Ao infinito...

3 Capítulo 3 – Aprendiz.


Notas iniciais
Olá, pessoas virtuais. Mais um capítulo fresquinho. E quero agradecer a Lady Lovenista por comentar, foi muito importante pra mim querida, obrigada! Boa leitura. P.S: Os itálicos são flashbacks. Betada por Visenya Targaryen.

Senti a grama espetar meus pés descalços e uma leve brisa roçar minhas pernas desnudas. Acariciei o tecido fino que compunha o meu vestido branco e franzi o cenho, perguntando a mim mesma de onde tinha vindo aquela peça.

— Então é basicamente isso, senhorita Angeles... Sua missão, por hora, é proteger o rapaz chamado Tommy — finalizou Enziel no momento em que eu me sentava na grama, observando as folhagens de uma árvore próxima dançarem conforme o vento soprava nelas.

— Meu assassino — balbuciei, ainda atenta em fitar as folhas. Tão verdes e brilhantes.

— Todavia, passará por uma iniciação antes de conhecê-lo — Enziel continuou a explicar em seu tom solene.

— No começo será difícil — emendou Gabriel, sentando-se do meu lado. — A iniciação é um processo rápido, porém tortuoso. Terá de se lembrar de momentos dolorosos de seu passado.

— E qual é o objetivo de tudo isso? — perguntei, virando meu rosto para encará-los. — Eu estou morta! Por qual razão não posso ficar no meu Paraíso em paz? Por que eu tenho que proteger aquele que me matou? — continuei a disparar perguntas, dessa vez mais irritada. Os anjos apenas me encararam, solidários e em silêncio, escutando tudo que estava entalado na minha garganta desde que Enziel havia aparecido. — Droga, eu já sofri demais, okay? Não quero que sintam pena, entretanto, acho que deveria ter um descansinho, não concordam? Por que Deus fez isso comigo? Por quê? — continuei a gritar a plenos pulmões, dessa vez olhando para o céu.

Fui perceber que tinha me levantado apenas quando senti braços me rodearem e ouvi um suave “sshhii”.

— Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem — sussurrava Enziel enquanto eu tremia e soluçava.

Escondi minha cabeça na curvatura do pescoço dele, ao mesmo tempo em que escutava o Arcanjo Gabriel e ele sussurrarem palavras de conforto. Entretanto, tudo que eu conseguia raciocinar naquele momento era a injustiça que estava sendo cometida comigo. Afinal, por que eu?

— ... e então eles viveram felizes para sempre! — finalizou Gaga, fechando o livro de contos de fadas e piscando o olho esquerdo pra mim.

Ele caminhou devagar até a minha cama, onde depositou um beijo casto na minha testa e sussurrou:

Boa noite, neném. Durma com os anjos.

— Boa noite, Gaga. — Bocejei.

Ouvi ele andar até a porta com passos calmos e a fechar logo em seguida. Esfreguei os olhos, curiosa para saber o que ele faria lá embaixo. Andei na pontinha dos pés até a porta e abri uma fresta para ver se tinha alguém no corredor. Como estava vazio, saí do meu quarto de fininho e me sentei no último degrau, escutando minha mãe falando com Gaga.

Meu filho? Acordado até essa hora? — perguntou ela.

Desci mais um degrau, ciente de que eles não me veriam, e consegui observá-los melhor.

Gabriel virou o rosto em direção a nossa mãe e apenas acenou com a cabeça. Eu sabia que ele estava cansado e não queria discutir com ela, pois, na manhã seguinte, Gabriel teria de acordar cedo para ir à faculdade. Contudo, ele sempre me colocava para dormir, coisa que minha própria mãe não se dignava a fazer. “Garotinhas normais escutam histórias de princesas antes de dormir, Angeles!”, dizia ele.

Quer um leite quente? A mamãe prepara pra você! — ofereceu ela, simpática, enquanto caminhava até o sofá.

— Não, mãe, obrigado — resmungou ele com os olhos atentos à TV.

— Gabriel, entendo que fique bravo com o modo como eu trato a garota. Contudo você precisa entender que eu não consigo, sabe? É difícil pra mim! Não dá pra agir de outra forma! — resmungou ela, aparentemente irritada.

Sufoquei um soluço, colocando a mão na boca.

Dona Paula, pode ir parando com esse seu discursinho, okay? Eu tenho dezenove anos agora. Entendo muito bem o que significa a relação de mãe para com a filha, e o que você tem com a Angeles não chega nem ao modo como tratamos o Lorde, nosso cachorro. Você a despreza, a humilha. Acha que eu aceito isso? Está enganada! — vociferou meu irmão se levantando do sofá extremamente aborrecido e indo em direção à cozinha.

Minha mãe continuou sentada onde estava, completamente estática.

Você não entende, meu filho. Você nunca entenderá. — Ouvi ela murmurar para si própria enquanto escondia o rosto nas mãos.

— Está mais calma agora? — perguntou Enziel com a expressão preocupada.

Sorri e acenei com a cabeça.

Gabriel e Enziel estavam se esforçando de verdade para fazer com que eu me sentisse melhor. Disseram-me palavras solidárias, explicaram-me que, se o Pai havia escolhido a mim para passar por aquilo, era porque eu aguentaria. Entendi o que eles queriam dizer a partir do momento que admiti para mim mesma que os humanos tendem a ver negatividade em tudo, e mascaram isso dizendo que são realistas. Todavia, é mais fácil para eles serem pessimistas, afinal, aceitar a derrota apenas por acreditar nela parece ser o caminho mais ágil. Entretanto, o que há de tão especial naquilo que não é conquistado? Naquilo que não é vencido?

— Que bom. Sabe, Angel, q-quero dizer, Angeles — corrigiu ele, sem graça. — No começo eu me sentia tão perdido quanto você. O próprio arcanjo Gabriel foi meu tutor. Ele me fez enxergar coisas tão maravilhosas que eu não compreendia enquanto era humano. Ensinou-me a ter compaixão, a ter admiração pelas pessoas, a ser solidário. E é isso que quero repassar pra você, entende? Quero que saiba que existe mais do que isso, que tudo o que acontece é de uma importância gigantesca!

— Gigantesca, tipo, assim? — Brinquei enquanto abria os braços exageradamente para tentar demonstrar o tamanho da grandeza.

Nós rimos e finalmente me dei conta de que faltava uma risada a mais ali.

— Ué, cadê o arcanjo Gabriel?

— Ele teve uma chamada e se foi. Faz um tempinho, mas você nem percebeu, não é mesmo? Minha companhia é tão agradável assim? — perguntou Enziel, achando graça.

— Não seja convencido! — ralhei com falso desdém.

— Ah, é mesmo? Então por que está corada?

— Eu não estou corada!

— Está sim!

— Epa, cadê a sua maturidade de anjo milenar agora?

Enziel franziu o cenho e um bico se formou em seus lábios angelicais.

— Não diga tais coisas... — dizia ele, quando o interrompi.

— ... perto de um anjo do Senhor — completei engrossando o tom de voz, numa falha tentativa de imitá-lo.

— Mas que audácia! Eu sou o seu tutor, mais respeito, por favor! — bradou ele enquanto eu ria histericamente.

— Você fica uma graça quando está nervosinho! — consegui dizer em meio às risadas.

Eu posso jurar que vi as bochechas do anjo adquirirem uma coloração avermelhada.

— Você está engraçadinha demais para o meu gosto, senhorita Angeles! — exclamou ele, aparentemente irritado.

— Me chame de Angel, baby — ronronei, dando uma piscadela para ele.

— Mas isso é uma... uma... Ora essa! Não faça isso!

E então ele se levantou da grama abruptamente. Levantei-me também, rindo, para segui-lo.

— Você vai me dar muita dor de cabeça, aprendiz — murmurou emburrado.

“Vou mesmo”, pensei comigo mesma enquanto caminhava atrás dele.

Notas finais
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