se afastar da mão do irmão mais velho ao mesmo tempo.

Gaga deu uma gargalhada, tomando o controle das mãos de Miguel e pausando o jogo.

Eu já sabia o que eles iam conversar. Minha barriga embrulhou e eu fiquei com medo do que iria acontecer depois.

Eu vou sair de casa — Gaga começou, com um tom tão calmo como se estivesse falando o que teria para o jantar.

Miguel arregalou os olhos azuis e abriu a boca para protestar, porém o Gaga foi mais rápido e continuou a dizer:

Eu quero que a Angeles possa ter uma vida normal, compreende, Miguel? Quero que ela viva a adolescência dela longe de todo esse ódio e humilhação. Nos mudaremos para um apartamento não muito distante daqui, então você poderá nos visitar sempre que quiser.

Miguel acenou com a cabeça positivamente, parecendo triste. Levantei do sofá com o desenho nas mãos e entreguei para ele.

— Miguel, eu fiz esse desenho, viu como ficou bonito? Pode pegar pra você!

Ele olhou para o desenho e fungou baixinho enquanto me puxava para um abraço.

Gaga se juntou a nós, amassando-nos com seus braços gigantes. Ficamos abraçados por um tempo, até que a mamãe entrou na sala.

Aquela hipnose louca do Ezequiel estava começando a me dar dor de cabeça. Ele murmurava palavras desconexas conforme eu permanecia deitada e com os olhos focados no céu. A vista de cima da montanha era coisa de louco e eu me sentia bem em estar ali. Porém a dor realmente começou a me incomodar. Pisquei lentamente, sentindo as pálpebras cada vez mais pesadas.

Abri os olhos devagar, observando com nostalgia o local a minha frente. O apartamento do meu irmão... Do meu Gabe.

Corri o olhar pela sala de estar, notando com carinho todos os porta-retratos, todos os objetos e móveis que faziam aquele lugar tão especial. O cheiro de pão de queijo e café empesteavam o ar e eu aspirei com força enquanto deixava um sorriso se abrir nos meus lábios.

— Angeles, venha tomar café, neném! — chamou uma voz familiar, vinda da cozinha.

Meus olhos marejaram enquanto eu reconhecia aquele tom de carinho. Gabe.

— Gabe! — berrei emocionada.

A saudade esmagava meu peito e eu estava louca para poder enterrar meu rosto no peitoral do meu irmão.

— Já vou, Gabe! — Ouvi minha própria voz responder, com um tom mais infantil.

Paralisei no mesmo instante em que observava uma versão mais nova minha (lá pelos meus doze anos) percorrer a sala rapidamente, desaparecendo no corredor que dava acesso para a cozinha.

Minhas pernas moveram-se automaticamente até a cozinha, onde observei meu irmão bagunçar os cabelos da minha versão mais nova e sorrir.

— Vá comer, garotinha! Ou vai se atrasar para a aula — disse ele.

Que saudade eu estava dos cabelos castanhos e longos que insistiam em cair sobre os olhos azuis dele, irritando-o de vez em quando, fazendo-o jogar a cabeça para o lado enquanto os fios voavam para trás, saindo de sua visão. O queixo furadinho, o maxilar quadrado. Aquele maldito nariz empinado que eu tinha tanta inveja.

Ah, que saudade.

— Irmão... — sussurrei andando até ele e estendendo o braço para tocá-lo.

No mesmo instante ouvi o som da campainha e retrai o braço, olhando assustada para o corredor. Minha versão mais nova saltou da cadeira, deixando de lado um pão de queijo mordido e desaparecendo da cozinha. Fui atrás dela, apreensiva. Eu me lembrava daquele dia.

— Não abra a porta... Angeles, não abra a porta. Não abra essa maldita porta! — berrei desesperada, tentando pegá-la pelos ombros.

A porta se abriu e um tapa estalou no rosto dela... Quer dizer, no meu rosto.

Droga, aquilo tinha doído.

— Sua vadia! Como você ousa? Roubou o Gabriel e agora quer o meu Miguel também? O que você quer com eles, sua bastarda filha da puta?! — berrava a minha mãe, entrando na sala como uma leoa furiosa, empurrando-me com força contra a parede.

Ela continuou a me estapear e a berrar na minha cara, e tudo o que eu conseguia fazer era chorar e chorar e chorar.

— Solte-a. Agora — rosnou Gabriel, andando apressado até a minha versão mais nova. — Solte-a, porra! — gritou ele puxando minha eu do passado pelo braço, protegendo-a dos tapas enfurecidos daquela mulher.

— O Miguel não vai vir pra cá, entendeu? Ele não vai! Eu vou matá-la, Gabriel, eu juro que vou matá-la! — gritou ela, com o rosto tão vermelho quanto um pimentão.

— Cale essa maldita boca e saia da minha casa agora, sua louca! — gritou ele de volta, avançando contra a minha mãe, segurando-a pelos ombros e empurrando-a até a porta.

Escutei um gemido forte e rouco e fechei os olhos com força. Não. Por favor, não, aquilo não.

— O que você...

— Meu filho... meu filho, eu... — Ouvia aquela mulher murmurar, enquanto eu abria os olhos e observava o corpo do meu irmão cair no chão, manchado pelo sangue produzido pela facada que havia levado na barriga.

Notas finais
Algo a ser considerado? Não chorem! kkkk ¹ Cotocos: O que resta de um braço ou uma perna após a amputação.