Ao infinito...
2 Capítulo 2 - Respire fundo.
Notas iniciais
Respirar fundo num momento como aquele era realmente difícil. Não, não, era praticamente impossível. O fato de ocorrem mudanças tão repentinas e assustadoras tornava o ato de inspirar e expirar agonizante. E, infelizmente, Enziel não estava colaborando para que eu me livrasse daquela angústia que esmagava meu peito.
— Mas, Enziel, eu quero saber o que acontecerá comigo daqui pra frente! Eu tenho esse direito! — exasperei,ainda aérea com tudo que estava acontecendo.
— Eu... sinto muito pelo que está passando, Angeles, de verdade. Contudo, os propósitos do Pai são maiores e incompreensíveis para nós — respondeu ele com um tom solene. — Tudo vai ficar bem, okay? Eu te prometo.
Virei o rosto e lhe dirigi um sorriso fraco.
— Obrigada, Enziel, por estar comigo. Acho que no fundo você é o verdadeiro anjo da guarda aqui.
∞
— Cale essa maldita boca, Angeles! Você não vai nessa droga de passeio, entendeu?! Não vai! — berrava minha mãe jogando os braços para todos os lados, com o rosto contorcido numa careta raivosa.
Eu me encolhia no canto da sala, com os olhos arregalados de medo. Deveria ter esperado o Gaga chegar do serviço para pedir que ela assinasse a autorização do passeio. Com certeza ele a convenceria. “Burra, burra, burra”, eu murmurava para mim mesma.
Miguel estava sentado no tapete da sala, os lábios contraídos de raiva ou medo, não sabia ao certo. Ele nunca me defendeu como o Gaga fazia. Miguel era um medroso.
— Mamãe, talvez eu pudesse acompanhá-la ou algo do tip... — sussurrou Miguel, quando foi interrompido abruptamente pelos berros da minha mãe.
— Já disse não! —gritou, porém seus berros foram perdendo as forças conforme ela virava o rosto para fitar Miguel. — Desculpe, meu filho, não quis ser mal educada com você. Mas olhe, ela não merece ir. Já dei minha palavra final. Agora me diz, meu querido, o que vai querer para o jantar?
∞
— Enziel... — chamei baixinho.
Nós estávamos sentados num banco próximo onde meu corpo estava estirado, e eu havia perdido totalmente a noção de porquanto tempo estávamos lá parados, em silêncio.
— Hm? — resmungou.
— Você é mesmo um anjo? Isso está mesmo acontecendo? O que faremos agora? Por favor, eu estou enlouquecendo.
— Espere. — Suspirou.
Revirei os olhos. Era a milésima vez que ele me respondia aquilo.
Mais alguns minutos ou horas se passaram, até que ele virou o belo rosto e me fitou por alguns segundos. Um sorriso escapou de seus lábios.
— Você já está mudando.
Arregalei os olhos e olhei pras minhas mãos. Pele. Cinco dedos. Ué?!
— Hãn?
— Seus olhos. Estão ficando prateados.
— M-mas o quê? — gaguejei atônita.
Olhei freneticamente para os lados em busca de algum espelho ou vidro que pudesse refletir a minha imagem.
— Calma, isso é só o começo. Logo seu cabelo e pele mudarão também, mas é pouquinho.
— Enziel!
Ele jogou a cabeça para trás e riu suavemente.
— Relaxa Angeles, não surte! — Brincou.
Suspirei baixinho. Ele tinha razão. Eu morri, virei um espírito, um anjo ou sei lá que diabos, e agora estou surtando porque minhas feições vão mudar. Que narcisismo ridículo.
— Então... você morreu, sei lá, foi assassinado também? — indaguei mirando o olhar para o céu. A visão do meu corpo pálido e manchado de sangue estava começando a me deixar atordoada.
Enziel não respondeu.
— Ele está vindo... — murmurou levantando-se do banco.
— Quem está vin... — eu dizia, quando ouvi uma voz atrás de mim.
— Olá, que a Benção do Pai esteja com vocês. — Era como se um coro de vozes suaves compusesse a dele numa harmonia graciosa.
Virei-me rapidamente e encontrei um rapaz. Ele vestia uma calça de moletom branca, juntamente com uma regata da mesma cor. O cabelo loiro era ondulado assim como o de Enziel. Os olhos azuis brilhavam com uma compaixão tocante, e, por um breve momento, vi um lampejo de saudade cintilar neles.
— Arcanjo Gabriel — saudou Enziel, apoiando um joelho no chão, dobrando o outro e abaixando a cabeça em sinal de redenção.
O arcanjo sorriu para ele e tocou sua cabeça com o dedo indicador.
— Levante-se, meu caro Enziel. Vim lhe trazer boas novas.
— Já podemos sair daqui? — indagou Enziel se levantando.
— Sim, o corpo da jovem será cuidado, e quanto antes sairmos daqui e explicarmos as novas funções dela, melhor será, já que o protegido está tão desorientado que eu mesmo fui requisitado para acalmá-lo. O jovem Tommy está dormindo na sua residência e só acordará quando a senhorita Angeles estiver pronta para ele.
O arcanjo Gabriel virou seu belo rosto na minha direção e deu um sorriso simpático. Na mesma hora senti vontade de me jogar aos seus pés e pedir perdão por todos e quaisquer pecados que eu já tenha cometido. O arcanjo emitia um brilho e uma força tão fora do comum que, na mesma hora que ele olhou pra mim, senti meu coração acelerar. Era como se eu fosse levantar voo a qualquer instante.
— É um prazer conhecê-la, senhorita Angeles. Esperamos ansiosos a sua vinda — disse ele.
Pisquei confusa. Ele estava dirigindo a palavra a mim?
— Hm... Oi. — Foi a única coisa que consegui resmungar.
Enziel revirou os olhos.
— Ela é um pouco deslumbrada demais para o meu gosto, não acha? — E riu.
— Não seja tão duro com ela, Enziel. Não serecorda da sua iniciação? Parecia um cãozinho perdido — retrucou o arcanjo, com um tom divertido.
— Ei! — protestou Enziel, torcendo o nariz. — Não precisa me lembrar disso.
O arcanjo riu mais um pouco e então anunciou:
— Venham, já é chegada a hora de partirmos.
— Para... para aonde vamos? — Consegui perguntar.
O arcanjo virou-se para mim e lançou-me um olhar brilhante.
— Para o seu Paraíso.
∞
— Mamãe... por que a senhora está chorando? Não chore mamãe! — eu sussurrava para minha mamãe, que estava jogada no tapete da sala totalmente chorosa e com uma garrafa de Whisky em mãos.
— Suma daqui, bastarda maldita! Eu odeio você! Odeio! Você desgraçou a minha vida. Vai pro inferno! — gritou ela, enfurecida.
Minha mamãe segurou a garrafa com força enquanto mirava na minha direção. Deu um urro agudo e então lançou o cilindro de vidro no ar.
Minha boca se abriu instantaneamente, soltando um grito assustado, enquanto eu abaixava-me num reflexo rápido. A garrafa espatifou-se contra a parede, por pouco não atingindo minha face. Cacos de vidro voaram por toda a parte, inclusive na minha cabeça, porém eu não liguei na hora. A única coisa que se passava pela minha mente era que minha mamãe havia me chamado de bastarda maldita... Minha mamãe me odiava e eu não fazia a mínima ideia do porquê.
∞
— Abra os olhos, Angeles — sussurrou Enziel, bem próximo do meu ouvido. O hálito do anjo me fez corar, pois os pelos dos meus braços se arrepiaram com o sussurro próximo.
Inspirei com força e então criei coragem para abrir os olhos.
— Bem vinda ao Paraíso, minha querida — escutei Gabriel dizer, com seu tom divertido, logo atrás de mim.
Soltei o ar aos poucos, fungando baixinho enquanto absorvia tudo que eu podia daquele lugar celestial. Tudo parecia emitir um brilho próprio. A grama parecia mais verde, as árvores mais altas e majestosas. O lago que ficava um pouco mais longe da campina era de um azul mais brilhante. O céu então... parecia mágico. Misturava cores vibrantes numa harmonia graciosa. Os tons de azul, laranja e violeta semesclavam com o amarelo estonteante do Sol, que se escondia por entre as montanhas esverdeadas. Flores pipocavam por todo aquele vale, das mais diversas cores, espécies e tamanhos. Observei atenta toda a folhagem e texturas daquele lugar.
— É... é... perfeito — balbuciei, sentindo lágrimas quentes escorrem pelos meus olhos.
E então ouvi um som suave, um bater de asas, enquanto escutei suspiros de alívio logo atrás de mim.
— Mal aguentei segurá-las, essas danadas estão loucas para planar — resmungou o arcanjo Gabriel.
Virei-me para trás e mais lágrimas surgiram. Enziel e Gabriel estavam com as asas abertas, tão brancas e voluptuosas quanto a nuvens. Elas batiam suavemente, e erguiam-se esplendorosamente por detrás de seus corpos angelicais.
— Vocês... tudo isso... eu... — solucei forte no mesmo momento em que ria maravilhada.
Enziel lançou um olhar para Gabriel, e ele se aproximou tocando o dedo indicador na minha testa.
— Acalme-se, minha querida — sussurrou, perto demais. Seus olhos azuis igualavam-se ao céu do Paraíso, deixando-me hipnotizada. E, como um milagre, uma onda de paz se adentrou por todo meu corpo, fazendo-me suspirar. Gabriel limpou minhas lágrimas com o polegar e bagunçou meu cabelo.
Dei mais uma olhada naquele lugar mágico e comecei a falar, rápido demais.
— Esse lugar é incrível! Aqui é mesmo o Paraíso? As pessoas vêm pra cá quando morrem? Onde estão os outros anjos? Minha família e amigos que morreram estão aqui? Os animais também vêm pra cá quando morrem e... — Fui interrompida por uma risada suave, vinda de Enziel.
— Acalme-se, Angeles! Este é o seu Paraíso. O Pai nos dá o livre-arbítrio para vivermos em paz no lugar que almejamos para ser nosso lar pela eternidade. E esseé o seu — explicou, sorrindo.
Eu estava no lugar que demonstrava meus desejos mais puros e profundos. Rodeado de natureza e paz. E se o preço que eu tinha que pagar para viver a eternidade ali era proteger o maldito do meu assassino, pois bem, eu estava disposta a pagar.
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