Ao infinito...
4 Capítulo 4 – Nirvana.
Notas iniciais
Ezazizel e eu andamos por tanto tempo, tanto tempo, que achei incrível minhas pernas não terem se tornado apenas cotoco¹. Conversamos pouco no caminho, porém ele parecia querer manter uma distância razoável de mim, o que só me irritou ainda mais... E, bem, quando estou irritada é óbvio que irrito a pessoa que me deixou irritada e acabo a irritando também, sabe?
— Você é virgem, Ezazel? — questionei inocentemente caminhando atrás dele. Observei com animação as costas do anjo enrijecerem. — Nós já estamos chegando? Hein? Hein? E o arcanjo Gabriel, aonde ele foi? E nós, aonde vamos? Você não achou meu paraíso incrível? Aqui é tão perfeito, acho que poderia passar a eternidade apenas observando essa paisagem. Mas e o seu paraíso? Eu posso vê-lo assim como você vê o meu? E o do arcanjo? Ele tem um também e... — Eu tagarelava sem parar apenas para irritá-lo mesmo, até que ele finalmente cessou a caminhada e virou para trás com um olhar gélido.
— Peço, por gentileza, que pare de me fazer perguntas desnecessárias. Não irei respondê-la e nossa pequena viagem se tornará bem mais agradável se manter sua boca fechada — disse irritadiço, aproximando-se de mim com uma expressão intimidadora. — Estamos entendidos?
Maneei a cabeça positivamente, envergonhada por ter tomado uma bronca daquelas. Continuamos caminhando, em silêncio desta vez.
Aproveitei que Ezaziel estava distraído para poder observá-lo melhor.
Os cabelos castanhos amendoados brilhavam sob a luz do sol reluzindo nos cachos que balançavam suavemente conforme ele caminhava. As costas largas, que abrigavam aquelas lindas e celestiais asas, estavam cobertas por uma regata branca, da mesma tonalidade de sua calça moletom. Baixei meu olhar para os pés descalços dele, notando como eram brancos e frágeis.
— Pare de me analisar — balbuciou, lançando uma olhadela para mim por cima do ombro.
Revirei os olhos e resmunguei de volta.
— Argh, você é tão desagradável. Vai me falar aonde estamos indo ou não? Estou cansada de ficar sem respostas!
— Chegamos — anunciou, virando-se para mim.
Soquei o ar ironicamente, fingindo empolgação.
Havíamos parado perto de um lago, e, fiquei me perguntando o que diabos estávamos fazendo ali, porque, afinal, eu não sabia nadar.
Arqueei as sobrancelhas e cruzei os braços, esperando meu querido mentor começar a explicar.
Enziel estalou o pescoço e soltou um longo suspiro.
— Bom, vamos lá. Hoje começaremos a sua iniciação para que você fique pronta para cuidar do seu protegido, entendeu? — Acenei positivamente com a cabeça e ele continuou a explicar. — Subiremos naquela montanha ali — Enziel apontou para além do vale, onde as montanhas esverdeadas encontravam-se —, e você entrará num estado de... como posso explicar... de zen, de nirvana, de hipnose, seja lá como queira chamar. Vou te instruir a pensar, agir e sentir como uma verdadeira anja da guarda. Você terá que confrontar seus medos, suas aflições passadas e isso será extremamente doloroso, porém necessário. Alguma dúvida?
Meu peito doeu quando ele terminou de explicar. “Confrontar seus medos, suas aflições passadas e isso será extremamente doloroso.”
A frase se repetiu na minha mente enquanto eu sentia meu corpo esquentar.
— Ei, vai ficar tudo bem, eu estarei lá com você. Enfrentará suas lembranças junto comigo. Quer dizer, não todas, algumas você terá que ir sozinha, contudo eu estarei lá — sussurrou se aproximando de mim, com os olhos violetas repletos de preocupação.
— Okay, vamos — respondi baixinho.
Ouvi um barulho familiar de asas batendo e logo Enziel estava planando a poucos centímetros do chão, estendendo a mão para mim.
Olhei assustada para ele e franzi o cenho, balançando a cabeça negativamente.
— Mas nem pensar que eu vou... — dizia, quando de repente ele se abaixou rapidamente na minha direção, puxando-me com força contra seu peito e segurando-me com firmeza.
— Não vou te deixar cair — murmurou, esbanjando um sorriso de lado.
Resmunguei trincando os dentes e me atrevi a olhar para baixo. Estava alto, muito alto. Fechei os olhos com força e senti o corpo de Enziel tremer levemente ao mesmo tempo em que ele ria.
Logo estávamos planando tão suavemente que criei coragem para espiar. Meu paraíso estendia-se diante dos meus olhos, brilhante e colorido. O lago agora parecia apenas uma pequena piscina, e as árvores, pontinhos verdes de diferenciados tons.
Enziel segurava-me pela cintura, de modo que minhas costas estavam prensadas contra seu peitoral. Abri os braços e gargalhei alto, sentindo-me tão esplendorosa e infinita como nunca havia sentido antes. Aquela sensação era mesmo digna do Paraíso.
∞
— Ei, posso falar com você? — Escutei a voz do Gaga perguntar num tom calmo.
— Uhum, deixa só eu terminar isso aqui. — Miguel respondeu, provavelmente apertando os botões do videogame freneticamente.
Eu estava deitada no tapete felpudo da sala de barriga para baixo, desenhando a minha família. Gaga tinha ficado tão bonito no desenho! Miguel também. Os dois sorriam, me dando uma das mãos, e eu me desenhei no meio. Nossa casa estava logo atrás, colorida de amarelo. Pintei o chão de verde, porque nosso jardim era daquela cor.
— Droga, Gabe, pare com isso. — Escutei Miguel dizer num tom irritado.
Virei-me para trás e observei o Gaga bagunçar os cabelos do Miguel, enquanto ele tentava jogar e se afastar da mão do irmão mais velho ao mesmo tempo.
Gaga deu uma gargalhada, tomando o controle das mãos de Miguel e pausando o jogo.
Eu já sabia o que eles iam conversar. Minha barriga embrulhou e eu fiquei com medo do que iria acontecer depois.
— Eu vou sair de casa — Gaga começou, com um tom tão calmo como se estivesse falando o que teria para o jantar.
Miguel arregalou os olhos azuis e abriu a boca para protestar, porém o Gaga foi mais rápido e continuou a dizer:
— Eu quero que a Angeles possa ter uma vida normal, compreende, Miguel? Quero que ela viva a adolescência dela longe de todo esse ódio e humilhação. Nos mudaremos para um apartamento não muito distante daqui, então você poderá nos visitar sempre que quiser.
Miguel acenou com a cabeça positivamente, parecendo triste. Levantei do sofá com o desenho nas mãos e entreguei para ele.
— Miguel, eu fiz esse desenho, viu como ficou bonito? Pode pegar pra você!
Ele olhou para o desenho e fungou baixinho enquanto me puxava para um abraço.
Gaga se juntou a nós, amassando-nos com seus braços gigantes. Ficamos abraçados por um tempo, até que a mamãe entrou na sala.
∞
Aquela hipnose louca do Ezequiel estava começando a me dar dor de cabeça. Ele murmurava palavras desconexas conforme eu permanecia deitada e com os olhos focados no céu. A vista de cima da montanha era coisa de louco e eu me sentia bem em estar ali. Porém a dor realmente começou a me incomodar. Pisquei lentamente, sentindo as pálpebras cada vez mais pesadas.
Abri os olhos devagar, observando com nostalgia o local a minha frente. O apartamento do meu irmão... Do meu Gabe.
Corri o olhar pela sala de estar, notando com carinho todos os porta-retratos, todos os objetos e móveis que faziam aquele lugar tão especial. O cheiro de pão de queijo e café empesteavam o ar e eu aspirei com força enquanto deixava um sorriso se abrir nos meus lábios.
— Angeles, venha tomar café, neném! — chamou uma voz familiar, vinda da cozinha.
Meus olhos marejaram enquanto eu reconhecia aquele tom de carinho. Gabe.
— Gabe! — berrei emocionada.
A saudade esmagava meu peito e eu estava louca para poder enterrar meu rosto no peitoral do meu irmão.
— Já vou, Gabe! — Ouvi minha própria voz responder, com um tom mais infantil.
Paralisei no mesmo instante em que observava uma versão mais nova minha (lá pelos meus doze anos) percorrer a sala rapidamente, desaparecendo no corredor que dava acesso para a cozinha.
Minhas pernas moveram-se automaticamente até a cozinha, onde observei meu irmão bagunçar os cabelos da minha versão mais nova e sorrir.
— Vá comer, garotinha! Ou vai se atrasar para a aula — disse ele.
Que saudade eu estava dos cabelos castanhos e longos que insistiam em cair sobre os olhos azuis dele, irritando-o de vez em quando, fazendo-o jogar a cabeça para o lado enquanto os fios voavam para trás, saindo de sua visão. O queixo furadinho, o maxilar quadrado. Aquele maldito nariz empinado que eu tinha tanta inveja.
Ah, que saudade.
— Irmão... — sussurrei andando até ele e estendendo o braço para tocá-lo.
No mesmo instante ouvi o som da campainha e retrai o braço, olhando assustada para o corredor. Minha versão mais nova saltou da cadeira, deixando de lado um pão de queijo mordido e desaparecendo da cozinha. Fui atrás dela, apreensiva. Eu me lembrava daquele dia.
— Não abra a porta... Angeles, não abra a porta. Não abra essa maldita porta! — berrei desesperada, tentando pegá-la pelos ombros.
A porta se abriu e um tapa estalou no rosto dela... Quer dizer, no meu rosto.
Droga, aquilo tinha doído.
— Sua vadia! Como você ousa? Roubou o Gabriel e agora quer o meu Miguel também? O que você quer com eles, sua bastarda filha da puta?! — berrava a minha mãe, entrando na sala como uma leoa furiosa, empurrando-me com força contra a parede.
Ela continuou a me estapear e a berrar na minha cara, e tudo o que eu conseguia fazer era chorar e chorar e chorar.
— Solte-a. Agora — rosnou Gabriel, andando apressado até a minha versão mais nova. — Solte-a, porra! — gritou ele puxando minha eu do passado pelo braço, protegendo-a dos tapas enfurecidos daquela mulher.
— O Miguel não vai vir pra cá, entendeu? Ele não vai! Eu vou matá-la, Gabriel, eu juro que vou matá-la! — gritou ela, com o rosto tão vermelho quanto um pimentão.
— Cale essa maldita boca e saia da minha casa agora, sua louca! — gritou ele de volta, avançando contra a minha mãe, segurando-a pelos ombros e empurrando-a até a porta.
Escutei um gemido forte e rouco e fechei os olhos com força. Não. Por favor, não, aquilo não.
— O que você...
— Meu filho... meu filho, eu... — Ouvia aquela mulher murmurar, enquanto eu abria os olhos e observava o corpo do meu irmão cair no chão, manchado pelo sangue produzido pela facada que havia levado na barriga.
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