Ao Seu Segredo Meu Coração.

2 Se cumprir uma promessa fosse tão fácil quanto fazê-la


Notas iniciais
Bom galera desculpem pela demora, mas está ai a continuação da história espero que gostem de ler. Obrigado!

Cidade Santana e Mello, interior de Mato Grosso do Sul.

14 de novembro de 1999

A música ainda era lenta e baixa, mas era possível ouvi-la por toda a mansão e era assim que Luiz Augusto preferia por enquanto, já imaginando a festança que se viria a seguir. O som ecoou entre os convidados ali presentes e entre aqueles que aos poucos entravam na casa. Por alguns instantes, Luiz Augusto chegara a pensar que aquilo tudo era exagero, mas quando lhe vinha na cabeça o motivo para aquela comemoração repentina, logo ele pensava que valia a pena.

“Ele merece” pensou Augusto, “Merece muito mais do que esta festa”.

Os convidados se dividiam entre os dois salões enormes dentro da mansão, rodeados de enfeites nas paredes e janelas, por onde passavam freneticamente os mais velhos dos convidados. Ainda havia as pessoas que se estendiam entre os gramados extensos e planejados do lado de fora da casa, tudo iluminado pelos refletores e luzes de várias cores; o local preferido pelos mais jovens e adolescentes.

Luiz estava certo de que viriam todos os parentes e amigos mais íntimos do filho, o jovem Cláudio André Del Salles, mas algo inesperado ocorrera duas semanas antes da comemoração e que causara certo reboliço entre Luiz Augusto e sua fiel escudeira, a governanta Domingas Valazack...

O dia permanecia nublado e parecia que um mundo de água iria surgir naquela manhã. Luiz estava no seu escritório na grande mansão, sentado em sua cadeira de couro legítima e que havia lhe custado um valor considerado inoportuno aos olhos de quem visse. Inesperadamente, Domingas entrou no cômodo, evidentemente apreensiva. Ela era uma senhora de cerca de cinquenta anos, mas com uma aparência jovem, que escondia sua real idade. Sua pele era branca, seu cabelo amarrado era liso, preto e perfeitamente penteado. Naquele instante, apesar de todo o nervosismo, ela ainda mantinha seus gestos frágeis e delicados, pois apesar de ser uma funcionária, ela sabia se tratar e agir como uma dama.

— Algum problema Domingas? Perguntou Luiz, levantando. – Porque esse nervosismo?

— Perdoe-me senhor – disse ela gaguejando – Eu acabei de receber uma ligação de um dos nossos convidados para a festa – ela deu uma pausa e logo prosseguiu. – O Adonias, melhor amigo do Cláudio senhor...

Luiz a interrompeu.

— O que houve com ele?

— O garoto acidentou-se de carro esta manhã quando voltava para a cidade após uma viagem. – Domingas tremia. – Havia três rapazes no veículo e um deles faleceu!

Luiz sentou na cadeira. Estremeceu.

— Os noticiários não falam de outra coisa! Completou ela.

Luiz permaneceu imóvel por alguns instantes, sem saber o que dizer. Só pensara no que faria o filho se ele chegasse ao Brasil e recebesse a noticia da morte de seu melhor amigo. “Mas há uma possibilidade de Adonias ter sobrevivido, afinal dois dos rapazes sobreviveram ao acidente!”

Luiz levantou-se, caminhou até a mesa ao canto da sala, abriu uma das gavetas, pegou uma agenda e procurou um número telefônico. Domingas acompanhou tudo com o olhar.

— Para quem o senhor esta ligando?

Luiz não respondeu, apenas esperou a voz surgir no outro lado da linha. Ao ouvir o som pelo telefone, ele falou:

— Doutor Diogo Souza. Por favor, preciso de sua ajuda... Quero que trate um paciente – ele deu uma pausa por alguns instantes e depois falou. –, não se importe com despesas, ficara tudo por minha conta!

Não bastando à inesperada noticia do acidente de Adonias naquela manhã, a tarde subseqüente se tornaria quase tão tensa quanto à manhã. Enquanto os familiares se encaminharam ao hospital particular CHADAS-São Miguel onde o jovem Adonias fora repentinamente internado, um dos amigos se desentendeu com um atendente na recepção do hospital.

Luiz saía do elevador quando ouviu os tons alterados nas vozes de Renato, um recepcionista desagradável e um policial entediado. Todos se demonstrando nervosos.

Luiz veio até Renato.

— Mas o que esta havendo aqui? Luiz tinha a voz carregada de autoridade e respeito.

O atendente que permanecia sentado por trás do balcão, abaixou a cabeça ao ouvir e ver Luiz Augusto. Renato fitou-o atordoado.

— Imagine senhor – iniciou Renato com a voz ríspida. –, eu vim até aqui para ter notícias do Adonias, meu amigo, e não estão me deixando entrar apenas porque deixei de trazer meu documento. Isso é um absurdo!

O rapaz por trás do balcão falou, receoso.

— Me desculpe Sr. Del Salles, mas o senhor, como sendo um dos mais antigos e melhores clientes da clínica – ele fez questão de ressaltar isso. –, sabe que essa é uma norma do hospital. – O rapaz virou-se para o policial ao lado que permanecia calado o tempo todo. Depois tornou a olhar para Renato. – E se esse rapaz insistisse, eu teria que infelizmente mandar que o prendessem!

— Mas isso não é um absurdo, Sr. Luiz – falou Renato. – Num hospital público a gente entra e sai sem ter que apresentar...

Luiz respirou fundo e interrompeu Renato.

— Cale a boca rapaz. – falou Luiz autoritário. Ele virou para o balconista.

— Parabéns por cumprir bem seus deveres e fazer seu trabalho como deve ser feito. – o tom na voz de Luiz Augusto diminuiu e ele se inclinou, apoiando-se no balcão para falar. Um tom ameaçador e cético surgiu em sua voz. – Agora convenhamos em uma coisa, assim como você mesmo disse, eu sou mesmo um dos clientes mais antigos e respeitados da clínica, e acho que o diretor deste lugar não se importaria se eu levasse comigo esse rapaz para visitar o amigo.

O homem sentado por trás do balcão apenas balançava a cabeça. Ele sabia bem o que lhe viria a seguir.

— Com certeza o diretor daria mais importância se por acaso eu fizesse uma reclamação quanto ao atendimento na recepção! Completou Luiz.

Ele levantou-se devagar, olhando fixamente nos olhos do rapaz. Ao ver aquilo, um sorriso cínico surgiu no rosto de Renato.

— Qual é mesmo o número do quarto de meu paciente? Perguntou Luiz, tornando a falar com a mesma autoridade na voz.

— Claro senhor, o quarto é de número cento e vinte e sete. – O rapaz gaguejou, desajeitado.

Luiz virou-se e caminhou lentamente até o elevador. Renato o seguiu logo em seguida. Cerca de dois minutos se passou até que as portas finalmente se abriram e Luiz Augusto e Renato entraram sozinhos no elevador. Após apertar o botão e as portas se fecharem, Renato se sentiu no direito de perguntar.

— Porque o senhor fez aquilo? Ele era receoso em perguntar, mas sua curiosidade se tornara enorme em apenas alguns segundos. – Quero dizer, eu nunca passei por alguma situação como...

— Se não estiver satisfeito saia e tente entrar neste hospital sem mim. – Falou Luiz sem nem mesmo olhar para Renato. Ele estava parado, sem mexer nada além da boca. – Você sairia daqui algemado, numa viatura policial. – A voz de Luiz era grosseira. – Ninguém, nem mesmo você sabia que eu sou o dono deste hospital, isso foi como uma prova para eu saber se as regras são seguidas à risca na minha clínica.

— Não acredito! Renato parecia refletir, lembrando-se de uma frase falada pelo amigo Cláudio André. – O Cláudio uma vez me disse que o senhor era dono de uma clínica, mas eu não imaginei que fosse dono de um hospital como este... Deste tamanho. Há mais três dessa rede espalhada só na nossa cidade!

Renato demonstrava surpresa.

— Foi mesmo muita sorte sua eu ter aparecido durante aquela insignificante discussão. – Continuou Luiz sem dar importância ao comentário de Renato quanto à clínica. – Imagina como seria para o meu filho se ele chegasse à cidade e se deparasse com essa situação: Um dos melhores amigos internado numa clínica, e o outro, preso numa delegacia sabem lá até quando!

Luiz estava carregado pela arrogância que se tornara algo de sua personalidade. Algo que talvez passasse normalmente, mas Renato pôde perceber, enquanto o elevador os levada e nunca chegava, um certo desprezo de Luiz em sua relação. Foi algo que lhe ocorreu naquele instante e não lhe agradou muito.

Das três vítimas do acidente ocorrido naquela madrugada, Adonias tivera a sorte de ser um dos dois sobreviventes. Ele havia escapado praticamente ileso – Um milagre! Dissera o médico. Realmente fora um milagre o garoto ter saído daquele acidente com apenas alguns arranhões e ferimentos leves pelo corpo. Luiz Augusto bateu na porta e nem mesmo esperou ser respondido para poder entrar. Renato veio logo atrás. Dentro do quarto estavam Diogo Souza, e Adonias, deitado na cama.

— Muita sorte sua ter escapado com vida. – falou o médico Diogo, um senhor de cerca de sessenta anos, barrigudo e careca, porem um brilhante profissional. – Mais ainda você ter saído desta com apenas alguns ferimentos leves.

— Pena não podermos dizer o mesmo de um dos outros dois jovens! Completou Luiz, caminhando até a cama. Ele parou diante Adonias e falou. – A polícia entregou o laudo do acidente e parece que dos três, apenas você usava o cinto de segurança.

Renato aproximou-se da cama. Sorria alegremente olhando Adonias naquela cama. Ele tentava disfarçar, mas Adonias percebeu o medo estampado por trás de seu sorriso; o medo e apreensão que Renato sentira ao ver o amigo naquela situação.

— E foi isso que te salvou! Falou Renato.

— Obrigado por estarem aqui. – falou Adonias, um tanto fraco. – E muito obrigado ao senhor, Dr. Luiz, por ter me trazido para cá. Muito obrigado mesmo! E quanto aos meus pais, alguém os avisou o que aconteceu?

Luiz aproximou-se ainda mais de Adonias, e colocando a mão em seu ombro respondeu com a voz leve e sincera.

— Não se preocupe. Tivemos dificuldades em encontrá-los, mas já conseguimos e eles estão a caminho.

— Obrigado! Falou Adonias, fitando Luiz a sua frente.

Uma troca de olhares ocorreu entre ambos. Algo percebido por Renato.

Por mais que os acontecimentos tenham sido tensos, tudo ocorrera tranqüilo nos dias seguintes, e naquela noite nada mais poderia dar errado. Parecia que todos os convidados já haviam chegado e permaneciam à espera do felizardo, o motivo da festa.

Mas para Luiz Augusto e Domingas, a hora parecia ter parado. Diversas vezes, ambos se dividiam entre o relógio em seus braços e o enorme relógio no canto do maior salão. Um modelo clássico que há anos estivera ali, naquela casa, no mesmo lugar. Luiz herdara o objeto de seu pai e o conservara com total carinho, pretendendo mantê-lo ali até o dia de sua morte, doando-o ao seu filho Cláudio e assim sucessivamente. A cada lugar que ia, Luiz Augusto encontrava alguém para cumprimentar, alguém que não lhe cruzara quando havia chegado, ou até mesmo alguém que já lhe falara naquela noite.

Ao caminhar novamente entre os salões e o jardim, ele percebeu que ainda faltavam chegar dois dos mais importantes convidados: Adonias de Almeida e Renato de Freitas. Os melhores amigos de seu filho.

— Onde será que estão estes rapazes? Perguntou Luiz a si próprio. Não havia resposta. Ele estava parado perante o relógio enorme quando Domingas veio em sua direção. Um sorriso de orelha a orelha estampava seu rosto. Ao parar diante de Luiz, ela tocou-o no peito com as duas mãos, mas logo se afastou, desajeitada.

— Desculpe-me senhor! Falou ela. – É porque estou nervosa!

— Percebe-se! Mas o que houve? Aconteceu alguma coisa?

Domingas sorriu ainda mais, frenética, mal conseguindo falar.

— O Cláudio André, doutor – ela deu uma pausa mas prosseguiu. – O seu filho acabou de chegar, o carro já esta ai na frente!

Rapidamente, Luiz e Domingas caminharam até a porta do enorme casarão.

O jardim da frente era quase tão belo quanto ao do fundo da mansão, onde ocorria a festa. Quem entraria na casa, antes era contemplado com a visão da escadaria de pedra com cerca de dois metros, guiando-se até uma pequena varanda dando rumo à porta. Já quem saia da casa, dava de frente com uma bela fonte, com algumas esculturas de pessoas e anjos. Uma escultura clássica que dava um tom aconchegante ao local. Diversas magnólias rodeavam as beiras da pequena rua acessível aos veículos – e que naquela noite trataram de esconder as belas mudas das plantas.

Luiz nunca saíra de dentro de sua casa daquela forma, correndo alegremente para fora do imóvel; em seu estado normal ele jamais faria isso. Mas aquela era uma situação especial. ”Finalmente” pensou ele, “Dois anos se passaram e meu filho resolveu retornar para sua casa. Não há felicidade maior para um pai”.

Uma limusine preta estava parada diante a casa, com a porta da parte de trás parada diante a escadaria. Luiz parou diante ela e esperou que fosse aberta. Um jovem alto, de pele morena e corpo atlético saiu do veículo. Cláudio André nunca chamara tanto a atenção dos convidados como naquele instante – ainda mais das mulheres ali presentes. Ele tinha vinte e tantos anos, um rosto branco, lábios carnudos e atraentes, um corpo bem definido. Na cabeça, uma quantidade enorme de cabelos negros. Ele estava quase tão belo quanto na noite em que partira para o México com a avó Henriqueta Marinho.

Luiz e o filho se entreolharam por alguns instantes, como se não acreditassem que estavam realmente frente a frente. Os dois se abraçaram.

— Meu filho! Disse Luiz Augusto. – Até que enfim você chegou, eu já estava nervoso com a sua demora...

Luiz iniciou e não parou de falar, transbordando o local com a alegria de estar revendo o filho. Quando o pai finalmente deu uma brecha, Cláudio falou.

— O vôo infelizmente atrasou e eu tive que permanecer algumas horas no aeroporto. – Sua voz era suave e ao mesmo tempo firme, quase tão atraente quanto sua aparência. Cláudio virou-se para Domingas e estendeu as mãos. – Dê-me um abraço, minha linda!

Ambos se abraçaram. Domingas estava quase tão feliz quanto Luiz Augusto, que se devaneou rapidamente, percebendo um certo exagero entre os gestos de Domingas e Cláudio.

— Oh, meu filho, quanta saudade eu senti de você! – Ela falava em meio aos abraços e beijos que espalhava por Cláudio. – Que bom que você veio agora para ficar, mesmo que tenha sido após essa coisa terrível que aconteceu com a dona Henriqueta.

— Não fale disto, por favor, eu ainda sinto muito quando me lembro de minha avó. – O corpo dela havia sido velado há quatro dias e diversas homenagens ainda estavam sendo feitas em vários lugares do país.

Henriqueta Marinho, a famosa atriz mexicana levantou suspiros e despertou paixões em seu país de origem e também por todo o mundo através de seu trabalho na televisão e no cinema onde atuou desde sua juventude. Henriqueta era avó materna de Cláudio e nunca tivera uma boa relação com o genro Luiz, reprovando-o basicamente em tudo. Péssimo marido, péssimo pai, péssimo homem! Algo que fizera com que Cláudio decidisse, nos dois últimos anos, viver com ela no México. Henriqueta falecera há cerca de uma semana por conta de problemas respiratórios, aos seus 79 anos. – Cláudio virou-se para a mansão e viu as os olhares curiosos das pessoas. A música agora estava mais alta e o jogo de luzes chegava a ser refletido até do lado de fora da casa.

— Eu não acredito que estão fazendo isso! Exclamou Cláudio.

— O que houve meu filho, é uma festa em sua homenagem. – Respondeu Luiz.

— A minha avó esta morta papai, e foi só por isso que eu vim para cá! Ele reprovou a atitude do pai e também de Domingas. – A minha avó morre e vocês decidem fazer uma festa para mim? Desculpe mais eu não tenho ânimo para isso!

Cláudio caminhou até o porta-malas e junto com o motorista, começou a retirar seus pertences de dentro do veículo. Domingas falou nervosa:

— Por favor, meu filho não fique assim, nos desculpe se fizemos algo de errado, seu pai teve a idéia de chamar seus amigos para estarem aqui quando você chegasse, pensando que isso o deixaria mais alegre...

Cláudio parou por alguns instantes. Pensou e depois reviu o que havia dito. Ele deu um suspiro longo escorando-se no veículo e depois falou − Tudo bem. Vocês têm a total razão. Desculpe-me pai.

— Esqueça isso. – Disse Luiz. – Agora deixe essas malas ai e venha para dentro logo, todos estão a sua espera!

A noite seguia como planejado por Domingas, a autora de toda aquela balburdia que tomara conta da mansão. Com exceção da ausência de Adonias e Renato, tudo fizera com que Cláudio por alguns instantes esquecesse-se da morte da avó e tornasse a sorrir. Certo momento o telefone tocou por toda a sala e Domingas correu até o andar de cima para atender.

Ela parou em um dos corredores, e se policiando para não cantarolar através do fone, parou de cantar a música alegre que tocava devido a comemoração.

— Alô? Disse ela. – Oh, Adonias onde você esta? Você não imagina quem esta aqui?

— Posso até imaginar, para você estar radiante desta forma. – Disse a voz do outro lado da linha. – Desculpe-me Domingas, infelizmente surgiu um serviço inesperado esta noite, uma festa de debutante e eu tive que vim fotografar para o pai da menina, que é meu amigo. Mas eu fiz um acordo com ele para que eu pudesse sair logo...

— O Cláudio André chegou há pouco e já perguntou por você e pelo Renato... Ele também não apareceu até agora... É meu querido, ele chegou tem um tempinho já, um pouco triste porque a avó faleceu, mas o Cláudio já esta bem melhor... Não se preocupe com o horário, pode vir hoje mesmo, a festa não tem hora para acabar...

— Esta bem, Domingas minha querida, eu vou sim. – Completou Adonias. – Diga para o Cláudio me esperar!

— Certo, eu digo... Abraço querido!

A voz que soou pelo telefone desapareceu.

Domingas colocou o fone no gancho e virou-se à caminho da escada. Quando se preparava para descer, o telefone tocou novamente. Ela tornou a atendê-lo.

— Pois não? Era Renato do outro lado da linha. – Porque você não veio para a festa? O Cláudio André chegou e perguntou por você...

— Peça desculpas à ele e diga que ainda hoje eu apareço para cumprimentá-lo!

— Tudo bem – completou Domingas. – mas não demore!

Ela desligou.

As horas subseqüentes foram de muito agito pela mansão, e mesmo com a ausência repentina de Adonias e Renato – e ainda a dor da lembrança do que ocorrera e lhe fizera voltar para o Brasil – Cláudio André sentia que um alivio lhe tomara por dentro. Era como se algo inesperado lhe ocorrera de repente e que lhe tivesse feito muito bem.

Ele caminhou em devaneio pelo jardim dos fundos da casa grande, totalmente disperso e ao se dar conta, ele já estava em uma área onde nenhum dos convidados tinha acesso, a música mal era ouvida e as luzes dos refletores não conseguiam atingir. Era um local rodeado de árvores dos mais variados tipos, o gramado era um pouco maior que o do restante do jardim e não se podia ver nada alem da imensa escuridão assustadora e fria que pairava naquele local.

Ao dar mais alguns passos em meio aquela imensidão de árvores, Cláudio avistou uma pequena cabana, uma casa velha feita de madeira. Tinha uma aparência desagradável por fora; algo que não intimidou Cláudio, que lentamente caminhou e com cuidado abriu a porta daquela casa. Ele olhou ao redor, certificando-se de que ninguém o havia visto. Não havia ninguém e nem qualquer outra coisa que o fizesse voltar atrás de entrar naquele lugar.

A cabana poderia ser desagradável e assustadora por fora, mas por dentro – ao menos para Cláudio – o lugar era o oposto. Os dois pequenos e únicos cômodos eram compostos apenas uma poltrona pequena, ao lado de uma mesa de madeira com um lampião acima. Cláudio pegou do bolso de sua calça um isqueiro e acendeu-o. No canto do outro quarto, uma cama de solteiro velha com um colchão rasgado.

Disperso e em gestos lentos e cansados, Cláudio sentou na cadeira ao lado da velha mesa e apagou o fogo do lampião. Ali ele permaneceu por alguns instantes.

Metade dos convidados já haviam deixado a mansão e apenas os parentes mais íntimos e amigos próximos ainda permaneciam na casa. Os cochichos foram inevitáveis quanto ao desaparecimento de Cláudio nos últimos minutos e angustiada, Domingas caminhava sem parar por àqueles salões, preocupada com o sumiço repentino de Cláudio André.

Num gesto brusco, ela se encaminhou ao escritório de Luiz Augusto, onde o patrão havia passado metade da festa. Ao chegar na porta da sala, Domingas se deparou com uma das empregadas deixando o local. Ela era uma bela jovem, não tinha mais de vinte anos, uma aparência atraente num corpo esbelto, seus gestos eram delicados mais espertos. A garota vestia uma roupa clássica de funcionária e trazia nas mãos uma bandeja com algumas taças vazias. Ao vê-la, Domingas parou perante a jovem e lhe falou:

— O que fazia dentro deste escritório, Renata? O tom de Domingas era assustado.

— Desculpe-me. – iniciou Renata, tímida. – Eu estava servindo os convidados quando o doutor Luiz me chamou no escritório e me pediu que lhe trouxesse um pouco de uísque!

As duas se olharam desconfiadas. Fora inevitável para Renata não perceber o medo no rosto de Domingas.

— Tudo bem! Falou Domingas, desvencilhando. – E pode ir para seu quarto. As demais empregadas cuidaram de tudo.

— Tudo bem senhora! Falou Renata desviando o olhar de Domingas – algo inevitável.

Enquanto a jovem se afastava, Domingas se recompôs e rapidamente entrou no escritório, sem nem mesmo bater na porta.

Luiz estava de pé, em frente a um enorme retrato no alto da parede. A imagem era de uma jovem e bela mulher sentada em uma cadeira ao lado de um ramo de flores variadas, ela usava um vestido azul claro, enfeitada com jóias por todo o corpo, tinha uma pele considerada exageradamente branca – quase pálida. Seu cabelo era cumprido e cacheado, totalmente negros.

Luiz permanecia tão disperso, mergulhado em suas lembranças que nem se deu conta de que Domingas estava ao seu lado.

— Doutor? Falou ela com a voz baixa.

Luiz desvencilhou-se e, virando em direção a Domingas, perguntou:

— O que houve? Falou ele.

— Mais uma vez o senhor olhando essa imagem e idolatrando a dona Mada, sua falecida esposa! Disse Domingas num tom de desprezo.

Luiz deu de ombros e em seguida caminhou até sua poltrona, onde sentou.

— Eu não idolatro ninguém – falou ele. – Apenas admiro, o que é bem diferente!

— Não!

Domingas não deu importância, mas assim como ela, Luiz Augusto sabia bem que ela tinha a total razão, pois por mais que tentasse negar a si mesmo, Luiz não conseguia evitar a exagerada admiração que tinha pela mulher. E tudo isso se deu após a morte de Magdalena Del Salles, intitulada Mada. Os anos se passaram e Luiz não se perdoava por tudo que fizera sua esposa passar, e após sua morte, ele se julgara culpado e não se perdoava por isso.

— Acho uma pena eu ter passado a admirá-la somente depois de sua morte! Ainda sentado, ele tornou a olhar para a imagem no alto da parede. – E é por isso que eu não culpo o Cláudio por me odiar!

Domingas sentou ao lado de Luiz Augusto.

— Não fale besteira Sr. Luiz, o seu filho não o odeia. Ele apenas não sabe demonstrar que...

Ele a interrompeu.

— Como não? A voz de Luiz era ríspida. – O Cláudio, e com razão, me considera o culpado pela morte da Mada, e isso é verdade. Eu a fiz sofrer tanto que ela acabou morrendo por minha causa.

— Por favor não fale sobre esse assunto perto do Cláudio, o senhor sabe o quanto ele gostava da mãe e o quanto ainda sofre com a perda dela. – Domingas deu uma pausa. – Se ele soubesse a terrível verdade!

Luiz levantou-se assustado, parecia ter ouvido um absurdo.

— Nunca! Sua voz foi grosseira. – Ele nunca poderá saber que a Mada tirou a própria vida, se não sofrera demais!

Domingas seguiu o gesto do patrão e levantou-se em seguida.

— Tudo bem, tudo bem. Mas eu não vim aqui para falarmos disso, e sim para lhe perguntar se o senhor viu seu filho em algum lugar. O Cláudio desapareceu de repente e ninguém o vê já tem um tempo.

As palavras de Domingas foram interrompidas por algumas batidas que se sucederam na porta. Luiz foi abri-la. Renato e Adonias entraram logo em seguida. Ambos rapazes desfrutavam de total beleza, porém, além das roupas, os dois tinham gestos completamente diferentes – Renato era mais deslanchado, vestia uma camiseta laranjada de mangas curtas, uma bermuda branca com um par de tênis também brancos. Na cabeça, um boné virado para trás.

Adonias era mais social, usando uma calça com sapatos, uma camiseta pólo com o cabelo perfeitamente penteado. Ele trazia uma mochila transversal, onde guardava alguns pertences como celular, carteira e duas máquinas fotográficas. Ele havia estado, minutos antes, numa festa fotografando para um de seus clientes.

Por coincidência, Renato e Adonias chegaram ao mesmo tempo na mansão e entraram juntos na casa. Luiz veio até eles.

— Oh Adonias, como você esta? Perguntou Luiz. – E seu tratamento, como tem sido?

— Esse ai, doutor Luiz – interrompeu Renato, sorrindo. – Goza da mais perfeita saúde. Melhor que nós dois juntos!

Luiz pouco se importou com o comentário de Renato, olhando somente para Adonias. Domingas veio até eles e os abraçou, satisfeita.

— Ainda bem que vieram. – disse ela. – Mas infelizmente, temos um problema!

Todos pararam de sorrir.

— Qual? Perguntou Adonias.

— É mesmo, o que aconteceu Dodô? Esse era o apelido que carinhosamente Renato chamava Domingas. Algo patético aos ouvidos de Luiz Augusto.

— O Cláudio André, mal chegou e já desapareceu! Foi assim – ela estalou os dedos. – De repente!

— Mas como o Cláudio desapareceu?

Perguntou Adonias. Antes mesmo de qualquer um ali responder, Cláudio André atravessou pela porta e entrou naquele cômodo. Ele sorria enquanto falava.

— Eu não desapareci – Disse Cláudio. – Vocês é que não sabem me procurar! Ele sorriu ao ver os amigos. – Como os dois ousam chegar somente no fim da festa? Da minha festa?

Renato e Adonias sorriram. Jogando sua mochila no sofá ao canto, Adonias abraçou Cláudio. Em seguida, foi a vez de Renato.

— Nós todos estávamos com saudades. – Anunciou Adonias. – Que bom que veio!

— Ainda bem que voltou. Concordou Renato. – E então como foi no México? Fiquei sabendo que a sua avó faleceu... – seu tom mudou. – Oh, sinto muito, muito mesmo.

Adonias assentiu com a cabeça. Cláudio interrompeu aquele clima pesado antes mesmo dele pairar sobre o ar.

— Não vamos falar sobre isso, não quero que fiquemos assim, vamos comemorar por estamos juntos novamente. – Ele passou a mão sobre o ombro dos dois amigos. – Nós três aqui de novo, não há nada melhor não é mesmo?

Os três sorriram. Renato falou:

— Mas e agora, o que vamos fazer, já que a festa praticamente terminou e todos os convidados já foram embora?

— Não nos resta mais nada... Iniciou Adonias, até ser interrompido.

— Além de aproveitarmos o que sobrou da festa! Completou Cláudio. – Nós cinco é claro!

Domingas sorriu. Luiz nem mesmo respondeu. Renato insistiu.

— Anda Dodô, vêm com gente!

— O senhor também, Dr. Luiz Augusto! Disse Adonias.

— Oh... não meus amores – falou Domingas. – Eu vou me recolher, já esta tarde e amanhã tenho que acordar cedo.

O trio virou-se para Luiz Augusto.

— Por favor, divirtam-se por mim. – Disse Luiz.

Os três assentiram, sem insistirem para que Luiz e Domingas os acompanhassem. Enquanto o trio se encaminhava rumo a porta, Luiz acompanhou com o olhar os três seguirem alegremente, sem se importarem realmente com qualquer outra coisa. “Você não me quer perto de você”, pensou Luiz quanto ao filho.

Ele tinha razão.

Não era necessário que cuidassem a hora de partir, pois Cláudio não permitiria que Renato e Adonias deixassem a mansão naquela noite. Por horas eles permaneceram sentados na beira da piscina, com a imensidão do jardim a sua frente. Todos os convidados já haviam partido e os empregados se recolhido para seus aposentos – mas isso não se tornara um empecilho para que os três jovens se divertissem.

Eles tomaram uísque, misturando em seguida a cerveja com vinho. A falação, piadas e comentários insanos eram intensos. Certo momento, Renato retirou sua camiseta e seu tênis e se jogou na piscina.

— Vocês se lembram da fanática maluca da Dora, do sétimo ano? Anunciou Renato dentro da piscina. – Vocês não acreditam, mas eu estive com ela no último fim de semana na capital. Vocês não têm ideia de como a garota mudou, trocou aqueles panos longos por uma minissaia... Quem diria que por baixo daquele pano tinha uma delicia daquelas... Fomos para um motel e eu arrasei a garota!

— Quanta saudade do tempo em que estudávamos juntos. – Comentou Adonias minutos depois.

— É uma pena mesmo que tudo tenha um fim! Disse Cláudio André. – Nosso tempo de escola era mesmo muito bom!

Renato e Adonias sentiram um pesar na voz de Cláudio.

— Você esta se referindo à Cristina Junqueira? Perguntou Adonias.

— Eu a amava mais que tudo neste mundo quando ela resolveu mudar para a Europa. – anunciou Cláudio. – Mas como dissemos, o tempo passa e tudo tem um fim, graças a Deus eu consegui me desvencilhar das lembranças da Cristina e reconstruí minha vida!

— É impressão minha ou tem outra mulher na jogada? Perguntou Renato, com um grande sorriso em seu rosto – o bom humor era sua marca registrada.

— Fala Cláudio. – Insistiu Adonias, também sorridente.

— É uma surpresa que eu pretendo anunciar amanhã. – Falou Cláudio André. – Eu quero que estejam aqui para o almoço, sem atraso!

Cláudio tomou um gole da cerveja que estava num copo ao seu lado.

— Vocês irão se surpreender!

E eles iriam mesmo.

Naquele dia não haveria festa, não haveria música, nem mesmo as luzes que inundaram e enfeitaram freneticamente a mansão durante a comemoração na noite anterior, mas para Cláudio André, aquela é que realmente era a hora de todos comemorarem. Ele saiu cedo naquela manhã, antes mesmo do pai e da governanta acordarem, apenas algumas empregadas já estavam acordadas e mesmo assim não o avistaram pela casa. O relógio ainda marcava cinco da manhã quando Cláudio levantara de sua cama e rapidamente se vestiu e dirigiu-se a porta. Ele dispensou o motorista e dirigiu rumo ao portão, em instantes havia desaparecido pela rua.

Domingas acordou cerca de meia hora depois de Cláudio, e enquanto ordenava as empregadas para prepararem um belo café da manhã ao seu querido privilegiado, nem se dera conta de que Cláudio não estava na casa. Luiz Augusto acordou quando o relógio marcava quase sete da manhã. Ele permaneceu por cerca de quinze minutos deitado em sua cama, mas logo se levantou e encaminhou-se ao banheiro. Alguns instantes depois ele saiu vestindo um roupão enorme branco e desta mesma forma desceu até a copa para tomar seu café. Ele sentou à ponta da mesa e aguardou que uma das funcionarias lhe servisse. Renata veio até ele e lhe serviu. A garota demonstrava-se assustada, porem muito eficiente.

Domingas acompanhou tudo, parada ao lado de Luiz Augusto.

— Porque permanece aí de pé, parada, Domingas? Perguntou Luiz enquanto servia-se de uma fatia de pão coberta de mel. – Sente-se e me faça companhia!

— Desculpe senhor, mas eu prefiro assim, eu sei qual é e prefiro permanecer em meu devido lugar! Domingas sorriu. Enquanto falavam, Renata servia ao patrão.

— Até você ira me tratar desta forma? Continuou Luiz, demonstrando certa indignação. – Já basta o meu filho se der ao desfrute de nem mesmo me acompanhar à mesa, e agora você também se nega.

— Não diga isso de seu filho Doutor!

Rosa, outra das funcionarias surgiu na sala. Ela deveria ter entre trinta e quarenta anos, um gesto ríspido. Demonstrava-se ansiosa.

— Desculpe-me interrompê-lo Sr. Luiz, mas eu tenho que lhe falar uma coisa. – Ela chamou Bernardo, o motorista, um senhor de mais de cinqüenta anos. – Eu estive no quarto de seu filho esta manhã e o seu Cláudio não estava lá.

— Mas como não esta? Perguntou Luiz, assustado.

— Não só ele doutor – disse Bernardo. –, mas também o carro do garoto desapareceu da garagem. Eu achei melhor lhe avisar, pois se o Seu Cláudio saiu com o veículo, poderá correr sérios riscos, pois o carro permaneceu muito tempo sem ser usado, seria necessário que uma revisão geral fosse feita antes do uso!

Domingas apavorou-se.

— Oh meu Deus, para onde esse desajuizado foi? Luiz Augusto levantou-se, largando tudo que estava em suas mãos.

— Seu Luiz, ligue para ele. Pediu Domingas.

— Não adianta Domingas, esqueceu que ele estava em outro país, o celular dele só pode ser usado no México!

Todos se entreolharam assustados. Não lhes restava nada a não ser esperar.

No aeroporto, Campo Grande. 10:35

Ao se verem, um sorriso largo surgiu no rosto de Ana Karen e Cláudio André, era como se os rápidos dias anteriores em que ficaram sem se ver, tivesse levado anos para passar. Ana, deixando para trás o carrinho onde trazia suas malas, correu em direção à Cláudio e lhe abraçou. Os corpos se comprimiram, apertando-se um no outro desesperadamente. Sentir o corpo de Ana lhe tocar fez Cláudio sentir-se em êxtase. Em seguida, os dois se beijaram e acariciam-se em meio a risadas e palavras carinhosas.

Cláudio deu um passo para trás e disse:

— Senti muita saudade de você!

— Eu também meu amor. – Anunciou Ana, eles se beijaram mais uma vez. – Muita saudade!

Desvencilhando-se das caricias do namorado Cláudio e também dos olhares curiosos e invejosos das pessoas ao redor, Ana Karen perguntou:

— Você falou com seu pai? Sua voz saiu baixa, tensa.

Cláudio pareceu pensar por alguns segundos, depois falou.

— Ainda não falei sobre você para ninguém. – Disse Cláudio. Ele sorriu. – Mas garanto que iram se surpreender quando eu te apresentar a todos. – No mesmo instante ele se recordou dos amigos. – Eu tenho dois amigos que quero que você conheça, Adonias e Renato. Você ira adorá-los!

Ambos sorriram, descontraídos. Era evidente que Cláudio realmente estava contente, e mesmo sem querer demonstrar, feliz com a presença de Ana Karen. Por sua vez, Ana demonstrava o mesmo — apenas demonstrava.

Após mais alguns instantes de beijos e caricias no saguão daquele aeroporto, Ana Karen falou.

— Eu estive pensando em dar uma volta pela cidade. – Ela sorriu tímida. – Assim eu me preparo antes de chegarmos a sua casa.

— Tudo bem! Concordou Cláudio.

Saindo do aeroporto de Campo Grande, os dois seguiram rumo a frente do prédio onde Cláudio deixara seu carro. Eles colocaram as malas de Ana Karen no porta-malas e depois entraram no veículo. Em questão de minutos, ambos passaram em alguns pontos turísticos mais conhecidos da cidade. Passearam de carro e em alguns momentos caminharam a pé. Algumas horas se passaram e Cláudio decidiu partir para Santana e Mello, a fim de apresentar à namorada a cidade onde eles permaneceriam nos próximos dias. Cláudio dirigia o carro pela estrada quando Ana Karen se insinuou.

— Eu estava com saudades de sentir você em mim. – Ana estava sentada no banco do carona e colocou a mão na perna de Cláudio. – Você é tudo na minha vida e não medirei esforços para permanecer ao seu lado, até o fim!

Os dois se entreolharam calados. Cláudio não teve reação.

— Precisamos conversar mesmo, antes de chegarmos à casa de meu pai! Anunciou ele.

Ana Karen já esperara por àquilo e, dando-se por satisfeita, deixou que um leve sorriso surgisse em seu rosto. Ela dirigiu sua visão ao canteiro da estrada e avistou um motel, há alguns metros dali.

Àquela manhã se seguiu tensa para todos presentes na mansão, sem obterem qualquer notícia de Cláudio. Nas horas subseqüentes, Luiz Augusto caminhava angustiado pelos corredores de sua casa, sendo seguido por Domingas. Ele foi até o grande salão onde estava sua relíquia que marcava a hora e olhou apreensivo. Os ponteiros já marcavam onze e trinta da manhã. Cansado de cuidar a hora, ele foi até a frente de sua mansão, na esperança de avistar o carro do filho – nada. Luiz então se encaminhou a seu escritório.

Renata, usando seu típico vestido de empregada, bateu na porta do escritório e mesmo sem ser autorizada, entrou. Trazia nas mãos uma bandeja com uma jarra de água e alguns comprimidos.

— Com licença, Sr. Del Sales, mas eu pensei que o senhor talvez quisesse tomar estes calmantes enquanto aguarda o seu filho. – Disse Renata, gentil.

Luiz pouco lhe deu atenção, sentado em sua poltrona atrás de uma mesa. Domingas apareceu em seguida e assustou-se ao ver Renata sozinha com Luiz. Renata ficou ainda mais apavorada ao perceber o olhar de fúria que Domingas lhe lançou.

— O que faz aqui menina? Perguntou Domingas.

— Eu vim trazer alguns comprimidos para o Sr. Salles se acalmar. – Falou Renata, apreensiva. – Pensei que ele pudesse estar precisando de alguma coisa e...

— Não se preocupe, eu vim aqui justamente para isso! Anunciou Domingas. – Agora vá e nos deixe a sós.

Renata baixou a cabeça.

— Sim senhora.

Luiz viu àquilo e ficou aturdido. Quando Renata deixou o cômodo e bateu a porta, ele perguntou.

— O que foi isso? Disse Luiz. – Porque você sempre tratou essa garota desta forma, ela é uma jovem tão gentil, boa funcionária e prestativa? É difícil de encontrarmos empregadas assim hoje em dia!

— Oras, doutor, eu apenas a tratei como sempre trato as empregadas desta casa! Domingas respondeu nervosa, tropeçando nas palavras.

— Agora me veio na cabeça algo que não me ocorreu antes. – Luiz pensou por alguns instantes e depois perguntou. – Onde foi mesmo que você conheceu esta garota? Como a contratou?

Domingas viu-se num beco sem saída. Porventura, a própria garota entrou no cômodo e salvou-a de ter que dar uma resposta a Luiz Augusto. Renata entrou no escritório e como sempre, muito educada, pediu desculpas por entrar naquele lugar sem ser chamada, mas fora necessário.

— O que houve Renata? Perguntou Luiz, levantando-se de sua poltrona.

— O amigo de seu filho senhor, Adonias, esta na sala a sua espera. − Respondeu Renata, retirando-se em seguida.

Luiz, seguido de Domingas, encaminhou-se até a sala de visitas onde Adonias aguardava. Eles estavam na esperança de que o garoto pudesse lhes trazer notícias sobre o sumiço repentino de Cláudio André, mas logo se decepcionaram.

— Sinto muito mas eu não tenho ideia de onde esteja o Cláudio. – Respondeu Adonias, parado diante de Luiz e Domingas no meio da sala. – Vim aqui hoje porque ele insistiu que eu o Renato não faltássemos neste almoço. O Cláudio disse que surpreenderia a todos.

Eles se entreolharam calados.

O sol brilhava tão intensamente no alto que nem mesmo as nuvens ofuscavam e barravam o calor e a luz forte de penetrar no solo de Santana e Mello. O local, repleto de matos e árvores variadas era conhecido como o cemitério do vôo, o lugar onde fora colocado – ou jogados – nos últimos vinte anos os velhos e inaproveitáveis aviões de pequeno porte, ou ultraleves. O Aeroporto Major Ramon, como era seu verdadeiro nome, serviu das décadas de 50 até 70 para o treinamento da aeronáutica brasileira e era considerado um dos mais utilizados e importantes aeroportos do estado pantaneiro. Vários soldados alistados e que serviam a base aérea naquele estado iam para lá treinar técnicas aéreas, traçar planos de vôo e estratégias contra possíveis imprevistos que poderiam ocorrer. Porém, conforme os anos se seguiram e nada que pudesse causar qualquer risco à existência de Major Ramon ocorrera, todo o prestigio daquele lugar diminuiu e com a emancipação e crescimento rápido das demais cidades naquela região do Estado, o aeroporto Major Ramon se tornara inútil, sendo desativado em novembro de 1977. Desde então, as pistas se quebraram em meio às rachaduras, o mato cresceu sobre o acostamento, invadindo boa parte das pistas e calçadas. Os grandes balcões e salões utilizados pelos soldados foram invadidos pela poeira e animais dos mais diversos tipos. As janelas tinham o vidro quebrado, as portas arrebentadas, as grades foram arrancadas do chão e, ao redor, em meio ao campo ainda limpo, estavam os velhos aviões.

Uma vez ou outra surgira um maluco com um ultraleve, encorajado a levantar vôo pela pista rachada, como era o caso do milionário Jonas Alves, um famoso fazendeiro e político que gostava de se divertir pelos ares da cidade. Ele, sempre acompanhado de algum assessor ou parente próximo, convocava duas vezes por mês seu piloto e juntos, entravam em seu pequeno avião e davam inúmeras voltas pelo céu de Santana e Mello, dando piruetas no ar e formando figuras com a fumaça liberada pelo avião. Naquela manhã, enquanto Jonas e alguns homens se dirigiam ao aeroporto abandonado, o carro do deputado falhou exatamente enquanto ele passava diante a oficina Freitas e Amais, uma propriedade de Marcos Freitas situada ao lado do velho aeroporto e que era administrada pelo seu filho Renato de Freitas. Eles estavam sentados em uma cadeira na varanda da oficina quando avistaram o carro de Jonas parar no meio da rua. O motorista desceu do veículo e encaminhou-se em direção ao capô do carro, abri-o e remexeu no interior do veículo. Não houve solução.

Renato e seu pai Marcos acompanharam tudo céticos, sem prontificar-se a nada.

O sujeito mexendo no veículo continuou a remexer no motor do carro, mas nada. Da porta de trás do veículo desceu Jonas, furioso. Ele foi seguido por seu secretário e assessor Vander Trás. Os dois se encaminharam até parte da frente do veículo e tentaram descobrir qual seria o problema que fizera o carro desligar daquela forma. Instantes depois, Jonas deu-se por vencido, não sabendo resolver o problema do carro. Escorando no veículo, ele virou-se em direção a oficina e lendo o letreiro acima do prédio, se deu conta de que estivera o tempo todo com a solução de seu problema nas mãos. Jonas então se aproximou lentamente e parando diante de Renato que agora permanecia sozinho, disse:

— Olá, jovem. – Anunciou Jonas, educadamente. – Sou Jonas Alves, você já deve me conhecer talvez pela televisão quando fiz as minhas campanhas políticas nas duas vezes em que me candidatei e fui eleito vereador, com o maior número de votos – ele ressaltou bem as últimas palavras. – do nosso estado e...

— Sei bem quem é o senhor – falou Renato, cético. – o reconheci desde que desceu do carro. Também sei que é vereador aqui e que, além disso, é um dos mais ricos e comentados fazendeiros dessa região. – Renato lançou uma olhada ao veículo e riu dos sujeitos ao redor do carro. – Realmente, seus funcionários são péssimos quanto a consertar um carro.

Foi como um flash para Jonas, tendo a impressão de estar diante de si mesmo quando era jovem – o mesmo tom cético, o mesmo cinismo, a mesma forma de tratar uma pessoa, seja quão importante como for. Se lhe tratasse bem, àquela pessoa era bem tratada, se lhe tratasse mal, Jonas devolveria o mesmo tratamento arrogante. Mas não foi o que ocorrera ali, pois ambos se identificaram logo.

— Se importaria em me ajudar a consertar meu carro, pois assim como eles, eu não tenho ideia sobre o que aconteceu em meu veiculo? Perguntou Jonas. Ele deu uma pausa, e depois falou. – Por favor!

Renato olhou-o calado por alguns instantes. Parecia pensar. Segundos depois, levantou e ao lado de Jonas, encaminhou-se ao veículo parado no meio da pista. Vários carros e caminhões passavam por eles em alta velocidade. A oficina era situada numa rodovia interestadual, que saía de Santana e Mello e atravessava o estado de Mato Grasso do Sul, guiando os motoristas à região sul do país. A Freitas e Amais era especializada em carros grandes, como ônibus, vãs, caminhões e demais veículos longos, portanto, consertar um carro pequeno como o de Jonas era considerado por Renato algo simples e rápido.

— Gire a chave! Mandou Renato, alguns minutos depois. O carro ligou e o motor funcionou perfeitamente. Renato fechou o capô em seguida e virou-se para Jonas. – Problema resolvido!

— Ótimo – anunciou Jonas, retirando do bolso de sua calça sua carteira. – Quanto ficou pelo serviço?

Vander Trás adiantou-se. Ele era um sujeito corcunda, deveria ter entre quarenta e cinqüenta anos, careca e magrela. Seu tom era carregado por uma bajulação exagerada intencionada a Jonas, e isso o próprio incomodava.

— Não se preocupe senhor Jonas, eu estou com um talão de cheques aqui. – Disse Vander, pegando do bolso um bloco. – Preencherei e entregarei a este rapaz.

— Sinto muito, mas neste caso, só aceitarei pagamento em espécie! Anunciou Renato.

— Nós não costumamos trazer dinheiro quando vamos para velho cemitério dos vôos, ninguém tem qualquer centavo no bolso! Disse Vander.

— Vamos resolver logo isso – falou Jonas. –, ou daqui a pouco dará o nosso horário estipulado para sobrevoarmos a cidade e não teremos feito nada.

— Então vocês estão indo para o velho Major Ramon, voar sobre a cidade? Disse Renato, virando-se para Jonas. – É o senhor quem sempre sai com o avião para sobrevoar a nossa cidade!

Ao perceber a alegria no tom do rapaz, Jonas perguntou.

— Você gosta de aviões?

— Esta brincando? Renato sorriu ainda mais. – Eu amo voar, pilotar um avião é o meu sonho. Por diversas vezes eu ficava olhando aqui da oficina o seu avião levantando da pista e saindo pelo céu da nossa cidade e tentando imaginar quem era que estava ali, mas nunca pensei que se tratava do senhor!

— Você já voou alguma vez?

— Poucas vezes, mas ainda vou voar não só em um avião como estes pequenos, mas em qualquer outro, não como passageiro e sim como o piloto da nave!

Jonas teve uma ideia.

— Venha voar conosco! Disse ele.

Renato não respondeu. Não foi necessário.

O avião foi tomando impulso rapidamente e isso fizera surgir em Renato uma mistura de medo e ansiedade. Minutos atrás ele permanecia sentado numa varanda, na oficina do pai, entediado, e agora estava dentro de uma aeronave, correndo por uma pista enquanto tomava impulso para subir ao ar. Ele olhou para o lado e avistou Jonas, quase tão tenso quanto ele. Renato teve a impressão de estar vendo a si próprio dali a alguns anos. Jonas tivera a mesma sensação, só que do passado.

Após mais uma das varias sacudidas que o avião sofria devido às rachaduras na pista, Renato desviou seu olhar de Jonas e desvencilhou-se de seus pensamentos. Ele olhou pela janela e viu o momento em que o chão se afastara do avião. Eles estavam voando, cada vez mais alto. Renato olhava para baixo com um largo sorriso no rosto. Certo momento, ao sobrevoarem a estrada por onde eles tiveram acesso ao aeroporto, ele avistou a oficina do pai. Estavam tão alto que Renato mal conseguia ler as letras da grande placa a frente do prédio que dizia “Oficina Freitas e Amais, o melhor negócio para seu carro”

Jonas aproximou-se de Renato e também olhou pela janela, avistando o prédio no chão.

— Pode ser apenas impressão minha, mas você detesta aquele lugar? Falou Jonas, com o tom alto para poder ser ouvido por Renato, que como sempre, lhe lançou um olhar desconfiado.

— Não que eu deteste, mas trabalhar ali não é o que eu quero! Respondeu Renato, sem desviar o olhar do lado de fora do avião. Ele virou-se para Jonas e abriu-se. – O que eu quero mesmo é estar aqui pilotando um avião por esse mundo!

— E porque não faz isso?

— Meu pai não concorda! Renato deu uma pausa e depois prosseguiu. – Sei o que você ira dizer, porque eu não faço o que quero, pois já sou adulto e tudo mais... Só o que não quero é contrariar meu pai, deixá-lo agora seria péssimo e ele não agüentaria viver sem mim para ajudá-lo com nossos negócios e nossa família.

— Entendo! Falou Jonas.

— Além do mais, eu jamais teria condições de pagar um estudo e me especializar nesta área! Concluiu Renato.

Jonas estudou os gestos de Renato. Eram incríveis as semelhanças daquele jovem com ele, quando tinha àquela mesma idade. A partir daquele instante, Jonas decidira que iria se aproximar ainda mais de Renato.

A tensão permaneceu no ar até o instante em que Domingas, correndo ansiosa até a sala onde permaneciam Luiz Augusto e Adonias, anunciou que o carro de Cláudio havia acabado de chegar. Ele estaria parado diante a escadaria de concreto que tinha em frente a grande mansão e que dava acesso à entrada da casa. Os três caminharam até o grande salão. Ao chegarem naquele cômodo, Luiz Augusto, Adonias, Domingas e ainda Renata que estava por acaso ali, limpando alguns lustres e que não pode deixar de acompanhar tudo, surpreenderam-se ao ver Cláudio acompanhado de Ana Karen.

Ambos permaneceram calados por alguns segundos, recebendo os olhares curiosos de todos ao redor. Ao ver a jovem ao lado de Cláudio, Adonias não soube o que dizer, apenas a estudou, curioso. Ele percebeu que ela demonstrava-se amedrontada, mas ao mesmo tempo, parecia segura de si própria. Adonias não soubera definir o que realmente aquela mulher estava sentindo, mas de uma coisa ele teve certeza: ela era a mais linda das jovens que ele já vira em sua vida!

Domingas adiantou-se:

— Oh meu Deus, Cláudio André, onde você esteve todo esse tempo? Ela o abraçou ansiosa. – Porque não avisou que iria sair? Nós ficamos apreensivos a manhã toda a sua procura e nada!

Cláudio olhou por entre todos e rapidamente se deu conta de que faltava uma pessoa tão importante quanto aquelas ali presentes.

— Onde esta o Renato? Perguntou ele. – Pedi a ele que estivesse aqui para o almoço!

— Não o vejo desde ontem! Respondeu Adonias. Ele tentava se negar, mas por diversas vezes, lançava olhares à Ana Karen, que correspondia acanhada.

— É uma pena! Concluiu Cláudio. Ele olhou para Ana Karen e sorriu.

— Chega desse jogo idiota Cláudio André! – Ordenou Luiz, áspero. – Você quer nos dizer o que esta acontecendo aqui!

Cláudio ignorou o pai e dirigiu suas palavras a Renata. Só agora que Domingas percebeu que aquela empregada, ao seu conceito insignificante, estava ali desde o inicio. Ela lhe lançou um olhar de reprovação.

— Por favor, Renata – Cláudio fez um esforço para recordar o nome da garota. –, peça a alguém que vá até meu carro e retire as malas que estão lá e leve tudo para o meu quarto. – Cláudio André virou-se para Domingas. – Por favor Dodô, tenho certeza que fará isso melhor do que eu, portanto quero que providencie com urgência uma cama de casal e substitua a minha.

Domingas olhou para Ana Karen, a reposta era óbvia, mas ela precisou perguntar.

— Para que uma cama de casal, Cláudio?

Cláudio sorriu.

— Oras, para eu e minha noiva dormirmos juntos! Todos ouviram aquilo espantados. Cláudio dirigiu seu olhar a Ana Karen enquanto falava. – Esta é Ana Karen Esmaz, ela esta grávida e iremos nos casar!

Todos ficaram absolutamente surpresos com a notícia, e mais que isso, Adonias surpreendeu-se com o anunciou e apavorou-se com o que se passou em sua mente. “Nunca farei algo assim” pensou ele.

Se cumprir uma promessa fosse tão fácil quanto fazê-la...

Apesar de já estarem atrasados – e mesmo com o fato do acontecimento repentino tê-los feito praticamente perder a fome – todos se reuniram ao redor da mesa para almoçarem. Renata dirigiu-se a Ana Karen e lhe serviu um prato com comida. Marta aproximou-se de Luiz e lhe fez o mesmo. Os demais foram servidos pelas duas funcionárias e em questão de segundos iniciaram a comer.

Por insistência de Cláudio, Domingas se juntou a eles e se sentou junto para almoçar. Ela tentava se conter, mas não conseguia se negar a lançar longos olhares curiosos e atentos a Ana Karen, que se desvencilhava a todo o momento. Eles permaneceram em silêncio por alguns instantes até Domingas rompê-lo.

— Como vocês se conheceram?

Domingas dirigiu as palavras a Ana Karen, mas Cláudio adiantou-se.

— Nos conhecemos num hotel, no México, já a cerca de um ano ou dois. – Respondeu Cláudio.

— E como isso aconteceu? Perguntou Luiz, com um tom de reprovação. – Quero dizer, quando descobriram a gravidez?

Cláudio iniciou a falar, mas Ana o interrompeu. Ela segurou nas mãos do namorado, lhe fazendo um gesto para que ele a deixa-se falar. Adonias assistiu aquilo.

— Descobri ter engravidado a cerca de um mês, quando fui me consultar num posto médico. – Respondeu Ana Karen, a voz calma e firme. – Já com cerca de dois meses e meio de gravidez.

— Mas quem a vê, afirma que você tem muito menos que esse tempo de gravidez. – Anunciou Domingas. – Ainda esta tão magra!

Ana e Cláudio se olhavam rapidamente.

— Sempre fui magra, e com certeza estou adorando o fato de não ter engordado ainda, como sempre ocorre com as mulheres. – Ana Karen abriu um leve sorriso. – Espero continuar assim!

Pouco se falou naquela mesa. Enquanto as horas se seguiam e todos se alimentavam, um silêncio dominou o local. Nem mesmo Domingas, a mais falante de todos ali, pronunciou qualquer palavra. Mas ainda mais que ela, Adonias não dissera qualquer frase desde o momento em que comentou sobre Renato na sala. Ele não conseguia deixar de reparar em Ana Karen; seus gestos, o tom leve em sua voz, o modo como segurava o garfo, etc.

Instantes depois, ao terminarem de comer, Renata e Marta recolheram os pratos, copos e talheres e lhes trouxe um bule com café e algumas xícaras. Adonias agradeceu e não aceitou o café. Domingas, Luiz, Cláudio e Ana Karen se servirão do café servido pela empregada.

Após tomar um gole do líquido posto em sua xícara, Luiz falou:

— E então Cláudio, decidiu se irá voltar a trabalhar na sede? Perguntou Luiz, referindo-se ao local onde funcionava a sede de suas empresas, situado na capital do estado.

— Pensei sobre isso ontem pai! Falou Cláudio. Como fizera antes, ele lançou um olhar a Ana Karen e em seguida pronunciou. – Mesmo se eu não quisesse, teria que arrumar um emprego para sustentar a mim e minha família e não vejo problema algum em trabalhar em sua empresa. Sei que surgirão comentários insignificantes a meu respeito, pelo fato de eu ser seu filho, mas a essa altura, isto pouco me importa!

— E você Ana – Disse Domingas. –, vai morar conosco?

— Mas é claro que vai! Protestou Cláudio. – Ela não tem para onde ir, e mesmo se tivesse, é minha noiva e esta a espera de meu filho. Ficaremos aqui até que possamos comprar nosso apartamento!

Não houve discussão.

Adonias levantou-se e falou:

— Desculpem, mas esta na minha hora. – disse ele, olhando no relógio em seu pulso. – Tenho um trabalho para fazer esta tarde em meu estúdio.

— Você tem mesmo que ir? Perguntou Cláudio, decepcionado.

— Não que eu queira – Continuou Adonias. –, mas eu preciso.

Todos permaneceram calados por alguns segundos. Levantando-se, Cláudio anunciou:

— Adonias – Disse ele. – Antes de ir, será que poderíamos conversar?

Adonias assentiu. Segundos depois eles estavam no jardim da casa caminhando lentamente por uma calçada na beira da piscina. Ao redor, havia alguns funcionários trabalhando, aparando as mudas de flores e as árvores espalhadas pelo quintal. Cláudio não só sentia estar ao lado do melhor amigo, mas sabia que estava, e muito além disso, Adonias – e mesmo ausente, também Renato. – eram os únicos em que ele sabia que poderia confiar.

— O que me diz? Perguntou Cláudio.

— Sobre o que? Perguntou Adonias, já sabendo a que o amigo se referia.

— Sobre a Ana – Cláudio deu uma pausa, mas prosseguiu. – O que achou dela?

— Você quer saber o que eu achei dela, ou que eu pensei a respeito dessa história de gravidez e casamento repentino?

— Em geral...

— Talvez estejam se precipitando! Adonias parou por alguns instantes, pensou e resolveu falar. – Acho que casar é algo muito sério, mesmo quando há um motivo para isso: uma gravidez! Casar com quem se é obrigado não é o mesmo que casar com quem se ama!

— Eu sei que não só você, mas todos lá dentro pensaram o mesmo. – Completou Cláudio. – Eu não estou me casando com a Ana apenas por ela estar grávida, eu a amo e sei que ela também me ama. A gravidez, apesar de inesperada é bem aceita e...

— Se vocês realmente estão apaixonados e se agradam com a chegada dessa criança, tudo bem. – Concluiu Adonias. – Mas o que me preocupa é que talvez ambos estejam agindo pelo impulso e futuramente, acabaram sofrendo com as consequências de seus atos.

Eles chegaram a uma pequena varanda onde havia algumas cadeiras e lá pararam e se sentaram.

— Não se preocupe, eu sei o que estou fazendo! Completou Cláudio.

A escuridão rapidamente tomou o céu da cidade e Adonias, após passar a tarde toda no estúdio fotográfico onde trabalhava, deixou algumas fitas e filmes com os produtores da empresa ao qual trabalhava e depois se encaminhou ao lado de fora do prédio, carregando sua bolsa de sempre com seus materiais de trabalho, documentos e celular. Ele seguiu por uma rua deserta, com pouca iluminação e pouco movimento de pessoas e carros. Ao chegar a um ponto de ônibus, ele deparou-se com dois homens que também aguardavam o transporte coletivo. Adonias manteve-se afastado. Cerca de dez minutos depois, o ônibus chegou e os três rapazes entraram no veículo. Cerca de vinte minutos depois, Adonias desceu do veículo em frente a uma praça quase tão assustadora quanto a rua onde ele aguardou o veículo.

A praça recebia o nome de Áurea Nogueira, porém era denominada apenas como Nogueira, um lugar muito movimentado de dia, mas mal frequentado de noite. Naquela hora, tinha pouca segurança, uma iluminação precária e sujeitos estranhos e mal intencionados. Ao descer do transporte, Adonias caminhou rapidamente, atento a qualquer aproximação repentina de algum estranho. Segundos depois, ele chegou ao edifício Talmer Arraes, um prédio antigo de vinte andares onde morava mais de 40 famílias. Ele entrou no prédio e por sua sorte, as portas do elevador se abriram no mesmo instante em que ele se aproximou. Duas mulheres saíram de dentro do elevador e Adonias entrou em seu lugar. As duas, que demonstravam ter mais de quarenta anos, olharam para Adonias maliciosamente e partiram fazendo comentários sobre o rapaz, que fingiu não perceber nada.

Ao chegar no 18° andar, Adonias saiu do elevador e entrou no apartamento em que morava. Seus pais, Laíz e Celso estavam sentados na sala, assistindo a televisão. Ao ouvir o som da porta se abrir, Laíz levantou-se rapidamente e seguiu rumo à porta, ela sorriu ao ver o filho. Laíz deveria ter cerca de cinqüenta anos, uma aparência cansada e gestos lentos. Era mãe de Adonias e Verônica e mantinha uma relação amorosa com os filhos.

Os dois se abraçaram.

— Já esta muito tarde, meu filho. – Iniciou Laíz. – Estava ficando preocupada.

— Hoje o dia foi longo e cansativo! Completou Adonias, se recordado do último almoço. – Onde estão meu pai e a Verônica?

— Seu pai esta na sala e sua irmã no quarto. – Laíz deu uma pausa e depois falou baixo. – Os dois brigaram hoje de novo e não estão se batendo!

— Nunca estão! Murmurou Adonias. Ele retirou do corpo sua bolsa e pendurou numa cadeira ao canto daquele corredor. O apartamento era pequeno, tinha cinco cômodos pequenos e dois banheiros, todos em situação precária, precisando urgentemente de uma reforma. Mas a família de Adonias ainda não tivera condições de reformar o apartamento desde que o compraram, a cerca de quinze anos antes da família ser atingida pela falência repentina dos negócios de Celso.

João caminhou até o banheiro em um dos corredores e Laíz veio logo atrás. Ela falou enquanto o filho lavava as mãos.

— Você não ira comer? Perguntou ela.

— Não estou com fome! Respondeu Adonias, já secando as mãos numa toalha. – Mas não se preocupe que mais tarde eu como alguma coisa se sentir fome, não irei dormir agora porque ainda tenho muito trabalho para fazer!

— Tudo bem! Falou Laíz – Seu pai e eu vamos nos deitar. Se precisar é só chamar!

Laíz se retirou, caminhou até a sala e, ao lado do marido Celso, seguiu para seu quarto no interior do apartamento. Quando os pais se retiraram, Adonias certificou-se de que estava sozinho e se dirigiu a sala, sentando no sofá diante da televisão deixada ligada. Ele não se negou a lembrar de Ana Karen, seus gestos, modos delicados, o sorriso, seu olhar...

Adonias não queria admitir, por medo, pois sabia que estava sendo desleal a Cláudio, mas ele não conseguia evitar. Quando pensava em Ana Karen com carinho, um sentimento de arrependimento lhe invadia porém, ao mesmo tempo, uma mistura de desejo proibido que lhe atraia para o perigo subia por seu corpo e sua mente. “Perigo”, pensou ele. Adonias sabia que se interessar por alguma mulher comprometida era errado, mas quando lhe vinha a cabeça que a mulher de seu interesse estava de casamento marcado com seu melhor amigo, ele estremecia. “Não posso me envolver, não posso me apaixonar” continuou ele a pensar, “Ela esta de casamento marcado e nunca ira se interessar por mim! Quem ira se interessar por alguém como eu?”

Adonias olhou ao redor, viu todos os móveis espalhados pela sala. Àquele cômodo minúsculo com móveis velhos e antigos. “Quem gostaria de alguém que vive num lugar como este?”

E ele ainda se reconfortou com aquilo.

A família Vieira de Almeida já havia vivido seu tempo de glória há alguns anos, quando Celso e seu irmão Costa herdaram de seu pai um pequeno restaurante situado no térreo daquele prédio; não era um grande negócio que rendia rios de dinheiro, mas era o suficiente para que a família mante-se uma boa vida, se comparado com muitas outras famílias daquela região. Porém a má administração de seu dinheiro aliado a uma conturbada relação entre Celso e Costa fizeram com que os dois se desentendessem e desfizessem o negócio, levando a decadência do local. Há cerca de dez anos, Costa desapareceu após uma discussão com o irmão levando sua parte da herança, e Celso não conseguiu se recuperar, assistindo assim sua falência. Hoje, o local onde um dia existiu o restaurante Prato Linoi era ocupado por algumas lojas de comerciantes de bazar e brechó.

Irmã de Adonias, Verônica era uma adolescente de dezessete anos que adorava o irmão. Ela tinha um rosto exuberante, deveria medir cerca de 1,75 de altura, pesava entre sessenta e setenta quilos e sempre foi apaixonada por handebol. Ela jogava no time de Santana e Mello, o Garotas Radicais e era uma das melhores do time. Seus gestos eram brutos e sua marca registrada era a sinceridade – muitas vezes exagerada e dispensável. – e sua forma tranqüila e mansa de levar a vida. Ela cursava o terceiro ano no ensino médio e enfrentava inúmeros problemas no colégio. Era ai que entrava Adonias, seu super-herói. Verônica tinha admiração à figura que o irmão lhe representava, e sempre que ele podia, a ajudava em tudo que pedisse.

Naquela noite, certificando-se de que não havia mais ninguém além de Adonias na sala, Verônica entrou lentamente naquele cômodo. Ao ouvir o som de alguém se aproximar, Adonias desvencilhou de seus pensamentos e virou-se em direção ao lugar onde ouvira o ruído. Verônica estava parada diante ele, o olhando calada.

— Oh, Verônica – Disse Adonias, ele sorriu. – Você me assustou!

— Desculpe! Falou Verônica, sorrindo levemente. Ela se aproximou e sentou diante do irmão.

— Fiquei sabendo que você e o papai brigaram novamente. – anunciou Adonias. – Porque vocês vivem nesse desentendimento?

— Nosso pai é muito mal encarado, não entende o que eu quero e o que eu faço. Odeia que eu jogue no time do colégio e me detesta por isso... Acha que sou uma vergonha pra ele por conta daqueles amigos antigos que ele mantém!

― Quais amigos? ... Aqueles senhores da época do restaurante?

― Sim. Você sabe como nosso pai é, até hoje tenta manter aparências como se ainda tivéssemos aquele restaurante... Como se chamava mesmo?

― Prato Linoi. − Adonias não precisou se esforçar para poder recordar, já que seu pai Celso fazia questão de lhes lembrar dos “áureos tempos de Linoi” como ele costumava dizer. Verônica não possuía muitas lembranças daquela época devido ao fato de ser a caçula da família, e mesmo se recordando vagamente de algumas coisas, ela fazia o maior esforço possível para se desvencilhar daquilo.

— Não diga bobagens garota!

— Eu ando péssima com minhas notas no colégio e ele culpa o jogo por isso. – As palavras de Verônica eram firmes. – Você me conhece, sabe que uma coisa nada tem a ver com a outra!

— Por que não me disse antes que não estava se saindo bem na escola?

— Eu bem que tentei, mas nós mal nos vemos durante o dia. Quando eu acordo de manhã, você já saiu para o trabalho, e quando você chega de noite, na maioria das vezes eu já estou dormindo.

— Não se preocupe, eu vou te ajudar a melhorar suas notas. – Adonias se inclinou e lhe falou com a voz baixa. – Você mesmo diz que o pai acusa o jogo pelo seu baixo desempenho escolar. Se você reprovar no fim do ano, será uma espécie de afirmação ao que ele diz!

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— Você tem razão! Verônica deu uma pausa e depois perguntou. – Você ira me ajudar?

Adonias fez menção de pensar por alguns segundos, mas logo ele deu um longo sorriso.

— O que eu não faço pela minha irmã...

E eles se abraçaram em meio a longos sorrisos.

Notas finais
Pessoal fiquei meio confuso na hora de começar, mas espero que tenham gostado. Desculpe por ventura de alguma coisa que não gostaram e espero ansioso para postar o próximo capítulo. Obrigado.